quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

 

Zezinho

Grupo Escolar de Amandaba.

Década de 70.... 1973 ou 74.

Duas mulheres e cinco meninos. Migrantes de Quebrangulo, Alagoas. Mais pobres que pobres.

Crianças mirradas, raquíticas... Impressão de quatro, cinco anos de idade. Não tinham estatura, mas tinham idade e queriam estudar.

Sem certidão de nascimento...

Dona Maria pagou as certidões dos filhos Vanildo e Vaneuso Vítor. Eu paguei dos sobrinhos José, Cícero e  Valdomiro.

Campanha da Escola. Alimentos para fortalecer aquelas crianças. A comunidade ajudou. Partilhando o pouco que tinha. Dividindo a farinha, o feijão e o arroz. Eu me lembro até de pedaços de sabão de soda...

As crianças sobreviveram e estudaram. Rendimento regular. Dona Maria e dona Cleuza deram a alma pelos meninos. Trabalharam na roça, lavaram roupa alheia e mantiveram todos juntos. Mas, dona Cleuza ficou doente e faleceu. Cinco meninos para dona Maria cuidar...

A Professora Maria Zuleica Dias de Souza assumiu a ajuda.

Ela e o seu esposo Antônio de Souza deram uma casinha para dona Maria. E esta, batalhando todos os dias cuidou de tudo.

Doutora Julieta Antonieta Simioni, respeitável senhora trabalhava no Fórum local. Essa senhora dava um copo de leite às crianças carentes, antes de irem para escola. Formava-se uma fila todas as manhãs à porta de sua casa, em frente ao C.A.M. Dona Maria trabalhava numa casa vizinha. A Doutora pediu que um dos meninos fosse a sua casa cuidar do jardim. Zezinho foi. Cativada pela simplicidade e pela natureza gentil do garoto, ela o levou para o Forum, para executar pequenos serviços. Foi aí que tudo começou!

Como simples estafeta, o menino mostrou as qualidades.

Atencioso, tratava a todos com urbanidade e respeito. Cativou  os funcionários do Fórum, onde transitavam desde simples gente do povo, serventes, até Advogados e respeitáveis Juízes.

Um dos Juízes questionou dona Maria. Sem o esposo que ficara lá no Norte, sem um emprego rentável, como sustentaria os meninos? Deveria doar os três sobrinhos para adoção. E ela não aceitou a proposta. Como separar os garotos que viveram juntos até então? Arrumou testemunhas que declaram ser capaz de dar conta do recado, amiga Dona Marlene e o seu Antônio de Souza. O Juiz desistiu da doação. Ela ficou com os cinco meninos.

E dona Maria sozinha pelejou como ninguém para educar os meninos. Os garotos foram de per si, procurar algum trabalho, que lhes rendessem uns trocados. Com 11, 13 anos, esses meninos foram ajudantes do Geraldo que consertava sapatos; entregadores de revistas e jornais; e ajudantes na Cabana, uma lanchonete que existiu antigamente. Todos, de alguma forma contribuíam com as despesas da casa. Eram menores, e ela não os obrigava a trabalhar. Mas eles queriam trabalhar. Era urgente e necessário. E eles não pararam. Anos se passaram...  Com estudo e trabalho.

Cicero batalhando na roça. Dando duro.

Nesse ínterim, José prestou o Concurso de Escrevente e passou. E foi nomeado Diretor do Fórum.

Tudo mudou a partir de então. José assumiu o papel de pai dos meninos e aconselhava a todos a estudar. Além do estudo, queria que todos se casassem, talvez com a lembrança triste da infância sem pai e da família desestruturada.

E José estudou, fez Direito. OAB.

E passou a socorrer pessoas carentes, que tinham pendências judiciais e não sabiam como resolvê-las. Não exerceu Direito para auferir lucros. Orientou advogados principiantes.

Dona Maria está com 94 anos de idade, está cansada, sem saúde. Mas a memória está excelente. Lembra tudo que passou e mais ainda das pessoas, que a ajudaram a dar conta de sua missão. Sua dedicação rendeu o que segue:

Vanildo Vítor de Lima - Marceneiro mora em Santa Catarina.

Vaneuso Vítor de Lima – Comerciante, é o popular Vítor da Farmácia Drogabella. Duas filhas, Farmacêutica e Psicóloga. E mais uma criança.

José de Oliveira - Advogado, deixou duas filhas que são: Analista Judiciária do Tribunal Regional Federal e a outra Assistente Jurídica do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Cícero de Oliveira - Pedreiro.

Valdomiro de Oliveira - Agente Penitenciário Professor, tem duas filhas: uma Biomédica e outra Nutricionista.

Em 1973 eu não dei crédito àquelas crianças sem peso, sem estatura, de olhos esbugalhados que me olhavam com desconfiança. Pensei: Isso vai dar errado!

Ledo engano!

Hoje vejo como eu estava enganada. Ao longo do tempo, acompanhei a trajetória desses meninos, preocupada com o futuro deles. E o Vítor foi a ligação, a quem perguntava do Vanildo, que era o mais rebelde e que fora embora para longe.... E sabia que a dona Maria estava bem cuidada pelos filhos e sobrinhos.

Se a heroína desta história é a dona Maria, a alma foi o José. Ele assumiu o papel de filho, sobrinho, irmão e até de pai para a tia Maria, cuidando dela com gratidão. Quem disse isso foi o Vítor. José comprou uma casa para a tia e a remodelou para torná-la mais confortável. Dona Maria não mora mais lá, porque está fraca e é cadeirante com seus 94 anos. Mora na Chácara com a família do Valdomiro. É um lugar aprazível, rodeado de verde, onde o vento é presença constante. Na casa que ela deixou, mora o Cícero.

Essa história ficou bonita com as parceiras que os meninos encontraram em seus caminhos. Todos têm uma família estruturada, vivem tranquilos com seus filhos e agregados. Em paz.

Quando aportaram em Amandaba há mais de 50 anos, ninguém apostaria num futuro promissor para aqueles garotos. Tinha tudo para não dar certo. Mas, nenhum se perdeu nos descaminhos e tudo terminou bem.

Dona Maria feliz pela missão cumprida.

Todos os cinco receberam conselhos e ajuda financeira do Zezinho, que nunca descuidou deles. Ele foi a liga que manteve a família unida até hoje. Todos são muito gratos a ele.

E os benfeitores foram sem dúvida, a Professora e colega minha de trabalho Zuleica e o esposo Antônio, que conheci lá atrás. Mas, o sucesso da família começou com a percepção da Doutora Julieta Antonieta Simioni. Encaminhou o José e tudo mudou.

Doutora Julieta, muito obrigada.

O José de Oliveira pai das jovens filhas Glenda e Francielli  partiu recentemente. Foi morar com os anjos. Porque apesar de ser um menino, foi um anjo também para a família, para os amigos. Humano na essência, até os ossos.

Eu tive que contar esta história linda para servir de exemplo. Exemplo pra gente que não quer estudar, que não quer trabalhar, que só sabe reclamar.

Pobreza não é desculpa. Estudo é o caminho.

E a Educação é tudo.

Sou grata a Deus, por ter me proporcionado essa oportunidade de conhecer e cuidar desses meninos, que se revelaram brasileiros de fibra e mostraram seu valor.

Que o Zezinho, lá do céu continue velando pelos familiares que deixou, especialmente a Rose e as filhas Glenda e Francielle.

Tenho muito orgulho de ter sido sua Professora, Zezinho.

Créditos:

Rose de Oliveira, dona Maria de Lima, Valdomiro de Oliveira, Vanildo de Lima e Vítor de Lima.

 

Mirandópolis, 31 de dezembro de 2025.

kimie oku in

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