terça-feira, 12 de maio de 2026

 

                   Fermina Moreno Rodrigues

 

         Todos nós viemos a esse mundo para cumprir uma missão. Missão de trabalhar em prol da humanidade, sendo médicos, nutricionistas, comerciantes, ambulantes, professores, trabalhadores braçais, políticos...

         A senhorinha de hoje não foi nada disso. Não foi professora, nem enfermeira, nem comerciante... Ela foi apenas uma doméstica que cuidou de sua família, e de toda a meninada dos vizinhos e amigos. Tem uma dezena de senhoras  e senhores que, ontem tiveram o privilégio de conviver e serem cuidados por ela, como se fossem filhos seus. E todos a chamam de tia Fermina.

Fermina Moreno Rodrigues hoje com 95 anos, filha de mãe italiana  e pai espanhol, nasceu em Colina, na região Norte do nosso Estado.  Sua família  se mudou para Mirandópolis quando ainda era criança, mais precisamente lá no Bairro Monte Serrat, onde trabalhou colhendo café e algodão. Mais tarde, eles se mudaram para a cidade, onde dona Fermina e suas irmãs Nair, Helena e Santina passaram a trabalhar nas casas de famílias, como pajens de crianças e domésticas, para ajudar nas despesas da casa.

Dona Fermina casou-se com Francisco Moreno Raduik de origem russa. Com ele, teve o filho Luís que trabalha como Tecnólogo no Gasoduto em Araçatuba, e a filha Jane Meire que é  a companheira e protetora de toda hora.

O marido era lavrador e trabalhou muito tempo, como Administrador da Fazenda Cachoeira e da Fazenda Acácia. A relação com os patrões  Dr. Alípio Marques  e dona Lila e com a dona Zilda e seu Mário Dias Varella se desenvolveu, como se fosse uma relação consanguínea. Até hoje, dona Fermina e seus filhos têm contato com os  descendentes dos antigos patrões. Ela cuidou de todos os filhos deles. Nessas fazendas, dona Fermina trabalhou como doméstica, cozinhando, lavando e costurando para as senhoras.

        Em 1985, após longos anos doente com problemas no coração, seu Francisco faleceu deixando-a sozinha. Dona Fermina morou sozinha por anos e anos aqui em Mirandópolis. Quando morava sozinha, dona Fermina alugava os quartos da casa para moças que trabalhavam, e assim conseguia melhorar os rendimentos. Mas os antigos patrões Dona Lila, Doutor Alípio, dona Zilda e seu Mário  sempre estiveram presentes em sua vida, cuidando dela, e a levando para passeios na capital.

 Jane Meire e o esposo Francisco Ernesto Chossani  moravam em Foz do Iguaçu, onde  como Técnico Especialista em Desenho, ajudou  a partir de 1975 nos projetos da construção da Usina de Itaipu. Após longos anos na Usina, seu Francisco aposentou-se e vieram morar em Mirandópolis.

        Dona Fermina trabalhou muito em sua vida. Cozinhava para os patrões num dia, e no outro muitas vezes precisava cozinhar para vinte, trinta convidados. Sua especialidade era fazer carneiro recheado, macarronada, feijoada. E fez muitos doces, como o doce de leite que derretia na boca.  E tudo isso ela fazia enquanto  cuidava de seus dois filhos e do bem estar dos filhos dos patrões.

         Um dia, conduzidas por seu Mário Varella e sua filha Jane conheceram a Ciranda, que hoje tem dezesseis anos de existência. Esse grupo reúne idosos, para  conversar e cantar com outros idosos solitários. O objetivo é espantar a solidão de quem vive sozinho. E dona Fermina se identificou tanto com o grupo que, nunca mais parou de participar.

         Além disso, dona Fermina participa do grupo de  Folia dos Reis, com quem viaja para vários encontros em outras cidades.

        Dona Fermina gosta muito de gente. Gosta de estar rodeada de amigos, e de contar causos ocorridos ao longo de sua vida. Vive cercada de pessoas, que ela cuidou quando crianças, que têm por ela verdadeira  paixão. É muito respeitada e admirada na Ciranda e na Folia de Reis.      Dona Fermina não estudou, não tem diplomas, não se tornou médica, professora, vereadora, comerciante nem uma especialista em nada. Mas foi uma mulher que veio ao mundo para servir. Serviu como esposa, como mãe,  como avó, bisavó e tataravó. Mas o que a destaca mais que tudo é que, ela foi um pouco mãe, professora, médica, administradora, cuidadora e enfermeira de muitas crianças que viveram ao seu redor.

Hoje com 95 anos, mora com a filha Jane e o genro Francisco e vive uma vida tranquila, sempre rodeada de pessoas que a amam de verdade.

        Por uma vida recheada de trabalho,  por tudo que ensinou, por todas as pessoas que cuidou, por uma longa vida servindo ao próximo, podemos afirmar que dona Fermina Moreno Rodrigues é gente de fibra!

       Mirandópolis, 12 de maio de 2026.

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

 

Zezinho

Grupo Escolar de Amandaba.

Década de 70.... 1973 ou 74.

Duas mulheres e cinco meninos. Migrantes de Quebrangulo, Alagoas. Mais pobres que pobres.

Crianças mirradas, raquíticas... Impressão de quatro, cinco anos de idade. Não tinham estatura, mas tinham idade e queriam estudar.

Sem certidão de nascimento...

Dona Maria pagou as certidões dos filhos Vanildo e Vaneuso Vítor. Eu paguei dos sobrinhos José, Cícero e  Valdomiro.

Campanha da Escola. Alimentos para fortalecer aquelas crianças. A comunidade ajudou. Partilhando o pouco que tinha. Dividindo a farinha, o feijão e o arroz. Eu me lembro até de pedaços de sabão de soda...

As crianças sobreviveram e estudaram. Rendimento regular. Dona Maria e dona Cleuza deram a alma pelos meninos. Trabalharam na roça, lavaram roupa alheia e mantiveram todos juntos. Mas, dona Cleuza ficou doente e faleceu. Cinco meninos para dona Maria cuidar...

A Professora Maria Zuleica Dias de Souza assumiu a ajuda.

Ela e o seu esposo Antônio de Souza deram uma casinha para dona Maria. E esta, batalhando todos os dias cuidou de tudo.

Doutora Julieta Antonieta Simioni, respeitável senhora trabalhava no Fórum local. Essa senhora dava um copo de leite às crianças carentes, antes de irem para escola. Formava-se uma fila todas as manhãs à porta de sua casa, em frente ao C.A.M. Dona Maria trabalhava numa casa vizinha. A Doutora pediu que um dos meninos fosse a sua casa cuidar do jardim. Zezinho foi. Cativada pela simplicidade e pela natureza gentil do garoto, ela o levou para o Forum, para executar pequenos serviços. Foi aí que tudo começou!

Como simples estafeta, o menino mostrou as qualidades.

Atencioso, tratava a todos com urbanidade e respeito. Cativou  os funcionários do Fórum, onde transitavam desde simples gente do povo, serventes, até Advogados e respeitáveis Juízes.

Um dos Juízes questionou dona Maria. Sem o esposo que ficara lá no Norte, sem um emprego rentável, como sustentaria os meninos? Deveria doar os três sobrinhos para adoção. E ela não aceitou a proposta. Como separar os garotos que viveram juntos até então? Arrumou testemunhas que declaram ser capaz de dar conta do recado, amiga Dona Marlene e o seu Antônio de Souza. O Juiz desistiu da doação. Ela ficou com os cinco meninos.

E dona Maria sozinha pelejou como ninguém para educar os meninos. Os garotos foram de per si, procurar algum trabalho, que lhes rendessem uns trocados. Com 11, 13 anos, esses meninos foram ajudantes do Geraldo que consertava sapatos; entregadores de revistas e jornais; e ajudantes na Cabana, uma lanchonete que existiu antigamente. Todos, de alguma forma contribuíam com as despesas da casa. Eram menores, e ela não os obrigava a trabalhar. Mas eles queriam trabalhar. Era urgente e necessário. E eles não pararam. Anos se passaram...  Com estudo e trabalho.

Cicero batalhando na roça. Dando duro.

Nesse ínterim, José prestou o Concurso de Escrevente e passou. E foi nomeado Diretor do Fórum.

Tudo mudou a partir de então. José assumiu o papel de pai dos meninos e aconselhava a todos a estudar. Além do estudo, queria que todos se casassem, talvez com a lembrança triste da infância sem pai e da família desestruturada.

E José estudou, fez Direito. OAB.

E passou a socorrer pessoas carentes, que tinham pendências judiciais e não sabiam como resolvê-las. Não exerceu Direito para auferir lucros. Orientou advogados principiantes.

Dona Maria está com 94 anos de idade, está cansada, sem saúde. Mas a memória está excelente. Lembra tudo que passou e mais ainda das pessoas, que a ajudaram a dar conta de sua missão. Sua dedicação rendeu o que segue:

Vanildo Vítor de Lima - Marceneiro mora em Santa Catarina.

Vaneuso Vítor de Lima – Comerciante, é o popular Vítor da Farmácia Drogabella. Duas filhas, Farmacêutica e Psicóloga. E mais uma criança.

José de Oliveira - Advogado, deixou duas filhas que são: Analista Judiciária do Tribunal Regional Federal e a outra Assistente Jurídica do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Cícero de Oliveira - Pedreiro.

Valdomiro de Oliveira - Agente Penitenciário Professor, tem duas filhas: uma Biomédica e outra Nutricionista.

Em 1973 eu não dei crédito àquelas crianças sem peso, sem estatura, de olhos esbugalhados que me olhavam com desconfiança. Pensei: Isso vai dar errado!

Ledo engano!

Hoje vejo como eu estava enganada. Ao longo do tempo, acompanhei a trajetória desses meninos, preocupada com o futuro deles. E o Vítor foi a ligação, a quem perguntava do Vanildo, que era o mais rebelde e que fora embora para longe.... E sabia que a dona Maria estava bem cuidada pelos filhos e sobrinhos.

Se a heroína desta história é a dona Maria, a alma foi o José. Ele assumiu o papel de filho, sobrinho, irmão e até de pai para a tia Maria, cuidando dela com gratidão. Quem disse isso foi o Vítor. José comprou uma casa para a tia e a remodelou para torná-la mais confortável. Dona Maria não mora mais lá, porque está fraca e é cadeirante com seus 94 anos. Mora na Chácara com a família do Valdomiro. É um lugar aprazível, rodeado de verde, onde o vento é presença constante. Na casa que ela deixou, mora o Cícero.

Essa história ficou bonita com as parceiras que os meninos encontraram em seus caminhos. Todos têm uma família estruturada, vivem tranquilos com seus filhos e agregados. Em paz.

Quando aportaram em Amandaba há mais de 50 anos, ninguém apostaria num futuro promissor para aqueles garotos. Tinha tudo para não dar certo. Mas, nenhum se perdeu nos descaminhos e tudo terminou bem.

Dona Maria feliz pela missão cumprida.

Todos os cinco receberam conselhos e ajuda financeira do Zezinho, que nunca descuidou deles. Ele foi a liga que manteve a família unida até hoje. Todos são muito gratos a ele.

E os benfeitores foram sem dúvida, a Professora e colega minha de trabalho Zuleica e o esposo Antônio, que conheci lá atrás. Mas, o sucesso da família começou com a percepção da Doutora Julieta Antonieta Simioni. Encaminhou o José e tudo mudou.

Doutora Julieta, muito obrigada.

O José de Oliveira pai das jovens filhas Glenda e Francielli  partiu recentemente. Foi morar com os anjos. Porque apesar de ser um menino, foi um anjo também para a família, para os amigos. Humano na essência, até os ossos.

Eu tive que contar esta história linda para servir de exemplo. Exemplo pra gente que não quer estudar, que não quer trabalhar, que só sabe reclamar.

Pobreza não é desculpa. Estudo é o caminho.

E a Educação é tudo.

Sou grata a Deus, por ter me proporcionado essa oportunidade de conhecer e cuidar desses meninos, que se revelaram brasileiros de fibra e mostraram seu valor.

Que o Zezinho, lá do céu continue velando pelos familiares que deixou, especialmente a Rose e as filhas Glenda e Francielle.

Tenho muito orgulho de ter sido sua Professora, Zezinho.

Créditos:

Rose de Oliveira, dona Maria de Lima, Valdomiro de Oliveira, Vanildo de Lima e Vítor de Lima.

 

Mirandópolis, 31 de dezembro de 2025.

kimie oku in

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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

 

Senhoras e senhores,

Estou aqui para lhes contar uma história.

Como Professora trabalhei no Grupo Escolar de Amandaba, onde atuei há mais de 50 anos.  E conheci muitas crianças a quem ensinei por longos anos. E conheci seus pais. Foi assim que conheci o senhor Kaoru Hattori, cujos filhos Mitsuo e Tomiko foram alunos meus. Bons alunos.

Amandaba já foi um bairro bastante povoado e tinha comércio mais forte que Mirandópolis.

Após me transferir para a Escola Ebe Aurora, comecei a escrever crônicas para o Jornal do seu Idanir Momesso e anos depois para o Jornal Hoje da Alice Barravieira. Crônicas são comentários dos fatos que ocorrem no dia a dia. Escrevi pelo prazer de escrever, simplesmente.

Além das crônicas, passei a contar as histórias de trabalhadores que construíram Mirandópolis. Contei histórias lindas de comerciantes, charreteiros, farmacêuticos, barbeiros, dentistas, boiadeiros, lavradores. Gente de fibra. Gente que muito labutou para a grandeza de nosso município. E me lembrei

de contar a história do senhor Kaoru Hattori.

Seu Hattori veio do Japão há 92 anos.

Sua família era da Província de Fukushima. Seu avô Shiguezo foi um bravo soldado que se destacou na Primeira Guerra Mundial. E por esse mérito, o filho Tadaichi,  pai do seu Kaoru teve a honra de ser nomeado Guarda da Família Imperial. 

Mas, as guerras contínuas do Japão tornaram difícil a vida dos japoneses e, a família Hattori se emigrou para o Brasil em 1933. Seu Kaoru era uma criança de oito anos de idade. Aqui, enfrentaram mil dificuldades, derrubaram matas, plantaram café, algodão, arroz, feijão. Inicialmente em Lins, depois às margens do rio Tietê.

Seu Hattori estudou um ano no Japão e não conseguiu continuar os estudos de japonês aqui, porque seu Professor foi convocado para a Segunda Guerra. Então, estudou numa escola rural onde aprendeu a ler e escrever em Português. Mas lê e fala fluentemente o japonês.

Em 1940, a família se transferiu para a Fazenda Buenópolis em Lavínia e em 1946 para Amandaba, onde comprou o sítio que tem até hoje. Conheceu a prosperidade plantando cebola, mas essa fase logo passou.

Seu Hattori casou-­se com a senhorita Tokiko Sakine com quem teve cinco filhos. Sua esposa já é falecida, mas os filhos estão vivos. E tem muitos netos.

Em Amandaba havia muitos japoneses imigrantes, que fundaram a Associação Japonesa de Amandaba, que promovia festas e competições esportivas. No cinquentenário da Imigração Japonesa em 1958, eles mandaram construir um obelisco marcando a data, com a bandeira japonesa e a brasileira, e registraram os nomes das famílias que ali moravam. Tudo em kanji, ainda está lá na pequena praça local, com os nomes dos Uemura, Kanamaru, Onishi, Suguimoto, Hattori, Sano, Nakashima, Sako, Matsunaka, Yamaguchi, Koakutsu, Seimo, Yoshikawa,Terao e Shoji Ochi.

Um dia, o Vereador Tsuyoshi Takagui propôs ao seu Hatori uma campanha para realizar o maior sonho de todos os amandabenses, que era asfaltar a estrada que liga o bairro a Mirandópolis. São apenas seis quilômetros que, em tempos de chuva tornava quase impossível transitar por ela. Eu mesma como professora fiquei muitas vezes atolada ali, esperando ajuda de tratores.

O seu Hattori assumiu essa missão de corpo e alma, pedindo a colaboração dos fazendeiros e sitiantes, que sofriam para trazer seus produtos para a cidade. Livro de ouro foi passado entre pessoas que colaboraram prontamente. Essa verba era necessária para ir à capital e, entrevistar-se com as autoridades, para conseguir a aprovação do projeto.

Essa campanha teve o apoio do Prefeito da época Mitsutoshi Ikejiri, que intermediou junto ao Secretário de Transportes, Walter Nory, e ao Governador Orestes Quércia que aprovaram o projeto. E a estrada asfaltada foi inaugurada em1993, com o nome de Estrada Tadaichi Hattori, que foi o Guardião da Família Imperial do Japão.

Foi uma realização de grande porte, que beneficiou não só os amandabenses, mas os mirandopolenses também. E se realizou graças ao empenho do senhor Hattori, principalmente.

Foi preciso vir um menino de oito anos do distante Japão em 1933, para se realizar o sonho maior de todos os moradores de Amandaba e arredores.

Seu Hattori também se destaca por realizar missas em reverência aos falecidos.  Por anos seguidos tem cumprido essa missão, para confortar as famílias japonesas de religião budista.

Por ter se adaptado no Brasil, um dia foi solicitar a cidadania brasileira na Polícia Federal. Indagado por qual razão queria ser naturalizado brasileiro, prontamente respondeu:

“Vim do Japão ainda criança com a família, e meu pai não conseguiu vencer aqui. Eu quero adquirir o Título de Eleitor, para votar em nossos governantes. Não quero voltar ao Japão, porque já tenho filho nascido no Brasil e quero morrer aqui!” Diante de tal resposta, sua naturalização foi aprovada na hora.

Essa frase define bem o caráter desse senhor que hoje completou cem anos de longa existência, permeada de lutas, sonhos e muito, muito trabalho. Japonês/brasileiro de coração, benquisto de todos, não viveu em vão. Deixou a marca de sua passagem aqui em Mirandópolis. Estrada Tadaichi Hattori.

Por tudo isso, o senhor Kaoru Hattori é sem dúvida um Homem de fibra!

Parabéns e que Deus o abençoe e a toda a família.

Mirandópolis, 29 de novembro de 2025.

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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

 

 

        Mário Dias Varela

   Mário Dias Varela meu pai nasceu em Condeixa, ao sul de Coimbra em Portugal. Caçula de três filhos de Manuel Maria Dias Varela e de dona Maria da Penha da Costa. Seu avô Zé Caetano era um abastado dono de várias propriedades.

Aos 11 anos foi mandado para estudar em Coimbra. Sua amizade com o Professor Mateus duraria toda vida. À tardezinha ia às ruínas de Conímbriga para repassar as lições. Seu amigo de infância Antonio Ventura era filho de José Ventura, autor de teatro. Conheceu o padre Antunes que era o homem mais culto de Condeixa como Padre, Professor, Advogado ; e o humanista Fernando Namora que era defensor da Natureza.

Aos dezoito anos, seu pai Manuel Varela abriu uma loja em  Figueira da Foz, que vendia de tudo, “Secos e Molhados – Varela e Cia Ltda”, onde toda a família trabalhou.

Papai foi balconista, somelier ou provador de vinhos, enfermeiro no Hospital Militar, vendedor ambulante, construtor, cafeicultor e pecuarista.

Fugindo da Ditadura de Salazar, em 1951 ele e quatro amigos resolveram sair de Portugal. Embarcaram num navio que os traria ao Brasil, de onde partiriam para Austrália. Durante a viagem, o navio fez uma escala em Las Palmas, nas Ilhas Canárias a nordeste da África, para manutenção e abastecimento.

Os cinco jovens saíram para explorar a cidade e foram comprar canetas tinteiro Parker 51, que eram a coqueluche do momento. Como troco, o vendedor passou uma caixa com camisa para o papai..

Ao conferir a compra, percebeu que fora logrado. A camisa não tinha mangas e nem a parte de trás... Mas já estava no navio rumo ao Brasil. Ficou no prejuízo.

No Brasil, ele e o amigo Antonio Ventura foram trabalhar em Santos numa loja de ferragens.

Enquanto isso no Japão, Saburo Arai que nasceu em 1905 em Takaoka, Província de Toyama fundou a Hokoryuku Alumini Kabushike Kaisha, que estava tendo grande sucesso com sua produção de peças de alumínio. E a Sociedade de Assuntos Exteriores decidiu instalar uma fábrica de panelas de alumínio no Brasil. A princípio, a cidade escolhida foi Mairinque em São Paulo. Mas os operários teriam que receber um treinamento no Japão, e lá não havia descendentes de japoneses, que falassem japonês. Então, decidiram por Mirandópolis, porque nas Alianças havia muitos jovens nisseis disponíveis.

Em 1974, uma comitiva comandada por Dr. Osvaldo Brandi Faria, Prefeito de Mirandópolis foi ao Japão para assinar o contrato.

E em 1975, foi instalada a fábrica no km 606 da Rodovia Mal. Rondon. Em seguida, outra comitiva foi ao Japão em busca de recursos financeiros para viabilizar o funcionamento da fábrica. Papai também foi. E durante três décadas, a Nitinam produziu milhares de panelas que ficaram famosas no país inteiro, pela qualidade. Produziu também peças para a indústria pesada. E  centenas de jovens trabalharam nessa fábrica, que infelizmente, acabou fechando  com a crise que atingiu o Brasil no inicio dos anos 2000. As panelas ficaram conhecidas como “eternas” pela durabilidade. Foi muito bom para o município enquanto durou. Nitinam  significa  De Norte a Sul.

Papai cultivou amizade com o senhor Saburo Arai, que era responsável pela porção japonesa da indústria e morava junto da fábrica. Os dois não conseguiam se comunicar por  desconhecerem a língua do outro, mas durante dez anos viajaram

juntos várias vezes para São Paulo. O respeito, porém era mútuo. Saburo Arai morreu em 1988.

Papai conheceu mamãe Zilda nas Perdizes em São Paulo, e se casaram em dezembro de 1955.  Tiveram três filhos: Maria Luiza, Reinaldo e Víctor. Foi proprietário das Fazendas  Sta Cruz de Monte Castelo e Maringá no Paraná.

Após sete anos, voltou a Portugal para rever os parentes e o irmão José veio ao Brasil. Na viagem de volta, o navio atracou novamente em Las Palmas, onde ele fora ludibriado anos atrás. Ele aproveitou para localizar o vendedor desonesto e cobrou dele  uma camisa verdadeira. E foi ressarcido!!!

Mário Varela foi maçom em Sta Isabel do Ivaí, e Maringá no Paraná, em Perdizes e Pinheiros em São Paulo e em Araçatuba e Mirandópolis, completando 49 anos de filiação. Recebeu o título de Melvin Jones, a mais alta honraria. Mevin Jones foi o fundador do clube.

Papai participou junto com outros 11 sócios da instalação da  Usina  Alcomira em 1979. Em 1982 a Usina já produzia 150 mil de álcool por mês. Quase cinquenta nos depois, a Usina está lá proporcionando trabalho pra muita gente e produzindo álcool até hoje.

Com 73 anos, submeteu-se à cirurgia do coração, feita com sucesso pelo competente Dr. Adib Jatene, de quem era amigo. 

Com 73 anos, passou a frequentar a Universidade aberta à Maturidade em São Paulo. Lá conheceu a Profa. Maria Antonia e a profa. Alda Ribeiro com quem aprendeu muito a levar a vida de forma mais leve.

Seu sonho era comemorar cem anos de idade no Restaurante Belga em Londres.  Mas, faleceu antes em 2018.

Papai foi um homem de ação. Ele não parava de criar, de participar, de inventar. Queria tudo pronto para ontem e nunca para amanhã. Por isso participou de muitos empreendimentos. A última foi ajudar a fundar o Grupo Ciranda que reúne pessoas idosas e solitárias para encontros mensais, com o objetivo de  espantar a solidão. O grupo Ciranda já completou dezesseis anos.

Muita citação poderia definir o senhor Mário Dias varela. Mas ele gostava de citar “ Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho”

Papai Mário Dias Varela, temos muito orgulho de você!

Mirandópolis, 31 de outubro de 2025.

Nota: Escrevi essa biografia para homenagear o sr. Mário Dias Varela com a denominação de um Conjunto Habitacional em Mirandópolis, a pedido do filho Víctor Varela.

kimie  oku

 

domingo, 18 de maio de 2025

 

Humanidade enlouquecida

Escrevi um texto sobre bebês reborn e publiquei aqui.

Mas, num toque casual e involuntario, o texto sumiu.

Não sei onde foi parar.

Bebê  reborn é  um boneco de borracha, com feições  de alguém  da família, que a mãe  adota como filho de verdade.

E isso é levado tão a sério, que elas querem batiza-lo e tirar certidão  de nascimento.

E querem assistência  médica  como toda criança  humana.

Honestamente, acho que a humanidade enlouqueceu.

Essas mães não  querem filhos de carne e osso. Querem bebês  de mentira, de borracha. Porque não dão trabalho, se forem esquecidos num carro fechado, não morrem...

  tantas crianças  abandonadas, vítimas de maus tratos, de pais inconsequentes, crianças órfãs de pais vivos, vítimas de guerras...

Por quê  não cuidar delas?

 A borracha vale mais que um coração  que pulsa?

A humanidade está  doente e psiquiatra nenhum cura isso.

Quando esses bebês encherem as casas, os armários e essas mães  morrerem, qual o destino desses reborn?

Teremos nos cemitérios locais uma reprodução da fantasmagórica Ilha de las munecas de Xochimilco no México?

Vejam as assustadoras fotos no Google.

E parem com essa febre!

Mirandópolis, maio de 2025.

kimie oku in

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Plantei dois pés de maracujá  junto de um pé  de acácia,  no meu pequeno jardim.

Quando apareceram uns

botões, três lagartas amarelas começaram a comer os ramos novos do maracujazeiro.

Não  tive dúvidas! Matei as lagartas.

Mas...

Quando apareceram as belas flores, não  havia borboletas, nem abelhas para poliniza-las.

Aí, me lembrei das lagartas que eu havia esmagado.

Elas se transformariam em borboletas, e iriam polinizar as flores!

As lagartas se vingaram de mim.

Demorou muito para aparecer uns insetos, que começaram  a

passear nas flores.

Hoje a planta trepadeira já  cobriu o pé de acácia.  Está  carregada de frutos. E ontem, vi uma mamangaba passeando de flor em flor. É  uma abelha preta bem grande, que zum, zum, zum vai misturando o pólen e polinizando a flor.

Todos os dias, observo os ramos, e sempre acho novas frutas despontando.

E consultando o Google, descobri  que a caça, a perseguição e destruição de mamangabas está proibida no Brasil, de acordo com a Lei Federal no.9605 de 12/02/98.  Achei fantástico!

E aprendi uma bela lição. Tudo nesta Terra tem uma razão de ser.

Não mais destruirei lagartas.

O maracujazeiro está com mais de trinta frutos.

Mirandópolis, maio de 2025.

kimie oku in

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Janja


Nunca em governo algum, houve um momento tão lamentável, como esse que estamos vivendo.

Milhões de brasileiros desesperados, com os descontos  não  autorizados de seus contracheques.

Gente que não consegue comprar o remédio para aliviar suas dores, que nem ovo pode comprar para as crianças  famintas, por conta desse rombo, que fizeram em sua vida.

Em qualquer tempo, em qualquer governo, a primeira dama seria solidária  com o povo, que está sofrendo.

Mas... onde está a primeira dama, que por associação  a Lula, seria a "mãe dos pobres"?

Está  na Rússia, usufruindo do bom e do melhor. Como se todos os seus conterrâneos estivessem felizes, e vivendo uma vida de fartura.

O que essa mulher alienada está fazendo, na verdade é no jargão  popular, "dando uma banana para o povo".

Se não tem culpa nenhuma, deveria estar consolando e de alguma forma, minimizando a dor de quem está arrasado. E são  milhões e milhões  de pessoas magoadas.

Se por outro lado, tem alguma culpa, deveria estar escondida num buraco, se penitenciando dos pecados cometidos pelas pessoas que a cercam.

Mas ... Não!

Está num outro mundo, se regalando com benesses, que os trabalhadores lesados nem sonham que existam.

Essa primeira dama é uma afronta para o povo brasileiro!

Mirandópolis, maio de 2025.

kimie oku in

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