quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 

Tudo começou com um correio elegante.

Acho que era nos anos 1965/66. Vinte e poucos anos.

Quermesse ou Festa Junina na Igreja de Lavínia.

Não sei com quem estava, só sei que estive lá.

Coisa rara, nunca fui de curtir a noite, as festas, as quermesses...

Havia pouca gente, festa não muito animada.

Estava meio deslocada e achando tudo uma chatice.

Então, vi um grupo de rapazes que não conhecia. E no meio deles um japonês. Só pra provocar, mandei um correio elegante para ele.

Correio elegante era um cartãozinho, que os promotores de quermesses vendiam. Para os jovens se comunicarem mandando recados. Muitas vezes, assim começavam as paqueras.

Não me lembro do que escrevi, só sei que tive o atrevimento de mandar um correio, para um moço que nunca tinha visto. E ele me respondeu. Infelizmente, não me recordo da resposta. Só me lembro  que os rapazes se agitaram com a brincadeira.

E as amigas também brincaram comigo.  Mas, pra mim era apenas uma brincadeira. Não dei importância.

Viemos embora e esqueci a brincadeira.

Passado um tempo, encontrei o tal rapaz num evento no Clube Nipo daqui. Ele veio falar comigo. Fiquei envergonhada e muito sem jeito por ter escrito aquele correio. Mas ele foi gentil e delicado, mostrando interesse por mim. E assim começou o namoro. E depois, o casamento. Que durou 59 anos. Foi assim que conheci o meu esposo, o meu Nori.

Até hoje não sei o que me fez escrever aquele cartão. Estávamos predestinados um ao outro? Será que havia uma linha vermelha invisível, ligando nossos destinos? Tudo é um mistério. Dizem que o homem propõe e Deus dispõe. Que Deus escreve certo por linhas tortas. 

Deve ter uma explicação pra tudo isso. Eu não saia à noite. Não curtia quermesses. Mas estive lá. Por quê? Nunca tive a iniciativa de me dirigir a um rapaz desconhecido.  E ainda, mandei um cartão!

Pra mim, era apenas uma provocação.

E acabou numa união para a vida toda.

Se não houvesse o correio elegante, minha vida teria sido diferente.

Agradeço a Deus por ter me inspirado para fazer o que fiz. Fui feliz, bastante feliz.

Ele quieto, ponderado, trabalhando sempre e cuidando da família. Eu impaciente, sem tempo, querendo estudar, estudar.  E também trabalhando, porque ser professora parecia ser a melhor opção pra mim. Trabalhei trinta anos, fiz todos os Concursos disponíveis e me realizei como Professora.  Com a ajuda dele, sempre.

Mas o bom foi o convívio com ele. A atenção de todos os dias, a paciência, a generosidade que de alguma forma me modificou pra melhor.  Não posso negar. Não teria sido feliz se não fosse ele.

Hoje, ele não está mais comigo. Foi morar no céu, cumprindo uma ordem de Deus.

É muito triste perder o parceiro assim.

Um dia, todos temos que partir, porque há prazo de validade para cada um de nós.

Agora vivo cercada de amigos que me apoiam e me estimulam. Também quero cumprir meu tempo, com a mesma dignidade que ele cumpriu.

Relembrando tudo de bom que partilhamos nesta vida.

Obrigada, Nori.

Obrigada, Deus Pai.

Mirandópolis, 10 de setembro de 2026.

Nenhum comentário:

Postar um comentário