quinta-feira, 11 de abril de 2013


        Charretes e carroças


Andei postando uma foto de charrete da dona Marieta e seus netos no facebook, que despertou lembranças em muitos amigos.
E o Anacleto Tavoni mandou uma mensagem pedindo para escrever dos tempos passados, quando havia a Casa Moreira e a Casa Santa Glória. Achei muito interessante a ideia e dei tratos à bola.

Mas, muitas lembranças se perderam ao longo dos anos e não tenho tantas recordações assim. Mesmo assim, resolvi puxar pela memória...
Antigamente, quando não havia carros, caminhões nem motocicletas, as pessoas andavam a pé. As de mais posses andavam a cavalo. E as de muito mais posses andavam de carroças e charretes.
Isso fazia parte do cotidiano. Na cidade circulavam as carroças, misturadas com charretes e cavalos, todos transportando gente ou mercadorias. Havia pontos de charretes na praça, atrás da estação ferroviária e mais tarde à frente do Bar do Ponto, onde paravam os ônibus que faziam as ligações com outros municípios. Nas portas das vendas e dos botecos, havia sempre umas argolas no chão da calçada ou traves de madeira, para se amarrar os animais, enquanto o dono fazia as compras ou se embebedava. E junto da linha férrea, ali onde existia uma cancela na passagem de nível, havia um grande reservatório de água para matar a sede dos animais de carga. Não sei que destino deram a ele, mas estava lá até alguns anos atrás.

As ruas eram estreitas e era muito difícil para o cidadão circular no meio desses veículos e cavaleiros, porque não havia regras para se organizar melhor o trânsito de todos. Cada um que cuidasse de si.
Mas, não havia acidentes; só de vez em quando, uns aborrecimentos por conta de gente mais grosseira, que não respeitava os pedestres. Exatamente como hoje!
As cidades passavam a semana inteira num marasmo sem fim. Nas vendas ou armazéns que vendiam de tudo ou nos botequins, raros eram os fregueses. Assim eram chamados os clientes.
A vida acontecia no campo. O povo morava na roça. Todos pelejando de sol a sol, derriçando café, rastelando, abanando e ensacando para levar à Comercial Perez, para pagar as contas do Banco e das vendas. Nas vendas e nos armazéns, todos tinham contas, em cadernetas onde se marcava tudo que era fiado. E só era pago na safra. A Casa Moreira era o Armazém maior, seguido de Casa Santa Glória. Ambas vendiam de tudo, desde arroz e feijão a granel, ferramentas para a lavoura e até tecidos finos. Lembro-me que, na minha formatura de Professora normalista em 1960, comprei o tecido na Casa Santa Glória para o vestido da missa solene de formatura. Esta Casa vendia tecidos mais raros e bonitos que a Casa Moreira.

Mas, a vida verdadeira ocorria na roça, para onde se voltavam os olhos dos comerciantes, porque uma boa safra significava sucesso nas vendas.
 O povo não vinha à cidade para as missas. Estas ocorriam na Capelinha da roça, que ficava cheinha de lavradores de mãos calejadas, para ouvir o Evangelho de Jesus e o sermão intransigente do Padre Epifânio. Geralmente nesses dias de missa na capela da roça, havia à tarde uma partida de futebol, reunindo jogadores e torcedores de vários bairros rurais de Mirandópolis, como Pé de Galinha, Monte Serrat, Vila Nova, Ribeirão Claro, Amandaba, Km 50... Ocasionalmente, havia um arrasta-pé à noite, animado com uma sanfona e uma viola que tocavam a verdadeira música caipira, oportunidade que era bem aproveitada para começar os namoros e firmar casamentos.

O comércio na cidade dependia totalmente da lavoura de café, de algodão. Se não chovia durante meses, os comerciantes olhavam o céu e coçavam a cabeça, pensando de antemão que, as contas pendentes dos agricultores não seriam pagas facilmente... E eram contas bem volumosas.
Mas, quando a colheita era farta, as ruas fervilhavam de gente comprando, comprando. Gente nas barbearias mudando o visual; alguns vinham desbastar os longos cabelos e barbas, cultivados por promessas; as farmácias sempre lotadas à procura de Elixires, de remédios para as feridas, de purgativos, de vitaminas, de brilhantinas, de pó de arroz, de batom; os bares derramando gente porta afora, com os bebuns de sempre falando alto e arrumando rixas por conta de palavras mal faladas e mal entendidas...
E à porta da Casa Santa Glória e da Casa Moreira, e mais tarde na Venda do seu João Ascêncio, os caminhões encostavam com os lavradores que vinham fazer a feira. E tratores com as carretas cheias de gente da roça.
Era uma multidão, sempre. Famílias inteiras desciam e compravam ferramentas para a roça, querosene para os lampiões e lamparinas, porque luz não existia, arroz, feijão, açúcar, carne seca, sardinhas salgadas (manjuba), farinha de mandioca, de trigo, alpargatas, metros de algodão cru e sarjas para a feitura de roupas da roça, chapéus de palha. O arroz, o feijão, a farinha e o açúcar eram comprados em sacas de até sessenta quilos, porque as famílias eram compostas de vários membros, e o arroz, feijão e farinha eram o alimento básico para o sustento de todos. Comia-se pouca carne, porque era cara e o dinheiro não dava para tanto. Legumes e verduras ninguém comprava, pois todos tinham uma hortinha na roça para o consumo da família. E lá se criavam porcos e galinhas, que forneciam a banha para uso diário na cozinha, ovos e ocasionalmente carne para os domingos e feriados.
As padarias ficavam lotadas de gente comendo pão com mortadela e tomando guaraná, que tinha no rótulo o desenho de uma maçã. E a molecada e as mulheres não dispensavam o sorvete, que era só de palitos. Enquanto isso, os homens bebiam cachaça no boteco da esquina. Era uma grande festa, que só ocorria uma vez por mês.

As Casas Pernambucanas também eram um ponto de encontro, onde as mulheres iam comprar os tecidos de chita em metros para confeccionar, elas próprias, os vestidos da família. A moda prêt-à-porter não havia sido inventada ainda. Tudo tinha que ser confeccionado. Era o tempo das costureiras, que faziam saias, blusas, vestidos, calças e até vestidos de noiva. Os alfaiates faziam os ternos. Muita gente chique usou o linho 120, que era branco e acetinado para fazer seus ternos, que eram lavados e engomados na Tinturaria do seu Benvindo, pai da professora Edite Cyrillo, se não me engano. Ah! Também esteve na moda o chapéu panamá, que era branquinho e era engomado também nessa Tinturaria. Os homens eram muito elegantes. O chapéu era parte do vestuário.
Havia também muitas carroças. Eram dos moradores isolados, que não dispunham de caminhão e vinham fazer as compras com a família. Nessa época, os Marconato fabricaram muitas carroças que circularam por anos, servindo à população. Hoje remanescem algumas ainda, transportando pedras e areia para as construções.
As ruas eram de terra batida, e se tornava um problema nos dias seguidos de chuva, porque virava um atoleiro só.  Com os ocasionais caminhões e carroças que circulavam, as rodas formavam valetas que ficavam intransponíveis para os pedestres... No tempo do estio, era uma poeira só. As lojas se impregnavam de poeira e seus donos ficavam espanando tudo com espanadores de penas longas, de avestruz diziam. Nesses dias muito secos, a Prefeitura mandava um caminhão-pipa irrigar as ruas para apagar a poeira.
Foi mais ou menos por essa época que começaram a surgir os serviços de alto falantes, que anunciavam os fatos mais importantes que ocorriam na cidade, além de tocar músicas que estavam nas paradas e os jovens aproveitavam para oferecer às moças, como “prova de amor” ou “prova de amizade”. Cantores famosos? Ângela Maria, Marlene, Cauby Peixoto, Orlando Silva, Mário Zan, Emilinha Borba, Nélson Gonçalves e tantos outros... As gravações eram em long plays de vinil, em 78 rotações. Só algumas casas mais ricas possuíam a vitrola para tocar essas músicas. Tudo isso era um grande sucesso, porque não existiam televisão nem emissoras de rádio na cidade. Às dezoito horas invariavelmente, os alto falantes apresentavam a Hora da Ave Maria, ou Ângelus, em que se rezava em alto e bom som o terço, agradecendo mais um dia de trabalho.
E as festas aconteciam em volta da Igreja do Padre Epifânio, com suas famosas quermesses. A cidade toda comparecia, doando frangos e leitoas assadas com capricho, que eram arrematados pelas pessoas que tinham mais recursos para pagar os altos lances. Durante essas quermesses, muitos namoros se iniciaram com a troca de correios elegantes, e firmaram-se noivados que acabaram no altar, com as bênçãos do mesmo padre.
Volta e meia acontecia um baile com as orquestras famosas da época, dentre as quais podemos lembrar de Pedrinho e sua Orquestra de Guararapes, Orquestra Marajoara de Jaboticabal, Nelson de Tupã e a Orquestra Sul América de Catanduva. Era a época dos vestidos rodados, de vários saiotes para destacar a cintura fina das moças. E as moças eram magras mesmo, de cintura fina a tal ponto de poetas compararem o corpo de suas amadas a um violão.  Hoje tudo está mudado. Cintura fina nem existe mais... As moças ficaram imensas e as roupas se transformaram em segunda pele que colam nos corpos, destacando as  feias  protuberâncias...
Também me lembro que os estudantes, cruzavam as ruas indo ou voltando das escolas, animando a cidade. Havia muitos estudantes, e os jovens eram puros e inocentes, que respeitavam os mestres e estudavam com afinco. O máximo de safadeza que praticavam era fugir das aulas para ir jogar bola, ou furtar melancias e laranjas nos quintais alheios. Não havia drogas e nem gangues, felizmente. Vida saudável, juventude sem problemas maiores.
Sobre carroças, lembro-me de um episódio engraçado: o Paulinho, meu amigo era um moleque ainda. Um dia o bucheiro, que vendia as vísceras dos animais pelas ruas, estacionou seu carrinho em frente ao açougue de seu tio. O Paulinho ficou olhando, olhando e não teve dúvida. Pegou um rebenque, subiu na boleia e chicoteou o animal, que disparou pelas ruas, indo para a Rafael Pereira, correndo numa disparada só, com os tios correndo atrás, para evitar acidentes... Felizmente, tudo acabou bem, com uma grande coça no menino arteiro.
E havia os entregadores de pão e de leite, que percorriam a cidade em suas carrocinhas, de madrugadinha gritando: “Olha o pão quentinho”  “Olha o leite” . O pão era depositado nas janelas das casas dos compradores mensalistas, e o leite de vaca era deixado em garrafas nas portas das casas. Não havia leite em saquinhos nem em caixinhas como há hoje. Era leite puro de vaca tirada de madrugadinha, e não tinha conservantes e nenhuma soda cáustica, como ocorreu recentemente com uma marca de leite embalado em caixinhas.
Também a água para se beber era buscada na mina de água na Fonte Nossa Senhora Aparecida, lá atrás da Penitenciária. Cada família buscava para seu consumo, porque a água ainda não era comercializada.
Aí chegaram os anos setenta, com a televisão, o telefone que se popularizou, e tudo se transformou. A vida simples foi se modificando.
Chegou o asfalto. Veio a crise do café e os cafezais viraram pastos para o gado. Acabou-se a lavoura. Os lavradores mudaram para as cidades. Estas ficaram inchadas, com grande parte da população vivendo uma vida difícil, desempregada e passando necessidades. Surgiram as favelas até em pequenas cidades do interior, com casinholas feitas de ripas misturadas com papelão. O nível de vida da população caiu para zero por cento, trazendo como consequência, os latrocínios, os furtos e enchendo as casas de reclusão.
No lugar das charretes e carroças vieram os carros, caminhões e aviões. Tudo ficou acelerado e as pessoas passaram a viver uma vida agitada, insatisfeita, comandada pelos programas idiotas de tevê.
E aí veio o computador. E o celular. E a tecnologia se acelerou de um jeito, que ninguém consegue mais acompanhá-la.

Há vantagens na vida de hoje, com todas as mudanças que ocorreram? Sim! Há muitas. Tudo ficou mais fácil e accessível, para todos.
Mas, por que é que a gente tem tanta saudade daqueles tempos duros, quando tudo era simples e inocente?
Por que será, Anacleto Donizeti Tavoni?

         Mirandópolis, abril de 2013.
         kimie oku in cronicasdekimie.blogspot.com

        Ressalva: O bebedouro dos animais está no mesmo lugar, na passagem de nível, e dizem que é uma peça antiquíssima. Nos primeiros tempos sua localização era na Rafael Pereira, nas proximidades do antigo Bazar Tietê.


quarta-feira, 10 de abril de 2013




                               Encontro do Grupo Ciranda

     Como sempre acontece, o Grupo Ciranda reuniu-se mais uma vez no dia 22 de março, em seu conhecido e aconchegante cantinho, na Chácara do Sr. Albertino Prando.
         Desta feita, como a dona Cleuza estava viajando, foi o Sr. Albertino quem nos recebeu sempre com o mesmo carinho e satisfação de sempre...
          - Êta,  gente boa!!... Não é verdade?

         Formada a grande roda da Ciranda, e iniciando mais uma importante reunião, o grupo decidiu fazer um momento de reflexão em favor e consideração à irmã da cirandeira Kimie, que está em tratamento na Capital paulista. Foi lida pela companheira Flora e acompanhada por todos os cirandeiros, com muita fé e união, a Prece de Caritas.
         Em seguida, quem julgava que a reunião fosse fria e abatida foi surpreendido e contagiado por um bom clima de cantorias sertanejas e folclóricas, puxadas pela dupla Gerval e Jovaninho, convidados que foram para este acontecimento. O senhor Albertino também abriu sua sanfona acompanhado do bom pandeirista Toninho, e essas harmônicas se entremearam em um ritmo só, e todos acompanhados por todos, cantamos juntos. Teve até valsas da velha guarda e outros pedidos, que ficaram prometidos para a próxima reunião. Em meio a cantorias, foi convidado o seu Orlandinho que declamou o poema “O cachorro Sultão”. A cirandeira Rachel também leu o poema “Extratos do coração” do livro Por amor e saudade de Mílton Lima.

         Assim, a tarde ficou cheia de poesias e músicas, que transformou o ambiente em contentamento, e junto com isso, cantamos, aplaudimos e mais uma vez vivemos momentos de alegria, o que é muito importante.
         E não posso deixar de relatar que enquanto aconteciam essas coisas, as companheiras Remir, Jane e Flora serviam os bolos, tortas e outros salgadinhos acompanhados de refrigerantes, água fresquinha e um delicioso cafezinho feito na hora.
         Precisamos registrar também a presença da senhora Zilda Varela e a primeira vez da Senhora Nair de Oliveira, também o senhor Abílio Pereira, Célio e Benedito Boneto, que esperamos voltem sempre.
          Apesar da ausência de indispensáveis companheiros, o grupo mostrou que já tomou força e união, pois mais uma vez fomos cobrados para fazermos um churrasco, e também duas reuniões mensais, porque uma só eles acham que demora muito... Com esses pedidos, percebemos que o grupo está feliz e se sente bem com as reuniões.

         E assim, mais esta vez, o encontro passou tão depressa, e quando saímos do local, a tarde já se escondia no horizonte.
                                      Mílton  Lima
                                      (Cirandeiro)

quinta-feira, 4 de abril de 2013




                   Viajando por aí

Passei o final de semana viajando por Mato Grosso do Sul
É impressionante como o nosso Brasil é imenso. A gente roda, roda, roda por horas e o país não acaba. Para chegar à fronteira, levamos nove horas de estradas sem fim. Cansaço? Sim, porque o corpo fica limitado por horas num espaço pequeno, e não tem como relaxar.
Mesmo assim, é uma viagem que vale a pena!  Atravessar o Rio Paraná na altura do Porto Epitácio é algo fantástico. A ponte sobre essas águas tem mais de onze quilômetros!  É água que não acaba mais!  E os cardumes que devem existir nas profundezas?
Depois, as matas ciliares que acompanham os riachos, ribeirões e rios que vão engrossando o Rio Paraná rumo à Usina de Itaipu, a maior do Brasil. Felizmente, as matas ciliares estão protegidas e seus inúmeros habitantes também.
A diferença entre Mato Grosso do Sul e São Paulo é a extensão das terras. Aqui, a cada hora se avista um povoado, um vilarejo ou mesmo uma cidade. Lá, a gente roda por horas sem visualizar um Posto de gasolina, um vilarejo ou mesmo algumas casas rurais.
O que existe são fazendas de gado. Nas pastagens verdes sem fim, centenas de gado nelore engordando... E aqui e acolá, uma casinha do peão que cuida de tudo para o patrão.
O relevo local é altiplano, não há morros nem elevações. Tudo é muito plano, facilitando a plantação e a colheita de cereais por máquinas. Alternando-se com as fazendas de gado, há roças sem fim de milharal. O solo escuro de terra roxa possibilitou a cultura de milho, que é cultivada nos municípios de Fátima do Sul e Dourados. É milharal que não acaba mais. Posso dizer com segurança que, rodamos durante umas três horas entre milharais. Havia roças de milho florindo, pendoando, outras mais novas, recém-plantadas... enfim, milharal de todas as fases.
         É muito bonito de se ver os campos cobertos com o milharal. Tem sempre a mesma tonalidade de verde azulado e é um colírio para os olhos. Deus foi muito sábio em pintar a natureza de verde, porque o verde não cansa a visão, assim como o azul claro do céu.
       
  Na viagem de volta viemos observando as casas de tábuas, que ainda estão de pé junto a moitas de bambu. Ora, como sabemos que os japoneses tinham o hábito de plantar bambu junto de suas moradias, concluímos que em Dourados, Fátima do Sul e Nova Andradina, houve núcleos de japoneses, que abriram matas e iniciaram as lavouras. Junto de casas mais modernas de tijolos, ainda remanescem casas antigas dos primeiros moradores. Foram construídas com tábuas retiradas das árvores da floresta que havia no local. Percebe-se que foram construídas com tábuas no sentido horizontal, e embora envelhecidas com o tempo, estão em bom estado, comprovando que foram feitas com boa madeira.
Fiquei imaginando quanta gente morou e passou por aí. Quanta labuta na derrubada da floresta imensa. Quantas onças e cobras devem ter enfrentado os pioneiros. Arrancar os tocos das imensas árvores seculares! O preparo da terra para as primeiras semeaduras. Febres, doenças, falta de assistência médica, falta de escolas para as crianças. Enfim, quanto sofrimento os desbravadores amargaram. E hoje, tudo limpo, tudo fácil, com estradas asfaltadas ligando os povoados, e no lugar dos carrinhos, das carroças e dos burros de carga, usam-se carros, camionetas e caminhões. Todas as casinhas de beira da estrada têm um carro na garagem.
Quanta gente fez a vida ali nesses lugarejos e alçou voos mais altos, dirigindo-se para outros recantos do país. Quantos filhos e netos desses primeiros habitantes estão espalhados pelo nosso imenso Brasil! Fico pensando nas pessoas que, distantes desses povoados devem sentir saudades imensas da vida rústica e tão verdadeira, que viveram ali um dia.  É por essas razões que muitas vezes, uma foto antiga e desbotada pelo tempo nos faz chorar de repente. É que dá uma vontade impossível de recuperar o tempo que passou e reviver tudo de novo.



Mas, o que me encantou de verdade foi ver algumas emas nos descampados, vivendo tranquilamente. Vimos ainda, uns preás e quatis atravessando rapidinho, as estradas.  E tabuletas de veados, alertando para não atropelá-los. Mas, doeu muito ver uma oncinha atropelada e, uma grande anta também morta no acostamento.
Mato Grosso, Terra do Pantanal, do gado vacum, dos cereais, dos jacarés, dos tuiuiús, terra rica, cheia de promessas, precisa urgentemente proteger sua fauna e sua flora para não se transformar num Estado de São Paulo de canaviais, sem árvores e sem seus bichos nativos.
 Porque São Paulo vai acabar se transformando num imenso deserto com os canaviais sem fim.

Mirandópolis, abril de 2013.
kimie oku in cronicasdekimie.blogspot.com




Zorba, o grego

De vez em quando, gosto de rever alguns filmes que me impressionaram um dia.
Acho que, gente de minha geração se encantou com “E o vento levou”, “Suplício de uma saudade”, “Forest Gun”, “O Poderoso Chefão”, “Casablanca” e  “Zorba, o Grego”
Confesso que, todos me marcaram bastante pelos ensinamentos que eles passaram. Mesmo tendo gostado de todos, o que mais me impressionou foi sem dúvida nenhuma, Zorba, o Grego.
Este filme baseado na novela de Nikos Kazantzakis foi lançado em 1964, isto é, há meio século. Estrelado magistralmente por Antony Quinn, ator mexicano, que ficou para sempre com cara do grego Zorba.
A história se passa na Ilha de Creta, para onde se dirige um empresário inglês para explorar uma mina, que herdara do pai. E tromba com Zorba, que passa a servi-lo. E aí começa a aventura.
Zorba é um homem vivido, cheio de artimanhas, que aproveita a vida sorvendo-a a cada momento, como se fosse a última gota d’água.  E deixa o patrão embasbacado, porque este era um rapaz criado no ambiente cheio de conveniências, da puritana sociedade inglesa.
Na Ilha de Creta, os recém-chegados encontram uma sociedade fechada, cheia de costumes antigos, adotados como leis pelos moradores. Existe uma viúva mui bela, que é cobiçada por todos os homens, dentre os quais há um jovem totalmente apaixonado por ela. Mas, ela se interessa pelo inglês que acabara de chegar, apesar de estar consciente que viúvas não têm direito mais ao amor.
Enquanto isso, Zorba conhece a francesa que trabalhara em cabarés europeus e fora amante de capitães de navios. Está velha, gasta e acabada, mas ainda acalenta sonhos mundanos de outrora. E quer ser tratada como uma mademoiselle.
Zorba que já correra o mundo, se comove com os desejos da pobre prostituta e a trata como uma princesa.
Mas a exploração da mina herdada termina em desastre, e o jovem inglês resolve aproveitar a madeira da montanha. E Zorba inventa um sistema inédito para trazer a madeira do alto da montanha para o mar. E o patrão aposta todas as fichas nessa empreitada.
Entre o vaivém dos acontecimentos, o inglês não resiste aos chamados da viúva e passa uma noite em sua casa, amando-a.

Quando o jovem apaixonado da ilha fica a par da história, se atira ao mar, suicidando-se. E todos os aldeões se voltam contra a viúva, que é apedrejada diante da Igreja, durante a missa dominical e apunhalada.
Zorba tenta salvá-la. Em vão.
O rapaz inglês fica deprimido, sentindo-se responsável pela morte da bela viúva, então Zorba lhe diz que, quando a alma está cheia de dor, de felicidade, de mágoa, o único remédio capaz de acalmá-la é a dança. E dança, e dança e dança.
Quando a prostituta francesa adoece, as mulheres da aldeia vestidas de preto se acercam da casa, e ficam à espreita esperando o fim. Parecem corvos à espera do banquete.
A francesa morre nos braços do Zorba, sonhando ir ao encontro de um Almirante, que a tratara bem em outros tempos.
Então, acontece uma coisa inacreditável!
Todas as mulheres e todos os homens invadem a casa para pegar os objetos, que a mulher acumulara durante sua vida. Disputam entre si um xale, uma banqueta, um abajur, as cortinas de seda, as roupas europeias, as plumas, enfim, objetos sem nenhuma utilidade para os aldeões. Num afã, sem nenhum respeito. E deixam a casa totalmente despojada, só com a morta na cama.
E Zorba? Leva apenas um papagaio que falava inconveniências de dentro de uma gaiola...
Mas, a cena mais bela é a final. É a cena da inauguração da engrenagem, para trazer as toras de madeira do alto da montanha para o mar.
Os trabalhadores contratados se empenham em fazer a geringonça funcionar,     mas, algo dá errado e tudo vem abaixo, com todos os operários fugindo do local.
Quando tudo termina em desastre, e nada dá certo, os dois amigos comem um pedaço de carneiro e tomam um vinho. E o inglês pede a Zorba que lhe ensine a dançar.
E os dois dançam. E dançam. E dançam.
O que há de belo nesse filme?



São as mensagens do autor da novela, Nikos Kazantzakis.
Ele nos ensina que, aldeias seculares têm costumes intransponíveis por gente de outras culturas, e outras gerações. Ensina que, mulheres nessas aldeias são apenas objetos manipulados por homens, que estabeleceram suas duras e injustas leis.
Ensina que estrangeiros nunca serão considerados irmãos, mesmo que demonstrem as melhores intenções. Estranho no ninho é estranho no ninho e há que se cuidar para não pisar em falso e provocar tragédias irremediáveis.
Mas ensina sobretudo, como a vida é bela e merece ser vivida, como se sorvesse um bom vinho até a última gota, com delícia, com prazer.
E a dança é o vinho da vida.

Mirandópolis, abril de 2013.
kimie oku in crônicas de kimie.blogspot.com

terça-feira, 2 de abril de 2013



       
Gente de fibra – Shina Aoki

      Um dia desses, o Professor Rizzo do Departamento de Esportes me ligou sugerindo que entrevistasse a senhora Shina Aoki, que joga gateball e vai completar 100 anos de existência, em setembro próximo.
Gostei da ideia e lá fui eu, e passei uma tarde boa vendo fotos antigas e, ouvindo a dona Shina e sua filha Toshiko sobre coisas do passado.
Dona Shina nasceu em 23 de setembro de 1913 no Vilarejo de Fuki, na Província de Aichi, ou Aichi Ken.
Seus pais eram lavradores humildes, que plantavam arroz e criavam o bicho da seda. Mas, seu avô, Man Emon Morita foi o Mandatário (equivalente a um Prefeito) e, pelos relevantes serviços prestados à comunidade foi homenageado pelo próprio Imperador Hiroito, com títulos e diplomas. E na localidade em que morou, tem uma estátua para a posteridade se lembrar dele.
Como os pais da menina Shina eram muito pobres, desde cedo foi levada à casa de um médico famoso perto de Nagoya, para aprender prendas domésticas. Durante seis anos, ela conviveu com essa família, e só estudou o Curso Primário Fundamental.
Lembrança boa que tem de sua juventude é a alegria de aprender a costurar “os quimonos” ou roupas no estilo oriental. Era tudo cerzido à mão, e era um gosto ver as peças prontas para vestir. Ela confeccionou muitos quimonos para crianças.


Em 1926, um irmão de dona Shina veio como imigrante para o Brasil, junto com dois primos.  Vieram para o Bairro da 2ª Aliança, onde começaram a criar bicho da seda. E em 1936, dona Shina já com 23 anos de idade, veio com a família, que era composta de pais e cinco filhos. Compraram um lote de terras na Secção do km. 27, num lugar chamado Cotovelo e continuaram com a criação do bicho da seda, cujos fios de seda estavam em alta na época.
 Na Segunda Aliança, passou a frequentar aulas de Corte e Costura, onde aprendeu a costurar roupas no estilo ocidental, como calças e camisas. Casou-se com o senhor Riichi Aoki, proveniente de Yamaguchi –Ken. Foi então morar na Nova Aliança, onde ficaria por mais ou menos 29 anos, criando porcos, gado e cultivando café. Sua vida foi totalmente dedicada ao trabalho duro da roça. Foi uma lavradora na essência da palavra. Com o casamento vieram os filhos: duas mulheres e um homem, hoje já adultos e independentes. Além desse filhos tem três netos e uma bisneta.
Quando os filhos precisaram frequentar o Colegial,  venderam o sítio e vieram morar aqui em Mirandópolis. Isso ocorreu há mais ou menos 48 anos atrás. Compraram umas datas  ali na Rua Anchieta. O local era um brejão, e os moradores plantavam verduras nos arredores. Hoje não dá nem para imaginar que, onde estão as instalações do antigo Posto Jóia e  onde existe o Pina Supermercados,  eram áreas ocupadas por casas de tábuas e hortas, que forneciam legumes e verduras para os moradores da cidade. Os consumidores tinham o hábito de ir lá comprar, diretamente na horta.
Morando na cidade, dona Shina que não conseguia ficar parada continuou a cuidar da terra, plantando árvores frutíferas, flores e legumes. Quando o sol estava muito quente, dona Shina se dedicava ao trabalho de artesanato, confeccionando blusas de lã, cujas encomendas eram sempre muitas.  Por anos e anos tricotou blusas e isso ajudou um pouco na renda familiar. O marido, seu Aoki trabalhava de carpinteiro e passou a construir casas.

Nos anos 50, o cunhado de dona Shina, o senhor Tokuichi Aoki instalou uma olaria num sítio, no Bairro Santa Lina. Fabricava tijolo, e o barro era amassado com a força motriz de animais, que rodavam em torno de um jirau.
A moda era construir casas de tijolos, mesmo porque a madeira estava rareando, com a derrubada indiscriminada das árvores que havia na região.

Os tijolos da Olaria do seu Aoki foram utilizados para construir o Hospital Santa Terezinha de Dr. Macoto Ono, o Cine São Jorge e dezenas de casas que ainda estão de pé servindo a comunidade.
Em 1983, os pais do nosso amigo Eduardo Sunada iniciaram uma atividade para ocupar as pessoas idosas, que estava muito em moda em várias partes do mundo. Era o gate ball, uma mistura de golfe e futebol, em que os jogadores têm que lançar bolinhas minúsculas dentro dos gates, ou traves de gol. Usam bastões e é necessário decorar os números dos adversários, e dos membros do próprio time.
Nos tempos áureos, havia cerca de trinta participantes, mas a maioria foi falecendo e hoje há dezesseis jogadores.

Inicialmente, jogavam todos os dias da semana, mas agora só o fazem três vezes por semana. Saem de casa de madrugada, às seis horas da manhã que é muito fresquinho e às dez estão de volta. As competições acontecem no campo do Kai Kan velho, nas proximidades do Hospital do Estado. Todos se empenham muito, para participar de campeonatos regionais, e a dona Shina já ganhou troféus nessas competições. A alegria de se reunir e jogar é complementada pelos lanches, que são degustados juntos. Dona Shina sempre capricha na culinária japonesa, porque quer preservar a tradição que herdou de seus pais.
Além dessa prática esportiva saudável, dona Shina cuida da horta, onde planta grande variedade de legumes e verduras, além de flores. Ela mesma põe a mão na terra, recolhe as folhas caídas e prepara o adubo orgânico, que é utilizado para fortalecer suas verduras. Ela passa os dias cavoucando a terra, capinando as ervas daninhas e adubando as plantinhas com adubo orgânico.
Ao final da entrevista, perguntei-lhe o segredo da vida longa (cem anos em setembro!). Tem uma saúde de ferro, não precisa de óculos para ler, anda normalmente e ainda capina na horta todos os dias! E ela me disse que a prática do gateball ajuda muito, não só pelo prazer de jogar, mas pela companhia dos  amigos com quem se reúne e degusta tanta comida saborosa. Disse também que deve ser pela comida saudável e saborosa que sua filha Toshiko  lhe prepara todos os dias.
Acho, porém que deve se acrescentar, além de tudo isso, sua atividade de lidar com a terra, plantar legumes, verduras  e flores e tomar sol diariamente.
Dona Shina Aoki, uma senhora que veio do Japão para ser lavradora e ama a terra como se fosse a extensão de seu corpo, que vai completar cem anos em breve, que enxerga claramente, ouve bem e está no juízo perfeito, é gente de fibra!

Mirandópolis, março de 2013.
kimie oku in crônicasde kimie.blogspot.com


Legenda:

1. Shina Aoki  em 2008
2. Chegada da família ao Brasil
3. Olaria no Bairro Santa Lina
4. Time de gateball

segunda-feira, 1 de abril de 2013



Grupo Escolar de Amandaba



Eu sei que não é mais assim que é chamada a Escolinha onde aportei em 1966, isto é, há quase meio século atrás.
Hoje é conhecida como a Escola Municipal de Educação Fundamental “Profª. Itelvina Ferreira”.
Nunca cogitei em escrever sobre determinada Escola, porque todas as escolas são iguais, e eu passei por uma meia dúzia delas na minha jornada de professora. Mas, resolvi escrever sobre esta escola em especial, atendendo à solicitação de uma ex-aluna, a Lourdes Brito, que como eu, curte saudades dos bons tempos vividos lá.
Para relatar a história dessa escola teria que pesquisar nos anais do arquivo escolar. No Google, só descobri que o Bairro Amandaba foi criado em 1944. E que em 1947, houve um Projeto de Lei (183/1947 da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) para aquisição de um imóvel, para a construção de uma escola.
A escola se localiza à esquerda da linha férrea NOB, na Estrada Municipal Tadaishi Hatori. Pelas informações correntes, o terreno do Bairro foi doado por Maria Trindade, que era uma proprietária de extensas terras na região. Essa senhora solicitou às autoridades de então que, o Bairro recebesse o nome de Amandaba, em homenagem a um bravo  índio, que era ancestral seu. E Amandaba ficou.
Vou tentar recordar os Diretores que por lá passaram, enquanto aí atuei. Inicialmente, foi o senhor Aristides Florindo, que mais tarde seria o Diretor da Escola Ebe Aurora. Quando cheguei, o senhor Horácio Coggo estava indo embora para sua terra, Birigui. Para a sua vaga, veio o senhor Amazílio Abrão, de quem eu lembro que era muito carinhoso com as crianças. Apesar da aparência diferente, era um homem gentil e muito atencioso, e cuidava pessoalmente dos pedidos de licença dos professores, quando necessárias.
         E aí, foi a vez de José Domingos Paschoal, cujos ensinamentos me influenciaram para a função de Coordenação de Ensino. Esse Professor, que mais tarde seria Supervisor e Delegado de Ensino de Andradina, foi o Diretor que me ensinou tudo, que apliquei na orientação aos professores mais tarde. Lembro que em Amandaba, nas horas-atividades, ele nos ensinou a planejar as aulas com objetivo claro e definido, ações e estratégias práticas de trabalho e técnicas de avaliação. Devo muito a esse homem, que foi também meu colega na Supervisão de Ensino. E lá na Delegacia de Andradina, me ensinou sobre a complicada Legislação de Ensino que compreende Decretos-Leis, Leis Complementares, Resoluções, Portarias, Comunicados e todas essas coisas, que dão um nó em minha cabeça. Era muito competente, minucioso e sobretudo, atencioso com os colegas de trabalho. Infelizmente, ele já não está mais entre nós. Tenho-lhe imensa saudade, misturada com respeito e gratidão.
          Bom, depois dele foi a vez do senhor Milton Pasin, que ficou pouco tempo. Depois, foi a colega Hilda dos Santos Barroso, que respondeu pela Direção um bom tempo, interinamente.
Quero relembrar os nomes dos colegas professores com quem convivi: Yussuf Hsain Alaby, com quem mais tarde trombaria na Escola Ebe Aurora, ele como Assistente de Direção e eu como Coordenadora de Ensino; Dinéia Leister, Aurelinda de Lima Ferreira, Deise Guiselini, Antonia Girotto, Alzira di Bernardo, Clair Lopes Cardozo, Aparecida dos Santos Cunha, Luzia Cunha dos Santos, Evanir Rossato, Yukuko Yokoyama, Maria Teresa Dias Marcos, Maria Zuleika Dias de Souza, Darcy Marize Rossato, Akemi Osaki, Satiko Osaki, Áurea Orciolli Cozin, Gabriel Tarcizzo Carbello, José Sanches, Itelvina Ferreira e tantos outros...
Mas, o que gostaria de relembrar mesmo, são os nomes dos alunos que lá passaram. Infelizmente, a gente acaba esquecendo quase todos, porque a cada ano era uma nova turma de 30 a 40 alunos. Mesmo vendo-os hoje, não sou capaz de reconhecê-los, porque naquela época eram crianças, e hoje são adultos que mudaram as feições. Entretanto, de vez em quando levo um susto com homens e mulheres que de repente, me abraçam na rua, sem que eu os reconheça... foram alunos meus há mais de 40 anos...
Amandaba era um lugarejo muito pobre, mas bem povoado. A população se dedicava à lavoura de café, algodão, granja e horticultura. No bairro distante uns 500 metros da Escola, havia umas casas de comércio, como a Venda do seu Adelar Gualberto Junqueira, do seu Manuel Português, do seu Alaby, o Bar do seu Kanamaru, o Açougue do Zezão... um campinho de bocha e uma capela construída pelo Padre Epifânio Ibanez, que existe até hoje. Havia e ainda está lá a pracinha. Havia também a extensão do Cartório de Registro Civil.
Amandaba tinha sido a precursora da cidade de Mirandópolis, com comércio forte e muitos lavradores que se dedicavam ao cultivo do café. Sua população chegou a superar à de Mirandópolis. A estação ferroviária denominada Machado de Mello, hoje totalmente abandonada, já foi palco de embarque de milhares de sacas de café produzidos nas fazendas do Lourencinho, do Lourenção, dos Pinhatta, dos Gottardi , dos Sugimoto e Hattori para o Porto de Santos. Tudo acabou com a crise do café.
No período que lá atuei, entre 1966 e 1976, já estava em decadência, mas havia uns remanescentes dos imigrantes japoneses, como os Ohi, Sekine, Sugimoto, Hattori, Shirakawa, os Kanamaru, alguns dos quais ainda permanecem lá.
Lembro que da linhagem Brito havia várias famílias, com numerosas crianças, muito arteiras e briguentas. Certa vez, uma professora não aguentou e deu uma reguada num dos moleques. No dia seguinte, os moleques anunciaram que viriam “Sete mulheres Brito para bater na professora”, que era pequenininha. E uma das colegas disse para a molecada: “Pode vir quente, que estamos fervendo” Era o tempo de Roberto Carlos, e suas lindas músicas...
Lembro-me do Natal Brito que tinha deficiência numa das pernas. Era tão arteiro, que um dia quebrou o braço. Sua mãe foi à escola pedir que o olhasse com atenção, por causa do braço quebrado. Durante o Recreio, eu o localizei batendo num coleguinha com o braço engessado...
Lembro-me de um garotão moreno, bonito, de dentes perfeitos, que um dia, ao ganhar a caneta esferográfica da Caixa Escolar (usava-se caneta só na 2ª série), ficou tão encantado, que rabiscou o próprio corpo, desenhando figuras até no rosto. Quando dei fé, lhe perguntei: “Samuel, você é índio? Índio é que se pinta assim.” E ele : “Sou, dona Kimie, minha avó foi pega no laço!”
Lembro também que ao iniciar o ano, sempre pedia para as crianças levarem a Certidão de Nascimento, para conferir os nomes e as datas de nascimento. Aproveitava para compor a história do próprio aluno, fazendo a ficha de identificação, com o nome, data de nascimento, sexo, filiação e lhes ensinava em Estudos Sociais, que cada indivíduo tinha sua história própria. A certa altura, descobri que um garoto tinha sido registrado como de sexo feminino. Chamei o pai e, lhe expliquei que teria que corrigir a certidão no Cartório. O pai sem recursos não conseguiria pagar e, então nós os professores nos cotizamos e pagamos a correção. Era um dos filhos do Lió, que hoje toca um Restaurante famoso no bairro.
Outra vez, uma das colegas resolveu fazer uma Feirinha de Ciências. E ela pediu aos meninos, entre outras coisas que levassem os diferentes ovos que conheciam.
A molecada se agitou e apareceu até com ovos moles de lagartixas... Quando ela lhes perguntou onde haviam conseguido, disseram que haviam espremido lagartixas...
Ainda lembro de três irmãos, acho que eram Fátima, Antonio e José que subiam na passagem de nível de trem, e ficavam espiando os carros de professores que passavam embaixo. Certa feita, ficaram olhando para nós e abanando a mão, distraídos e nós do carro gritando para que eles saíssem de cima dos trilhos, que o trem já vinha ali na curva. Foi por pouco que escaparam...
         Tínhamos classes lotadas de trinta alunos para mais, e era um barulho só. Havia classes no período da manhã e no período da tarde. As classes de 5ª a 8ª séries só foram instaladas em 1976 e funcionavam no período noturno.
As crianças eram muito pobres, e precisavam da ajuda da Caixa Escolar. Com a ajuda dos fazendeiros locais fazíamos um churrasco para engordar a Caixa, que precisava atender à maioria das crianças. Na primeira vez que fizemos essa promoção, um pai de aluno foi lá buscar a mesa que ele havia comprado. Na sua inocência, achou que poderia levá-la para casa. Custou para ele entender que a venda era simbólica...

Havia uma merenda pobre, porque o Estado não investia na alimentação das crianças. A molecada tinha birra da sopa de fubá com folhas de almeirão. Diziam: “Não sou filhote de louro prá comer papa de fubá!” Isso deixava a dona Maria merendeira muito aborrecida. Na hora do Recreio, o pátio ficava lotado de crianças, e o diretor Abrão tinha o costume de circular entre as crianças, ensinando-lhes a segurar a colher para tomar a sopa. Era muito, muito carinhoso.
Os serventes eram o senhor Alceu Ribeiro e seu Tonico Marques. O Tonico era meio birrento, mas o Alceu era pau para toda obra. Estava sempre contente e bem disposto a servir.
Assim era o Grupo Escolar de Amandaba. retirado do Bairro, onde os moleques se esbaldavam, brincavam de ciranda, de queima, de bola, de burquinha, de pega-pega e, aprendiam a ler, escrever e calcular. Assim, brincando, brincando, amadureceram e se tornaram cidadãos. Nessa escolinha rural, sem nenhum recurso, passaram tantos jovens que se tornaram trabalhadores e, estão espalhados por esse Brasil afora.
O Grupo Escolar de Amandaba tem um tesouro que outras escolas da cidade não possuem. São as dezenas de árvores, onde cantam pássaros de toda espécie.
Hoje, quase não há mais alunos, mas as árvores lá estão e os passarinhos também. Passar uma tarde nos bancos sob as árvores é um regalo, uma bênção de Deus...
E aí está, Lourdinha minha amiga, a história do nosso cantinho sagrado chamado Grupo Escolar de Amandaba.

Mirandópolis, março de 2013.
kimie oku in crônicas de kimie.blogspot.com