sexta-feira, 18 de outubro de 2013

         Jardim de Epitáfios

           Para compor a crônica “A nossa Praça”, passei umas horas no Jardim observando as árvores, as sombras, os passantes e os bancos.  Ao ler as inscrições desses bancos, percebi que aí estava o relato de nossa História. Armada de curiosidade histórica e muita paciência, fui fotografando cada banco, porque o tempo está apagando as letras.
         Consegui enumerar oitenta e nove bancos na parte interna e quarenta e nove na calçada externa, incluindo a da frente da Igreja. Desse total, constatei que há cerca dezenove sem identificação, porque o sol, a chuva e o vento foram apagando os letreiros. Os bancos mais recentes foram pintados levemente, e o granito  não absorveu as tintas... Mesmo assim, todos eles ainda têm sua utilidade.
         Como contei na crônica anterior “A nossa Praça” tem mais de sessenta anos e, muita coisa mudou nesse período. Mas o registro do começo da cidade está lá. Senão vejamos, lá está o busto do fundador Manuel Alves de Ataíde. E nos bancos os nomes de cidadãos que, de várias formas contribuíram para o desenvolvimento do lugar. Percebi que essas inscrições não passam de epitáfios de gente, que já partiu.
         Por que Epitáfios?
      Epitáfios são inscrições feitas nas tumbas, onde repousam as pessoas que já deixaram esse mundo. Geralmente procura-se enaltecer a pessoa que ali repousa, ou são mensagens para confortar os familiares. E nos bancos está gravada para a posteridade, a ocupação de cada doador.
    Lendo esses epitáfios, fiz uma viagem imaginária ao passado, e acabei organizando o que segue:

         Os primeiros aventureiros que chegaram foram abrindo a mata, e construindo suas casas usando a madeira, que a floresta oferecia de graça. O senhor Elídio Ramires que veio para cá na década de quarenta, disse em seu Relato sobre a História de Mirandópolis, que naquela época só se ouvia o martelar dos trabalhadores erguendo suas casas, dias seguidos.
         Mas, por que esse afã todo? É que estava sendo aberta uma estrada de ferro mata adentro, em direção a Mato Grosso, que posteriormente ligaria o Brasil com a Bolívia.
      Estrada de ferro e trens eram sinônimos de progresso, pois faziam a ligação quase impossível de lugares perdidos pelos sertões do Brasil. Os trens serviam de meios de locomoção  para pessoas e, transporte de mercadorias e produções agrícolas e,  ainda, ligavam cidades com cidades.  E o traçado da ferrovia passaria exatamente por aqui, onde seria construída uma Estação Ferroviária.
      De repente, o local se encheu de gente que veio de várias partes, notadamente do Norte do país. E o seu fundador, o baiano Manuel Ataíde percebeu que, seria um bom negócio lotear os seus cinquenta alqueires, que possuía no local. Assim fez e ganhou muito dinheiro, ficando poderoso a ponto de autodenominar-se Coronel.
     Como todos precisavam de tábuas para construir suas casas, a primeira indústria que se instalou foi a das serrarias: a Serraria São João de Emílio Menzel e a Serraria Jesus Sociedade Anônima de Belmiro de Jesus. Seu Belmiro era um homem muito ousado, e construiu uma viela de casas de madeira, logo ali beirando a ferrovia, indo para o Bairro Sampaio. Ainda remanescem algumas casas daquela época. Alguém me disse certa vez que, as casas eram todas bem feitas e, a vila toda lembrava aqueles vilarejos, que apareciam nos filmes do faroeste americano. Seu Belmiro que possuía um avião, para suas locomoções mais urgentes, fundou o Aeroclube de Mirandópolis, em 1945.  
         
       Outra Serraria foi a Tirolesa de Sailer e Zanon, que funcionou por trinta e seis anos, servindo a comunidade com tábuas e derivados de madeira, inclusive pó de serra, que foi bastante utilizado como combustível nos fogões antigos. Essas serrarias exportavam as tábuas para outras regiões, e o meio de transporte foram os trens de carga, passando a ser por caminhões quando a Estação parou de funcionar. Também prosperou a Indústria de móveis de madeira nessa época, móveis que eram necessárias para abastecer as famílias que não paravam de chegar. Marcou época também a Fábrica de Móveis Cristal de Crevelaro e Ramires, e a Miramar Móveis de Walter Puosso.
       Por essa época, a cidade recebeu eletrificação da Empresa Elétrica de Itapura.  A chegada da eletricidade acelerou o progresso.
      Mas, um dia, a floresta acabou,  mesmo porque foi devastada para as plantações de cafezais e pastagens, e as Serrarias encerraram suas atividades. Como as construções eram necessárias, surgiram as olarias que fabricavam tijolos e telhas de barro. O senhor Otaviano de Oliveira teve uma Olaria muito providencial, que serviu a comunidade por bom tempo. A família Aoki também teve uma Olaria no Bairro Santa Lina. Além das olarias, havia também fábrica de ladrilhos e mosaicos, como a do senhor Vitório Burato.
    Mas, as grandes empresas foram engolindo essas pequenas fábricas, que acabaram desaparecendo. Com muitos forasteiros chegando, alguns cidadãos resolveram abrir Hotéis para dar pousada, assim surgiam o Hotel Luzitano, o Hotel Central e o Hotel São Paulo.
       Lojas de calçados também foram abertas como as Casas Marajá, e a Ideal Calçados que chegou a abrir uma fábrica de sapatos.
    Também surgiram as padarias para alimentar o povo: Padaria São João dos Irmãos Ramires e a Padaria Central de Pedro Zuin. O local foi crescendo rapidamente e atraindo mais gente. Já havia a Farmácia São Luiz de Delfino da Silveira Pinto e aí o senhor Silvino Espírito Santo abriu a Farmácia São José. Então, começaram a vir médicos também, dos quais o Doutor Edgar Raimundo da Costa viria ajudar muito no desenvolvimento do município, como Médico e como político muito influente, pois era compadre do Governador do Estado, Adhemar de Barros. Doutor Hermes Bruzadin foi Médico designado para atuar na Companhia Ferroviária Noroeste do Brasil. Imigrantes japoneses que moravam no Bairro do Quilômetro 50 se transferiram para cá, quando os trens passaram a circular. E a Avenida Rafael Pereira era quase toda de comerciantes japoneses, que se ocuparam de bares e bazares.  Na rua Floresta, atual Gentil Moreira, havia a Casa das Máquinas de Nishizawa e Furuhashi, imagino que deviam vender máquinas de costura. Mais tarde, surgiria a AgênciaVigorelli da família Galvani, que também vendia máquinas de costura.
      
     Muitas lojas de tecidos e armarinhos surgiram como A casa Síria, as Casas Jaraguá, as Pernambucanas, a Casa dos Irmãos Omar, a Casa Santa Glória, que além dos tecidos vendia mantimentos e ferramentas agrícolas, concorrendo com a Casa Moreira, que era um Armazém de Secos e Molhados. Os armazéns, ou vendas como eram conhecidos, fiavam as contas dos fregueses, que pagavam na safra ou colheita de café.           Então, o comerciante sofria junto com o lavrador, quando a estiagem durava muito, ou quando não parava de chover. É que toda a movimentação da cidade e seu comércio vinham dos trabalhadores rurais. Aos sábados, o movimento era grande e a cidade ficava muito agitada.
       Nos anos cinquenta havia muita produção de café, que foi uma alavanca para a economia do país. Todos plantavam café, pois o produto exportado dava boa renda. Então, surgiram as Máquinas de beneficiar café como a Comercial Perez, a Máquina 3M da família Marcos, e outras que beneficiavam também arroz e outros cereais, como a Máquina Confiança de Paulo da Silva Leister, Máquina Brasil de Fulgêncio Parra Sanches, a Máquina dos Wada, e mais tarde o Arroz Urubupungá de Hiromichi Ota e o Arroz Minari, que foi um dos mais importantes beneficiadores e revendedores de arroz na região.
         Açougues também passaram a vender partes de animais abatidos como o Açougue São João de José Melo Rodrigues e, o  o Açougue Paulista de Carmo Travain.
         Na era de ouro do café, aqui se instalaram muitas agências financeiras como o Banco América do Sul, o Banco Noroeste do Estado de São Paulo, o Banco do Brasil e o Banco Financial de Mato Grosso. Mas a crise do café também afetou Mirandópolis. Os lavradores deixaram suas lavouras e começou o êxodo rural, inchando a cidade com  mão de obra barata e disponível, mas sem emprego. As Financeiras que resistiram às crises econômicas do país foram o Banco do Brasil, a Caixa Federal,  o Bradesco e o Banco do Estado de São Paulo que foi encampado pelo Santander.
        Já havia um cinema na cidade, o Cine São João de João Ferratone e mais tarde, o Cine e Teatro São Jorge da Família Nars. Havia um Clube Social, o Bandeirantes Atlético Clube, que mais tarde seria o Clube Atlético Mirandópolis.
       
     E de repente, a cidade começou a se encher de veículos motorizados, deixando de lado as charretes e as carroças. Também existiu uma Empresa de ônibus da Família Caleme, que fazia a ligação entre os diferentes bairros rurais do município, transportando a população. Acompanhando a mudança,  surgiram agências de venda de carros como a Chevrolet, a Volkswagen, e  revendedoras de auto peças e oficinas para reparos nos automóveis e caminhões, como a Oficina Amikura, a Grassi, a Volkswagen, e Ferrarias como a do senhor Shimada e dos Tanikawa. Com a chegada dos automotores, Auto-escolas também entraram no mercado e Empresas Transportadoras de mercadorias e de produtos hortifrutigranjeiros, como a Transportadora Nomizo e a Noroeste Transportadora.
         É preciso registrar a presença de duas Óticas, a Kawasaki e a Tietê de Takaomi Ijichi, que atuam há décadas no local.
         Com o passar dos anos, foram instalados Grupos Escolares, e mais tarde o Ginásio; a Igreja já estava pronta e a Praça também, com todos esses bancos conservando os nomes de seus benfeitores.  Há três bancos de atividade inusitada de estudantes da época.  São bancos com a inscrição GLERCA – Grêmio Literário Esportivo e Recreativo Castro Alves, fundado por jovens estudantes da Escola de Comércio de Mirandópolis. Também, é necessário registrar a Campanha desenvolvida pelo Rotary Clube local nas campanhas de agasalho, que ficou atestada nos bancos que legou à Praça.
       
      Para encerrar esse breve resumo de nossa História, ficam os registros das passagens de vários cidadãos benfeitores como: Antônio José Orsi Falleiros, Antônio Duenhas Monreal, Geraldo Delay, João Chalita Nars, Domingos Terensi, Eleotério Sanches,  Francisco Idalgo Filho, Gerônimo Micoto, João Américo de Godoy, João lopes Bibanco, Osamu Sato, João Rabello, Kluk Magri, Mohamed Zogbi, Massaru Sueta, Antenor Nepomuceno, Otaviano Oliveira, Vasco de Lucchi e Família Zanata.
         Resta citar ainda os Prefeitos juntamente com esses honrados cidadãos, que se empenharam em transformar um vilarejo perdido no meio de uma imensa floresta bruta, em uma cidade progressista que é a nossa cidade de hoje. Os honoráveis prefeitos que legram seus feitos e nomes para a posteridade foram Dr. Osvaldo Brandi Faria, Alcino Nogueira de Sylos e Geraldo da Silva Braga.  E assim, usando só as inscrições dos bancos do Jardim e, consultando o livro “Mirandópolis, sua evolução no século XX” de  Dr. Alcides Falleiros, consegui fazer um breve resumo da nossa História.

    E foi muito bom conhecer os feitos desses cidadãos, que deixaram seus nomes e feitos para a posteridade. O conforto que usufruimos hoje, como energia elétrica, ruas asfaltadas, estradas abertas para outros locais, pontes sobre rios, água encanada, esgoto, tudo isso foi fruto do trabalho desses cidadãos que não desistiram, e pouco aproveitaram devido à brevidade da vida.
        Cabe a nós, pois, continuar a obra deles, melhorando mais e mais as condições dessa nossa querida Mirandópolis, para as gerações que virão.
        
         Legenda de Fotos
1.        A fonte abandonada
2.      Sailer e Zanon
3.      Mosaicos de Vitório Burato
4.     Casa Estrela – Terensi e Franco
5.      Cia. Elétrica Itapura
6.      Dr. Edgar Raimundo da Costa
7.      Casas Jaraguá
8.      Empresa de ônibus Caleme
9.      Banco América do Sul
10.   GLERCA
11.     Dr. Osvaldo Brandi Faria

         Mirandópolis, outubro de 2013.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/       

domingo, 13 de outubro de 2013



          A nossa Praça

    Temos em nossa pequena cidade três pontos que definem e a diferenciam das demais cidades. São a Igreja, a Estação Ferroviária e a Praça Manuel Alves de Ataíde.
         A Igreja São João Batista, obra do padre Epifânio Ibañez, de tão bela foi cantada por muita gente. A paixão por essa obra em estilo colonial brasileiro é unanimidade entre todos os que a conhecem.
         A Estação Ferroviária decadente, abandonada às traças já foi também assunto de muitas crônicas e bate papos de amigos.        
         A Praça Manuel Alves de Ataíde já foi a menina dos olhos dos moradores. Já foi. Tinha uma fonte luminosa, cujos esguichos d’água seguiam o ritmo da música, que era tocada nos finais de semana. Era um espetáculo de encher os olhos, porque as luzes iam se alternando em várias cores. Não sei por que, nem quando pararam com esse show. Era muito bonito e as músicas tornavam a praça viva, e atraía casais de namorados, que se assentavam nos bancos de granito e passavam horas agradáveis, apreciando o show das águas e conversando com outras pessoas, que lá iam passear.
       Como em frente havia o Cine São Jorge, todos os jovens tinham o hábito de ficar zanzando na Praça, paquerando as meninas à espera da hora dos filmes. Era o “footing”.

         E como do outro lado há a Igreja, alguns jovens ficavam esperando as moças saírem da missa, para paquerá-las ou marcar encontros, que muitas vezes terminavam em namoros, noivados e casamentos (religiosamente, nessa ordem). Foi assim que ocorreu com a maioria dos casais, que constituíram famílias. Assim foi com a nossa geração.
      Mas, a Praça tem uma história.
         Na década de 30, quando começou o povoado de São João da Saudade, denominação dada pelo fundador Manuel Ataíde em 24 de junho de 1934, tudo aqui era uma grande floresta, onde começaram a chegar forasteiros, em busca de um bom lugar para morar.
     Essa procura era em razão de, estar sendo construída uma linha ferroviária mata adentro, em direção a Mato Grosso, que posteriormente faria ligação de Brasil a Bolívia.
         Nessa época, o vilarejo se resumia a algumas casinhas feitas de madeira, retirada da mata que havia ao redor. Essa floresta densa e fechada tinha sido a morada natural dos índios caingangues, que os primeiros exploradores expulsaram para outras regiões.  Mas, ainda era habitada por onças e outros animais selvagens.

                  Com a certeza de que o progresso chegaria rápido à região, muitos aventureiros vieram para cá e a vila foi crescendo rapidamente.  O baiano Ataíde, que foi o fundador da cidade, percebendo que aqui haveria uma boa fonte de renda, loteou os cinquenta alqueires de terra, que havia adquirido e os vendeu a pessoas que estavam chegando. Por essa época, já a população local estava empenhada em construir uma Igreja, que pudesse abrigar todos os fiéis, uma vez que a pequena capela de madeira já se tornara insuficiente.  E a instâncias das autoridades locais, Ataíde concordou em doar o lote de terra em frente à Igreja, que estava sendo construída, para se construir uma Praça. Impôs uma condição: só doaria o terreno de escritura passada, se a Praça tivesse seu nome. Mas...
    
   Em 1945, o jovem mirandopolense Rafael Pereira, que fora convocado pela Força Expedicionária Brasileira, não voltou dos campos de batalha da Europa. Fora enterrado no Cemitério de Pistóia, na Itália. E os políticos locais, quiseram homenageá-lo denominando a praça de Praça dos Expedicionários, pois uma Lei do Getúlio proibia a prestação de homenagens a pessoas vivas ou mortas, dando seus nomes a logradouros públicos.

         Tudo isso levou a um impasse, porque o fundador Ataíde não aceitava outra opção que dar o seu nome à Praça.  As negociações ficaram paradas um bom tempo. E foi aí que, os Vereadores Savero Tramonte e Alcides Falleiros apresentaram um projeto de lei, que resolveria de vez a questão. De acordo com os termos desse projeto, a Praça ficaria com o nome de Manuel Alves de Ataíde, como justa homenagem por ser o fundador da cidade; e o nome Rafael Pereira seria dado à principal via pública da cidade, que era conhecida como Avenida Internacional. E assim se fez, e permanece até hoje. Isso ocorreu em outubro de 1948.
         Sobre a construção da praça e seu ajardinamento, o livro do Dr. Alcides não faz referências, mas podemos dizer que foi no início dos anos cinquenta, Há fotografias da praça ainda acanhada, quando as obras da Igreja estavam em fase de conclusão, lá pelos meados de 1953.

     
    Houve uma época em que os Prefeitos de partidos políticos diferentes, que se alternaram no comando do município, sem razão aparente, reformavam a praça, dando uma visão diferente da que o Prefeito anterior havia feito. Acho que queriam apagar a memória do outro. Mas, ao longo dos anos, a praça foi ficando bonita, com dezenas de árvores crescendo e fornecendo boas sombras aos passantes, que volta e meia descansavam nos bancos de granito.  E bem no centro, foi construída a belíssima fonte luminosa.
         Além da fonte foi construído um palanque, onde se apresentava a Banda Marcial do Maestro Pavesi, para animar os finais de semana. Sob o palanque foram instalados sanitários, que ficaram ultrapassados, devido aos estragos por má conservação. Recentemente, a Prefeitura instalou novos sanitários.
         A foto colorida de 2003 passou a ser o comprovante de bons tempos da praça, quando havia água na fonte, onde nadavam belos espécimes de peixes e tartarugas, e aliviava a sede de pássaros que vinham pousar nas árvores.
         Mas, nos últimos dez anos, a praça ficou esquecida pela administração pública, não se sabe por quê. Árvores velhas não estão sendo podadas, os canteiros não têm mais flores nem gramíneas, e a varrição contínua debaixo das árvores está assoreando o solo, pondo grandes raízes à mostra.  Com o ato contínuo da varrição, há o perigo das árvores tombarem... A fonte secou, não há peixes mais e, nem água para os pássaros. Não há mais esguichos de água, não há mais música... tudo se perdeu com o passar do tempo e, o nosso cartão postal florido passou a ser a prova contundente da administração relapsa. Muitas pedras portuguesas se soltaram do calçamento e se perderam ao longo dessa década.
         É lastimável.
         Todos os moradores lamentam o estado do nosso lindo Jardim. Esperemos que a nova administração volte os olhos para a nossa antiga Praça, para que possamos cantar de novo com o Chico Buarque:
         “... a mesma praça, o mesmo banco,
         as mesmas flores, o mesmo jardim.”
        
         Um Jardim sem flores não tem sentido.  
          E sonhar não é pecado.

         Mirandópolis, outubro de 2013.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/



sábado, 12 de outubro de 2013



                                     Bombas
    Quando Marta deu à luz a São João Batista, seu esposo fez uma grande fogueira e muito barulho, para comemorar o nascimento do filho. E, conforme o combinado, Maria prima de Marta e futura mãe de Jesus, por esses sinais compreendeu que a criança havia nascido e foi visitá-los
      Essa história bíblica, de alguma forma estabeleceu o costume de comemorar o dia de São João com fogueiras. Até aí tudo bem.
           Acredito, porém que naquela data remota, nenhuma bomba, foguete ou rojão foi explodido, mesmo porque nem existiam. Penso que o barulho no máximo, pode ter sido provocado pelo rufar de tambores tan, tan, tan... que era o meio de comunicação mais usual,  provavelmente.
            Então, por que a bomba?
        Bomba, ou rojão ou foguete é um artefato explosivo, ou engenho de propulsão, acionado pela expulsão de gases, produzidos pela combustão de materiais explosivos; ou ainda uma peça de artifício pirotécnico, constituída por um cilindro cheio de pólvora. (Dicionário Michaellis )
     Artefato... explosivo... expulsão de gases... combustão de material explosivo...  cilindro cheio de pólvora... enfim, o que há de bom na bomba?
            Para que serve a bomba?
        Fazer bebês chorarem... ensurdecer pessoas... causar  choques cardíacos... apavorar cachorros...
       E mais, arrancar a mão e os olhos de muita gente que foi explodi-la, queimar cabelos e roupas de passantes, incendiar quarteirões inteiros quando pega fogo no depósito ou loja de fogos...
         Atualmente, qualquer cidadão que abre uma loja ou faz uma promoção especial de vendas, se acha no direito de perturbar a população pacífica da cidade, com o ribombar dos rojões e mais rojões.
           Por que fazem isso?
           Falta de criatividade, de cérebro, de inteligência.
         Não percebem que as bombas agridem os ouvidos, e ninguém, ninguém fica feliz ao ouvi-las, a não ser o fabricante e o vendedor das mesmas.
         Gostaria que observassem que as bombas afastam as pessoas e, quem as explode não pensa nem um pouco na poluição sonora violenta que provoca. E menos ainda na poluição do ar.
        Há tanta maneira mais inteligente de se anunciar um evento especial: Abriu uma loja? Vai fazer uma promoção? Saiu vitorioso na eleição? O seu time foi campeão? O Brasil ganhou na Copa? Contrate uma banda para cantar música boa na rua, na porta da loja, na avenida, distribua brindes, prêmios – é muito eficaz e inteligente. E é bonito de se ver.
      Mas, se você mesmo assim, prefere a bomba, solte rojões e rojões para anunciar suas novidades. Quem sabe, seus prováveis clientes e eleitores fiquem surdos de vez, tenham ataques cardíacos ou no mínimo, te odeiem para sempre, porque o cachorrinho de estimação chorou horas seguidas, e urinou pela casa toda...
         Quem disse que São João quer bombas no seu dia?
   Não é muito mais bonito apenas dançar em volta da fogueira e confraternizar-se ao som de uma boa sanfona?   
      Quem disse que Nossa Senhora Aparecida quer bombas em 12 de outubro? Santa que é santa quer silencio e recolhimento. Não concorda com aquele barulho todo agredindo as pessoas, causando mal estar na população, fazendo o sangue todo subir à cabeça e de repente, provocar aneurismas...
      Cidadão pensante, em nome da saúde da população, em nome do meio ambiente que está aí pedindo socorro, que tal esquecer a bomba?
     E no Dia 12 de Outubro, se você quer demonstrar sua fé, fique por dez minutos de mãos postas (sem rojões) e ore para que a Santa ilumine e proteja a nossa cidade. Bombas nunca mais!
        
         Mirandópolis, março de 2010.      
         kimie oku
          
         (Publicado novamente, para que a população desperte e pense um pouco)


quinta-feira, 10 de outubro de 2013



                               Além da imaginação
   Após escrever a crônica cheia de confissões “Eu sou duas”, uma ideia tem me intrigado bastante.
       Se não tivessem ocorrido crises de superpopulação no Japão, seguidas de falta de gêneros alimentícios para alimentá-la, papai não teria vindo ao Brasil e nem mamãe... A imigração japonesa em massa para cá não teria acontecido, e nem para outros países. Os japoneses teriam ficado confinados àquela pequena ilha no Pacífico, sofrendo todos os cataclismos naturais. Papai e mamãe teriam sobrevivido a eles? Teriam sobrevivido à Guerra da bomba atômica? Meu pai nascera em Hiroshima...
       Condições geológicas, restrições econômicas e sociais determinaram a saída de tantas famílias do Japão em busca de um futuro melhor. E assim, meus pais crianças ainda para cá vieram, fugindo de uma vida sem muita esperança. É verdade que encontraram o inimaginável em termos de adversidades, de trabalho duro e bruto, de falta de tudo, mas ninguém morreu de fome.
         E aqui, as linhas do destino cruzaram os caminhos de mamãe e papai e eu nasci, assim como todos os meus irmãos. E nascemos todos brasileiros. E desde então, temos vivido aqui, pelejando, sem saber ao certo se somos japoneses ou brasileiros. Os conterrâneos se referem a nós como “a kimie japonesa” ou “a japonesa” mesmo. Nunca ouvi “a kimie brasileira”. Então, tem momentos que a gente nem sabe se é de fato brasileira, porque aos olhos dos outros somos todos japoneses... Sobre essa questão não vejo problema de discriminação, pois ocorre naturalmente, sem segundas intenções.
     O problema de identidade é uma coisa nossa, do mais profundo do ser, pois carregamos os genes de ancestrais nipônicos, com características que definem os povos das Ilhas do Pacífico. Quem nos vê, logo enxerga um ser de origem oriental, mesmo tendo nascido aqui, criado raízes e ter absorvido completamente o “modus vivendi dos tupiniquins”.
        Essas características tendem a desaparecer com as misturas que vêm ocorrendo, de gerações de japoneses se cruzando com os brasileiros. Cada vez mais as diferenças estão desaparecendo, restando apenas uns olhos mais amendoados, uns cabelos mais lisos e escuros....
        O fato de haver essas miscigenações não me preocupa, pois acho natural e nem mais vivemos aqueles tempos difíceis de aversão a outras raças, como ocorreu no passado. Herança de velhos e arrogantes samurais.
     O que me faz dar tratos à bola é se não tivesse ocorrido a imigração, eu não existiria. Não estaria aqui escrevendo essas baboseiras, para encher a cabeça de meus leitores. Foram necessárias diversas condições extremas, para que houvesse a transferência de nipônicos para o Brasil; para mamãe e papai se encontrarem, para que eu passasse a existir. Acho isso uma coisa incrível. Como pequenas lascas que se separam dos rochedos e vão rolando por aí afora, assim foi a vida de meus genitores: se desprenderam de uma ilha e conduzidos pelas vagas do Pacífico, vieram parar aqui.
       E assim, passamos a existir, como brasileiros.
       Mas, se não tivesse ocorrido a imigração?  E meus pais tivessem se encontrado lá na pátria deles? Eu teria tido a bênção de ter nascido? Como teria sido a kimie totalmente japonesa? Seria delicada e cheia de protocolos como as mulheres originariamente japonesas?
       É claro que seria uma verdadeira japonesa vivendo todas as tradições, que eu tenho tanta curiosidade em conhecer. Seria professora também? O que pensaria?  Seria igualmente essa cabeça confusa, que se indaga milhares de vezes por dia? Qual seria a minha prioridade? Teria essa paixão pela cultura dos ancestrais, e estaria como agora estudando a língua japonesa? Acho que teria o privilégio de frequentar bibliotecas super abastecidas de livros dos tempos medievais, para conhecer a linhagem da minha família. Aqui não posso nem pesquisar sobre isso, por ter a minha história truncada, pois a origem ficou perdida lá do outro lado do mundo.
      Supondo-se que realmente tivesse nascido lá, não seria brasileira, não conheceria essa terra abençoada, com esse sol de 40 graus, que tanta inveja causa aos moradores de terras geladas...  Seria mais uma senhora japonesa preocupada com os tsunamis e os terremotos, que volta e meia assolam o país. Estaria totalmente embutida no “modus vivendi japonês”, e não possuiria essas incertezas, que me fazem indagar a mim mesma sempre: “Sou brasileira? Ou sou japonesa?”
       Seria apenas uma e não duas como me sinto todos os dias. Duas kimie em constante conflito, cada qual me empurrando para um lado. Uma, a brasileira querendo exercer o livre arbítrio e escrever tudo que me aflora à mente, e a outra a japonesa me cerceando a toda hora para ser mais discreta, rigorosa e muito mais respeitosa.
      Ah! Se fosse possível, gostaria de um dia experimentar ser uma kimie completamente japonesa em sentimentos, em atitudes, de corpo e alma. Amando a natureza como todos os japoneses amam - Após um terremoto arrasador, ter forças para reconstruir tudo de novo, mesmo sabendo que outros abalos sísmicos virão... Não desistindo nunca. Tendo a fortaleza do povo japonês, herança milenar.
        E ser por um dia, uma kimie totalmente brasileira, com cara de brasileira, sem nada para diferenciar dos demais e agir como uma verdadeira brasileira, sem restrições e autocontrole. Ser livre, agir impensadamente, falar o que der na telha, não pensar muito nas consequências e ser movida apenas pelo impulso... Seria livre, sem amarras e provaria um pouco da felicidade de nascer num país tropical, com uma cultura nova de quinhentos anos, que não restringe quase nada.
         Esquisito pensar assim?
        É que ninguém sabe da dor de ser duas pessoas totalmente diferentes num corpo só. E sonhar não faz mal pra ninguém, né?

        Mirandópolis, outubro de 2013.

terça-feira, 8 de outubro de 2013


                            Eu sou duas

          Há em mim duas pessoas distintas: uma oriental, japonesa e uma ocidental, brasileira. Percebi isso pouco a pouco, ao escrever minhas crônicas. As duas são de alguma forma, antagônicas. Em conflito todos os dias.


           A kimie japonesa tem origem numa ilha perdida no Círculo de Fogo, chacoalhada todos os dias pelos vagalhões do Oceano Pacífico. Há milênios se formou o país, que se instalou num pequeno ponto do outro lado do mundo, Japão. E é exatamente aí que a minha história começou. É nesse lugar que os meus antepassados mais distantes descansam.
     A kimie ocidental nasceu aqui nos trópicos e não conhece neve, mas conhece o calor desta terra tupiniquim, que se estende aos abraços calorosos dos amigos compatriotas. Brasil é onde estou vivendo desde que nasci e convivendo com os irmãos brasileiros.
       A parte oriental me leva a estudar a cultura japonesa, os costumes e tradições, a História registrada, a complicada escrita em ideogramas cheios de traços, com significados profundos, que acredito não conseguir absorver totalmente, por mais que me empenhe. Estudo a língua de meus ancestrais há mais de vinte anos.     A parte ocidental me transformou em professora, e passei metade dessa vida pelejando com a educação, inventando formas de facilitar a compreensão dos discípulos. E há pouco, passei a escrever sobre coisas que me emocionam, que me incomodam, que atingem os corações de meus leitores. Prá dizer a verdade, sou feliz em poder divulgar minhas ideias, e constatar que muita gente concorda com o que eu penso. Alguns discordam é verdade, pois existe o livre arbítrio.
         A minha porção oriental deseja escrever também essas crônicas na língua materna, porque tem coisas que só consigo definir em japonês. Meus conhecimentos dessa língua, porém ainda são insuficientes para me aventurar a tanto. Enquanto isso, vou me abastecendo de cultura japonesa, pesquisando sobre expressões e palavreados que os japoneses usam na sua rotina diária.
          Se de um lado aprecio os poemas de Manuel Bandeira, Cora Coralina, João Cabral de Melo Neto, e os romances de Josué Montello e de Graciliano Ramos, por outro fico fascinada com os poemas de Miyazawa Kenji, e com as biografias de heróis como Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi , Tokugawa Ieyassu, Noguchi Hideyo e Higuchi Ichiyo.
         Se aprecio o Guarani de Carlos Gomes e a música popular do Brasil desde Mílton Nascimento e Raul Seixas até as caipiras como Menino da Porteira e Chico Mineiro, por outro lado aprecio demais os enka, ou música popular japonesa, notadamente as antigas da Era Showa, cantadas por Minami  Haruo e Murata Hideo.  Aprecio muitíssimo o Teatro Butô, que é uma interpretação do mundo, através da expressão corporal. Vejo o Butô como uma variação fina e sofisticada da Capoeira, herdada dos africanos.
       Se os trajes ocidentais são adequados e confortáveis para o nosso clima, os quimonos japoneses são encantadores, feitos de seda com estampas maravilhosas, que parecem pinturas. É claro que essas vestimentas nunca poderiam ser adotadas nestes trópicos. Mesmo com a ocidentalização pós-guerra, os japoneses preservaram essa vestimenta, cuja origem remonta há dois mil anos.    O quimono é usado em cerimônias sociais, núpcias e outros eventos importantes quando o cerimonial é essencialmente à moda oriental.
         No Brasil, o instrumento musical que me impressiona fortemente é o berimbau, porque o seu toque exige uma coreografia, a capoeira que é sempre movimentada e positiva. Do Japão, o mais impressionante é o shakuhachi, ou uma flauta de bambu, que guarda em seu interior sons de arrepiar. O shakuhachi sempre me emociona fortemente. Ele toca o mais profundo de minha alma e desperta integralmente a minha porção oriental. Viro japonesa de verdade.
         Comida brasileira boa de fato é o arroz e o feijão de todo dia, além de uma boa feijoada, uma peixada... Do Japão curto o gohan ou arroz branco, sashimi, além da sopa de missô.
        

         Esses contrastes todos mostram a diferença de cultura de dois países, que existem exatamente em pontos opostos do planeta. E é  surpreendente que, duas culturas tão diversas tenham se misturado em nossos pais, os primeiros imigrantes que aqui chegaram. Foram cem anos de luta, de adversidades, de sofrimento, de incompreensão, de aproximação, de desentendimentos, de discriminação até chegarem à aculturação final, para todos viverem em paz.
         Com a aculturação, agora todos sabem o que é bom odori, sashimi, tsunami, yakissoba, ipon, okanê, happi, taikô, manju, kaikan, bachan, konnichiwa, kombanwa, sayonara, e mais umas dezenas de palavras que são faladas diariamente, misturadas ao linguajar português de cada dia. Por outro lado, os imigrantes idosos também aprenderam o significado do café, feijão, futebol, samba, salário, viagem, festa, pagamento, troco, compras, Banco e Hospital...
      Se sou apaixonada pela música instrumental de Kitaro, por outro lado tenho orgulho de ter vivido em tempos de Ayrton Senna, de ter o grande estadista Rui Barbosa como referência nacional.
        O mais impressionante para mim e que é motivo de reflexão constante é a diferença de comportamento dos japoneses e dos brasileiros em geral. Os brasileiros são alegres, expansivos, chegando a ser até exagerados em suas manifestações de dor, de emoção e de felicidade. Quando choram o fazem em altos brados, sem nenhum pudor, quando comemoram também o fazem escandalosamente, sem se preocuparem com o local e as pessoas presentes.
         Os japoneses são comedidos, seguram sua dor e seus sentimentos, porque foi assim que passaram de geração a geração, para não preocupar nem magoar as demais pessoas. Mesmo nas saudações formais não há toque físico, em sinal de profundo respeito ao outro.  Em geral toda saudação é feita apenas oralmente, sem um abraço, sem um aperto de mão, muito menos por beijos. Nós percebemos essa diferença, quando ocasionalmente aparecem comitivas do Japão aqui em nossa terra, Tudo é formal e respeitoso, mas um bocado frio e não cabe em nosso estilo de vida.
         Outra atitude bem diferente é em relação aos idosos. Sempre os mais idosos têm a atenção privilegiada das pessoas, não só para tomar assento, como prioridade numa fila de atendimento, sem que precise de regras e filas especiais, porque o natural é ceder lugar para eles, sem nenhum conflito. Isso faz parte da cultura milenar: Aos mais idosos, sempre a prioridade, acompanhada de atenção e gentilezas. Aqui foi preciso inventar uma lei, para que todos aprendessem a ceder a vez e o lugar para idosos, que não têm mais condições de esperar. Diferença gritante.
       Em relação à escrita, é tão fácil a brasileira porque o alfabeto  romano possui apenas vinte e seis símbolos ou letras, e com eles dá para escrever tudo, tudo mesmo. Por isso é muito prático escrever. Até consigo escrever essas crônicas a partir desse alfabeto tão limitado.
         Com relação aos ideogramas já a coisa é muito complicada. Mesmo lá no Japão, só uma parcela de pessoas domina todos os ideogramas. É muito difícil porque há mais de seis mil caracteres e o traçado deles tem uma ordem estabelecida. E cada caractere colocado em determinado contexto muda sua leitura e seu significado. Só que tiro o meu chapéu para quem inventou a língua chinesa, de onde foi retirada a japonesa, porque tudo tem uma razão e uma lógica incontestáveis. Como os ideogramas são muito apreciados, há concursos de caligrafia, em que os participantes escrevem com pincel ou fudê molhado em tinta de carvão mineral.
         Também gosto muito de escrever com fudê, e o faço diariamente. Isso é herança de meu pai, que gostava de traçar as letras com a ponta do dedo molhado em água, sobre a mesa enquanto esperava a refeição. E toda vez que traço um ideograma, meu pai vive em mim. E mantenho viva a tradição e a herança da família. Porque essa é a mais preciosa herança que recebi de meu pai.
         Viver com essas duas pessoas tão contrastantes é muito difícil.
        O eu oriental exige uma postura, uma fala, uma expressão mais severa, comedida, restrita. O eu brasileiro me libera para falar o que me incomoda e gritar o que me sufoca. Gosto demais de um abraço de amigos, de trocar ideias com todo mundo, de beijar minhas amigas queridas e meus familiares. Mas, o meu lado oriental me poda o tempo todo, para ser mais discreta e controlar as emoções.

        O eu brasileiro me faz escrever tudo que me incomoda, que me emociona e que me faz feliz. Mas, na revisão, a kimie japonesa tira uma expressão aqui, troca uma palavra ali e o texto perde a originalidade. Eu me lembro que um dia, uma amiga disse num desses cursos de professores, que por eu ser um tanto expansiva me considerava uma japonesa falsificada. Pode até ser verdade, porque não consigo ser totalmente japonesa e nem totalmente brasileira.
         É mole, gente?

         Mirandópolis, outubro de 2013.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/


terça-feira, 1 de outubro de 2013

É Primavera

   


                               É Primavera!
    A Primavera é a única estação do ano que nós brasileiros sentimos na pele. As demais estações são indefiníveis, porque tardam a chegar e, às vezes demoram para ir embora, como o Inverno deste ano que, se arranchou por aqui e se esqueceu de procurar outras paragens. Quando julgamos que o frio havia partido e guardamos as cobertas, lá vem ele de novo, com os ventos do sul. Invadindo sem cerimônia o tempo de Primavera.
          Mesmo o Verão chega rapidamente e, invade os meses reservados para o Outono, e o povo sofre com o calor e o suadouro, que, deixa todo mundo desconfortável. Parece até que o sol quer nos cozinhar! Verão por aqui é terrível. Quente demais!
         Com a Primavera é diferente. Os dias ficam luminosos, as tardes ficam longas como as sombras das árvores. E o perfume das flores invade casas e nossas narinas. Tudo fica florido, até os matinhos que teimam em nascer nas frestas das calçadas.

         Gosto de reparar como a natureza é insistente. Por mais que você tente arrancar os matinhos, quando chove os brotinhos verdes despontam nas brechas dos muros, nas fendas das calçadas, e um belo dia, lá estão florindo timidamente e, ostentando a beleza de suas flores, que ninguém repara... Assim acontece também com as ervas daninhas, como o picão, carrapicho e outras plantinhas que classificamos de daninhas, só porque possuem armas poderosas para se proliferarem em qualquer ambiente. Sim, porque o picão e o carrapicho se agarram nas roupas dos humanos, e nos pelos dos animais para se disseminarem, para garantirem a continuidade da espécie. É uma forma inteligente da Mãe Natureza. Mas incomodam os seres que tocam neles, porque pinicam e irritam a pele.
         Mas, voltando à Primavera, é um tempo de dias luminosos e tardes preguiçosas, cheios de chilreio de pássaros, de alados cruzando os ares e de cantorias sem fim. É tempo de acasalamento, de disputas das fêmeas disponíveis e machos brigando entre si. Também os humanos se rendem ao amor, e não raro cruzamos com jovens tão apaixonados, que não conseguem ver o que se passa em volta. Se perdem em abraços intermináveis e longos beijos, como se estivessem sorvendo o soro da vida. Esquecem-se de deveres, da família, de se alimentar direito, dos amigos, porque a vida se resume só naquela cara metade, que tem o poder de transformar o seu mundo num paraíso, só com um sorriso.
         Mistérios insondáveis do Amor.

       De setembro a dezembro curtimos um tempo agradável, nem muito quente, nem muito frio, com o sol aquecendo o solo e provocando o desabrochar de flores em todos os cantos. As borboletas coloridas não param de voar, executando um bailado sem fim sobre as ramagens floridas. Os arapuás ficam enlouquecidos com a fartura do mel.     Sobre os muros debruçam-se pendões de primaveras, num despropósito de beleza em cores. As acácias soltam os cachos de ouro como se fossem arandelas perfumadas, enfeitando ruas e jardins graciosamente. O mundo todo se veste de cores, cores quentes que atraem as abelhas, os beija-flores e as formigas sugadoras de mel.
         E quando vem a chuva mansa, o ar fica translúcido e se enche de perfume, mas não enfastia ninguém, porque a natureza é sábia e os perfumes são sempre suaves. As folhas perdem a opacidade provocada pela poeira, que se dissolve na chuva. As árvores ficam brilhantes, como se exibissem um traje de gala.
     Nessa época é impossível percorrer uns dez minutos sem topar com uma flor. Flor azul, rosa, vermelha, branca, amarela... Enfim flores de todas as cores do arco-íris. E a cada descoberta é um encantamento. Pelas cores, pelos perfumes, pelas delicadezas que elas exibem ao ar, sem nenhum pudor. Elas enfeitam o mundo de forma deslumbrante, de tal forma que é impossível deixar de pensar no Criador. Deus criou toda essa beleza.
        Toda vez que penso em criatura e Criador, lembro-me de uma história contada nas aulas de Catecismo. “Jesus Menino brincava com outras crianças. E brincavam com barro, moldando objetos. Então, Jesus fez uma borboleta de barro. Aí um garotinho disse: Também sei fazer isso! E fez uma borboleta igualzinha. Mas, Jesus soprou na sua obra e ela criou vida e saiu voando. E o menino soprou em vão na sua borboleta, e viu que havia algo misterioso aí.”    
         E assim é com todas as coisas criadas. O homem aperfeiçoa tudo e chega aos limites inimagináveis da criação, mas não consegue passar o sopro da vida. Faz robôs que substituem o homem em diversas tarefas, mas não consegue dar-lhes vida.
         Hoje, o interior das casas, das lojas e até o s cemitérios e igrejas estão enfeitados com vasos de flores lindíssimas, mas são todas artificiais. Não têm vida própria. Não germinaram, não nasceram, não cresceram, não se alimentaram de adubos e água e não passaram pela fotossíntese. São lindas, mas sem vida. Sem a essência do existir.
         Então, ao curtirmos esse tempo tão agradável de Primavera, vamos apreciar as flores, que são umas das mais perfeitas criações de Deus. E cultivá-las, se possível.
        
         Mirandópolis, setembro de 2013.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com