quinta-feira, 7 de novembro de 2013



                                Você é um gênio?
   Nós passamos a vida toda usufruindo de alguns benefícios, criados ou inventados por algumas pessoas geniais, que nos antecederam. E esses benefícios estão tão fortemente embutidos no nosso cotidiano, que não nos damos conta.
        Vejamos, pois.
     Ao amanhecer, todos invariavelmente se dirigem ao banheiro para o ritual das necessidades fisiológicas. Urinar e evacuar fazem parte desse ritual, não há escapatória. E se não houvesse o vaso sanitário? Ao escovar os dentes e lavar o rosto, que é fundamental para iniciar o dia, usamos a água. E se não houvesse água encanada?
        Ao tirar o pijama e vestir para sair, para trabalhar são necessárias as roupas. E se não houvesse trajes? E se não houvesse sapatos? E gravatas, e bolsas? E carteiras? E documentos? E dinheiro? E óculos?  E cremes? E desodorantes? E perfumes? E celulares?
        E para ir ao trabalho é preciso um meio de locomoção. E se não houvesse metrôs? E ônibus? E carros? E motocicletas? E bicicletas?
        E ao chegar à sede de trabalho é preciso guardar o carro ou a moto, ou a byke num lugar seguro. E se não houvesse estacionamento? E para se chegar (sempre meio atrasado) à sala do ofício ou ao Departamento, que fica no vigésimo andar, é preciso subir. E se não houvesse elevadores, escadas rolantes?
        E no exercício da função, surgem dúvidas que precisam de consulta ao chefe, que está em outro Departamento... E se não houvesse telefones, fax, e mail, internet? E para executar as tarefas do dia é preciso conferir com o plano ou projeto. E se não houvesse computador?
       
       E a hora do almoço é breve e não dá para comer em casa, que é longe. E se não houvesse esses “self service”? E não houvesse cervejinha em lata, e café expresso?
       E por aí vai... Há tanta coisa inventada pelo próprio homem, para facilitar o dia a dia de todos.
      Daí, pergunto eu: Você sabe quem inventou o vaso sanitário? Quem inventou a bicicleta? Quem fez a primeira motocicleta? Quem criou a máquina de costura? Quem inventou o semáforo? Quem criou o elevador? Quem inventou a penicilina? Quem? Quem? Quem?
        Pois é. A gente usufrui desses benefícios, e nunca se dá conta do que custou aos nossos antepassados, que sentiram a necessidade de se criar algo prático, para facilitar a vida de todos. E quem esquentou a cabeça, deu tratos à bola, tentou, errou mil vezes, persistiu, persistiu e chegou ao ponto ideal até “Eureka!” é algum gênio que nós ignoramos completamente.
        Essas pessoas inventoras não nasceram com uma estrela na testa, rotuladas de “GÊNIOS”. Eram pessoas tão comuns que passariam despercebidas, no meio da multidão. A diferença é que, elas tinham uma ideia na cabeça, como aquele Professor Pardal e Professor Ludovico dos antigos gibis de Walt Disney. Quando surgia uma ideia, eles ficavam encafifados, procurando um jeito de torná-la plausível. E vai pesquisa, e vai tentativa, e vai ensaio e erro e mais tentativas para concretizar o sonho. Muitas vezes levaram anos estudando, pensando, trocando ideias, procurando meios que ajudassem a resolver a questão.
        Fico imaginando o que passaria na cabeça de um inventor de  sinos de Igreja, que bimbalham lindamente. Devia ser músico para ter ideia tão brilhante.
        E quem pensou nas embalagens para transportar ovos, que são tão quebradiços? Daí foi aproveitada a mesma ideia, para embalagens de outros objetos delicados.       
        E quem inventou a partida por ignição de carros, motos e aviões. Antes disso, era preciso dar maniveladas no motor para pegar. E muita gente machucou o braço, quando o motor pegava e disparava.
        E quem inventou os lápis, o papel, os livros, os jornais. Antigamente, as tradições, histórias, lendas e contos de um povo eram transmitidos oralmente, de geração a geração. E não havia gravadores, nem rádio e menos ainda computadores. Havia a voz e a memória apenas....
        E quem inventou a penicilina, que revolucionou o mundo da Medicina, e salvou tanta gente no pós-guerra, e abriu caminho para os antibióticos, tão comuns hoje.
        E quem inventou muletas e bengalas e cadeiras de rodas, tão em moda hoje em dia.
        É realmente espantosa a capacidade criativa do homem. E nós todos temos uma dívida imensa a esses criadores anônimos, que tornaram nossa vida menos sofrida e mais fácil de viver.
       Se prestarmos atenção nos mínimos detalhes do nosso cotidiano, com certeza, ficaremos espantados de constatar que jamais teríamos o suficiente, para pagar os benefícios recebidos, a esses criadores.
       A escova de dentes, o fio dental, o papel higiênico, a cesta de lixo, os absorventes higiênicos (tão práticos e tão úteis!), o sabonete, a toalha, os chinelos, os pentes, as escovas, os secadores de cabelos..... 
       E na cozinha? O fogão a gás que substituiu o de lenha, que era tão difícil de pilotar, a geladeira, os jarros de água, os pratos, os talheres, os guardanapos, as panelas....
        E na área de serviço? A lavadora tão prática e eficiente! O sabão em pedra, em pó. Os amaciantes perfumados eliminando o cheiro de bolor, os prendedores de roupa, o varal. A secadora de roupas! O ferro elétrico que aposentou o de brasa, que queimava as peças com seus tições!
        Na verdade, é infinito o rol de benefícios que usufruímos hoje sem termos pago nada, absolutamente nada para quem os criou. Temos, pois uma grande dívida para com a humanidade. Todos dependem de todos e ninguém, ninguém pode viver confortavelmente sem essas regalias hoje em dia.
        Mas, ainda há muito para se inventar, criar em benefício de todos.
         E que tal você, que nunca pensou nessas coisas, começar a pensar num jeito de eliminar o lixo produzido por nós, de uma forma simples, correta e definitiva?
         Que tal pensar em criar uma alternativa para os carros e motos, que estão congestionando o mundo?
     Que tal descobrir um meio de parar os terremotos, os tsunamis e os furacões?
        Que tal inventar um aparelhinho caseiro prático e simples para transformar a água do mar em potável?
    E que tal, acima de tudo, descobrir uma forma de libertar de vez os dependentes químicos de drogas?
     Você não é um gênio? Use a massa cinzenta! Quem sabe sai uma ideia fantástica, que beneficie toda a humanidade.
        Somos todos dotados com a capacidade de criar.



        Mirandópolis, novembro de 2013.
        kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com..


       



quarta-feira, 6 de novembro de 2013



                               Vestibular: a difícil escolha

     A sociedade moderna estabeleceu algumas regras, que não dão margem a alternativas.
        O Vestibular para Cursos Universitários é uma delas. Nessa época do ano, os jovens adolescentes, que frequentam o terceiro ano do Segundo Grau ou o antigo Colegial, ficam meio alucinados à procura de Universidades, que ofereçam Cursos que atendam às suas aspirações. E tudo gira em torno de Universidades Federais, Estaduais, Unicamp, Uel, Unesp, porque oferecem Cursos gratuitos.
         Mas, conseguir uma vaga nessas escolas é concorrer com milhares de outros jovens com os mesmos sonhos e objetivos. E as vagas são mínimas para tanta gente. Então, o jeito é apelar para Cursos particulares mais baratos e mais acessíveis. E assim de um jeito ou outro, os jovens acabam se encaixando em Faculdades mais próximas, ou que ofereçam transporte via Prefeitura.
         Em geral, a escolha é equivocada. Mas, o jovem não percebe, porque é imaturo ainda, e não atinou que está escolhendo um trabalho para o resto de seus dias. Às vezes, foi na onda por influência de colegas, por mensalidades menores, por achar chic ser isso ou aquilo, porque ouviu seu ídolo comentar que gostaria de ter sido tal profissional. O jovem tem as antenas ligadas no mundo, mas se esquece de ouvir a voz do seu coração. E acaba fazendo escolhas erradas. E se transformam em profissionais medíocres,
         As mulheres de minha geração não tiveram escolha: ou seriam Domésticas ou Domésticas. Mas, graças à instalação da Escola Normal em Mirandópolis, tivemos a oportunidade de conseguir uma profissão, que nos encaminhou para a educação de crianças e jovens. E eu fui extremamente privilegiada, porque ser Professora era a minha aspiração maior. Mas, sei de gente que optou pela profissão por não haver alternativa, e nunca gostou do que fez durante os vinte e cinco anos de sua vida, E amargou a vida toda, reclamando dos alunos, dos Diretores, do salário, dos Governantes, dos Cursos de Atualização e pior que tudo isso, despejando seu mau humor nos alunos, que não conseguiam acompanhar suas lições.
         Registro isso aqui como um lamento, porque assisti a muitas cenas tristes de professores, que não deveriam ser professores. Foram anos de acompanhamento e observação ao longo do tempo, que atuei como Coordenadora Pedagógica e como Supervisora de Ensino. Era um círculo vicioso sem saída, onde quem mais sofria eram os alunos. Tive muitas vezes, imensa vontade de pedir ao professor que deixasse a profissão e, fosse vender sorvete na esquina. Em defesa dele próprio e do aluno.... Mas, nunca fiz isso.

   É verdade que encontrei muitos Professores fantásticos que, se transformavam em artistas para entender os alunos, e sentiam aquela empatia, sem a qual ninguém é capaz de entender alguém. Tive um colega de trabalho que, numa sexta-feira às vinte e três horas da noite era capaz de dizer aos alunos: “Meus jovens, vocês são os heróis do pedaço! Enquanto lá fora o povo dá essas gargalhadas no circo (havia Circo em frente à Escola!), vocês estão aqui nesse calorão, tentando construir o seu futuro! E tenham certeza que irão vencer, porque o estudo é o caminho!” E todos se tornaram bons cidadãos. E esse Professor hoje é respeitado por todos que tiveram o privilégio de tê-lo como Mestre.
         E outras Professoras alfabetizadoras, que condoídas com as dificuldades de alguns alunos, lhes proporcionavam aulas particulares em casa, sem cobrar nada! E muitos deles conseguiram vencer!  E outras que, usavam parte do salário para comprar material para os alunos carentes, que a Secretaria da Educação não oferecia recursos ainda.  Festas para as Mães, para os Pais, para as Crianças,  mimos para a Páscoa, para o Natal eram feitos com carinho, sem onerar as famílias. E ganhavam bem? Não, nunca o Professor foi bem pago, nunca a remuneração lhe proporcionou uma vida confortável. E não havia gratificações, nem horas-atividades pagas para trabalhos extracurriculares
         Meus amigos, me perdoem, acho que extrapolei. É que são lembranças que vão se desenrolando como os fios de um antigo novelo, guardado num cantinho da memória.  Um novelo que machuca muito só de tocar...
         Por que vim tocar nesse assunto? Ah! Em razão dos Vestibulares, que os jovens estão enfrentando.
         Mas, o que tem a ver a ver a escolha dos jovens profissionais do futuro com a minhas reminiscências dolorosas?
         Tem muito!
      Os jovens de dezessete, vinte, vinte e dois, até trinta anos  são pessoas na flor da idade, ávidos por conhecer o mundo, que não perceberam ainda a importância do trabalho para o homem. Estão descobrindo como é interessante a relação humana, o convívio com pessoas de outro sexo, as diversões que rondam dia e noite, tentando-os, sem tréguas... E eles vivem eufóricos, pois o mundo lhes oferece tanta coisa interessante. Diante dessas tentações, não sabem e nem conseguem discernir o que é fundamental e prioritário.
         E justamente nessa fase louca eles têm que fazer uma escolha. Escolha que os afetará para sempre. Têm que optar, têm que decidir com que se ocuparão nesse mundo de Deus.  Ser Astronauta? Cientista? Físico? Professor? Funcionário Público? Arquiteto? Guia Turístico? Farmacêutico? Químico? Jornalista? Hakker? Ator de novelas? Criador de gado? Político? Diplomata? Trabalhador braçal? Agente Penitenciário? Fisioterapeuta? Cabeleireiro? Cozinheiro?......

     Há tantas profissões e profissões. Só de olhar a lista dá um nó na cabeça. E o duro é que muitos pais por acharem os filhos imaturos, escolhem por eles e determinam o que serão: “Seja advogado, que ganha bastante dinheiro!” "Não seja Professor, que o governo não valoriza!”  “Seja Médico! É uma profissão respeitada!” “Você  gosta de falar muito, seja jornalista, que aparece na mídia!”  e por aí vai.... Tudo errado!
        Tenho experiência na família. Nenhum de meus filhos seguiu a profissão que escolheram, mesmo tendo sido escolha própria, sem influência dos pais. Estão atuando em áreas completamente diversas dos Cursos que fizeram. É certo que o Curso Superior lhes deu base e requisitos para o trabalho alternativo. Mas, se tivessem frequentado os Cursos adequados, os anos de Universidade teriam sido menos extenuantes e tristes. Muito sofrimento para escolhas erradas. Acharam o seu caminho após muita busca e peleja.
         Há outros exemplos de jovens desistindo dos Cursos escolhidos pelos pais, no meio da jornada universitária e que não estudaram mais nada. Enjoaram da vida acadêmica e carregam suas frustrações até hoje...
         E é por isso que hoje, vendo os jovens correrem de um lado para outro tentando se descobrir, fico penalizada imaginando quanto terão que sofrer ainda, para acharem o seu lugar certo nesse mundo.
           Porque uma escolha precipitada e mal feita tem como resultado maus profissionais, que só prestam desserviços à comunidade.
          Resulta em engenheiros que constroem pontes e casas que desabam antes de serem concluídas. Resulta em médicos que só atendem pacientes montados em grana, e mais ainda em cirurgias equivocadas, e mortes de gente que confiou neles... Resulta em professores sem a mínima vocação para ensinar, que maldizem o seu dia a dia, por odiarem o que fazem. Resulta em advogados que só pensam em depenar o cliente. Resulta em jornalistas de baixa categoria. Todos profissionais frustrados que, estão gastando seus dias fazendo o que mais odeiam fazer, e maltratando a humanidade e a si mesmos, diariamente, até o fim.
      Mal sabem eles que, estamos nesse mundo numa grande roda, numa Mandala onde todos são importantes. Cada membro contribui com o que de melhor possui ou sabe fazer, para em troca receber o melhor de outros. Que seria da fome de comida se não houvesse quem plantasse?  Que seria dos doentes se não houvesse médicos? Que seria dos desamparados se não houvesse assistência social? Que seria dos ignorantes se não houvesse professores?        
        Mas, para a roda girar direitinho é preciso que os membros sejam imbuídos das melhores intenções. Você oferece um ótimo serviço à humanidade e ela deve lhe retribuir com a mesma qualidade, senão a engrenagem emperra e a roda para de girar. Enfim, todos os profissionais são muito importantes e, cada um deve oferecer o melhor, para que haja uniformidade nesse gira mundo.
Para se evitar esses equívocos e desencontros seria necessário mudar o sistema. A Educação Universitária poderia oferecer um Curso Básico para a área de Humanas, outra para a área de Médicas, e uma outra para as Exatas. O jovem optaria por uma das áreas e  ao longo do Curso iria descobrindo suas aptidões, seus gostos e seus interesses. Após descobrir o seu verdadeiro caminho, cursaria Magistério, Engenharia, Medicina, Jornalismo, Diplomacia, Advocacia, Designer, Fisioterapia, e se especializaria na profissão enquanto faria estágios de prática.
    Assim com certeza, reduziria muito o número de maus profissionais e, principalmente os maus atendimentos.
         E bom vestibular para a moçada!

         Mirandópolis, novembro de 2013.
         kimie oku in
             

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sexta-feira, 1 de novembro de 2013


            Silvinha...

         Deixa saudade àqueles que com ela conviveram e, também, muitas e boas lembranças.
         “Lembro-me... quando ainda bem criança, que meus pais me levavam nas visitas que faziam à família Bonadio, naquela mesma casa com pequena varanda construída ao lado, ou anexa ao comércio de Secos e Molhados denominado Casa Bonadio, na saída para Lavínia.
         Lembro-me que adorava, pois lá morava a Silvinha, uma moça linda e que gostava de me encher de mimos e várias espécies de doces. Carregava-me no colo quase todo o tempo da duração da visita. Brincava comigo dizendo que eu era o seu namoradinho.
         Crescemos e devido à diferença de idades, os contatos foram diminuindo e nas nossas mudanças de vidas nos distanciamos, mas o carinho de um pelo outro nunca teve fim.
         O trabalho me levou para outras plagas e ela permaneceu em Mirandópolis, onde se formou professora, casou-se e constituiu com o também amigo Miguel Camacho, uma bonita família.
         Também me casei e constitui família. O meu retorno à cidade, em face de transferência de serviço do Banco Bradesco, onde eu trabalhava, proporcionou o nosso reencontro pessoal.
         Ela nos fez uma visita e me pediu um favor... que eu arrumasse emprego para um de seus filhos no Banco que eu trabalhava. Falei com o gerente da agência da cidade, que de prontidão acolheu nosso pedido e admitiu o rapaz. Ela me agradeceu muito e eu fiquei super feliz com o pequeno ato.
         Sempre alegre e carinhosa, Silvinha fazia questão de falar abertamente e a todos a seu redor, que um dia me carregara em seu colo. A última vez que assim o fez, foi na porta do salão de cabeleireiro de seu cunhado Crisovan, se não me engano na presença de uma de suas netas.
         Por DEUS, estava passando uns dias na casa de meu sogro em Mirandópolis, quando soube de seu falecimento. Foi com muita tristeza no coração, que fui ao velório de seu corpo, para ali, mentalmente, despedir de minha amiga querida e no meu adeus desejar muita luz à sua alma.
         Por ter sido uma bela pessoa, e que com sua bondade cativava a todos, indubitavelmente recebeu de Nosso Pai Todo Poderoso, uma recepção calorosa no portal dos céus e, na sua nova morada, certamente terá um bom lugar, para dar seqüência às suas boas ações”.
         Lissinho.
         15 de setembro de 2011 11:05
        
         Post scriptum:
                Papeando sobre uma foto antiga de Silvia Bonadio Camacho, um amigo me enviou a crônica acima, que achei digna de ser publicada. Ao lê-la, eu me emocionei e em troca o amigo leu “Tiau, baká!”, que publiquei em novembro de 2011.
               Lissinho é Ulisses Silva Lacerda, antigo morador de Mirandópolis, e atuou como funcionário do Bradesco, onde o seu pai  senhor Faria Lacerda foi Gerente, há décadas atrás. Atualmente, Ulisses mora em Santos com a família, mas tem muitos amigos por aqui. Ele como eu fomos amigos próximos de Sílvia.
           
            Mirandópolis, outubro de 2013.
         Kimie oku  in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

          Gente de fibra :
                Gilberto Ferreira

         
        Há uns dois anos, acabei me envolvendo com amigos sobre um projeto de registrar a história de Mirandópolis. E passei a escrever sobre fatos ocorridos no passado e, pessoas que foram importantes para o seu desenvolvimento.
        Constatei então que, há três pontos de referência, que caracterizam a cidade de Mirandópolis que são a bela Igreja Matriz São João Batista, obra do Padre Epifânio Ibañez, a Praça Manoel Alves de Ataíde que leva o nome de seu fundador e a Estação Ferroviária denominada Mirandópolis.
      E volta e meia, o assunto dos antigos moradores gira sobre esses três pontos: a Igreja, o Jardim e a Estação. É porque todos os que aqui moraram têm na lembrança algum fato ligado a esses lugares. O batismo, a primeira comunhão, o casamento na Igreja; o footing, o namoro, a passagem pela Praça a caminho da escola; e a espera de trens que chegavam e partiam da Estação.
       E não há um cidadão que não lamente o estado deplorável, em que se encontra a nossa antiga Estação Ferroviária. Já escrevi sobre ela e alguns amigos também o fizeram, mas, hoje quero contar a história de quem administrou a Estação por um bom tempo.
     
  O senhor Gilberto Ferreira é gente de fibra da semana.
    Gilberto nasceu em Aquidauana em Mato Grosso do Sul, em 1935 e lá morou e iniciou os estudos.
       Em 1950, mudou-se com a família para Miranda, em Mato Grosso do Sul também, onde começou a trabalhar como mensageiro na Estação Ferroviária local. Tinha apenas 15 anos de idade. Carregava a correspondência e aí teve contato com o telégrafo e o código Morse, que é uma linguagem cifrada com pontos, traços e sons. Conheceu o Telégrafo Espagnolete de duas teclas.
         A Estrada de Ferro era a Noroeste do Brasil que ligava Brasil a Bolívia. Após três meses, foi transferido para Água Clara já realizando todos os serviços de escritório. Nessa Estação havia cerca de dezessete funcionários. Prestou serviços aí até 1960.
         Quando era telegrafista ocorreu um problema, porque as ordens de cima eram que, as mensagens cifradas do telégrafo deveriam ser reproduzidas ao pé da letra, mesmo estando incorretas. Alguém mandara uma mensagem em que estava escrito “Monsinhor”, e seu Gilberto a reproduziu corretamente, escrevendo “Monsenhor”. Foi punido com um dia de suspensão, porque a mensagem enviada e a recebida não coincidiram... E um dia de suspensão pesava no currículo e na carreira do ferroviário. Regras antigas.
    Em dezembro de 1960 foi transferido como Telegrafista para a Estação de Valparaíso, no Estado de São Paulo. Havia onze funcionários, e aí permaneceu por apenas noventa dias.
       Foi remanejado para Andradina, como Responsável pelo Armazém de Cargas, onde permaneceu até março de 1962.   Armazém de Cargas era o depósito onde se guardavam os sacos de produção agrícola, antes de despachar para o destino final.
       Então, foi transferido como Chefe da Estação de Murutinga do Sul, onde ficou até 1972, quando a Estação foi fechada. A razão do encerramento de serviços da Estação foi a diminuição de passageiros e a crise do café, que abalou a economia do país.
       De Murutinga, onde concluiu os estudos até o 4º ano primário, foi nomeado Chefe da Estação de Andradina, onde trabalhou até 1977.
        E em 27 de julho de 1977 veio chefiar a Estação de Mirandópolis, onde atuou até a sua aposentadoria em abril de 1986. Em seu lugar ficou como Chefe da Estação o senhor Deoclides Maciel de Oliveira, que hoje mora em Três Lagoas.
        Como Chefe da Estação, seu Gilberto morou com a família que se compunha de sua esposa Romilda Azambuja, com quem se casara em Água Clara no ano de 1955, e com seus três filhos na casa anexa à Estação. Havia mais duas casas pequenas para outros funcionários. Era necessário pagar 8% do aluguel, mais a água e a luz consumida. O salário era razoável, havia uma pequena gratificação só pelos serviços noturnos. Mesmo trabalhando horas extras durante o dia, não recebia nenhuma gratificação. Para o Chefe havia uma pequena gratificação. 
   
 Enquanto a Ferrovia era da União, o uniforme era obrigatório e os funcionários tinham que comprá-lo. Quando passou a ser administrada pela Rede Ferroviária Federal S/A, composta de acionistas, o uniforme passou a ser fornecido pela empresa. O uniforme obrigatório compunha-se de sapatos pretos, camisa, calças, paletó e boné azul, sempre com a identificação da empresa bordada na lapela. Mais tarde, passou a ser boné vermelho com galões dourados.
    Mirandópolis possuía na época sete funcionários na Estação, para controlar a passagem dos trens. Diariamente passavam quatro trens passageiros: às 6,40 h. vinha de Corumbá MT para Bauru; às 10,30 h. de Três Lagoas MS para Bauru; às 8,40 h. de Bauru para Três Lagoas MS; e às 22,00 h. de Bauru a Corumbá MT. E havia ainda trens cargueiros.
     Quando os trens chegavam, a Estação fervia de gente que embarcava, que ia se despedir de quem partia ou ia receber os que chegavam. Muitas vezes, era difícil até para o Chefe se locomover na plataforma, por causa da multidão que ali se aglomerava. Parecia uma grande festa, porque ali aconteciam muitos encontros sociais. No pátio atrás da Estação, ficavam as charretes e os carros-táxi, para transportar os passageiros que chegavam para os seus destinos. Dos taxistas, seu Gilberto se lembra com saudades do seu Ohashi e seu Ishibashi.
       Quando seu Gilberto iniciou sua função aqui na Estação, o forte eram as sacarias de arroz, que chegavam para a Máquina de beneficiar dos Minari. Depois de descascado, era despachado para outros lugares, sempre através da ferrovia. Na época áurea do Arroz Minari, na esplanada enfileiravam-se cerca de cem vagões abarrotados de arroz. 
      Havia na época, o Viradouro que era uma extensão da linha férrea, ou desvio para as manobras das locomotivas, que seguiam sempre num sentido único. Esse Viradouro atravessava a Rua Rafael Pereira e, chegava às proximidades da Igreja Matriz, onde havia a Comercial Perez, que hoje abriga um Supermercado. Com o avanço da tecnologia e a criação de locomotivas que seguiam para frente e para trás, o Viradouro ficou inoperante, mas foi muito bem aproveitado pela Comercial Perez para despachar café beneficiado, e pela Serraria de seu Belmiro Jesus, que despachava tábuas serradas das toras retiradas da floresta local.
        Quanto aos trens passageiros, o seu Gilberto lembra que havia os trens comuns que se compunham de vagões de 1ª classe, com poltronas estofadas e de 2ª classe, com bancos de madeira. As passagens para a segunda classe eram mais baratas, e alguns passageiros levavam até animais. Havia ainda o carro-dormitório, que era bastante usado pelos passageiros que faziam longas viagens, como de Corumbá a Bauru, e vice-versa.

 Também houve o trem Litorina, que era um carro especial de luxo, com ar condicionado, que vinha de Araçatuba e seguia para Três Lagoas e vice-versa. O carro comportava quarenta passageiros e estava sempre lotado. A velocidade era maior, a setenta quilômetros por hora. Para o conforto dos passageiros, havia uma moça, que fazia o mesmo papel das comissárias de bordo dos aviões. Mas, os preços altos das passagens e a concorrência dos ônibus acabou por desativar as Litorinas.
    Seu Gilberto lembra de um acidente ocorrido em Água Clara. Esse acidente foi provocado por descuido do maquinista, que não obedeceu às regras impostas pela Ferrovia para a segurança geral. A velocidade dos trens era de apenas 55 quilômetros por hora, mas para não ocorrer problemas, as linhas eram controladas e só liberadas quando completamente sem tráfego no trecho. E isso era feito por bastões, onde estava escrito o nome da estação mais próxima, dando sinal de liberação. O staff era encarregado dessa função.
       Também havia bandeirinhas, que o staff mostrava para o maquinista do trem, que vinha chegando à Estação. A bandeira vermelha indicava que o trem deveria parar; a verde pedia marcha vagarosa e a branca para o trem prosseguir. Essas bandeiras eram usadas durante o dia. À noite, usava-se um lampião, com essas três cores padronizadas, com o mesmo  objetivo. Quando o trem partia, o maquinista tocava um sininho alertando os passageiros e os transeuntes, que o trem ia partir. E sempre partia em marcha lenta, que ia acelerando à medida que se afastava da Estação.
        Os trens passageiros pararam de circular na região por causa da concorrência dos ônibus, cujas linhas foram tomando conta do interior, à medida que estradas foram sendo abertas e asfaltadas. Os ônibus passavam em cidades retiradas para onde os trens não podiam ir, por falta de linhas férreas. E assim em 1995 os trens passageiros foram desativados. Em Mirandópolis hoje só passam os trens cargueiros, transportando combustível e maquinários. Só passam por Mirandópolis. A Estação foi desativada e a ferrovia é utilizada para os trens que se dirigem a Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bolívia.               
      Seu Gilberto lembra-se dos companheiros de trabalho: Seu Deoclides, Vital, João Torrente, Miguel Silva. Modesto...
     Hoje, seu Gilberto de 86 anos de idade, mora com a esposa Romilda numa propriedade onde cria gado leiteiro.  Leva uma vida tranquila, tem dois filhos, cinco netos, e dois bisnetos, além de um genro e uma nora. É um homem feliz e realizado, que sonha curtir a vida com a família até a sua partida final.
        Gilberto Ferreira, cidadão mato-grossense, que se dedicou às atividades ferroviárias durante 36 anos, memória viva de um  tempo que passou, é sem dúvida Gente de fibra!

         Mirandópolis, setembro de 2013.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/

         Legenda:
                   1. Trem partindo de Mirandópolis
                   2. Despedida  por aposentadoria
                   3. Bandeirinhas sinalizadoras
                   4. Aparelho de comunicação
                   5. Aparelho  de comunicação
                   6. As netas
                   7.  O uniforme
                   8. Antigos funcionários da Estação





segunda-feira, 21 de outubro de 2013



                               Três anos cirandando

       No dia 15 de outubro de 2010, na Cozinha Caipira realizamos o primeiro Encontro da Ciranda.

       Naquele dia, estavam presentes o senhor Mário Varela, a Ana Maria Jacomelli, o Egídio Vicente, o Mílton Lima, a Ikuko Kazi, a senhora Mary Magro e a jovem Poliana Ventura, que abraçaram a minha ideia de, proporcionar uma tarde de alegria para os idosos, que vivem sozinhos nesta cidade.
         Ao primeiro encontro conseguimos levar o Professor Walter Sperandio, acompanhado da professora Rachel e mais uns dez idosos que aceitaram o convite.
       Tivemos uma tarde maravilhosa, em que brincamos de  cirandar, cantamos com o senhor Pedro Squinca alternando-se com o senhor José Olynto ao violão. Ao final do dia estava  decididamente estabelecido o Grupo Ciranda, porque todos pediram mais encontros.
        De lá para cá se passaram três anos. E durante esse tempo, perdemos a dona Luisinha Cury, o senhor Egídio Vicente, a dona Lurdinha Codonho, a dona Maria Menegatti, o senhor Jorge Cury, o Professor Aristides Florindo e o Professor Walter Víctor Sperandio, que foram cirandar no céu...  E do Grupo de Apoio perdemos o senhor Varela, a Ana Jacomelli, a Poliana, a Chiquinha e o Mílton, que por mudança de residência e motivos outros, deixaram de participar.
      Mesmo assim, outros voluntários foram aderindo e apoiando o Grupo, como a Professora Flora, o seu Albertino Prando e dona Cleuza, que nos cederam a Chácara para os Encontros, a Jane Meire Chossani, sua mãe dona Fermina e o Osvaldo Valverde que cozinham muito bem, o Professor João Torrente, que está sempre disposto a conduzir os convidados para suas casas, e o Professor Gabriel, que também é uma pessoa preocupada com o bem estar das pessoas, que vivem sós. Outro colaborador que é pau para toda obra é o senhor José Maria de Carvalho que, juntamente com a esposa Isabel estão sempre disponíveis para ajudar o Grupo.
     
   E assim, cirandando, brincando, brincando, cantando, declamando e conversando muito, o Grupo se firmou e chegou aos três anos de existência. Três anos de muita alegria, amizade e de convivência solidária nos encontros mensais.

        O Grupo Ciranda não é um clube social para por em destaque pessoas da cidade. É apenas um grupinho de amigos, que se preocupam com os velhinhos que vivem sós, sem amigos ou parentes para conversar e conviver. Nas reuniões não se fala de religião, nem de política e não se cobra nenhuma taxa. Quem participa para ajudar tem que ser voluntário, doando seu tempo, ter disponibilidade para conduzir os convidados e doar lanches de vez em quando. É um grupo simples, sem luxo, onde todos são iguais e o que manda é o carinho e a gentileza para com os idosos. E temos orgulho imenso de proclamar que, comemoramos nesse último sábado, dia dezenove de outubro os três anos da Ciranda. Fizemos um almoço, a que compareceram cerca de cinquenta pessoas. A festa começou ao meio dia e só terminou ao por do sol.
      O destaque do dia foi uma exploração da matinha ciliar que circunda a Chácara, para um futuro piquenique da Ciranda.
         E no mês que vem tem mais!
        

         Mirandópolis, outubro de 2013.
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