terça-feira, 14 de janeiro de 2014



                Trem descarrilhado
    Conversando com um amigo no face book, ele disse que estava indignado com as coisas mais absurdas que estão ocorrendo no país. Que os políticos fazem um circo e chamam o povo para aplaudir. E o povo abobado não percebe que tudo é enganação, que é armação.
         E o amigo é um menino novo, que saiu de família pobre, e recebeu uma educação de primeira, tornando-se um cidadão honrado, como há poucos por aí. E por ter se esforçado para conquistar um lugarzinho na sociedade, fica indignado de ver como ninguém mais se esforça, ninguém mais dá valor ao  empenho, à dedicação para conquistar algo nesta vida.
         O que será que está acontecendo no mundo? A humanidade só pensa em consumir, em adquirir, adquirir, adquirir. A posse é que se tornou o objetivo maior.
         E as coisas só irão piorar porque as indústrias jogam pesado. Depois que descobriram essa ânsia do consumidor, as indústrias estão se sofisticando mais e mais e, cada dia lançam um novo carro, um novo perfume, novos aparelhos de tevê, de computadores, celulares e acessórios. E tem cidadão que só fica na expectativa desses lançamentos, para ser o primeiro a adquiri-los...
         Desventurados... A vida é muito mais que um carro novo, um celular moderno, uma tevê de 500 polegadas. Essas coisas materiais podem encher o peito de vaidade e orgulho, mas são apenas objetos inanimados, que ninguém levará ao deixar esse mundo. E a maioria desses consumidores faz sacrifícios quase impossíveis, só para mostrar para os colegas de trabalho, para os vizinhos ou parentes, que estão por cima da carniça.
         Levam a vida numa pobre ilusão, pensando que felicidade é possuir coisas. Coisa é coisa, nada mais que isso.
         Eu me lembro que, um cidadão disse para mim que, o nosso pequeno carro Fiat 147 que possuíamos, não condizia com o cargo do meu marido no Banco. Isso foi há um século, mas achei tão idiota a observação, pois o carro era nosso, comprado com nosso din din e, não com o dinheiro do Banco. E o carrinho me serviu tanto, para ir à escola durante anos e anos. E nem por isso, meu marido foi menos eficiente no exercício de sua função...
         Ao mesmo tempo que, constatamos as mudanças de costumes que estão ocorrendo na sociedade, percebemos que os governantes não são mais os mesmos, pois deixaram de ver os concidadãos como seres humanos, para só enxergarem os eleitores. Eleitores que, lhes darão os votos em troca de umas bolsas disso e daquilo. E estes já perceberam a força que têm, e estão começando a exigir, acham que o Estado tem obrigação de sustentá-los, sem contribuir com o serviço. Ninguém mais quer trabalhar. Todo mundo faz corpo mole.
         Fico matutando comigo mesma, o que será que essas mães bolsistas do governo dizem para seus filhos? “Pra que trabalhar, filho, a bolsa vem aí!” “Prá que tirar leite na chácara do senhor Fulano? É  mais fácil ficar na fila do leite!” “Aguenta  só seis meses, que o patrão te dá as contas, e você pode conseguir o salário-desemprego” e por aí vai...
         Olha, gente, o trem está descarrilhando. Assim como os trens que saíram dos trilhos e, invadiram casas e mataram pessoas, a locomotiva do Brasil está totalmente fora de linha. Está descarrilhada e ninguém sabe onde vai parar.
         Eu não sei como os homens inteligentes que estão no poder não perceberam isso. Ou perceberam e fazem cara de paisagem. Ou querem ver o circo pegar fogo? Será que não pensam no Brasil de amanhã? No país que deixaremos para os filhos e netos? Será que não se importam com o porvir? Será que tudo que importa é o seu Partido? Ou as fatias que cada político tira para si próprio?
         Acredito que ainda restem alguns homens sérios no Governo, independente de siglas partidárias. E dentre eles, deve haver gente que observa, que pensa, que não idolatra o Partido, porque sabe que, tudo isso é apenas uma forma de organização. E que, o objetivo maior de todos os que foram escolhidos para governar, deve ser apenas um – trabalhar para o bem de todos, e garantir o futuro da Nação, para as gerações que virão.
         Será que alguém estará pensando em como segurar esse trem, para não despencar no abismo? Será que estão atentos para os noticiários do dia a dia? Roubos, assaltos, prédios que desabam, sequestros, desaparecimentos inexplicáveis de crianças, jovens e adultos, pais que matam os próprios filhos e vice versa? E o Maranhão? E a podridão que reina em Brasília? Ou acham que é apenas fuxico da oposição?
         Gostaria de ver todos os analistas políticos despertarem e começarem uma campanha para o Bem do país. É impossível que, não haja um grupo preocupado com a situação reinante. Que esse grupo se manifeste e resolva alertar o povo. Acho que ainda dá tempo. Vamos fazer uma megacampanha nacional para por o trem nos trilhos, para tornar o país governável, repondo tudo nos devidos eixos. Tomar as rédeas da Nação.
         Para isso, é preciso dar uma guinada de 360 graus, para recomeçar de novo e, corrigir todos os estrangulamentos que aí estão. Acho que já está passando da hora de despertar.
         O trem está na boca do abismo.
         Há algo de podre no reino do Brasil.
        
         Mirandópolis, janeiro de 2014.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/




sábado, 11 de janeiro de 2014




                                               Minhas Orações

      Antigamente eu via as pessoas orando, desfiando seus terços e ficava pensando: “Que coisa mais brega! Por que rezam tanto?”
        Eu vivia atropelada, correndo atrás da vida e não atentava na necessidade de rezar. Com o passar dos anos, porém, os problemas atazanando o coração, a gente aprende a orar, quando não temos a quem apelar. E de repente, me peguei orando de manhã, à tarde a à noite. Há anos que venho rezando, pedindo a Deus para me ajudar a cumprir a minha missão aqui na terra. E todo dia, tenho que agradecer a noite bem dormida, a saúde mais ou menos em dia de toda a minha família, a bênção de viver... E assim, venho ano após ano conversando com Deus, para me indicar os caminhos para não me perder, para chegar a bom termo no final.
       Mas, recentemente fui ferida com uma tragédia na família, que só quem passa pode avaliar o peso dela. Eu sei que muita gente tem passado e está passando pela mesma dor, e vai enfrentando com coragem e determinação, todas as penas enviadas pelos céus.  E o único consolo é a oração, é falar com o Altíssimo, é chorar e pedir clemência... E assim tenho feito todos os dias...
       Um dia desses, murmurando o Pai Nosso, percebi como é dura essa oração: “Pai nosso que estais nos céus, santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso Reino e seja feita a vossa Vontade, assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos daí hoje, perdoai as nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos tem ofendido, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém.”
       É uma prece dolorosa quando afirmamos: “seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu!” Por mais dura que seja a determinação de Deus, a gente está aceitando e concordando com isso. E já murmurei milhares de vezes essa frase, sem atentar ao peso dessas palavras. E a outra parte que diz: “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.” Como é difícil perdoar! Acho que a gente perdoa, mas não esquece e é isso que me incomoda bastante. Gostaria de esquecer as ofensas, as mágoas, as dores, as revoltas... Mas, não esqueço. Apagá-las da memória, mas não consigo. Será que sou muito ruim? Sou durona demais? Sou rancorosa? Não tenho rancor. Consigo conversar com os ofensores numa boa, mas a memória não apaga a dor que eles me causaram. E não consigo mais morrer de paixão por eles. Como se algo tivesse se rompido para sempre dentro do meu coração. Que Deus tenha misericórdia dessa alma dura...
       Agora a “Ave Maria” é uma oração de louvação à Mãe de Jesus, então não tem nenhum problema: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois Vós entre as mulheres, bendito é o fruto de Vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.” Nessa oração não há conflitos, e termina com um pedido que deve ser universal: “rogai por nós pecadores...”
       Quando oro o Pai nosso, e concordo com todas as vontades dos céus, mesmo sendo duríssimas, parece que no íntimo ainda fica uma resistência gritando: “mas são pesadas demais”! E parece até que não consigo perdoar a Deus! (Que atrevimento!) E ao orar a Ave Maria, dizendo: “rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte” acabo me redimindo da minha ousadia, da dureza dos meus sentimentos...
       Gostaria de ser uma criatura menos complicada, para não ficar analisando tudo que faço, leio, rezo e sinto. Se apenas soubesse murmurar as orações com humildade, acho que seria  muito bom. E não estaria desafiando Deus. Mas, sou muito complicada e sofro por isso. É que penso demais e não consigo parar de.
       Outra oração que acho tranquila é: “Oh! Meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno. Levai as almas todas para o céu, e socorrei as que mais precisarem.” Isso é um pedido de socorro para quem está a perigo, e precisa de ajuda. E gente que precisa de ajuda há aos milhões nesse mundo, Então, orar por elas é necessário. E como num Pronto Socorro, a gente pede para Jesus socorrer as mais urgentes primeiro...
       Já fui atendida diversas vezes em meus pedidos, feitos insistentemente. Certa vez um amigo, simples cidadão que circula por aí, me disse: “Se você rezar sempre com fé, um dia Deus te atenderá” E várias vezes, consegui alcançar as graças pelo poder da oração. Mas, é preciso rezar sempre, porque há muitos pedidos para Deus atender.
       Certa vez, uma amiga me contou que, morava sozinha numa cidade onde começara a trabalhar há pouco tempo. De repente, ficou totalmente sem um dinheiro para comprar suas refeições. O pagamento só sairia daí uma semana. Não havia a quem recorrer. Quando terminou o expediente, a fome já estava lhe maltratando e não tinha nem um pão, nem uma bolacha para saciá-la. Acabrunhada, sem saber o que fazer, porque a fome já estava ficando insuportável, sentou-se no degrau da cozinha e falou para Deus: “O que vou fazer? Não tenho mais nenhum dinheiro, e estou com tanta fome...” E arrasada com a sua situação, olhou para os céus, pedindo ajuda.
Ao abaixar os olhos, viu no quintal uma plantação de batata doce. Ali estava a resposta!  Naquele momento, ela sentiu que Deus lhe estendera a mão. Durante uma semana, ela se alimentou com as batatas, que alguém havia plantado no quintal, talvez o inquilino anterior. Não passou fome, e quando ela me contou isso, fê-lo chorando, grata a Deus pela sua misericórdia.
       Deus ouve nossas preces, às vezes demora para atendê-las, mas atende sempre quando as solicitações são justas e possíveis. Muitas vezes, pedimos coisas impossíveis de se realizar. Outras vezes, não temos o merecimento para alcançar as graças. Como a gente não sabe de nossos merecimentos, o jeito é ir orando, orando, na esperança de contar com a misericórdia divina.
       E você já orou hoje?

        Mirandópolis, janeiro de 2014,
       kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014



                               O ano que passou

        Sempre que chega o mês de janeiro, sinto uma necessidade de fazer um balanço do ano que passou. É inevitável, sinto necessidade de conferir o que fiz, o que deixei de fazer, se servi a algum próximo, se fui útil para alguém, se não prejudiquei ninguém.
         É como se fizesse um balanço geral de minha vida, para verificar se ficou algum saldo positivo. Porque vivo cada dia com uma ideia, uma meta, um objetivo. Nem sempre consigo realizá-los, mas vou tentando. Porque viver por viver nem me passa pela cabeça.
         Mas, o que é o fim de ano? Nada mais é que uma marca estabelecida pela humanidade. Os segundos, os minutos, as horas, os dias, os meses, os anos foram todos inventados pelo homem, para marcar o tempo que passa. Na verdade, o sol nunca para e a passagem do dia 31 de dezembro nada mais é que, outra volta que a Terra girou em torno de si mesma, no movimento de Rotação. E o povo comemora o surgimento do astro Sol no dia 1º do ano, como se fosse o nascimento de uma nova era.
         Indiferente a tudo isso, a Mãe Terra vai rolando pelo espaço sideral, formando os dias e as noites e as estações do ano.
         Os calendários chinês, gregoriano, juliano, cristão, judaico e das tribos primitivas só tentam marcar a passagem do tempo, para o homem se localizar ao longo da existência. Na verdade até o tempo é uma invenção da humanidade. Invenção para servir de referência apenas.
         E assim, costumamos contar a passagem de nossa vida em anos e, dizemos que alguém viveu cem anos, ou cinquenta anos, ou uns meses apenas. E voltamos ao ponto inicial dessa reflexão, isto é ao ano que está findando.
         O que está findando é apenas uma marca, uma referência a que chamamos de ano, ou uma etapa.
         E é bom fazer um balanço para ver se valeu a pena ter vivido o tempo que se escoou. E para isso é muito interessante se perguntar:
         Quantas vezes cantei? Quantas vezes brinquei? Quantas vezes dei gargalhadas?  Brinquei na Ciranda, cantei na Ciranda e dei muita risada com os amigos, e um bocadinho com os familiares... A família é pequena, os contatos são esporádicos e a alegria de todos nós se concentra numa neta, que preenche completamente nossas vidas com a sua presença, quando vem.
         Quantas vezes chorei? Quantas vezes me emocionei? Quantas vezes compartilhei dores alheias? Ah! Chorei muito, acontecimentos inesperados me fizeram ficar sem chão, sem rumo na vida. A perda de amigos queridos, a doença de familiares próximos, me fizeram sentir como a dor é doída, quando  ela se estabelece na casa da gente... E ela ainda está aqui doendo todos os dias, machucando o coração... Muito difícil aceitar os desígnios de Deus...
         Quantas vezes fui tocada pela ternura? Quantas vezes me encantei com a natureza? Ah! Isso foi durante os 365 dias do ano. A beleza das flores, a fragrância das acácias amarelas e das orquídeas perfumando de graça a minha casa... O encanto das florezinhas azuis que nascem nas gretas das calçadas... O pipilar dos filhotes de pardais de madrugada, pedindo comida... As araras azuis cruzando os céus da cidade com seu forte grasnido... A sibipiruna se cobrindo de folhas tenras, após as flores amarelas e depois, explodindo as vagens em centenas de sementes... E o por do sol magnífico, que tinge o céu com ouro e bronze...  E a chuva mansa, que vem regar minhas plantas com carinho e lava o ar. E as estrelas silenciosas que, fazem pensar em Alguém muito poderoso que está no comando do Universo.
         Quantas vezes abracei alguém? Quantas vezes estendi a mão para o próximo? Quantas vezes ajudei o outro? Aprendi a abraçar depois que vi  num filme alemão, jovens numa praça do Japão oferecendo abraços de graça. Eles diziam: “Quer um abraço? É de graça!” E carregavam um cartaz em inglês para os estrangeiros. Achei isso fantástico, porque os japoneses são muito reservados e evitam o toque físico com estranhos. Os japoneses ainda não descobriram os efeitos positivos do abraço, infelizmente. E eu sei da importância do abraço, para os velhinhos que vivem sós... Velhinhos que, visitei de vez em quando para tomar um cafezinho, para lhes dar uma palavrinha... mas ainda é muito pouco. Para 2014 devo reforçar essa parte.
         Quantas vezes me irritei? Quantas vezes perdi a paciência? Quantas vezes exercitei a tolerância? Quantas vezes gritei com alguém? Aprendi a falar sem gritar, mas muitas vezes engoli seco, quando me irritaram. Gente que está para servir e o faz de má vontade, porque amanheceu irritada, e se acha no direito de descontar em alguém. Há tantas pessoinhas nas repartições públicas e nas lojas, que deveriam voltar para casa e serem reeducadas, para aprender as boas maneiras. Tolerância tem um limite. E também, me irritei bastante com as maracutaias que, os nossos representantes políticos armaram contra o povo. E fiquei muito envergonhada como brasileira que sou, com a história do Mensalão. É uma imensa vergonha ter que prender líderes políticos, porque traíram seus eleitores e roubaram a Nação que deveriam defender.
         Quantas vezes ensinei algo a alguém? Servi para orientar jovens em suas indagações? Na medida do possível, procurei passar algo nas minhas crônicas, que sirva para alertar os mais jovens, os mais inexperientes. E o face book também me proporcionou oportunidades de aprender e, retransmitir informações úteis para outros usuários.
         Quantos livros li? O que aprendi? Quanto estudei? Aprendi algo diferente? Não li muitos livros nesse ano, quer dizer, livros escritos em nossa língua. Li livros escritos em japonês sobre heróis japoneses como Takeda Shingen, Minamoto Yoshitsune, Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi, Tokugawa Ieyasu. Li ainda as biografias dos literatos Higuchi Ichiyo e Miyazawa Kenji e, sobre o cientista Noguchi Hideyo. Não tive muito tempo para ler outras obras, porque passei a copiar os livros japoneses que leio. E os copio com o pincel ou fudê, para praticar a caligrafia japonesa. No momento, estou lendo Memorial do Convento de Saramago e relendo Toyotomi Hideyoshi (ao mesmo tempo).
         Quantas músicas novas aprendi? Passei a tocar razoavelmente La Cucaracha do folclore mexicano, Berceuse de Brahms e Sonata ao luar de Beethoven, além de uma dezena que já conseguia arranhar. Devagarinho, estou conseguindo tirar umas músicas... só para mim, porque não tenho técnica nenhuma...
         E em artesanato o que fiz? Bordei ponto cruz numa toalha de banquete, acrescida de mais algumas toalhinhas, que irei concluir nesse início de ano. Bordado trabalhoso, que estava parado há mais ou menos uns cinco anos... E tenho planos de fazer toucas para o Hospital do Câncer de novo.
         E sobre a saúde? Tive problemas com articulações, que doíam muito. Descobri graças à orientação de um médico especialista que, as dores surgem por falta de exercícios. Com a idade se acumulando e a preguiça também, nós acabamos ficando acomodados e muito parados, e isso vai travando as juntas do corpo. E surgem as dores. Passei a fazer mais exercícios e percebi que, realmente tudo melhora. Hoje não tenho dores. É claro que tomo colágeno para melhorar as articulações também. E exercitei e caminhei todos os dias, religiosamente.
         Quantas pessoas entrevistei? Em Gente de Fibra, entrevistei e publiquei no Diário de Mirandópolis, as histórias de: Senhora Kawasaki, Hayao Kojima, Lió, Gilberto Ferreira, Kaoru Hattori, Helena Floriano Barbosa, Iracy e Domingos Caldatto, Jaime Perogil, Shina Aoki e Minako Nomizo. Para 2014, tenho planos para mais entrevistas de gente, que trabalhou e deu a vida por essa cidade.
         E agora no final do ano, conheci gente fantástica como o Jozé Augusto Lisboa, que realiza atualmente, a Mostra “Heavy Metal – fossilizados no sistema” de fotos de objetos entranhados no solo, no asfalto, como pregos, parafusos, peças de carros, pedaços de concreto, que o homem vai deixando como atestado de sua passagem, por este Planeta. Os animais ditos “irracionais” só deixam como vestígios, os ossos... E conheci também uma escritora, a Rosa Chimoni que escreveu o livro “Transversais”, que se compõe de depoimentos de Professoras de Guarulhos. A abordagem é sobre a vida pessoal do ser humano chamado Professor. É muito bom!
         Acho que no final, ficou um saldo positivo de tudo que fiz em 2013. E nem citei as Cirandadas que fizemos, e comemoramos o terceiro ano de contatos humanos, muito gratificantes da Ciranda.
         E chego à conclusão final que valeu a pena.
         Em 2014 tem mais, muito mais, se Deus quiser!
         E boas realizações para todos.

         Mirandópolis, janeiro de 2014.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/



terça-feira, 17 de dezembro de 2013



                Gente de fibra – Kawasaki sama

   Há um tempo atrás, estava eu  na cabeleireira dona Hilda dando um trato nos meus cabelos, quando ali apareceu uma senhora japonesa da comunidade.
      Como ela sempre só conversava em japonês, eu tinha grande receio em me aproximar dela, porque é uma pessoa muito considerada entre os japoneses. Era um misto de medo e reverência.
    Enquanto esperava passar o tempo do procedimento a que me submetera, peguei um livro e comecei a ler. Era um livro japonês. E aí, ocorreu um fato inacreditável.      
     Essa senhora com quem nunca havia conversado, veio até mim e perguntou o que eu estava lendo. Eu lhe mostrei. Era a biografia de um dos heróis do Japão, Oda Nobunaga. Ela pegou o livro, folheou-o, e disse que era exatamente o tipo de leitura que gostava, e ficou muito admirada por eu gostar também.
          Terminado o serviço, voltei pra casa e esqueci o assunto da batiam. Qual não foi minha surpresa, quando sua nora Kazuko me apareceu em casa daí uns dias, perguntando se eu poderia emprestar o tal livro para a sogra. Eu lhe emprestei, e disse que possuía outros.
         E isso foi o começo de uma relação agradável, que passei a cultivar com a senhora Kawasaki. Através de uma Livraria de São Paulo, compro livros originais, que os importa do Japão para mim. Estudo a Língua Japonesa há mais de vinte anos, e atualmente, estou lendo livros da História Oficial do país de meus ancestrais. Enquanto vou aprendendo a língua, vou conhecendo também a História do Japão, que é muito interessante.
       Assim, andei lhe emprestando livros sobre os Samurais mais famosos, que mudaram a história do Japão: Takeda Shingen, Minamoto Yoshitsune, Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi, Tokugawa Ieyassu, Saigo Takamori, Uesugi Kenshin, Sakamoto Riyoma, além dos literatos Higuchi Ichiyo, e Miyazawa Kenji e do  famoso cientista Noguchi Hideyo. Fiquei super feliz em compartilhar as leituras, porque até então, não tinha com quem trocar as impressões sobre esses heróis.
       Ah! Devo esclarecer a bem da verdade que, esses livros são destinados aos alunos do Curso Primário do Japão, e possuem poucos kanjis ou ideogramas, por isso sou capaz de lê-los. A língua japonesa é dificílima. A senhora consegue ler tudo em japonês.        
       Devagarinho, comecei a frequentar a casa dos Kawasaki, porque a senhora estava acamada por conta de um tombo, e hoje evita sair sozinha, porque já passou dos noventa anos.
         E numa das visitas, de repente ela começou a contar passagens de sua vida. Fiquei fascinada e lhe propus uma entrevista para a coluna Gente de fibra. Ela topou. E passei uma tarde muito agradável em companhia dela, do filho Sadao e da gentil nora Kazuko. Vimos fotografias antigas, e rimos muito das coisas engraçadas, que ela foi revelando. E descobri que ela é uma pessoa bem humorada, sem restrições, e aborda qualquer assunto com coragem, sem nenhum acanhamento.
       Bem, agora após esses esclarecimentos, passo a contar a história dela. Estamos falando da senhora Kimiko Kido, que ao se casar passou a ser Kimiko Kawasaki.
         Dona Kimiko nasceu na cidade de Ibaraki, Província de Fukushima, Japão em 1923. No Japão estudou apenas dois anos, pois emigrou com a família em 1932.  Veio ao Brasil com os irmãos Kazuo, Tsuguio e Fumiko, os pais Saburo e Toku Kido, os avós paternos e mais dois tios. Ao chegarem aqui, vieram parar na Colônia do Senhor Anze em Água Limpa, na região de Araçatuba, como colonos japoneses para trabalhar nas fazendas de café.
         Era criança e ficou fascinada com os vagalumes que pisca piscavam ao anoitecer, e como havia muitas bananeiras e laranjeiras gostou do lugar. Sua irmãzinha de cinco ou seis anos, porém chorava pedindo para voltar para casa (Japão).
          Ficaram durante dois anos em Água limpa.
      Seus pais ouviram falar de uma Vila chamada São João da Saudade (primeira denominação de Mirandópolis), que estava prosperando rapidamente. E se mudaram para cá, vindo morar inicialmente em Vila Nova. Os tios foram para o Bairro Km 50, que seria o projeto da cidade de Mirandópolis. Era um lugar bastante movimentado em 1934/1935.
        No Km 50, seus tios Kido abriram uma Sapataria que logo  prosperou. Então, a família de dona Kimiko também para lá se mudou, e o pai passou a trabalhar com os irmãos na Sapataria. Sua mãe, que era costureira passou a bordar uns enfeites nas botinas.
         Nessa época, a menina Kimiko frequentou a Escola japonesa ou Nihongô Gakko, onde um pai e a filha Katsuki eram professores. Eram muito eficientes e a menina Kimiko completou os estudos até o equivalente ao Colegial. Foi matriculada na Escola brasileira também, mas ela não gostou porque a professora Maria tomava a tabuada, e como errava sempre, ficava todos os dias de castigo, atrás da porta. E quando estava sentada na carteira, ao invés de prestar atenção na aula, ficava lendo revistas japonesas pela fresta que havia no tampo da mesa. Ela escondia a revista na parte de baixo, onde se guardava a bolsa. E com essas e outras, acabou desistindo da Escola brasileira, aprendendo somente o básico para se comunicar com as pessoas, mas sabe escrever e ler em Português.
         Quando moça, fez o Curso de Corte e Costura e passou a costurar para a família.
       Em 1943 já morava na Rafael Pereira e foi solicitada para dar aulas de Língua Japonesa. E ela dava aulas particulares para duas meninas. E tinha que atravessar cafezais para chegar às casas. Hoje, ela mesma se espanta da própria coragem, pois aulas em Japonês estavam proibidas nesse período de guerra, por um Decreto do Getúlio Vargas, para que os japoneses daqui não conspirassem contra os brasileiros e os aliados.
          Com vinte e dois anos de idade, casou-se com o jovem Toshio Kawasaki, que era um mecânico e trabalhava numa Máquina de beneficiar arroz, lá na Segunda Aliança. Como era uma pessoa curiosa e habilidosa, ele havia inventado uma máquina para fazer mortadela. Sabia também consertar máquinas de costura, e um dia ele reformou a máquina alemã Pfaff da senhorinha Kimiko. Mais tarde, quando um alfaiate viu a máquina ofereceu uma Singer nova, e a dona Kimiko fez a troca.
       Ao se casar foi morar na Segunda Aliança. Moraram numa casa imensa. Os sogros moravam em Bastos. O senhor Toshio durante suas folgas, ia às casas de famílias a cavalo, consertar máquinas de costura, ela ficava sozinha e tinha muito medo. E assim, os anos foram passando, com os filhos nascendo. O primogênito Sadao, que é um especialista em Ótica, a Tomie casada com o senhor Massayuki Ariki, a Satiko casada com Jorge Ohara, a Junko casada com Teruo Matsuda e o caçula Hideo casado com Mari. Dona Kimiko mora com a família do primogênito Sadao.
      Em 1945, o senhor Toshio comprou uma pequena Relojoaria, que viria a ser a Relojoaria Kawasaki, que está no mesmo lugar atendendo à comunidade há sessenta e oito anos, atualmente sob a direção de Sadao, ou seja na segunda geração da família.
    Entretanto, essa vida tranquila seria um dia interrompida, por um acontecimento insólito. Quando o filho Sadao concluiu um Curso de Ótica, que havia ido fazer em São Paulo e voltou para casa, o pai  Toshio faleceu de repente. Tinha só quarenta e seis anos, e o Sadao era um jovem de apenas 21 anos de idade.
         Seu Toshio Kawasaki partira e deixara para o filho mais velho, o encargo de cuidar da mãe e dos quatro irmãos, ainda adolescentes. O jovem ficou totalmente desnorteado, sem saber como administrar a loja e tocar a vida. Foi então, que o primo Takeshi Kido, o mesmo Dr. Kido que serviu a comunidade mirandopolense como odontologista, veio socorrer o jovem Sadao. Dr. Kido que, à época estava com 28 anos de idade durante um bom tempo, foi orientando o jovem Sadao na administração da loja, até ele conseguir caminhar sozinho.
       Por essa ajuda providencial, ocorrida num momento tão crucial, a senhora Kimiko e o filho Sadao dizem que, sentem uma gratidão imensa e nunca poderão esquecer. Têm um carinho especial pelo Dr. Kido.
      
       As irmãs também ajudaram muito na loja, para que o Sadao pudesse se dedicar ao serviço de Ótica, atendendo a clientela, que comparecia para aviar receitas de óculos.
      Com 31 anos de idade, Sadao se casou com a senhorita Kazuko Kasaya que procedia de Pereira Barreto. Desse matrimônio nasceu o filho Ricardo, que por um problema de genética perdeu totalmente a acuidade visual.
         Dona Kimiko conseguiu casar todos os filhos, e hoje tem além dos filhos, noras e genros, mais oito netos e dois bisnetos.
     Enquanto encaminhava os filhos, dona Kimiko participou de todas as atividades da Comunidade Nipo local. Foi Presidente do Clube das Senhoras (Fujinkai) por cinco mandatos, foi Vice Presidente, Secretária e Tesoureira. Sempre colaborou com a Associação, juntamente com as companheiras Sunada, Kawamoto e Toyoshima, todas já falecidas.
     Como apreciava danças japonesas, durante dois anos tomou aulas de dança com o Professor de kabuki, Kojima Sensei. Ela e suas companheiras de dança vendiam comida japonesa para pagar as aulas do Professor. O Professor vinha de São Paulo e se hospedava nas casas dos japoneses locais.
     Um dia, ela e suas companheiras, juntamente com todos os associados resolveram fazer uma promoção de udon, e isso fez tal sucesso, que até hoje há promoção de udon e yakissoba  mensalmente, no Clube Nipo.
      Quando era jovem, o pai Toshio gostava muito de cantar. E ao adquirir a Relojoaria, passou a vender os discos de vinil de 78 rotações. E logo, apaixonados pela música japonesa, ele e seus  vizinhos Eiji e Paulo Sato começaram o Nodojiman, ou Concurso de Canto Japonês. O primeiro Nodojiman aconteceu em 1954 ou 1955 no antigo Cine São João, que era na Rua 9 de julho, ali ao lado do Maeda, abrilhantado pela Banda Musical Tietê, de Pereira Barreto.
       E em 1956, os senhores Masatoshi e seu irmão Shizuo Nakajiyou, o senhor Kawasaki e  Nagata começaram a estudar,  para formar uma banda musical do Nipo. O músico Rui da Banda Musical da cidade foi quem deu as primeiras aulas, para leitura de partituras musicais. E por uma feliz coincidência, veio gerenciar a Agência do Banco América do Sul local, o senhor Tsutomu Inoue, que tocava violão e a sua esposa Hideko tocava bandolim. Eles se dispuseram a ensinar os interessados do grupo. Além deles, havia a senhorita Alice Sato, que era formada em Música. Assim, a Tomie e a Satiko da família Kawasaki, a Mitsuko Kido e outras jovens aprenderam a tocar bandolin, acordeão e outros instrumentos, acabando por integrar o conjunto musical, que recebeu o nome de Aiko Kai. Tinha dezoito instrumentistas, que passaram a tocar nas festas de bom odori também, além do Nodojiman, por muitos anos.
      Hoje, a Banda foi substituída pelos aparelhos potentes de karaokê que existem, e o grupo foi disperso.  Mesmo assim, todos sentem saudades daqueles tempos, em que cada um dava o melhor de si, para abrilhantar as festas.         
    A senhora Kawasaki dançou Danças famosas do Japão e foi muito aplaudida, porque desempenhava bem o seu papel de dançarina.  Existem muitas fotos comprovando a qualidade de suas danças. Hoje com mais de noventa anos de idade, e após fraturar  várias partes do corpo, ainda vive com coragem e disposição admiráveis, sempre se cuidando e se enfeitando para ficar bem apresentável. Disse que viveu uma vida longa e boa e é grata a Deus. Não tem mais nenhum sonho, apenas que Deus olhe o seu neto Ricardo, que por não enxergar, sempre é a sua maior preocupação.
         Daqueles tempos saudosos de Banda de Música, de ensaios, de danças e apresentações da batiam, ainda ficou uma herança cultural preciosa na família. O neto Ricardo, mesmo não possuindo acuidade visual, é um exímio pianista e tecladista. Aprendeu a leitura Braille e toca qualquer peça dos Clássicos. Consegue ainda, reproduzir as baladas japonesas, após ouvir duas a três vezes, pois tem uma memória auditiva fantástica. Volta e meia é convidado para participar de Saraus e Audições Musicais. Atualmente, está se preparando para tocar na Missa do Galo na Matriz.
   
      Kawasaki sama, que dedicou parte de sua vida cuidando do neto Ricardo, senhora sábia, que foi um dos pilares do Clube Nipo, que deu aulas de Japonês, que jogou gate ball por anos e anos, que liderou por décadas a cultura da Colônia com os Nodojiman, com as Danças, com os Bom Odori e com as Promoções Sociais, que vive em  perfeita harmonia com a nora Kazuko, com o neto e o filho Sadao, é sem dúvida alguma, um exemplo de vida. 
         É acima de tudo, Gente de Fibra!

        Legenda:

                  01- Senhora Kimiko Kawasaki atualmente
                      02- Famíla Kido  em Vila Nova Mirandópolis - 1934
                      03- Senhoras do grupo de dança japonesa
                      04- Banda Musical do Clube Nipo
                      05- Time de gateball
                      06-  Senhora Kawasaki  numa apresentação artística
        

         Mirandópolis, dezembro de 2013.
         Kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/




quinta-feira, 12 de dezembro de 2013



                                
        25000 visualizações
   Dois anos atrás, o jovem Luan Fabrício que digitava meus textos no Jornal Diário de Mirandópolis, me sugeriu que eu abrisse um blog para publicar minhas crônicas.
       Como era totalmente analfabeta do mundo virtual, resisti. Mas, um dia por insistência de minha neta, acabei aderindo. Abri um e-mail, um blog e passei a participar do face book.
     Não foi fácil no começo, só cometia enganos e mais enganos, conseguia deletar e mandar para a lixeira todo o texto, e tinha que recomeçar e recomeçar... E vivia pedindo ajuda de técnicos, que deviam me achar completamente idiota. Mas, fui teimando e insistindo e, acabei conseguindo digitar meus textos. Até inserir fotos aprendi! E hoje consigo fazer o básico, para publicar minhas crônicas. Vitória!
       E desde então, se passaram dois anos e um mês.
    E aí, fiquei assustada com a repercussão do meu blog. Em 25 meses, consegui vinte e cinco mil visualizações ou leituras de meus textos. Tenho leitores não só no Brasil como nos Estados Unidos, na Alemanha, na Rússia, em Portugal, na Ucrânia, na França, na Malásia, no Reino Unido e no Japão. As leituras de estrangeiros constituem um quarto do total, isto é mais de seis mil leituras!
     E isso ainda não entrou na minha cabeça, pois acho incrível que haja alguém lá na Malásia, na Ucrânia ou na Rússia que esteja lendo meus textos. Gostaria que esses leitores se identificassem, dizendo o nome e o local onde estão. Só assim acho que acreditaria de fato. Infelizmente a Internet não identifica os leitores ainda.
       Já postei 253 textos, dentre os quais há breves Ensaios sobre Escritores e Poetas famosos como Cora Coralina, Pablo Neruda, Gabriel Garcia Marquez, Manuel Bandeira, José Saramago, João Cabral de Melo Neto, Tomás Mann e Mário Vargas llosa; Biografias de pessoas que, pelejaram para construir Mirandópolis como Walter Víctor Sperandio, Dirce Cury da Costa, Severina Alves dos Santos, Takeshi Kido, Lió,  Kurao Iyomasa, Raimundo Bezerra, Minako Nomizo, Valdevino Emídio de Souza e tantos outros em  Gente de Fibra; Notícias sobre Ciranda, que é um grupo que, proporciona tardes de lazer a idosos que vivem sós; e Crônicas propriamente ditas, em que  comento tudo que me comove ou me aborrece.
       Também há textos de amigos, que confiaram suas produções para serem publicadas no meu blog. São excelentes crônicas e poemas de Ademar Bispo, Maria Nívea Pinto, Lupércio Ailton Nery Palhares, Marinho Guzman e Ulisses Silva Lacerda, que vieram enriquecer o meu arquivo para sempre. Esses amigos têm ligação direta com Mirandópolis, e cultivam certa paixão por essa terra.
         Os textos mais lidos são: Floradas na Terra, Homem de bem (sobre Edmir Batista), Uma tarde muito quente (de Ademar Bispo), Kurao Iyomasa, Gennaro Ordine, Waldir José Frigeri, José Maria de Carvalho, Neyde Pavezi (todos em Gente de Fibra) e La Cucaracha.
     Interessante é que gosto é gosto. Até agora não entendi porque  todo mundo gostou de Floradas na Terra, que é a campeã e tem mais de 600 visualizações. Acho que existem textos mais interessantes, que me custaram horas e horas de elaboração, como O Evangelho segundo Jesus Cristo, Paraiso Restaurado, Ongaeshi, Viagem de Ônibus, Salas de Espera, Enfisema Pulmonar, Cremação Sagrada...       
      Ah! Aproveito para esclarecer que às vezes, uso palavras japonesas em meus textos, como esse Ongaeshi, que exprime toda a gratidão, quando se é favorecido com um grande favor de alguém.  Uso termos japoneses, quando não consigo expressar de outra forma, o que estou tentando passar. Daí a vantagem de ser meio bilíngue. E tenho alguns leitores nihonjin.
     Gosto muito de ler os comentários, que os amigos postam nos finais de textos. Essas observações preciosas são o termômetro da crônica, se agradou ou não.  Sei que muita gente não gosta de escrever, mas para mim é muitíssimo importante a opinião do leitor, e aceito críticas, quando discordem do meu pensar. Afinal todo mundo tem o livre arbítrio. E a diversidade de pensamento irá me ajudar a escrever melhor, e respeitar a opinião dos leitores.
    Ultimamente, tenho deixado de escrever Ensaios sobre os poetas e escritores famosos, que deixaram tanta obra maravilhosa para a humanidade, Preciso ainda escrever sobre Marcel Proust, Josué Montello, Graciliano Ramos e tantos outros, dos quais conheci obras inesquecíveis.
      Tenho algo importante para comunicar. Sou consciente de que o meu Português é cheio de falhas, e nessa altura da vida, acho que não vou melhorar nem a sintaxe nem a ortografia, porque já estou na fase de esquecimento, e não consigo mais gravar regras. Escrevo como quem está conversando com alguém (o leitor), com simplicidade, sem complicações, pois o que quero realmente é apenas divulgar o meu pensar, as minhas ideias. Adoniran Barbosa fez o poema Trem das onze, cheio de maneirismos e conseguiu sucesso, porque falou ao coração e todo mundo entendeu o recado. Quem dera eu chegar a esse nível. Pra mim basta que seja compreendida. Não fiz Curso de Letras e muito menos Português.
     Ah! Sempre há algum amigo sugerindo que eu organize meus textos e publique livros. Isso está fora de cogitação. Não tenho pretensão de editar livros. Os livros no Brasil ficam encalhados nas Livrarias, Bibliotecas e nas Revistarias, por falta de leitores.
         Então pra mim está de bom tamanho que, de vez em quando, algum leitor visite meu blog e leia uma crônica, que não exige mais que alguns minutos. E se possível, poste um comentário.
         E muito obrigada a todos! Estou feliz!


         Mirandópolis, dezembro de 2013.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/

       


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013



                               Viver por viver
     Estive conversando com uma senhora não tanto idosa, que vive  praticamente sozinha, e ela me contou que não tem nenhum objetivo nesta vida. Vive por viver.
         Ouvir isso me deixou arrepiada. Como é que uma pessoa pode viver por viver? Sem um objetivo sequer? Acho isso impossível.


         Todos os seres vivos têm um objetivo: a cigarra vive para cantar no Verão. A formiga vive para abastecer provisões, para garantir a subsistência da família no Inverno. O cachorro vive para cuidar do seu território e de seus filhotes. As plantas vivem para fornecer flores e frutos e sombras... Tudo tem sua razão de ser, de existir. Agora, uma senhora dizer que não tem nenhum objetivo, pra mim é demais.
         E ela disse que ouviu numa certa palestra, que todo mundo tem que ter um objetivo (mokuteki em japonês). Após a palestra, foi para casa e ficou pensando, pensando, nem dormiu à noite, porque não achou nenhum objetivo em seu viver...
         Enquanto ela comentava isso, alguém lhe perguntou: “Por que não cria um bichinho?” E ela: “Bichinho prende a gente em casa, e prende pelo coração, que se morre, a gente sofre muito. E se a gente morre primeiro, como fica o bichinho?”“ E você não gosta de cultivar flores?” “Gosto, mas quando quero ver flores, vou a uma floricultura”.
         Olha, achei o caso sério demais, como pode uma pessoa ir pela vida, como um barco sem destino levado pelo rio?
         O normal de todas as pessoas é ter uma meta, um alvo na vida. Os jovens querem ficar adultos logo, para se emanciparem, para ter carteira de motorista e dirigir. E aí, o sonho é ter um carro. E ter um namorado ou namorada, casar, constituir um lar, ter filhos.
         Bom, ela já passou por tudo isso, é viúva e não tem compromissos com ninguém, pois o filho com quem convive é adulto e não depende dela.
         Acho muito estranho, porque também estou quase nas mesmas condições dela, mas todos os dias tenho várias metas: fazer exercícios para evitar dores no corpo, preparar uma refeição gostosa e saudável, bordar para cultivar o lado artesanal feminino, tocar piano para ouvir melodias, estudar a língua de meus pais, para conhecer mais sobre o Japão, conversar com os amigos pelo face book, escrever crônicas para compartilhar ideias com os  leitores e, orar pela segurança e saúde de familiares... São pequenas metas, que me estimulam todos os dias a continuar vivendo e pelejando. Metas que, levam ao objetivo maior que é viver bem, ser feliz e não desperdiçar os momentos, que Deus vai me concedendo.
         Deve ser muito triste não ter uma meta, uma razão por que lutar, se empenhar. Porque seria tanto faz como tanto fez... Que a água vá para cima ou para baixo... Nada importa. C’est toute la même chose...
         Chegar a esse nível é o mesmo que se congelar, deixar de viver, como uma folha seca levada pelo vento, sem lutar, sem se defender, sem se importar, despreocupada com o que poderá advir...
         Mas, essa conversa me fez prestar atenção em mais pessoas idosas ou não, que ao se aposentarem se entregam a uma tristeza sem fim, achando que o mundo acabou. Meu Deus, a vida não é só trabalho! Há tanto que se aproveitar, que curtir, que desfrutar.
         O aposentado tem tempo para conversar com amigos, visitar gente querida, ajudar algum vizinho doente, fazer um mimo bordando ou crochetando, para dar de presente a alguém que foi gentil com a gente. Conversar com o carteiro, com a margarida que passa varrendo a rua, dar-lhe um cafezinho, ir pescar, andar pelas ruas da cidade, para conversar com algum conhecido, ir ao bar da esquina tomar um cafezinho. Essas pequenas ações é que fazem a nossa ligação com o mundo, com a sociedade.
         Ficar no cantinho da casa, lamentando a tristeza da solidão, do abandono é o mesmo que aguardar a morte. E a vida é tão breve. O momento que passa não volta mais. Por que desperdiçá-lo suspirando? Esse minuto que não volta mais deve ser usado cantando, dançando, fazendo exercícios com os braços, caminhando com amigos, papeando com familiares. Mais tarde, alguém já terá partido e, as coisas não conversadas serão motivo de mais tristezas e remorsos. Aí, a lamentação vai crescer mais.
         Toda pessoa deve ter uma meta pelo menos por dia: dar uma pequena caminhada, ler algo interessante, dar um telefonema para aquele amigo ou parente de quem não se tem notícias, consultar o médico para descobrir as causas das dores na coluna, no joelho, no ombro... Isso significa zelar de si próprio, para não onerar ninguém com o desconforto da dependência. Porque se a pessoa não tem objetivo e não se cuida, vai descobrir um terrível objetivo mais tarde, que é se livrar da dependência de alheios, quando isso for praticamente impossível.
         Dizem que o choro é a manifestação de pena de si mesmo. Acredito que seja mesmo. A gente chora quando fica muito decepcionada, quando leva uma rasteira, quando perde uma pessoa querida. Chora de dor da perda, de comiseração de si mesma. E isso é uma coisa boa, serve de catarse, para aliviar a alma. Depois do choro vem o sorriso, o alívio. Então, é muito bom chorar para desafogar o peito, que parece explodir de mágoa, de tristeza, de dor. E isso acontece esporadicamente. Ninguém vive chorando constantemente, porque o choro é uma válvula de escape. Limpa a alma.
         E as pessoas que vivem travadas, sem uma esperança, um sonho, um desejo? Será que choram? O choro levaria a uma decisão com certeza. Decisão de descobrir um objetivo, uma meta, uma razão de viver.
         Gostaria de ajudar essa amiga que não tem nenhum objetivo, para que a sua vida seja mais agradável e cheia de esperanças... Entretanto, não sei o que lhe dizer. Como fazer uma pessoa normal retomar o gosto pela vida?  E a vida é tão breve!
         Talvez a convide para participar da Ciranda, onde aparecem tantas pessoas solitárias, querendo amizades, carinho, companhia...
        
         Mirandópolis, novembro de 2013.      
         Kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/




segunda-feira, 2 de dezembro de 2013



                               Última cirandada do ano
     Na sexta-feira dia 29 deste, fizemos a última reunião da Ciranda.
         Houve um imprevisto e fizemos na Cozinha Caipira, lá na Chácara do Dedé, na estrada para a Usina.
         Compareceram cerca de trinta cirandeiros. E a tarde não prometia muito, porque estava quente demais. Mesmo assim, o pessoal foi chegando, e se ajeitando para conversar com os amigos. A novidade do dia foi a chegada da Jandira Morales e seu esposo Dinho. Chegaram meio ressabiados, achando que eram estranhos no  ninho, mas logo perceberam que conheciam quase todos e ficaram à vontade.
         Na primeira hora, todos ficaram trocando as notícias de famílias e de amigos. Servimos um lanche gelado e o pessoal se animou. Começou a cantoria, comandada pela Vina, Dona Fermina, Dedé e Rachel. E aí todos ficaram animados. E cantaram, cantaram, enquanto lá fora se aproximava um temporal. Tudo ficou muito escuro. Para distrair a atenção formamos a roda da Ciranda e brincamos de cirandar. Seu Orlando declamou seus poemas, assim como o Angulo Bernardes Marcos, o popular Dinho e mais alguns cirandeiros que cantaram na roda, dançaram, fizeram graça.   
      As novas cirandeiras Jandira e Aparecida se declararam felizes, por estar fazendo parte do grupo e, agradeceram por terem sido convidadas. Prometeram participar de outras reuniões.

         Aproveitei o momento e expliquei que na Ciranda há três restrições: É proibido discutir Religião, falar de Política e cobrar taxas, porque esses assuntos acabam criando situações desagradáveis. E a Ciranda só tem um propósito: proporcionar um pouco de alegria para as pessoas idosas que vivem sós
         Lá fora choveu, mas foi um chuvisqueirão, sem maiores problemas. A chuva refrescou o ar e tudo ficou mais agradável.
         Servimos melancia como sobremesa, e combinamos que faremos um almoço no próximo encontro.      
         Ao final, dei os recados dos amigos ausentes e desejamos boas festas e um Bom Natal para todos.
         Quando os cirandeiros partiram já estava anoitecendo.
         Ano que vem tem mais, se Deus quiser!
        
         Mirandópolis, novembro de 2013.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/