quinta-feira, 19 de outubro de 2017

             Tomando chá
   
     Sempre que o frio chega, não resisto à tentação de fazer um chá para aquecer o corpo. Chá quentinho com sabor de maçã e canela é uma delícia, quando estamos meio travadas com as mãos e os pés gelados. Aliás, não é estranho a gente congelar nas extremidades do corpo, quando chegamos à  velhice? Acredito que o sangue não circule direito, quando as artérias ficam encolhidas com o frio. E aí, os pés e as mãos   ficam parecendo blocos de gelo...
     O chá é uma bebida universal. E creio que deve ter sido a primeira bebida experimentada pelo homem. Parece que um monge foi aquecer uma cuia de água na brasa e, acidentalmente caiu uma folha de erva, que deu um sabor especial à água. Daí, todo mundo o adotou, mais ainda quando a mistura resolvia problemas intestinais e ou renais...
        Quando eu era criança, o único chá que havia no armazém dos pobres era o mate Leão, que vinha num saquinho a granel...  O saquinho vinha numa caixa laranja com o desenho de um Leão, e eu ficava matutando qual era o significado desse animal com relação ao chá. Talvez quisessem passar a ideia de quem tomava o chá ficasse forte como o leão... Mamãe fazia o chá e temperava com açúcar e limão. E podia consumir várias xícaras, que nunca fez mal para ninguém, Hoje o chá vem acondicionado em sachês individuais e é tão prático prepará-lo.  Tem chás para todos os gostos, de variados sabores... Tem os requintados e caríssimos chineses, os ingleses... Mas, nós aqui nessa terra tupiniquim ficamos satisfeitos com os chás produzidos no Vale do Ribeira, que são muito saborosos.
        Os países orientais têm a tradição de servir o chá em qualquer ocasião. Antigamente, no Japão anterior à Guerra, havia nas casas por mais pobres que fossem, um fogareiro cavado no chão da cozinha. Era o “irori” onde o fogo permanecia aceso dia e noite, e sempre havia uma chaleira com água quente, com que se faziam as sopas e os chás. Qualquer visita era brindada com uma taça de chá. É que lá faz muito frio e esse costume já está arraigado no povo.
        Nos países europeus era o máximo de requinte ir tomar chá num bar/café ou nos bistrôs. E isso era invariavelmente lá pelas cinco horas da tarde. Junto com o chá, as madames elegantes da cidade apreciavam os doces, os bolos, as madeleines...
        No Japão, há um ritual para a cerimônia do chá. Nas casas abastadas há uma casa ou um estúdio especial para essas cerimônias... Os caminhos que conduzem a essa casa são decorados com plantas e pedras especiais. O estúdio é pequeno e tem uma decoração refinada com quadros e um vaso com ikebana. No chão, o tatame e os utensílios de cerâmica e bambu para a cerimônia, que segue um ritual milenar. Tudo é calculado metodicamente. O chá é o “matcha”, chá verde em pó, que no início era servido apenas aos sacerdotes zen budistas e aos nobres samurais... Esse ritual é conhecido como “Chanoyu” e tinha na sua origem o propósito de purificar a alma. Toda a cerimônia prima pela reverência. Um dos maiores apreciadores dessa cerimônia foi o famoso Xogum Toyotomi Hideyoshi, um dos construtores do Japão Moderno, que mandou construir um gabinete todo decorado de ouro... Hideyoshi apreciava muito o chá. E não perdia uma ocasião para reunir convidados especiais para o chá.
        E no Brasil, há uma cidade fronteiriça que surgiu na rota do chá. É a cidade de Ponta Porã ligada à vizinha paraguaia Pedro Juan Caballero, pela Avenida Internacional.  Ponta Porã está ligada historicamente à origem da erva mate, que é a base do chimarrão e do terere. Um dia vi a história contada em baixo relevo num mural do Hotel Barcelona. Muitas cidades surgiram na rota do chá no Vale do Ribeira, no sul do Estado de São Paulo. Região que continua produzindo chá.
        Embora o chá seja apenas uma bebida bem simples deu origem a eventos sociais como Chá de Bebê, Chá de Panela, Chá de Casa Nova... A intenção é apenas ajudar a futura mamãe com pequenos presentes para o bebê que vai nascer, ou presentear os noivos para mobiliar sua casa.
   Ultimamente, o comércio de bebidas está oferecendo chá engarrafado geladinho pronto para o consumo. Chá verde, chá com limão, com pêssego são opções para quem está sedento e encalorado. É uma bebida mais saudável e não faz mal pra ninguém. Prefiro tomar chá do que refrigerante.
        O chá combina com qualquer refeição. Nós de origem japonesa apreciamos um chá verde sem adoçante, para acompanhar um almoço ou um jantar. Para acompanhar lanches e bolos, um chá geladinho vai bem, principalmente para quem não toma café.
        E a moda generalizada hoje é tomar   chás de ervas naturais para emagrecer, para combater pedras nos rins, para controlar diabetes, artrite e enxaquecas. Eu tomo chá de salsinha para limpar os rins, e de graviola para controlar a hipertensão. Chá de graviola tem sido muito consumido para combater catarro e tumores. Porque já está comprovado que os medicamentos feitos em laboratórios podem curar certas doenças, mas trazem efeitos colaterais nocivos.
Então, a opção é o chá. Com moderação, é claro.
Então vamos plantar ervas medicinais!



       Mirandópolis, outubro de 2017.
 kimie oku in
http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/



quinta-feira, 5 de outubro de 2017

            Cirandando em setembro
     

      Na última sexta feira de setembro, nos reunimos na Chácara Prando para cirandar.     
      Após um longo período de estiagem e calor sufocante, o dia amanheceu meio chuvoso. Achei que muita gente iria faltar...
      Mas fiquei feliz porque a maioria compareceu, e compareceu animada aguardando a tão esperada chuva. E choveu. Uma chuva mansa, sem ventania, sem relâmpagos e trovões, molhando lentamente o chão. E aí todo mundo ficou feliz abençoando a chuva que caiu do céu.
     A novidade foi a presença do senhor Nelson Biazotto, que veio engrossar o grupo de músicos. O Milton e a Remir vieram da Ilha para a alegria de todos.
   
   Como havíamos combinado, o Osvaldo Valverde recolheu as doações para comprar cadeiras de varanda para usar no barracão. Conseguimos arrecadar R$ 750,00, mesmo sem a colaboração de alguns que se esqueceram do Projeto. Com esse valor, o Valverde vai negociar a compra das cadeiras.
      Além do lanche farto, das cantorias e muita conversa, houve a comemoração de aniversário de Flora Forte 72 anos, de Joaquim Leite 82 anos e Rachel Sperandio 84 anos. Cantamos os parabéns para os aniversariantes, que nos brindaram com um delicioso bolo.
      E ao final ficou acertado que em 28 de outubro, comemoraremos o sétimo ano de Ciranda com um almoço churrasco. Todos ficaram muito animados com essa notícia.

      E assim, foi mais uma tarde cirandeira.
Em outubro tem mais.
      Mirandópolis, setembro de 2017.
kimie oku in


domingo, 1 de outubro de 2017

         Bonecas e bonecos
    
       Ao escrever sobre as coleções da Ana Caldatto, eu me lembrei que nunca tive uma boneca de verdade. Éramos tão pobres, mais pobres que pobres, que não havia lugar para esses luxos para as crianças dos anos 50. Filhas de imigrantes japoneses...
       Mas, criança gosta de brincar e a única lembrança que tenho é de bonecas de milho verde, com os cabelos vermelhos ou amarelos... A roupa era sempre de palha verde... E os meninos brincavam com chuchus e batatas doces, espetando pauzinhos que funcionavam como pernas... Tão pobre, tão rústico... Mas hoje dá saudades...
      
    Só fui ter contato com bonecas quando nasceu a minha filha, que foi mimada com uma dezena de bonecas lindas... Mamãezinha que ninava um bebê, a bela Susy, a elegante Barbie, a brasileiríssima Emília, Fofolete, Feijãozinho e tantas outras que nem lembro mais...E quando nasceu a minha neta, a gente trombava com as bonecas espalhadas pela casa. A menina tinha uma mania estranha: Tirava toda a roupa da boneca e ficava ninando-a peladinha... As roupas incomodavam o ato de ninar...
     Descobri um dia que existiam bonecas de porcelana. Tão lindas, tão ricamente vestidas... Mas, essas se destinavam a outra classe de meninas... Assim como as bonecas imperiais do Japão, que as meninas japonesas cultuam no dia 03 de março, Dia das Meninas ou Hina Matsuri. Os bonecos ricamente vestidos de seda e brocado representam a Família Imperial e são colocados numa espécie de altar, com os Príncipes, as Princesas e os Músicos do Palácio. Nesse dia, as meninas se vestem de belos quimonos e tomam chá com as amigas que chegam para visitá-las, para apreciar a exposição dos bonecos imperiais.

    Mas, também sei de lendas japonesas sobre bonecas... Kokeshi, bonequinho de madeira, que lembra uma história triste do Japão Medieval, quando a fome imperava e obrigava os pais a venderem suas meninas para não morrerem de fome... As meninas nas mãos dos mercadores se transformavam em gueixas acompanhantes de homens, ou caiam na prostituição. Certa mãe teve que largar um filho amado numa montanha coberta de neve, porque não tinha como alimentá-lo, e o remorso consumiu toda a sua vida. E sempre no aniversário do abandono, ela esculpia um boneco de madeira, com cabeça redonda e corpo roliço... Era o kokeshi, um bonequinho de madeira sem braços e pernas. Ela o fazia, supondo que o espírito de seu filho se incorporaria no boneco e não se perderia para sempre...

Outra lenda diz que as bonecas conseguem adquirir vida própria. Certa menina japonesa tinha uma linda boneca vestida de quimono, que chamava de Okiku. Ela amava a boneca e sempre a carregava. Mas um dia, a menina morreu... E a boneca ficou sozinha. Passado um tempo, os cabelos da bonequinha começaram a crescer sem nenhuma razão. Ninguém soube explicar o fato. A boneca está guardada no Templo Mannenji, no Japão... Por causa dessa lenda, muita gente no Japão não gosta de conservar bonecas esquecidas nos armários. Quando as crianças crescem e as bonecas ficam abandonadas, os pais as levam aos Templos Budistas para queimá-las, conforme o Professor Kakutani de Língua Japonesa nos relatou certa vez no Nipo...
Há lendas e lendas sobre bonecas. A maioria relata coisas misteriosas e assustadoras. Basta consultar o Google. Mas, o que me impressionou é uma lenda do México. Num lugarejo mexicano chamado Xochimilco, há uma Ilha das Bonecas... Segundo a lenda, há décadas atrás, don Julian, morador local soube de uma jovem que morrera afogada no canal, ali perto. Uns dias depois viu uma boneca boiando nas águas, a recolheu e pendurou numa árvore para agradar ao espírito da jovem. Então, o local se transformou numa espécie de santuário, onde outras pessoas começaram a pendurar outras bonecas. Seu primo Anastásio continuou a tradição, permitindo a visitação pública. Mais bonecas apareceram boiando... Toda essa coleção de bonecas deixadas ao relento ficaram feias e sujas com o passar dos anos, e hoje têm um aspecto assustador. Mesmo assim, tem gente mórbida que vai visitá-las...

 A vivificação das bonecas foi inventada por gente que gosta de assustar as pessoas. Dizem que os olhos da boneca começam a enxergar tudo que a rodeia. Acredito que foi essa lenda que motivou alguns cineastas a produzirem filmes de terror usando bonecas e bonecos. Eu tenho pavor desses filmes... Havia em casa até uns anos passados, um boneco grande todo colorido que ficava guardado dentro do armário. Sempre que abria o armário, eu me sentia meio aterrorizada, pois o boneco tinha um olhar ruim...
       E chegamos à Anabelle, uma boneca que prega sustos nas pessoas... Nunca terei coragem de assistir a esse filme; vi uns flashes e não gostei. E o filme está fazendo muito sucesso. Tem gente que gosta de sofrer, de ficar arrepiado, de levar sustos e choques. Eu, não.
       Mas, quero fechar esta crônica com chave de ouro!
Franz Kafka, escritor e pensador tcheco que, descreveu magistralmente a fragilidade e a impotência do homem, diante das instituições criadas pelo próprio homem em O Processo, O Castelo, A Metamorfose teve ao final da vida, um lance comovente relacionado com boneca. Certo dia conheceu num Parque, uma menina que chorava a perda de uma boneca querida. Ele a consolou por três semanas se declarando Carteiro para lhe entregar cartas da boneca, que estaria viajando pelo mundo. Nessas cartas, a boneca descrevia os lugares, as paisagens, as cidades, os climas que acabaram consolando e encantando a menina. E ao final, ele lhe deu uma nova boneca. Esse fato foi relatado por sua esposa...



Mirandópolis, outubro de 2017.
kimie oku in


      

       

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

 Yes! Nós temos uma
Colecionadora!
   
Todos nós em alguma fase da vida adquirimos a mania de colecionador. De selos, de moedas, de cédulas, de livros, de CDs, de canecas, de tantas outras quinquilharias.
    Eu mesma andei juntando pedras que via faiscando ao sol ou que tinham formatos inusitados. E o escritor chileno Pablo Neruda também colecionava pedras e conchas do mar. Por aí se conclui que juntar coisas não é exclusividade de gente comum.
      Mas, colecionar coisas exige espaço para se guardar e tempo para cuidar delas. Money para comprar peças que faltam ou que se almeja muito. Além disso, requer tempo e dedicação para zelar pelo acervo, para conservá-lo. E conforme a coleção vai crescendo é preciso providenciar caixas e armários para guardar... O bom colecionador vai catalogando cada objeto. Data de sua aquisição, nome do doador ou vendedor, local onde ocorreu e mais detalhes importantes. Porque muitas vezes, o objeto se torna valioso pela idade que possui ou pela história que carrega. O objeto mais valioso quase sempre tem a ver com a raridade; quanto mais raro é mais valioso, por ser bem cobiçado por outros colecionadores. Outras vezes, o valor tem a ver com a personalidade famosa a quem pertenceu. Como objetos pessoais de Marilyn Monroe ou Elvis Presley... Eu mesma tenho uma carta resposta, escrita de próprio punho pelo Prêmio Nobel de Literatura José Saramago... Preciosidade.
      Não é fácil colecionar coisas. Porque o desejo de possuí-las não tem limite e a pessoa vive correndo atrás de algo o tempo todo. Nos mais inusitados recantos e até no estrangeiro. E o estranho de tudo isso é que a pessoa não consegue se desfazer delas, mesmo sabendo que há peças repetidas. É que cada peça tem uma história particular, remete àquela pessoa especial que já partiu... Ou foi um achado do arco da velha...
      Geralmente, as pessoas comuns não dão a mínima às coleções. Consideram como velharias inúteis e não entendem a paixão que alguns nutrem por elas.
Hoje é mais fácil guardar certas fotos/relíquias. Basta salvá-las no computador para não perder essas imagens. Mas, os objetos precisam de espaço para conservar.
Fui entender sobre coleções quando conheci o trabalho de uma mirandopolense que tem um acervo admirável. Ela já trocou peças com outros colecionadores famosos e ultimamente, está sendo convidada para mostrar suas raridades em expôs.  Participou em 2012 da Exposição de SESC Pompeia, na homenagem à arquiteta Lina Bo Bardi, idealizadora de projetos famosos como do Sesc Pompeia e do prédio do MASP. A nossa colecionadora participou também da Exposição Mais de Mil Brinquedos para a Criança Brasileira no SESC Pompeia em 2014; do evento “Sílvio Santos vem aí!” no Museu de Imagem e Som em 2016, em que o famoso apresentador foi homenageado pelos seus 80 anos. Participou com bonecas e brinquedos antigos com os temas “Domingo no Parque” e “Boa noite, Cinderela!” E há pouco, apresentou parte de sua coleção no evento Estação Anime no prédio da nossa antiga Estação.
E o que mais me chamou a atenção quando a recebi em casa, é o olhar perscrutador, que sabe avaliar o valor de cada coisa que vê... Desde um antigo chaveiro, às velhas fotos de imigrantes japoneses e até aos velhos e caqueados ladrilhos... Espírito de colecionador...
E ela me contou que vai às casas que estão sendo desmontadas, para recolher coisas muito preciosas que iriam para o lixo... Uma porta de duas folhas de cedro, um apito de Juiz de Beisebol... A nós, simples mortais objetos como esses não têm valia... Mas, a história que carregam é que os valoriza. Porta de cedro que pertenceu a uma casa, que abriu milhares de vezes para alguém passar, o cedro que hoje é raro, as pessoas que a manusearam por décadas e décadas, as alegrias e as tristezas que ela conteve no recinto... O velho apito, que controlou os jogos, marcando as faltas, as vitórias conquistadas, os choros e as alegrias dos jogadores, a responsabilidade do juiz, a imparcialidade... as festas, os campos riscados de cal, as tabelas dos pontos, a alegria da torcida... os comentários...
 O colecionador é movido pela beleza, pela raridade, pelo valor histórico e cultural de cada objeto. Movido pela unicidade de cada objeto. Conheci em Araxá, Minas, uma senhora que colecionava taças de cristal. E era muito complicado conservá-las em estantes, prateleiras e armários de vidro... Possuía milhares de taças de todas as cores, de todos os tamanhos e formatos. Viajava pelo país de norte a sul em busca de taças raras. Ia até aos países vizinhos atrás de raridades... Era uma senhorinha solteira e havia herdado uma fazenda de café, que investiu totalmente na sua coleção. Gosto é gosto... O maior prazer dela era mostrar a sua coleção e contar histórias incríveis de algumas peças. A coleção era a sua vida.
Pra encerrar, quero apresentar a nossa colecionadora.
 É a Ana Caldatto, filha de Iracy e Domingos Caldatto, que moram ali na bela Chácara que possuem. O pai sempre foi um homem dedicado ao cultivo da terra e à criação de gado. A mãe conhecida como dona Zica é uma artesã, que descobriu a utilidade das palmas de coqueiro para fazer cestos e arranjos ornamentais. Ela passa grande parte do tempo ensinando outras pessoas a fazer artesanato com palhas de milho, palmas, sementes e buchas... Os dois são os maiores incentivadores da filha colecionadora.
Ana colecionadora possui mais de duas mil bonecas de todos os tempos e lugares... Coleciona brinquedos de pano, de madeira, de plástico... Coleciona chaves e cadeados, fotografias antiquíssimas, latinhas de bolachas, livros infantis, lampiões, objetos que pertenceram aos imigrantes japoneses, objetos de uso doméstico que não se usam mais, canetas e mais uma infinidade de coisas incríveis. Visitar o seu acervo é voltar ao passado e reviver momentos que nunca mais voltarão. O seu sonho maior é organizar um grande Museu, para que todos possam apreciar suas raridades...
E é essa mesma Ana Caldatto, que virá contar uma história no Paço Municipal de Mirandópolis com o tema “Era uma vez...” mostrando a sua coleção de brinquedos antigos.
E isso ocorrerá de 09 a 27 de outubro próximo.
Vamos lá, prestigiá-la?



Mirandópolis, setembro de 2017.
kimie oku in




sexta-feira, 22 de setembro de 2017

      Cada idoso é uma ilha!
               
     Nós pensamos que temos um montão de problemas e que a vida é uma terrível e interminável via sacra. E por outro lado, pensamos que ninguém tem mais problemas maiores que nós...
     Na semana que passou constatei que todos, mas todos nós carregamos cruzes pesadas, que às vezes desejamos arriá-las, para não sofrer mais. Mas a cruz é nossa e não pode ser deixada nos caminhos, para não atrapalhar outros... E cada um tem sua cruz e tem que carregá-la até o fim.
     Descobri que, os filhos não querem cuidar de seus genitores doentes porque “têm problemas demais” e “não têm tempo”. Presenciei a contenda de filhos querendo depositar os pais no Asilo... E os pais querendo morrer para não se submeterem a isso... “Pensei em fazer uma besteira”...
     Também soube de filhos homens que passam o encargo de cuidar dos pais para as filhas mulheres... Ignoram totalmente o que as irmãs passam para cuidar de idosos rabugentos e teimosos... E ficam bravos quando as irmãs os convocam nas horas difíceis... Como se eles não tivessem nascido desses velhos genitores.
     Na cultura oriental (japoneses, chineses, coreanos) o filho mais velho é que tem que assumir os pais na alegria e na dor... Cuidar deles até a morte já é tradição e ninguém contesta. Mas, as mudanças da humanidade também interferiram nesse processo. E grande parte de pais estão sendo depositados em asilos, casas de repouso, ou simplesmente ignorados...
     Antigamente, a relação pais e filhos era uma coisa bonita, respeitosa e cheia de cuidados. Hoje nem tanto. Os filhos têm pressa de realizar seus sonhos e nunca dispõem de tempo para os velhos aposentados, que passam meses e até anos esquecidos... Apenas são lembrados quando eles precisam de eventuais ajudas monetárias... Muito triste isso tudo. Os filhos se transformaram em estranhos para os pais.
     Nos meus tempos de professora, havia em livros didáticos textos sobre netos que defendiam os avós, que seriam descartados... O texto de uma coberta, que o neto quer dividir para guardar um pedaço para seu pai, quando chegar a sua hora... O texto da cuia...
     Hoje, há asilos e asilos. E casas de repouso...
     Numa rápida consulta no face, constatei que meus amigos não se incomodariam em ir para o asilo quando estiverem incapacitados... Disseram que os filhos têm que batalhar por suas vidas e não têm tempo para eles.
     Eu honestamente, não me seduz nem um pouco a ideia de terminar meus dias num ambiente estranho, convivendo com tanta gente abandonada... Pessoas com quem não se tem afinidade, que não sabem de seu passado, que nunca participaram de seus momentos felizes ou tristes...
     Atualmente há as casas de repouso, que nada mais são  que asilos disfarçados... Mesmo essas não me seduzem absolutamente.    O problema maior está nas lembranças que a gente perde ao sair de casa, onde viveu a vida toda, os vizinhos, a paisagem, os passantes e até os pardais que visitam o pedaço. Uma marca na porta, um cantinho da sala, a luz que vem da janela, o vento que bate as portas... E momentos vivenciados com pessoas com quem conviveu nesse recanto... Aquele espaço onde a netinha brincava com seus badulaques... O lugar ao sol, onde o cão de guarda tomava sol... Um momento de ternura daquela velha senhora se referindo ao amado esposo, que não quer deixar sozinho no mundo... A escrivaninha onde uma querida irmã se assentou e olhou o velho álbum de família... A cadeira da varanda onde a saudosa mãe fez tantas peças de crochê... A mesa da cozinha onde dividiu tantas refeições com o parceiro. Em dias ótimos e outros nem tanto, mas sempre juntos.
     Mudar de ambiente é anular anos e anos de imagens e lembranças muito caras que ninguém sabe. Que ninguém vivenciou. Lembranças particularíssimos de cada um. E muito caras.
     Então, os mais jovens dirão: “Mas ficam na memória!”
     Realmente ficam na memória dos mais novos, que têm os neurônios bem ativos. Mas, no fim da jornada, a tendência normal é perder aos poucos a memória, que precisa ser reativada com as imagens, a paisagem, as fotografias, as falas, os reencontros com amigos. E a casa é onde estão concentradas as lembranças mais fortes e vívidas de uma existência toda.
     Forçar um idoso a deixar o seu recanto mais precioso é o mesmo que condená-lo à morte. Por isso não entendo e nem aceito a ideia de obrigá-los a morarem num asilo.
     Asilo para mim é lugar para idosos que não têm nenhum familiar, que possa cuidar deles.
     Hoje percebo que há tantos idosos desventurados, vivendo uma vida de desilusão, de desencanto e abandonados à própria sorte.
     São ilhas isoladas. E esquecidas.
     Eu não quero ser uma.

     Mirandópolis, setembro de 2017.
     kimie oku in


sábado, 16 de setembro de 2017

 A carência mobiliza
         
          Pela própria natureza, nós humanos somos ambiciosos.
         Ambiciosos no sentido de querer mais, de experimentar mais, de ter mais, de ser mais, de alcançar mais... Parece que isso não é muito bom... Mas, se não houvesse ambição, não haveria progresso, não haveria novas descobertas, não haveria evolução.
Como lema da Universidade de Hokkaido, Japão, há a famosa inscrição: “Boys, be ambitious!” que o Professor americano de Química, Botânica e Zoologia, William S. Clark deixou como legado para os jovens discípulos japoneses, que estudaram no Colégio Agrícola de Hokkaido, hoje Universidade. E isso foi em meados de 1876...
O Professor disse para seus alunos que fossem ambiciosos na procura do conhecimento, das descobertas que o mundo da Botânica e da Zoologia podem oferecer. E afirmou que não fossem ambiciosos por money, por bens materiais...
O Japão da Era Meiji era um país isolado, fechado para o mundo e seus governantes se achavam auto suficientes... Mas, um dia descobriram que em relação ao Ocidente estavam muito atrasados. E aí, começaram a importar os conhecimentos de outras partes do mundo para recuperar esse atraso. E foi aí que convidaram o Professor para dar aulas de Botânica e Zoologia em Hokkaido, onde impressionou com seus conhecimentos sobre Culturas Agrícolas e sobre Piscicultura.
Tal foi a importância de sua passagem por Hokkaido, que toda a Ilha do Norte do Japão erigiu dezenas de estátuas do Professor Clark, para que jamais fosse esquecido. E a famosa frase foi inscrita no frontispício da Universidade. E o seu slogan foi adotado por muita gente, que até produziram um animée “Boys, be ambitious/”  ou Jovens, sejam ambiciosos!
Naquela época há mais de duzentos anos, a humanidade era mais comedida, e não dava passos sem medir os riscos. Tudo era mais devagar, com extremo cuidado e o respeito era o ponto fundamental das relações humanas. Era o tempo em que se acreditava num fio de bigode, numa palavra dada, num aperto de mão para firmar grandes negócios. O homem dava o devido valor à sua honra, ao seu crédito.
Mas, duzentos e tantos anos se passaram e as mudanças ocorreram numa velocidade impressionante. E hoje, o avesso do homem foi desnudado sem pudor nenhum. Negociatas, trapaças, emboscadas passaram a ocorrer no dia a dia, como nova ordem dos tempos atuais. E muita gente percebeu que, havia uma camada da sociedade que gostava de levar vantagem em tudo. Tanto é que até uma marca de cigarros lançou descaradamente esse slogan “Gosto de levar vantagem em tudo!” E o atleta que protagonizou isso só foi perceber muitos anos depois, que isso não era correto. Mas, a Lei do Gerson pegou. E todo mundo queria levar vantagem. Furando filas, tomando lugares alheios, abocanhando mais que a quota permitida, se apossando de bens alheios...
E chegamos aos dias atuais, com uma geração de políticos cevados nessa Lei da vantagem. Quanto maior vantagem, mais esperto é você!  E deu no que deu. Com centenas de homens de colarinho branco corrompendo, tirando vantagens, sabotando, comprando regalias, se vendendo e sempre usando as verbas das Instituições Estatais. Quebrando a Petrobrás, o BNDS... Roubando a própria Pátria, no maior descaramento.
E vendo todas essas notícias cada dia mais escabrosas, eu me lembrei de um poeta japonês, que fez um pequenino poema.  Nele, ele diz que para sermos felizes, é preciso sempre faltar alguma coisa. Essa carência é que nos move para agir, pelejar, trabalhar, economizar a fim de conseguir o que nos falta. A carência é motivação para a luta, para a peleja diária. Se nada nos falta, pra quê trabalhar? Pra quê enfrentar o batente? Se nada nos falta, podemos deitar na cama e esperar a morte, porque não haverá nenhuma razão para sair combatendo.
Todos os seres vivos atuam no sentido de prover o lhes falta. Os animais procuram pastagens verdes, os gatos vão atrás de suas presas, as formigas procuram plantas para encher o formigueiro... E nós vamos atrás de roupas e conhecimentos além da comida.
E para se viver bem, basta ter o necessário: umas mudas de roupa para se trocar, uma comida que nos satisfaça, uma casa para nos abrigar... Entretanto, há uma classe de gente que possui demais, que vive insatisfeita porque não tem mais o que desejar. Sem nenhuma motivação para trabalhar. E quer mais e mais. E vivem procurando novas emoções, para preencher o vazio da vida. Porque homem sem trabalho, sem motivação é um perdido na vida.
Quando veicularam nos noticiários que o ex Governador Cabral recebia trezentos mil reais de propinas por mês, fiquei atordoada. Dez mil reais por dia? Meu Deus, onde usar tanto dinheiro? Onde guardá-lo? O que não se pode comprar com tanta grana?
Sinceramente, eu não saberia o que fazer com uma fortuna dessas todo mês... E esse outro político Geddel que guardava uma fortuna de milhões em um apartamento... Tanto o Cabral como o Geddel não possuíram esse dinheiro. O dinheiro os possuiu e os escravizou. Pobres e infelizes, jogaram toda a honra, a dignidade e o respeito que um homem deve possuir, para se tornarem escravos da vil moeda.
E vamos parar de pensar nesses corruptos que todos os dias nos envergonham. Pensemos: cidadãos felizes são os trabalhadores, que levantam de madrugada para dar conta de seu recado e possuem o mínimo necessário. Todos os dias têm motivação para enfrentar filas, dar conta de sua jornada, contar com o pagamento no fim do mês... E acima de tudo, têm sonhos para sonhar!
E reforcemos o foco do famoso slogan do Professor Clark:
“Jovens, sejam ambiciosos! “
Ambicionem saber mais, conhecer mais, entender mais o mundo e a humanidade para serem felizes. Porque ninguém leva vantagem em tudo impunemente.
Um dia, a casa cai!
Não caiu para Geddel Vieira Lima?
Mirandópolis, setembro de 2017.
kimie oku in


domingo, 10 de setembro de 2017

            Malas cheias de grana
      
      Na semana que passou, todos os brasileiros ficaram estarrecidos  com a ousadia do ex Ministro de Integração Social Geddel Vieira  Lima da Bahia, que mantinha um Banco particular num apartamento, com malas e malas de dinheiro. Os lotes eram de cédulas de cem e cinquenta reais.
         O valor total superou os cinquenta milhões de reais!!!
         O homem já estava em prisão domiciliar por atrapalhar as investigações da Lava Jato e, agora voltou para a cadeia de fato, juntamente com outro comparsa que era o Diretor Geral da Defesa Civil de Salvador.
      Inacreditável pensar que um ex Ministro e um Diretor de Defesa Civil estavam compactuados em operações escusas...
Integração Social?  De quem?
Defesa Civil? De quem? É o mesmo que deixar dois cães famintos vigiando um açougue...
         Muita gente ficou pensando: “Ah! Se essas malas fossem minhas!... Quantos problemas seriam solucionados. Quanta coisa boa eu compraria!!!” Uma mala lotada de cédulas de cem reais é uma tentação irresistível. Dá vontade de carregá-la pra casa...
         Mas, e depois?
         Onde guardá-la?
         Esconder em casa?
         Em que lugar da casa ficará bem escondida?
         Será que o parceiro ou a parceira é confiável?
         E as faxineiras, que tudo mexem e remexem?
      Enterrar num buraco? Como um cachorro guarda os ossos que não consegue roer de vez... E depois, desenterra e rói mais um pouquinho, mais um pouquinho... até acabar.  Porque um dia acaba. Mas, o volume é muito grande e precisaria de um bunker... E bunker despertaria suspeitas...
         Então, alguém cede um apartamento...
Quanto esse alguém cobrou?
Nada? Me engana que eu gosto!
E como vou vigiar o tesouro?
Se for todos os dias conferir, vai dar na cara...
E a Federal tá como uma sarna, não larga do pé!
Preciso nomear alguém honesto, confiável...
Honesto, confiável! Quem? Quem?
Mas, ele também quer um naco da carne podre...
Tenho que ceder, não tem jeito.
E aí mando buscar as notas que preciso.
Mas, será que não está me roubando???  Como fazer para controlá-lo?  A quem reclamaria se...
         E ninguém sabe do meu tesouro! Só MEU!
         Eu mereço, fui tanta coisa importante, servi ao meus país e faço jus a essas regalias mais que ninguém... Sou um cidadão muito importante da Bahia. Eu mereço! Mas, ninguém pode saber onde está toda essa grana, porque vão querer tomá-la de mim.
         E com esses pensamentos atormentando o “pobre homem inocente”, dormia mal pensando que na calada da noite o parceiro estaria fazendo um limpa no apartamento...
         E não resiste, e vai lá conferir.  Sorrateiramente, protegido pela madrugada silenciosa, entra no ape. E vê as malas lacradas e pensa: Será que ele não abriu? Será que não levou alguns pacotes? Mas, como conferir? Contar cédula por cédula, mala por mala, caixa por caixa? Meu Deus, que coisa trabalhosa!  Será que alguém me seguiu?
         Escuta um barulho na rua, uma sirene de polícia! Será que descobriram? Vieram atrás de mim? Deus, tomara que não seja! E o honestíssimo e santo homem quase borras as calças. Medo de ser descoberto! E pede a Deus que o proteja! Deus protege bandido?
         E como os rios correm para o mar, como os dias ruins se alternam com os bons, como a Federal não descansa, um dia tudo vem à tona. E deixa todos os brasileiros boquiabertos! A imagem das malas cheias de grana trouxe de volta a imagem de uma cueca derramando notas, em passado recente. E me lembrei que a Dilma queria ensacar ventos... E não dinheiro! Disseram que Lula e seus quarenta ladrões assaltaram Brasília. Apenas 40?
         Imagino a vergonha da família, que deve estar sendo hostilizada em qualquer lugar público que apareça. Inocente ou não. Porque essa infâmia atinge gerações, mesmo que o culpado seja um só. O que é de se duvidar. Pessoas da família devem ter usufruído desse dinheiro roubado da Caixa Federal, sem um tico de remorso...
         É por tudo isso que o Brasil entrou numa rota de assaltos, roubalheiras envergonhando a todos os cidadãos honrados.
         Enquanto os Federais investigam e prendem políticos corruptos, a Polícia Estadual não consegue vencer os assaltantes de Bancos, que se tornaram mais e mais ousados, como se tivessem prazer em desafiar os homens da Lei. É que o vício do roubo se transformou numa profissão, adotada desde o mais pobre e miserável até o mais poderoso da escala social no Brasil. Roubalheira generalizada.
         Mesmo assim, toda essas fortunas roubadas não fazem a felicidade de ninguém. Elas marcam indelevelmente os ladrões, que carregarão o estigma de corruptos, de foras da Lei até a morte.  E a desgraça do pau verde é ter um seco encostado. Vem o fogo, queima o seco e fica o verde chamuscado... Assim, todos os membros das famílias desses bandidos carregarão esse estigma, mesmo que inocentes...
         Então, pra quê sujar uma história de família? Pra quê se apropriar de algo que não nos pertence? Se a única coisa valiosa que levamos desta vida é a dignidade com que a vivemos?
         Money, o maior corruptor do mundo!

         Mirandópolis, setembro de 2017.
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