quinta-feira, 16 de novembro de 2017

                        Eu conheci...
        Eu conheci tanta gente nesse mundo.
        Conheci gente bonita, gente feia, gente boa, gente má, gente sábia, gente vazia, gente implacável, gente amável...
        Conheci gente que cozinhou milho seco, para os filhos não morrerem de fome. E sobreviveram... E amaram muito a mãe.
        Conheci gente que passou fome e ficou tão feliz com um punhadinho de açúcar branco, que uma vizinha doou...
        Conheci gente que mandava o filho cavoucar o chão para roubar batatas, que plantávamos. Essa gente era japonesa...
        Conheci duas mulheres que prometeram colocar uma cédula, se não me engano de mil cruzeiros no caixão daquela que morresse primeiro. Mil cruzeiros era valioso na época, como cem reais de hoje. E a promessa não foi cumprida...
        Conheci uma família inteira que chorou e agradeceu a chuva, que Deus mandou no momento que mais precisava dela.
        Conheci uma senhora meio bruxa, que conseguia afugentar tempestades jogando sal grosso no tempo, quando o céu ficava assustador demais. E o temporal ia embora, de verdade!
        Conheci um aluno que mandou a professora parir primeiro antes de “lhe meter a mão na cara”, como ameaçou. Ela não tinha filhos...
        Conheci um diretor de Escola que consertava armários das salas de aula, para que funcionassem regularmente.
        Conheci uma pessoa que, cuidava do dinheiro e da conta de uma senhorinha interna no Asilo em outra cidade, distante 40 quilômetros. E todo mês, ele levava o valor certinho, sem cobrar a viagem. Arcanjo Gabriel?
        Conheci uma pessoa que cuidou de uma cria de casa, transformando-a em professora, para dar conta da própria vida.
Conheci uma pessoa que veio ao casamento de um irmão meu sem ser convidado, para agradecer um favor que papai havia feito décadas antes... Morava distante e veio de táxi, e o reencontro foi  muito emocionante...
Conheci uma senhora muito educada que me serviu em casa, e corrigiu os modos de meu caçula... Dona Joana.
Conheci uma pessoa inocente, que morreu injustiçada por causa de fuxicos de comadres. Comadres famosas da sociedade...
Conheci um homem casado, que ocupava uma função local e teve a ousadia de bater à porta de uma viúva para dormir com ela. E ela correu atrás dele de madrugada com uma foice na mão. Nunca mais ousou falar com ela.
Conheci um deficiente mental que passava as tardes ninando um punhado de galhos secos no colo, murmurando e andando pra lá, pra cá...
Conheci uma batian, que ensinava as boas maneiras para todas as crianças da vizinhança. E ensinava a dançar e cantar canções japonesas. Gratuitamente...
Conheci um pai que carregava o filho pequeno nas costas cantando canções japonesas para o ninar... Era meu pai.
Conheci uma senhora que andou por mais de trinta anos, ministrando jhorei para as pessoas necessitadas da cidade. Mamãe.
Conheci um homem desapegado de luxo e riqueza, pronto para ajudar qualquer pessoa. Foi enganado dezenas de vezes, mas não perdeu a fé na humanidade. E continua sendo generoso como sempre.
Por tudo isso, posso dizer que fui abençoada pois só conheci pessoas que, de alguma forma me transformaram no que sou agora.
Pessoas que Deus colocou no meu caminho.
Mirandópolis, novembro de 2017.
kimie oku in









quarta-feira, 8 de novembro de 2017

        Os jovens, os velhos...

     Já estou na fase que muita atitude minha pode ser relevada devido à idade. Tenho 75 anos e meio, e sou o que consideram uma pessoa idosa, graças a todas as décadas que vivi.
Mas, como vivi numa fase em que tudo era proibido, tudo era pecado, tudo era atentado ao pudor, passei todos os anos de minha vida me policiando para errar o menos possível. E não foi nada fácil. É verdade que cometi meus pecados e falei bobagens como todo mundo fez um dia, mas foi por ignorância pura mesmo. Na verdade, vivi minha juventude como uma pessoa idosa, sempre cuidando para não cair na boca do povo...
Quem viveu nos anos 60/70 viveu amarrado por regras duras e rígidas estabelecidas pela Igreja, pela sociedade, pelas comadres, pelos parentes, pela vizinhança... E não era fácil escapar da língua dessa gente, que tudo condenava como pecado, como escândalo. Quem se rebelava, ou se destacava afrontando essas regras era considerado um fora da lei, uma vagabunda, uma pecadora...
Então, todo mundo andava numa corda bamba, cuidando para não cair, procurando se equilibrar de alguma forma, mesmo carregando mágoas sem fim no coração. Aos meninos já as coisas eram diferentes.  A permissividade era mais aberta e eles abusavam. De qualquer forma eram homens e tudo era mais liberal para eles. Mesmo assim, os pecados deles eram pequenos e inocentes, se compararmos com os de hoje...
Estive pensando nessas regras, nesse controle que a sociedade exerce sobre os mais jovens. A intenção é sempre para que eles errem menos e andem em linha reta, mas quem nunca teve vontade de se desviar dos caminhos estabelecidos e procurar atalhos? Quem ousava, tinha que enfrentar uns cascudos, uns castigos, uma punição mais ou menos dolorosa e humilhante.
A Escola era o Juizado da molecada. Tudo era errado, feio, condenável. E os alunos pobrezinhos tinham que ficar de joelhos sobre grãos de milho, por horas (Nunca fiquei, mas devia doer muito, pois não?) E havia as varadas nas pernas para exemplificar; muitas vezes o inocente nem sabia porque estava sendo castigado. Porque os alunos deveriam ficar como robôs sentadinhos nas carteiras, sem se mexer, sem levantar dali e sem falar com os colegas. Era um regime militar mesmo. Ora, cada criança vinha de um lar onde nem sempre imperavam as boas maneiras, e não sabia como se comportar numa sala de aula. E justamente aí é que aprendiam a se comportar de forma mais civilizada, menos estúpida. E era costume da época, os pais ameaçarem seus filhos levados da breca: “Você vai ver, quando entrar na escola, a professora irá te castigar!” Isso provava a incompetência dos pais que não sabiam educar seus rebentos, e essas palavras eram o atestado de sua total incapacidade e ignorância.
De lá pra cá muita coisa mudou. Os pais relaxaram na educação de seus filhos, relegando essa tarefa à escola. Nesse aspecto, os pais estão totalmente enganados, pois é obrigação da família educar seus filhos; e os professores só irão aprimorar a educação, oferecendo-lhes conhecimentos que facilitarão a sua vida.
Quando eu fui professora, também era muito ignorante. E os alunos muito mais... Naqueles tempos bravios, as famílias tinham de seis a dez filhos e a labuta dos pais era tão contínua, que não sobrava tempo nem para conversar e orientar as crianças... A educação se fazia com os pequenos copiando as atitudes dos maiores, e dava bons resultados se estes andavam na linha. Não havia os meios de comunicação de hoje que falam sobre problemas psicológicos, depressão e outros males, que todos nós também  superamos  nas pelejas de cada dia, sem a ajuda de ninguém.
Hoje os costumes estão tão avançados que vi aqui mesmo no face, umas postagens orientando os jovens a não cederem lugares para os idosos em metrôs, trens e ônibus... Justificativa: Os idosos têm que superar essas dificuldades para ficarem mais fortes... Isso me deixou atarantada! Tenho 75 anos e sou mais ou menos forte e resistente, porque caminho e faço ginástica todos os dias, mas sinceramente não conseguiria viajar de pé num metrô ou trem lotado. Mesmo os metrôs e trens modernos dão uns solavancos ou freadas, que desequilibram até os mais jovens e fortes.  Eu não entendo de onde partiu essa orientação, mas gostaria que um dia sentissem com o avanço da idade que o corpo enfraquece, fica bambo, desequilibra facilmente, tropeça em qualquer pedrinha ou reentrância das calçadas e cai estatelado no chão. Às vezes, pode até sofrer quebradura de braços ou pernas. Tudo por falta de equilíbrio e fraqueza. Além do mais, a gente não consegue mais carregar objetos pesados. Quando as lojas oferecem a entrega das compras em domicílio, fico muito grata. Não consigo mais carregar três ou quatro quilos por mais de duas quadras... Não é luxo, é o peso da idade mesmo!
Então, quando dou carona para minhas amigas faço questão de entregá-las em casa, porque a maioria está mais ou menos titubeante e pode sofrer um acidente enquanto acabam de chegar, se as deixar na esquina. E sempre aguardo que a pessoa entre em casa com segurança. Gentileza deve ser completa e não pela metade.
Muita gente não atenta para um idoso, que caminha pelas calçadas trocando os passos com dificuldade, e trombando algumas vezes com os capiaus, que fazem rodinhas de fuxico nas esquinas... Atrapalhando o fluxo de gentes...
Pois é minha gente, já fui jovem e já andei rapidinho pelas calçadas e nunca atentei para as dificuldades dos mais fracos, dos mais velhos. Hoje já sinto o peso da idade até para ir ao Banco, que fica lá na esquina... e  no Caixa eletrônico demoramos mais, porque a gente não enxerga direito, as mãos não acham o cartão e apertamos os botões errados na hora de digitar a senha... E tem que começar toda a operação de novo... E o cidadão impaciente de trás fica suspirando como se pensasse: “Por que essa velha demora tanto?”
Só que eu não me importo, não fico afobada porque tenho certeza absoluta que ele ficará igual a mim, um dia...
Velhice é foda mesmo!
Mas vou levando.

Mirandópolis, novembro de 2017.
kimie oku in



quinta-feira, 2 de novembro de 2017

      Brincadeira
     
     Como uso muito o face book, notei que os usuários em sua maioria ignoram totalmente a pontuação em suas postagens. Muitas vezes, tenho que ler em voz alta as observações que fazem nos meus posts, para entender de fato o que tentam me passar, colocando a pontuação que não aparece.
     Ponto final, vírgulas, interrogação, exclamação são sinais tão úteis para expressar nossos pensamentos em textos, mas a maioria ignora. E o estranho é que todos sabem da existência deles e de sua serventia... Todos aprenderam em algum momento na escola, que é necessário pontuar as frases para ser devidamente compreendido pelo leitor.
     Então, só por brincadeira farei hoje um texto sem nenhuma pontuação, para ser lido num fôlego só. Quem usou essa fórmula foi o famoso colombiano prêmio Nobel de Literatura Gabriel Garcia Marquez em “Cem anos de solidão”, que li várias vezes e que possui frases que ocupam páginas e páginas, sem uma pontuação...
É um desafio de verdade!  
Sugiro que leiam o meu texto em voz alta sem parar e depois coloquem as vírgulas e os pontos onde acharem conveniente.
     Começando:
“Estou ouvindo o Ângelus que enche a cidade todos os dias com a Ave Maria vindo da igreja local pela segunda vez no dia porque ao meio dia também aconteceu a mesma coisa antigamente isso era feito pela rádio clube local às dezoito horas e segundo o livro tombo da paróquia que tive a oportunidade de pesquisar sobre o padre Epifânio essa pregação feita pelo pároco um dia foi cortada por desentendimentos políticos entre o padre e os donos da estação local mas enquanto durou os católicos ficavam de mãos postas e persignavam-se onde quer que se encontrassem esse costume também acabou morrendo assim como muita coisa bonita foi esquecida como os sinos da Igreja que se mantiveram silenciosos por décadas e décadas não sei por que razão e que voltaram a bimbalhar há poucos anos com os novos padres que assumiram a paróquia agora com o controle instalado lá na igreja ninguém mais tem que ficar pendurado nas cordas para tocar os sinos basta apertar um botão e os sinos tocam lindamente sem falhar mas sempre que escrevo sobre sinos é inevitável citar uma experiência vivenciada pelo filósofo norte americano Joseph Campbell que estudou sobre Mitos ele disse que sempre que ia a Paris gostava de visitar a Catedral de Chartres onde se sentia realmente em paz como aparecia sempre lá o zelador da igreja o convidou para subir na torre e tocar os sinos e ele foi e lá ficou por um longo tempo pendurado nas cordas suspenso no ar indo e vindo completamente emocionado enquanto a igreja toda vibrava em sons graves dooom doooom doooom dooooom disse que foi uma das experiências mais marcantes de sua vida e falando em sinos os nossos foram doados por gente que construiu a nossa cidade o maior que pesa 530 quilos foi doado pela senhora Cunha Bueno e o menor de 410 quilos pelos irmãos Santa Rosa de Pirajuí que tinham propriedades agrícolas em Mirandópolis esses sinos fundidos em Campinas pela firma Viúva Viscardi e Filhos trazem os nomes de seus doadores no maior está gravada a função de um sino afugento as tempestades congrego o clero reúno os fiéis decoro as festas e pranteio os mortos.
Acho que é bom começar outro parágrafo porque fui dormir e hoje como é dia de finados fui ao cemitério onde repousam os meus pais levar flores e oração  já na entrada vi os mercadores de velas e flores que são bem convenientes para quem se esqueceu de comprar essas coisas mas um rapaz japonês perguntou se poderia cuidar do meu carro em Lavínia também tem isso achei o fim da picada vi também venda de cervejas e outras bebidas que achei um absurdo ninguém vai visitar os mortos e tomar cerveja encontrei uns conhecidos de meu cunhado e alguns familiares o cemitério estava todo florido de flores de plástico e de seda e algumas naturais que os zeladores condenam por causa dos mosquitos da dengue da zika e  chikungunha é assim  que se escreve o vento estava forte e era difícil manter as velas acesas será que as chamas das velas realmente iluminam os caminhos das almas ou é apenas um recurso para consolar os vivos com essa intenção de iluminação percebi que havia túmulos cobertos de coroas de flores sinal de que o finado partira recentemente fui ao túmulo de um familiar e percebi que ninguém esteve lá, nenhum filho nem a viúva e isso me deixou incomodada sete anos se passaram e ele é uma página virada e esquecida como a memória das pessoas é rasa e desrespeitosa não lembrar de quem lhe deu a vida vai se lembrar de quem lhe ajudou um dia ah ingratidão ingratidão funda e inaceitável o homem é uma caixa de pandora com segredos inaceitáveis e assim matutando sobre a ingratidão humana voltei para casa e terminei esse texto sem pé nem cabeça e sem pontuação nenhuma será que alguém vai me entender ou serei mal interpretada por falta de sinais”
E fim!
Mirandópolis, novembro de 2017.
kimie oku in


     

terça-feira, 31 de outubro de 2017

       Uma ideia, uma ação!
       Uma ideia que deu certo.
      Como eu visitava amigas idosas e solitárias, um dia
sonhei em realizar um projeto, que me permitisse levá-las a um lugar aprazível no campo, para curtir a natureza com outras pessoas idosas. Quem me despertou isso foi a senhora Natsuko Yuassa, mãe do nosso querido Dr. Roberto Yuassa. Na época ela estava idosa, morava sozinha e sua solidão era maior porque conversava na língua materna, em japonês. Então, seu contato com outros era muito restringido pela falta de domínio do Português. E eu interessada em aprender a falar a minha língua materna fui lá conhecê-la. E apesar de ter sido muito difícil o começo por eu falar só Português e ela só japonês, acabamos nos entendendo muito bem. Ela era gentil, atenciosa, e gostava de me contar passagens de sua vida de mocinha no Japão. Aprendi muito com ela sobre comportamento social e costumes japoneses.
 Com essa ideia na cabeça escrevi uma crônica, que despertou o interesse do senhor Mário Dias Varela. Em poucos dias ele tinha arrebanhado uns amigos e fundamos o Grupo Ciranda. A primeira cirandada foi no meio da rua João Domingues de Souza. Lá pelas dezessete horas, formamos um círculo composto por Milton Lima, Júlio Galbes, Chiquinha, Mary Magro, Mário Varela e eu e brincamos de Ciranda, cirandinha... Isso foi há sete anos e temos uma foto que registrou para sempre esse momento. Foto em preto e branco... Estava fundado o Grupo Ciranda.
Fizemos a primeira reunião com uns dez idosos lá na Cozinha Caipira, na estrada para a Usina. E daí para cá foram setenta e sete reuniões, com o grupo crescendo mais e mais a ponto de ser necessário limitar o número para melhor atender a todos.

Muita coisa aconteceu durante esse tempo que passou. Perdemos o seu Egídio, um dos fundadores que nos deu a maior força. Perdemos dona Luisinha, seu Jorge Cury, Professor Aristides, Professor Sperandio, Lourdinha Codonho, Maria Menegatti, dona Palmira, Lupércio, Toninho do pandeiro, dona Onofra e dona Nair. Foram todos brincar de ciranda no céu. Partidas naturais porque todos lá no grupo são idosos.

Outros ocuparam suas vagas na Ciranda e atualmente temos umas sessenta pessoas, que participam mensalmente das reuniões. Lá conversamos, trocamos ideias, cantamos, oramos e dançamos. Tudo de forma natural, sem regras apenas com o objetivo de alegrar o pessoal.
E felizmente, contamos com um grupo de violeiros e sanfoneiros que nunca faltam para animar nossas tardes. E esses músicos assumiram o papel de ajudar os idosos solitários participando voluntariamente.
Por tudo isso, a alegria é o tom da festa.
Não falamos de política, não discutimos religião e ninguém tem cargo de presidente, secretário e outras baboseiras. Todos são iguais, todos são tratados de forma respeitosa, porque ninguém é melhor que ninguém. Para o grupo, o dia do encontro sempre é um piquenique, porque nos reunimos na Chácara do seu Albertino Prando, que é um lugar lindo, de ar puro, todo verdejante, onde há pássaros, galinhas, e vacas pastando... E a cantoria se estende pela tarde toda enquanto servimos lanche, refrigerantes e café.

Muita gente pede para entrar no grupo e nós procuramos controlar esse afluxo, porque o espaço não é grande e queremos garantir o conforto de todos que lá vão. Sabemos que há muitos idosos necessitados, mas não podemos absorver a todos, porque acima de tudo está a qualidade de atendimento que queremos proporcionar. E damos prioridade aos idosos que moram sozinhos, que não têm vida social e vivem meio esquecidos. O que difere esse trabalho dos asilos é que os nossos idosos voltam sempre para suas casas, porque só saem para se divertir. E o compromisso da ciranda é apenas acabar com a solidão de todos. E nunca tirá-los de seu cantinho onde se sentem confortáveis.
Nada é mais forte que dar-se as mãos e brincar com os amigos. À direita ter alguém segurando firmemente a mão e à esquerda também. E rodar cantando ciranda, cirandinha como nos tempos de criança... Isso passa uma energia sem igual para todos. Todos se sentem fortalecidos e a alma fica repleta de bons fluídos e muita vontade de continuar vivendo.
Então é isso!


A Ciranda chegou para ficar.
Que nunca mais pare de rodar e levar alegria a todos.

Mirandópolis, outubro de 2017.
kimie oku in




sábado, 28 de outubro de 2017

             Bullying
     
    Os massacres de alunos em Minas e em Goiás me levaram a pensar que precisamos recrutar o pessoal do Criminal Minds, seriado da AXN para analisar o comportamento dos assassinos.
     Não gosto de matanças e nem de crimes, mas a análise de comportamento dos matadores e conclusões para fechar os casos do seriado é muito instigante. A rapidez de raciocínio dos membros da equipe é impressionante. É verdade que é ficção, mas tudo tem uma sequência lógica, e o estudo do passado ajuda sempre a prever o comportamento que virá em seguida. Muitas vezes evitando desfechos piores.
     A ocorrência na Creche de Minas foi dolorosa, porque um adulto desvairado despejou toda a sua ira em criancinhas inocentes, para matá-las de maneira mais impiedosa possível, ateando fogo. A história de Goiás que dizem motivada por vingança, fez o Brasil inteiro pensar nas maldades de jovens em escolas. Disseram que foi revanche de bullying que o garoto de 14 anos vinha sofrendo...
     Se realmente foi esse motivo, a Escola inteira deverá parar e fazer uma análise da situação. Professores, Pais de alunos, funcionários e os próprios alunos devem denunciar se realmente estão sofrendo abusos de colegas. E todos juntos devem procurar os caminhos para corrigir esse desvio de comportamento. Seria oportuno que todas as Escolas fizessem uma análise do comportamento de seus alunos, para corrigir e evitar mais desastres em tempo. Porque se nada fizerem, os trotes continuarão e mais tragédias poderão ocorrer.
  Bullying ocorre no mundo inteiro, em escolas tradicionais, em escolas particulares americanas, europeias, japonesas, brasileiras. No Exército para os recrutas, nas Faculdades para os “bichos” ou calouros, e no trabalho para os novatos. Por quê?
     Porque é o reflexo da sociedade, que discrimina os mais fracos, os mais feios, os mais pobres, os mais tímidos, os inseguros, os menos capazes. Dentro do círculo familiar muitas vezes ocorrem essas diferenciações, considerando um filho mais inteligente, outro mais lento, outro mais levado... E essas rotulações ficam marcadas a ferro e fogo na testa desses meninos para sempre. E as explosões acontecem assim sem mais nem menos, de repente num círculo maior, porque o indivíduo já está saturado de ser discriminado e desrespeitado. E vem acumulando mágoas e mágoas ao longo dos anos... E quando explodem, causam estragos irreparáveis...
     Então, é errado pensar que o bullying seja problema  restrito a escolas. É um problema social de falta de respeito, de falta de empatia, de falta de caridade para com o próximo. Toda essa ausência absoluta de sentimentos tem provocado os maiores estragos na humanidade, desde que o mundo é mundo.
 Nos tempos obscuros da Idade Média, a própria Igreja encetou guerras contra os infiéis, porque esses não se comportavam como os “ditos santos” exigiam. E queimaram muita gente inocente nas fogueiras, alegando bruxaria e práticas demoníacas, porque essa gente inocente tinha visões ou comportamentos estranhos motivados por esquizofrenia... E jogaram fora pessoas doentes com lepra, considerando-as contaminadas pelo demônio, porque apresentavam aspectos horripilantes quando a doença consumia partes de seus membros e pele. A Igreja cometeu as maiores barbaridades contra a humanidade em nome de Deus. De um Deus inocente, como dizia José Saramago, Nobel de Literatura de Portugal, que se dizia ateu.
    A humanidade seguiu os preceitos da Igreja que levou os americanos brancos ao paroxismo da perseguição, com a Klu KLux Klan discriminando e executando todos os diferentes que apareciam, especialmente os de cor negra. Em nome de uma “raça pura ariana”. Raça viciada na maldade, no ódio, na arrogância, na prepotência sem limites. Raça maldita, afastada de Deus.
     Toda manifestação de bullying teve seu princípio nesse rancor, que alguém plantou na alma de gente sem capacidade para pensar e refletir.
     Estranho é que o ensinamento de Jesus foi: “Amai-vos uns aos outros!” que foi totalmente modificado para: “Odiai-vos uns aos outros!” Não sei em que momento da História da humanidade ocorreu essa alteração, que trouxe estragos sem fim.
Perseguições, condenações de inocentes, queima de não cristãos, guerras santas que eram demoníacas de fato, regimes políticos executando oponentes, as Guerras Mundiais, as bombas atômicas, de napalm, matança de inocentes no Vietnã, na Índia, no Oriente Médio, Nazismo, Holocausto, Guerra Civil Espanhola, Revolução Cultural de Mao Tsé na China, Stalin, o Imperador Hiroíto no ápice da 2ª Guerra, o Comunismo e tantas desgraças mais foram pregações passadas de geração a geração ao longo da História.
E as pessoas ficam assustadas com esses atos de terrorismo e bullying nas Escolas! Isso é apenas uma prática ensinada aos jovens todos os dias pelos meios de comunicação, e mais ainda pelas atitudes preconceituosas dos adultos.
E tudo isso começa em casa, com o pai vendo um jogo e xingando o jogador negro de “Neguinho filho da puta, vá comer banana, macaco”!” As manifestações preconceituosas nos estádios são incutidas em casa pelos adultos. Nenhum jovem será capaz de agir inadequadamente assim sem mais nem menos, se não viu ou não ouviu um exemplo em algum lugar, especialmente em casa. Está tão acostumado com esse palavrório preconceituoso, que nunca se deu ao trabalho de atentar no significado ofensivo dele.
O preconceito é criado em casa, pelos pais que o passam aos filhos dizendo: “Fulano é preguiçoso! Fulano é bebum! Fulana é vadia!” E essas ideias ficam impregnadas nas mentes dos jovens que vão à escola e, começam a rotular os colegas de acordo com esses padrões, discriminando-os. É assim que começa tudo. A armação veio de casa. Bullying foi ensinado em casa!
Amai vos uns aos outros! Sábias palavras de Jesus. Mas como é difícil amar o pobre, o feio, o lerdo, o sujo, o deficiente... Então, esses acabam virando sacos de pancada dos ditos espertos. Espertos que não têm um tico de misericórdia na alma. E saem queimando mendigos, retaliando gatos e cães...
Se todos nós ensinássemos que todos somos iguais e todos merecem o nosso respeito, não haveria essas discórdias. Não haveria preconceito. Não haveria bullying. Não haveria guerras.
Não está na hora de repensar nossas atitudes?

Mirandópolis, outubro de 2017.
Kimie oku in

    


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

      Você sabe o que é pudor?
     
     Acho que muita gente nem faz ideia do que essa pequenina palavra significa. É o que está faltando no mundo hoje em dia!
     Pudor e seu antônimo pundonor são palavras fora da moda, mas a humanidade viveu até o século passado cultivando-as.
      Pudor significa inibição, vergonha, acanhamento, receio de se revelar. E tem uma carga de afeto muito relacionada ao erotismo. Pudor de mostrar partes do corpo, de revelar sentimentos íntimos, de ouvir, ver e comentar pensamentos que passam no recôndito da alma... 
     Pudor de não revelar problemas, doenças e desentendimentos que ocorrem em todas as famílias, por melhores que sejam. Porque todas as famílias têm seus estrangulamentos, momentos de dor, de atritos sérios que parecem sem solução. Todas têm. Assim como a minha...
      Pudor de comentar sobre intimidades do casal, que ninguém precisa saber o que você faz na cama com o seu parceiro, porque isso é assunto de foro íntimo e torná-lo público é muito desrespeitoso para com o outro, além de revelar a falta de decência e caráter de quem assim o faz...
      Pudor de exibir partes do corpo que não precisam ser mostradas, porque ninguém deve sair por aí oferecendo seios e bunda, que isso é muito feio. Mesmo que as partes sejam muito bonitas, até homens mais atrevidos ficam desnorteados com mulheres que mostram tudo, porque ficam sem horizonte para mirar... Recato é tão bonito e todos os homens apreciam. Todos os homens apreciam uma mulher recatada.
     Pudor de comentar problemas de família, desentendimentos do casal, atritos com os filhos, brigas de sogra com as noras e genros... Como é feio ouvir uma nora dizendo: “Minha sogra é uma víbora!”  Outras vezes é a sogra que assim age. E geralmente em Salões de cabeleireiros e manicure. Já cansei de ouvir isso. E fico pensando em como deve ser horrível a convivência do filho nesse tiroteio de mãe e esposa... E a coisa fica pior quando a disputa tem herança no meio.
     O pudor atualmente deu lugar ao pundonor, que é a falta absoluta de vergonha, de recato, de acanhamento, de respeito.
      E o resultado é o que os noticiários exibem todos os dias: tragédias e mais tragédias. O pundonor está nas vestes escandalosas de certas mulheres, que parecem não ter espelhos em casa... Mostram os seios, o umbigo e a bunda. E geralmente são partes muito gordas, abundantes e horrorosas. Desventuradas! Não têm senso do ridículo.
      O pundonor ou falta de vergonha está nos programas de acerto de contas, em que parceiros se agridem publicamente lavando seus trapos sujos. A linguagem é um desastre. E a tevê patrocina, apenas pelo IBOPE! Coisa feia. E tem gente que aprecia!!!!
      O pundonor está nas roubalheiras de nossos políticos que, por ter sido eleitos se acham acima da lei e praticam toda a espécie de contravenções. Com a maior cara de pau. E quando confrontados, apenas se defendem citando os comparsas... Que são infinitos. Pundonor de roubar a própria Pátria, que para nós brasileiros comuns continua sendo uma coisa sagrada. Pundonor de famosos da Mídia, que buscam patrocínios pela Lei Rouanet para realizar Mostras e peças de Teatro, que atentam contra a moral pública. Delírios de mentes doentes, que não medem consequências, porque só querem ser diferentes, para faturar alto. Tudo pelo money!
     E o último exemplo desse delírio foi o Queermuseu patrocinado pelo Santander, cujo objetivo era erotizar a criança e vulgarizar as relações sexuais em outros níveis, incluindo até sexo com animais.
      Eu não entendo essas mentes. Acredito que cada pessoa envolvida nesses projetos escandalosos deve ter família, filhos, netos... Que moral estará passando para seus descendentes com suas ideias estapafúrdias? Ou não se importa? Dinheiro compensa?
      Tudo começa nos bons costumes, no recato, no respeito à intimidade de cada um. Coisas do recôndito da alma, coisas de foro íntimo e particularíssimo, que devemos cultivar para salvar a humanidade. Porque cada ser humano foi dotado de algo sagrado, de puro, de santo que deve prevalecer sobre os instintos carnais. Quando perdemos esse controle, tudo vai desaguar no desregramento, na violação de sentimentos, na perda da humanidade. E o homem destituído de sua porção santa deixará de ser uma criatura de Deus.
      E o resultado é esse Museu do sexo, onde mostraram imagens de homens fazendo sexo com animais. E mostraram para muitas crianças!
      Eu ainda tenho pudor!
      E você?

Mirandópolis, outubro de 2017.
kimie oku in


       

sábado, 21 de outubro de 2017

      Boicotar Santander?
      
      Volta e meia recebo sugestões para minhas crônicas.
      E geralmente acato as ideias, que acabam sendo bastante lidas.
     A última sugestão foi a de boicotar o Santander por ter patrocinado aquele Museu do Sexo. Pelo que vi, o que causou maior indignação foi a performance de um ator completamente nu para ser tocado por adultos e crianças... Nu em Arte é reconhecido mundialmente, e há nus e nus... Apolo, Afrodite... Que são belíssimas obras de arte de outros tempos.
   A apreciação artística atual mudou muito, mas o que é belo continua sendo belo e o feio continuará sendo feio. Há telas que venceram os tempos e são apreciadas até hoje. De Monet, de Rembrandt, de Van Gogh, de Picasso... Imortalizaram para sempre esses pintores pela sua genialidade em pintar.
      O estranho nesse Queermuseu patrocinado pelo Santander é que tinha um objetivo: generalizar o terceiro sexo e instituir a aceitação das relações diversas do Macho/Fêmea. Acredito que isso não se pode fazer assim, como uma instituição. Depende da capacidade de cada um de ver, sentir e aceitar essas relações. Não é pelo toque de um macho alfa e nem pela apalpação de uma fêmea maravilhosa, que se mudará a visão e o conceito das pessoas. Se assim fosse, melhor seria instituir o nudismo de vez, onde todos agem naturalmente sem preconceitos. E respeitosamente.
      Então, o fracasso da Exposição não se deve apenas ao preconceito das pessoas. É bem verdade que muita gente se indignou com a exposição e com a presença do jovem nu. Mas, o problema maior está em querer forçar as pessoas a mudarem de atitude só pela visão do nu e sua apalpação. Porque, mesmo os adeptos desse tipo de arte ficariam constrangidos e incomodados se, seus filhos pequenos e adolescentes deixassem que outros os apalpassem nas partes íntimas... Disso tenho certeza absoluta. Aceitariam que suas esposas também fossem molestadas?
      E de acordo com a análise do Ministério Público do Rio Grande do Sul, que condenou a Exposição, o objetivo explícito era erotizar a criança com doutrinação amoral, além de estimular a zoofilia... Não houve restrição de idade para a visitação. Escolas levaram crianças para verem as imagens de sexo de dois homens, sexo a três e sexo utilizando animais... Além de imagens que agrediam sentimentos religiosos das pessoas... Jesus Cristo com os braços da deusa pagã Shiva... Hóstias com inscrições ofensivas...
    O Santander, um dos Bancos mais poderosos do mundo patrocinando uma coisa dessas, jogando fora oitocentos mil reais pela Lei Rouanet é algo que incomodou muita gente. E graças aos protestos nas redes sociais, o Queermuseu cerrou as portas antes do prazo. Mas, o estrago já foi feito. Muitas crianças devem ter ficado com aquelas imagens para sempre em suas cabeças inocentes...
      Bom, voltando ao tema dessa crônica, um amigo me pediu para lançar uma campanha contra o Santander, pedindo aos amigos e gente séria preocupada com as crianças, que boicotassem essa Agência financeira. Pensei muito no assunto. E tive que discordar do amigo.
 O Banco e seus milhares de funcionários não devem ser punidos com desemprego nesses tempos difíceis, porque a maioria nem soube que estava ocorrendo o absurdo dessa Mostra. A responsabilidade é do Departamento Cultural do Santander. Esse sim, deve ser punido. E também os que estendem a proteção da Lei Rouanet a torto e a direito. Acredito que, mesmo a atriz Fernanda Montenegro e outros famosos que defenderam a Exposição alegando evolução de ideias, ficariam muito constrangidos se seus netos praticassem sexo com animais.
E aí está o meu pensar.
Espero, meu amigo que entenda minha posição.
Mirandópolis, outubro de 2017.
kimie oku in