sexta-feira, 8 de dezembro de 2017


        Necessidades de um idoso
    
    Ontem, andando pela cidade encontrei amigos que me pararam para conversar. E conversar é ótimo!
     Primeiro foi o Serafim, o catador de recicláveis. Magrinho e sempre quietinho, parece que sua figura nunca muda. Empurrando o carrinho de papelões que cata pela cidade. Perguntei-lhe dos dois filhos, que levava à Escola Ebe Aurora, segurando-os pelas mãos... Disse que estão casados, trabalhando e dando conta de suas vidas. Disse ainda que tem dez netos e bisnetos. Serafim criou os filhos sozinho, acho que era viúvo... Nunca vi sua mulher... Ainda falou que mesmo aposentado, gosta de recolher os recicláveis para conseguir uns trocados, porque não consegue ficar parado. Está com 78 anos de idade e continua andando com o corpo ereto, sem capengar. É uma figura que vejo sempre circulando pela cidade. Comentei que me lembrava dos tempos da Escola Ebe Aurora e ele sorriu pensando nos meninos ainda pequenos. Sua vida deve ter sido muito difícil, mas parece que não lhe deixou traumas... Foi muito bom falar com ele. Serafim...
     Depois, encontrei a querida Neyde Pavesi, que é uma das maiores benfeitoras que conheci aqui na cidade. Toda vez que a encontro ambas ficamos felizes, porque a nossa conversa não tem fim. Acho que ela é quem mais fala. Fala dos filhos, da glória de um neto de 17 anos enfrentando o Vestibular, do bisneto pequenino querendo ajudá-la na faxina de casa... Da saúde sempre levando-a aos limites, com dores, com sofrimentos atrozes, com dedos se travando... Que tudo de muito ruim ataca seu corpo volta e meia, como a Herpes Zoster... Mas, que não desiste nunca de pelejar para vencer esses “presentes” que Deus lhe manda... Neyde Pavesi, uma mulher valente e generosa como ninguém!
     E perto do Foto Celso, encontrei a Célia Rufo. Magrinha e bonita, sempre igual, andando célere atrás de seus compromissos. Mas sempre dá uma paradinha para perguntar de minha irmã Akemi de quem é muito amiga e de quem nunca se esquece. Que na véspera, ela e o Rufo estavam comentando que a minha querida irmã está acamada há muito tempo, que fará cinco anos em 15 de março vindouro... Informei que ela está hospitalizada, com todos os cuidados necessários no São Luís em São Paulo. Que está com os cabelos brancos, brancos com pele boa e que tem lances muito breves de consciência, como derramou uma lágrima ao conhecer a netinha, que sempre desejou... Que felizmente, não está se atrofiando como sói acontecer em casos de longa permanência na cama. Que não consegue se comunicar, o que é doloroso demais para os familiares... Célia.
     E à tardezinha, estava caminhando no meu quintal e a Ester Pandin, amiga de longa data chegou pra um papinho... Fazia muito tempo que não a via. Perguntou-me da Akemi, com quem trabalhou no SESI, dei-lhe todas as informações... Falou-me de sua vida de aposentada, que não consegue ficar parada, então se uniu ao grupo de defesa do Pelotão Animal, e por esse motivo estava ali em frente à minha casa, porque havia trazido um cachorro para ser atendido pela Camila, Veterinária do Hara’s Pet. Disse ainda que participa de alguns grupos de aposentados e gostaria de me ajudar na Ciranda. Ester...
     E aí percebi que, todos nós idosos aposentados não gostamos de viver inutilmente, sem nada fazer, sem servir ao próximo, sem estender a mão a alguém para dar sentido à vida. Aposentar-se e ficar esperando a morte? Isso é muito triste.
    Porque o homem é um ser caminhante. Se parar, ele trava e seu corpo entra em declínio como uma máquina, cujas engrenagens começam a se enferrujar por falta de uso. Muita gente ainda não atentou para isso. Homens na meia idade se aposentam e passam a vida diante da tevê e do computador, como se nada mais importasse nesse mundo. Só que o corpo começa a cobrar a inatividade, os nervos se retraem, os músculos ficam meio dormentes... E quando o cidadão precisa caminhar para ir ao banheiro, as dores se manifestam. E se nada fizer, as dores serão a companheira de todos os dias para essa pessoa. Então, caminhar é preciso, alongar é preciso, porque o nosso corpo é vivo e precisa de estímulos.
     As mulheres em sua maioria já perceberam que é preciso se cuidar. E fazem caminhadas, hidroginástica, academia... E acabam vivendo mais que os homens. Não acreditam? Pensem no número de viúvas que vocês conhecem...
     Felizmente, os amigos aqui citados estão levando a sério a necessidade de caminhar, de se exercitar, de fazer algo por alguém, de recolher o lixo que outros jogam... Mesmo sem cultura, e meio alienado o Serafim executa uma tarefa importante para a sociedade. Manter o ambiente livre de papelões que a sociedade produz...
    A Célia sempre ativa correndo pra lá, pra cá cuidando dos familiares... A Ester procurando ser útil defendendo animais e a Neyde, bom a Neyde sempre generosa, sempre atenta para socorrer quem precisa de ajuda. Mesmo nos momentos de muita dor, ela não abre mão de atender a quem precisa. Nem que seja apenas um abraço. Abraço que abençoa o premiado.
     E eu que vou pelejando com a minha Ciranda, para diminuir a solidão dos idosos que conheço.
     Nós os cinco, Serafim, Neyde, Célia, Ester e eu não estamos esperando nosso funeral... Enquanto houver um tico de vida estaremos pelejando, dando tudo de nós para viver intensamente. Em gratidão a Deus pela vida que nos foi concedida.
E quando chegar a hora, seremos resgatados por Deus em plena ação!

     Mirandópolis, 08 de dezembro de 2017.
     kimie oku in


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017



                 Mistério inexplicável


       
         Desde que minha mãe faleceu, tenho um cantinho onde presto culto aos meus antepassados com uma vela de sete dias, que mantenho acesa sempre.... É o altar de casa, onde peço a Deus que ilumine os caminhos dos que já partiram, e estes por sua vez protejam os que ficaram...
    Ao longo desses doze anos, a vela me revelou coisas extraordinárias. E volta e meia levo um susto porque ela prenuncia fatos inexplicáveis. Eu sei que vela é vela mas o fogo é que me impressiona. As labaredas parecem ter vida própria. Ela se apaga quando há uma corrente de ar, e se queima naturalmente quando tudo está em ordem.
           Mas, percebi que as chamas falam comigo. Incrível, não é?
        Sei que não sou uma pessoa espiritualista com dom especial e muito menos entendo de bruxaria... Mas, já ocorreram fatos inacreditáveis, que só posso atribuir ao Divino, que ouve minhas preces.
        Quando a família está em crise, com problemas que parecem insolúveis, a vela não queima certinha. Ela se derrama dos lados e fica toda borrada... Ou pega fogo no papel que a envolve e levanta labaredas que parecem incendiar a casa. O Nori diz nessas horas que a qualquer hora vou botar fogo na casa... Outras vezes, a vela se apaga sem mais nem menos, mesmo protegida das correntes de ar. E lá vou eu acendê-la de novo. E de novo ela se apaga. E assim fico teimando por uns dias, até ela se firmar...
        Mas, esta semana aconteceu um fato que realmente  me marcou. A vela estava protegida e queimando certinha. E de repente, levantou uma labareda muito alta sem nenhuma razão. Apaguei e cortei o envoltório de papel, para evitar que acontecesse de novo e a acendi... Daí a pouco, nova labareda se formou e derreteu toda a vela como se fosse uma massa compacta, sem ter chegado até o fim. Ficou de um jeito que não poderei aproveitar o protetor, porque o vidro ficou bem trincado ...
        E o inacreditável foi que ocorreu logo em seguida um problema muito grave que  poderia acabar com a Ciranda... Passei três dias desnorteada, sem conseguir pensar direito... Entretanto, nesses momentos é que mais precisamos orar e assim fiz. Pedi ajuda dos céus... E graças aos bons espíritos e a ajuda de cirandeiros mais sábios conseguimos superar a crise, e realizamos a última ciranda do ano.
        E tudo correu bem, e estamos reprogramando as atividades do ano que vem, com o apoio de todos, porque ninguém quer acabar com o nosso grupo. Já se tornou indispensável para muitos. Acabar a Ciranda? Nem pensar!
        O que ocorreu foi muito triste e deprimente, mas só balançou um pouco o grupo. E penso até que foi um teste, porque todos saímos mais fortalecidos dessa crise. E mais unidos do que nunca. A  Ciranda  tem que ser União, compreensão e companheirismo. Sem isso, não há Ciranda.
        Entretanto, estou escrevendo isso porque há alguma coisa inexplicável nas chamas de uma vela, quando prenunciam acontecimentos futuros. Quando a vela queima certinha, tudo corre bem. Mas, quando ela se borra toda ou levanta labaredas já sei que algo extraordinário vai ocorrer... e isso é assustador.
        Por que ocorre isso?
        Alguém já teve experiência semelhante?
        Alguém pode me explicar isso?

        Mirandópolis, 06 de dezembro de 2017.
        kimie oku in

       

terça-feira, 5 de dezembro de 2017


           Vamos cirandar, que
  a vida é um sopro só!



     No dia 1º de dezembro, fizemos a última Ciranda do ano. Foi na casa do Gerson Possenti, o popular Dé que gentilmente disponibilizou o seu espaço.
     Ficamos quase sete anos cirandando na Chácara Prando, e somos muito gratos pela acolhida generosa com que fomos tratados sempre. Mas agora, precisamos ampliar os horizontes e mudar um pouco de ambiente.
     A Ciranda congrega gente dos mais variados níveis, não discrimina religião, raças, cores, origem, escalas sociais e nem opções políticas. O ponto de ligação de todos é a idade, a solidão e a necessidade premente de companhia.
     Por tudo isso, a Ciranda não pode desistir. Há muita gente abandonada, vivendo sozinha, esquecida por parentes e amigos. E é justamente aí é que atuamos, proporcionando um pouquinho de lazer, de alegria e de companhia para vencer a solidão.
    

Nesses sete anos de convivência mensal, realizamos setenta e sete encontros muito agradáveis, em que os laços de amizade ficaram fortalecidos e aprendemos a respeitar tanta gente que nem conhecíamos. Alguns já partiram depois de cirandar conosco, e outros estão pelejando para viver mais um pouquinho, apesar de fragilizados com problemas de saúde. Assim, temos uma amiga hospitalizada e outros em tratamento por dificuldades de locomoção e problemas outros.

     Na casa do Dé cantamos e conversamos bastante. A varanda onde nos reunimos é bem espaçosa e acomodou a todos confortavelmente. Mesmo o anfitrião estando ausente por motivo de trabalho, nos sentimos à vontade e a Ciranda ocorreu normalmente.
     Conversamos sobre a necessidade de procurar outro ponto de encontro. O Zé Maria de Carvalho ficou de conversar com o novo diretor da AMAI (Asilo local) para nos ceder o Salão onde se realizam as sessões de Bingo beneficente. E o Osvaldo Valverde ficou de sondar a possibilidade de usar o Clube do Hospital, onde é sócio, para realizar alguma reunião lá.
     Até resolver essa questão, uma certeza move a todos: a Ciranda não vai acabar.
E em janeiro, com certeza nos reuniremos novamente.

Mirandópolis, dezembro de 2017.


kimie oku in




segunda-feira, 4 de dezembro de 2017


    Reencontros e Despedidas
    

    
    De novo fui convidada para participar de um almoço de confraternização. A Regina Rosado minha amiga sempre insiste. Eu me sinto meio intrusa, porque sou da turma de 1960, que já completou 57 anos de formatura. E só fizemos o Reencontro de Jubileu de Prata, há 32 anos...
  Acabo cedendo às instâncias da amiga porque o grupo é de mirandopolenses e todos são professores formados em 1965, pelo CENE Noêmia Dias Perotti... E rever amigos sempre é muito bom.
     E lá fui eu para abraçar o pessoal.
    A maior surpresa foi ver a Sonia Ohashi, filha da querida e saudosa dona Maria Ohashi e do famoso taxista seu Zé Ohashi. Sonia está inteira e firme, e veio com amigos de Tupi Paulista. Falou-me de sua vida tranquila, com os filhos formados e pelejando pela vida. Perguntei de sua irmã Jane Ohashi. Com a ajuda da dona Maria criou o único filho que hoje é um cidadão buscando seu caminho. Que a Jane está aposentada como Professora de Educação Física, e empenhada em obras sociais como voluntária... Isso me deixou feliz, porque quando saiu daqui estava meio desnorteada... Sonia mora em Mogi das Cruzes e a Jane perto de Atibaia.
     Reencontrei o amigo Ademar Bispo, amigo de Escolas, por onde andamos pelejando com a educação. E amigo do Banco do Brasil onde atuou com o meu esposo. Jacira não se fez presente por firulas domésticas, o que deixou o amigo tristinho.
      Reencontrei a Noriko Seki, que conheci em outros encontros. Disse-me que sua família era da Primeira Aliança, e tem um irmão morando lá. E junto veio a Chizuru, amiga e ex vizinha da Regina Rosado.
 A Naoe Miyamoto, irmã do Shigueo Miyamoto, que trabalhou por décadas lidando com baterias de carros, lá na Rafael Pereira. Recentemente o prédio onde funcionou sua oficina foi demolido. Shigueo Miyamoto é casado com a Yoshimi Maruyama e residem aqui em Mirandópolis.
      Conheci o Raul Menez, moço de bonita estampa, que é irmão de Marcelo Menez e da Raulinda, que faleceu há anos ...
     Estavam presentes também as moradoras locais. Além da Regina Rosado anfitriã da festa, sua filha Simone, Tereza Veronese, Zilda de Lima, irmã da saudosa Aurelinda, Vera Lúcia Nakano e a convidada especial Regina Siminari.
      A alma da festa é e sempre será a Naoe Miyamoto. Sempre positiva, trouxe como mimo para todos, pequenos calendários enfeitados com origamis. Mesmo participando ativamente na condução do evento, falou-me dos problemas de saúde da família... Do irmão, da cunhada e das próprias mazelas...
      E percebi com pesar que, conforme os anos vão passando o grupo vai se reduzindo. Do grupo todo já faleceram seis companheiros. E atualmente, muitos estão com problemas de saúde e sem condições de efetuar longas viagens.
      Recentemente perdi uma amiga querida, também professora, com quem mantive amizade de aproximadamente 40 anos. Ela residia em Lavínia, e volta e meia eu ia lá tomar um café aos sábados, e passávamos horas conversando. Senti demais a sua partida, porque vivi na ilusão de que ela jamais partiria, tal era o nosso vínculo...
      Mas, somos mortais e a dura realidade de repente se faz presente, e é muito difícil retomar a rotina diária sem contar com a pessoa que partiu...
      A vida é assim mesmo. De repente, tudo muda e alguém parte para sempre. A morte é uma certeza absoluta e inexorável.
   Então, é preciso viver cada momento com sofreguidão, como se saboreasse a última taça de vinho... Viver com alegria, abraçando amigos e familiares e convivendo momentos com intensidade.
      Reencontrar amigos volta e meia é uma forma de driblar as tristezas das partidas e, usufruir mais um pouquinho da companhia uns dos outros.
      Assim como fazem a Regina Rosado e seus amigos professores
      E salve a Amizade!

     Mirandópolis, 25 de novembro de 2017.
     kimie oku in





sexta-feira, 24 de novembro de 2017

         
            Abordagens
                 (para todas as Mauras do Mundo) 
     Depois que publiquei a crônica intitulada “Os jovens, os velhos”,  percebi que o tema permite várias abordagens diferentes. Minha abordagem foi sobre o tratamento diferenciado que a sociedade oferece aos jovens e aos idosos. Os mesmos jovens que um dia serão idosos...
      Eu poderia ter comentado sobre os jovens que agem como velhos, nunca tendo experimentado a juventude por serem duros, radicais e exigentes demais. Ou sobre os velhos que nunca tiveram juízo e agem como adolescentes inconsequentes, dando muitos aborrecimentos às famílias. Ou ainda, sobre velhos que agem como velhos ranzinzas desde que foram crianças, e jovens que nunca amadurecem... Honestamente percebi que, a primeira e a segunda abordagens são as que mais ocorrem.
      Em Consciência Negra abordei a inutilidade de um dia dedicado a Zumbi, para acabar com o preconceito racial. Poderia ter defendido a ideia de que uma data pode fazer toda a diferença.
Depois vi publicações denegrindo a imagem do Zumbi, que sucedeu a Ganga Zumba, que formou  reduto em Quilombo dos Palmares, para acolher os negros foragidos das senzalas e, os índios perseguidos por capitães do mato... Acredito que, o reverso dessa medalha de Zumbi foi criado pelos senhores dos engenhos, que não aceitavam sua liderança para acolher os escravos fugitivos. É preciso entender a verdadeira história para não distorcê-la. Zumbi era um guerreiro, descendente de gente nobre da África e, não aceitava servidão por causa da cor da pele, para si e nem para os seus. Houve excessos no Quilombo? Sim, com certeza, pois não deve ter sido fácil controlar uma multidão faminta, revoltada e sem renda. Ele conseguiu afrontar e bater de frente com os escravagistas. Nesse sentido foi um herói africano, defendendo sua gente das garras de gente branca, que se julgava superior e agia como carrascos. E a História oficial do Brasil, aquela mesma História dos compêndios que ensinamos na Escola, está cheia de incongruências e mentiras. Porque foi construída e narrada pelos brancos que mandavam. Versão dos mandantes, sem nenhum respeito para com os africanos. Mesmo agora, os mandantes do país distorcem as verdades em benefício próprio. Sempre foi assim e sempre será, infelizmente. A História oficial sempre é contada pela perspectiva dos dominadores.
Quando eu trabalhava na Delegacia de Ensino em Andradina, havia lá uma funcionária supercompetente chamada Maura. Era Diretora das Finanças da Delegacia. Era uma mulher forte, bonita e totalmente negra. De branco só os dentes perfeitos. Acho que era Professora de Física em alguma Escola. Professora muito capaz! Um dia, a convidei para almoçar comigo num restaurante local. E ela disse que não poderia ir comigo, porque sua irmã que morava na África estava à espera para almoçar junto.
Interessada pela história, lhe perguntei o que essa irmã fazia num país tão distante. Era Irmã de Caridade e desenvolvia um trabalho social lá. Então, lhe sugeri que procurassem as raízes da família lá na África, para descobrir a procedência de seus pais e avós que vieram como escravos. E de repente, ali na calçada em pleno meio dia, essa Maura desatou a chorar. Levei um susto vendo aquele rosto querido devastado pelas lágrimas... Não entendi nada... Fiquei perplexa. 
Quando se acalmou, explicou que haviam tentado várias vezes essa pesquisa. No consulado... E descobriram que o Governo brasileiro havia queimado todos os documentos, para não deixar provas de escravidão no Brasil!!!
 Então, ali na calçada de uma cidade próxima, em pleno meio dia, vendo a dor da minha amiga, senti imensa vergonha da nossa História que, está recheada de mentiras e traições contra o próprio povo de sua terra. Mentiras que roubaram a verdadeira história dos africanos que aqui vieram forçados, para serem subjugados e humilhados. Nem direito à própria história foi respeitado! Mentiras dos coronéis, dos senhores de engenho, dos escravagistas, dos políticos sem caráter e dos “sábios” que escreveram a nossa História... Passagem triste e vergonhosa de nossa História.
E fico pasma de ver gente, que ainda não acordou para a realidade de nossa História, e em pleno século XXI acredita em histórias de carochinha. E divulga que o Zumbi foi um bandido... Puro resquício de preconceito e discriminação racial. Espantoso!
Vamos acordar, meus amigos!
Zumbi foi prepotente? Foi duro com os irmãos escravos que procuravam a liberdade?  Acredito que deve ter sido! Mas, ele estava procurando um caminho livre para todos! Um caminho de luz, de libertação. Liderar uma multidão revoltada, vilipendiada que não queria se submeter a ninguém depois de anos de cativeiro, não deve ter sido fácil. Ao invés de criticar Zumbi, seria mais honesto analisar a atuação dos senhores escravagistas, que trataram os africanos como seres inferiores. Como animais que não sentiam dor, mágoa, tristeza, banzo...
E aí seria mudar a abordagem para a verdadeira face de nossa triste História.
Será que um dia isso acontecerá?
Maura...

Mirandópolis, novembro de 2017.



terça-feira, 21 de novembro de 2017

           THÊ,
         


       Estou entorpecida.
       Não consegui digerir a tua partida...
         Eu te vi coberta de flores, com a mesma expressão amistosa de sempre.
E aí vi teus familiares. Chumbo, Maria Adelaide, o Tato, a Nena, as filhas da Nena, a nora e a neta da Maria Adelaide, a Cecilinha e a Juliana tão doce e toda chorosa... Parecia órfã de mãe...
E vi a Inês. Passada, meio atordoada, como se não entendesse o que estava acontecendo... esticando e enrolando uma toalhinha de mão, como se fosse a mais importante tarefa a executar. Sem parar, estendendo-a sobre os joelhos e olhando pro nada...
E aí veio o Flautides cumprir uma promessa. Ele falou sobre a tua missão aqui na terra, que foi a de servir a todos que te conheceram... Lembro das palavras magnânimo coração, socorrendo os familiares, cristã devota exemplar e defensora da natureza... Disse que estava atendendo a um pedido teu, para não partires em brancas nuvens. E ele falou bonito. Mas, não tão bonito como foi o caminho que trilhaste.
Falou também uma senhora, que um dia acolheste por um longo período em tua casa com o irmãozinho, dizendo da imensa dívida que restou... Dívida de gratidão por tua generosidade...
Depois, pedi licença para falar também da nossa amizade, de tudo que aprendi com o teu convívio, da tua generosidade de olhar e socorrer os que te rodeavam, esquecendo sempre de tuas necessidades... Falei de nossas tardes na “casa da Thê”, lá na esquina, onde as amigas tinham sempre um encontro marcado com um saboroso cafezinho, salgados e bolos. E das conversas sem fim, que eu sempre acabava vindo embora só quando escurecia, deixando o Nori muito apreensivo... Casa da Thê era um dos pontos de referência que eu cultivava, além do pequeno cemitério onde repousam meus pais... Hoje se fundiram num só ponto de referência. Na Casa da Thê, a Thê não está mais...
E a Maria Adelaide me disse da imensa gratidão por ter sido socorrida com os filhos, quando teu irmão foi acidentado. Disse que não era capaz de falar em público, mas seus olhos estavam marejados de lágrimas.
Naquela cozinha de mesa redonda tomei café tantas vezes com a Nena, com a Maria Adelaide, com a Sumiko, com a Harumi, com a Chiquinha, com a Hilda, com a Lili, com a Nívea, com o Chumbo e a Márcia, com a Denise, com a Teresa Fontana, com a Juliana, com a Áurea, com a Cida Pessoa, com meus familiares (lembra-te quando fizemos a missa da mamãe no Kaikan?) Quanta conversa jogada fora, quantas risadas gostosas... E a cachorra que ficava no teu pé, e o gato que subia na pia?
E as orquídeas que tive que podar? Tão belas! Ficaram com quem? E os bordados e os crochês que ficávamos mostrando como tesouros?  E as belas peças com linha Mercer, que crochetaste e guardarei como relíquias...
E hoje foi o teu funeral!
Nunca nessa relação feliz que cultivávamos desejei passar por isso, porque parecias eterna. Nada te derrubaria, porque eras forte, teimosa e querias viver. Tanto que no final com AVC, com pneumonia, com febre, com falta de ar, com a respiração comprometida, teimaste em voltar a reviver e falar palavras de consolo aos familiares...
E o teu funeral foi simples, cheio de sentimentos... Lá compareceram o Jorge Chaim que foi teu amigo e companheiro na Delegacia de Ensino, o Marcondes e a Áurea meio parentes teus, o Zé César teu dentista, a Teresa Fontana, a Ziquinha, a   Maurilia e o Alfredo, o José viúvo da saudosa Odete, o Arthur e a Vergília, o Chumbo, o Tato, a Lili, a Leonilde, os sobrinhos e sobrinhas que não lhes sei nomear... E tantos amigos que não conheço, mas  todos ligados no desejo único de que Deus te receba em sua Glória.
No final, agradeci a Deus porque foste embora em 2016 para longe da gente, porque isso nos forçou a acostumar com tua ausência... Mas, é tão duro pensar que nunca mais vou te ver, Thê.
A morte é muito cruel.
Mas como criatura de Deus, tenho que aceitar e esperar que um dia nos reencontremos.
Adeus, amiga! Que estejas conversando com os anjos.

Mirandópolis, 21 de novembro de 2017.
kimie oku  in




segunda-feira, 20 de novembro de 2017

            Consciência Negra?
          
       Dia de Consciência Negra, 20 de novembro.

Sempre que vejo essa expressão fico matutando...  O que é consciência negra? É uma consciência pesada, de maus pensamentos? É uma consciência suja, cheia de maus desejos?
Porque acredito que o reverso da medalha é consciência branca, consciência leve, consciência limpa cheia de boas intenções...
Então, por que instituíram um dia para relembrar o Zumbi dos Palmares com esse título? Dia de Consciência Negra... Ora, sabemos que Zumbi foi um valente guerreiro que deu a vida, para libertar seus irmãos escravos das mãos dos brancos opressores. Sua pele era negra, mas sua consciência era de compaixão pelos africanos mantidos sob servidão bruta e incompreensível, no Brasil colonial. Sua consciência não era negra e muito menos pesada. Por que consciência negra?
      Acho que essa nomeação do dia está errada. Teria que ser Dia de Despertar Consciências... Despertar para a realidade que não deve existir diferença de tratamento para povos de origem diferente. Brancos, negros, amarelos, vermelhos, azuis são todos filhos de Deus, e foi Deus que os tingiu com essas cores desde os primórdios dos tempos. Todos têm coração, têm cérebro, todos andam, todos falam, todos se comunicam. Então, por quê a discriminação?
Quando eu era criança, sofri discriminação na escola por ser de origem japonesa, me chamavam de “zoio raso”, bodinha, japona... E quando contei pro meu pai, ele disse:  Estude bastante e mostre pra eles que você é capaz! Gambarê!  Foi assim que venci esse tipo de bullying que existia em 1949/50! E eu só tinha 7 anos de idade...
Além da denominação errada do Dia dedicado a Zumbi, tenho outra ressalva: A instituição pura e simples de um dia para os Negros nunca será garantia para vencer o preconceito. Quem pensou nisso está totalmente equivocado, assim como quem determinou que uma certa percentagem de vagas em Universidades deve ser destinada aos calouros negros. Essa destinação está atestando que os candidatos negros não têm competência! Escola deve medir capacidade, dedicação, esforço e desempenho. E nunca olhar a cor da pele. Pois essa abertura teria que também reservar vagas para os calouros de origem indígena, para os orientais, para os árabes, os indianos...
A essência do problema está na sociedade que olha os diferentes com menos apreço. No início, os comerciais que utilizavam os japoneses sempre o faziam de forma cômica. É muito recente a mudança, em que japoneses e seus descendentes aparecem em comerciais sérios. Reparem.
E ultimamente, tenho visto comerciais muito bem elaborados utilizando negros e negras. É assim que deve ser. O Brasil tem 60% de negros e nos comerciais e reportagens de escolas nunca, mas nunca mostram crianças negras.  Só nas notícias de tragédias e assaltos é que elas se evidenciam, mas como vítimas. Isso é muito esquisito! Sabem onde os negros aparecem de fato? Nos campos de futebol, porque ali eles são as estrelas! Mesmo assim, eles ainda sofrem discriminações que envergonham a raça humana! São chamados de macacos e outras denominações humilhantes...
Temos que mudar, gente! Mudar agora! Deixar de ver a cor da pele, a diferença de religião, de cultura, de língua, de nacionalidade! Se os meios de comunicação não discriminassem os negros, acredito que muita mudança poderia ocorrer. Os telespectadores ficam horas e horas vendo a telinha e tudo absorvem. Se as grandes empresas quiserem vencer a discriminação, poderiam fazer comerciais utilizando os negros. Professores negros, alunos negros, donas de casa negras, médicos negros, policiais negros, advogados negros, operários negros, funcionários públicos negros, pois eles existem aos montões. Mas, façam uma pausa agora e pensem comigo, qual é o comercial que você viu com um trabalhador negro? Não lembra, né? É porque quase não existe!
Taí a discriminação maior!
Eles pensam que o produto não venderá se um negro o recomendar? Mas é a maioria negra que irá comprar...
O Brasil é um país de negros!
Bom, para concluir ficam esses dois pensamentos que são os gritos de negros muito, muito inteligentes:
    “Enquanto imperar a filosofia de que há uma raça inferior e outra superior, o mundo estará permanentemente em guerra.”  Bob Marley
“Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade e não pela cor de sua pele.”  Martin Luther King Jr.
Dia de consciência leve!

Mirandópolis, novembro de 2017.
kimie oku in