terça-feira, 4 de setembro de 2018


    O apanhador no campo do centeio
                    ( literatura)
 Quando li o nome desse livro, imaginei um campo dourado de centeio a se perder de vista no horizonte...
 E achei incrível um livro com um título tão bonito ter inspirado alguns doidos a cometer assassinatos. Como foi o caso de Mark Chapman que matou John Lennon, o caso de John Rinkley que tentou matar o Presidente Reagan e o de Robert John Bardo que assassinou a atriz Rebbeca Schaeffer. Esses assassinos haviam lido O apanhador.
Ao iniciar a leitura, constatei que era a história de um garoto de dezessete anos, que fora expulso de um dos mais conceituados Colégios, por não ter apresentado rendimento aceitável. O jovem Holden Caulfield é apenas um adolescente que não compreende o mundo, a sociedade, a escola e não entende as regras pré-estabelecidas pelos homens. E usa palavras de baixo calão para se referir a tudo que o rodeia: colegas de escola, professores, Diretor... É um rebelde sem causa, que ainda não se encontrou e despeja toda a sua insatisfação contra o mundo que não compreende.
O que mais intriga o leitor é a questão dessa leitura inspirar atos inaceitáveis como os crimes citados. O livro foi escrito na década de 40, e os costumes eram outros. A linguagem era outra, o comportamento das pessoas era outro e, ninguém se atreveria a pôr no papel tanta revolta contra a escola e a sociedade, a não ser o autor J. D. Salinger. Por isso, o livro provocou uma revolução, e foram vendidos 65 milhões de volumes. E parece que foi o gatilho para assassinatos incompreensíveis...
A linguagem é simples, despretensiosa e revela apenas a inquietação e a confusão de um jovem adolescente, que não sabe o que quer, e se sente infeliz por isso. Ao ser expulso de mais um colégio, ele tem medo do confronto com os pais, e evita ir para casa. Fica vagando por bares, por hotéis, pelas praças, vai à casa de um Professor que o tratou com certo carinho, vai se encontrar com sua irmã... Essa embromação dura todo um final de semana até que por fim, ele enfrenta o inevitável e vai para casa. Embora não narrado, pode se perceber que a família não o compreendeu e o internou em alguma Casa de Recuperação, de onde ele está fazendo a narrativa.
Mas, nem tudo é negativo no livro.
O jovem demonstra um carinho especial para com sua irmãzinha de dez anos e outro irmão, já falecido. Seu amor parece incondicional para com eles. Também demonstra um certo respeito para com dois Professores. E uma preocupação inusitada pelo destino dos patos quando o lago do parque congela...  Ele pensa. E é só.
Só fui entender toda a trama e o título quando deparei com isso:
“...fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto... quer dizer ninguém grande...a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o que é que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”
Só que ele não conseguiu proteger John Lennon nem Rebbeca Schaeffer.        E nem seus algozes que caíram no precipício...

Mirandópolis, setembro de 2018.
kimie oku in

sexta-feira, 24 de agosto de 2018


         Ulisses e Ulisses...
  
Desde criança, gostei muito de ler.
      Frequentei Bibliotecas das Escolas por onde andei, da Prefeitura local e de Lavínia, dos Shoppings que visitei, onde hoje há salas de leitura, e você pode ler gratuitamente o que quiser enquanto toma um café ou um sorvete... achei isso o supra sumo para os leitores, espaço confortável, leitura disponível gratuita enquanto espera as horas passarem...
      E por conta da leitura, entrei numa contenda divertida com um amigo que mora em Águas de Lindóia, que me fez pensar....
      Ora, esse amigo é um cidadão inteligente acima da média e se chama Ulisses. Ulisses como o herói do famoso livro de James Joyce. Confesso que um dia, peguei esse volumoso livro da Biblioteca local e tentei lê-lo. Tentei, não consegui... como não consegui ler Os sertões de Euclides da Cunha. Como não consegui ler Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre. E como não consegui ler Grandes Sertões: Veredas de João Guimarães Rosa... Esses quatro livros ficaram quais  espinhas me atazanando a ideia, porque não lhes sei o conteúdo, embora sejam livros importantíssimos da melhor Literatura Mundial.
      Logo que conheci, cismei com o Ulisses de carne e osso e perguntei se já lera o Ulisses de papel. E ele disse que tentou, desistiu e deu o livro a sua irmã, que é ligada às leituras... fiquei pasma! Não querer conhecer o herói homônimo do livro! Eu teria curiosidade, mesmo que isso me custasse noites e noites de leitura... Mas não conheço nenhum livro intitulado Kimie....
      Pois bem, na semana que passou, a irmã Nilene e eu desafiamos o nosso cidadão real que lesse sobre o fictício, para descobrir o que havia de comum entre os dois Ulisses...
      O cidadão treiteiro como ele só, impôs umas condições inviáveis a nós duas para ele aceitar o desafio... Ficamos decepcionadas porque queríamos de fato saber se, o nosso Ulisses tem algumas convergências com o Ulisses do Joyce... Perdemos tempo tentando convencê-lo. Foi irredutível. Alegou mil justificativas, que no final significavam que não está interessado em conhecer o seu xará... e que não perderia tempo com uma leitura que não lhe atraia nem um pouco.
      Em troca exigiu que a sua irmã fizesse regime alimentar ou exercícios físicos para reduzir seu peso. E a mim pediu que publicasse um livro. A Nilene até topou a parada, mas eu não. Publicar um livro? Nem pensar!
      A era digital foi a morte dos livros. Ninguém compra livros e muito menos os lê. Eu que tenho dezenas de amigos posso garantir que, conheço apenas meia dúzia deles que leem. Infelizmente. Os que amam a leitura são fieis e leem sempre, mas há entre os demais os que nunca, nunca leram um livro sequer. E se gabam disso!
      Então quem iria comprar um livro meu?
      A sugestão é que junte as minhas crônicas já publicadas no jornal “Hoje”, que parou de circular, e também publicadas no meu blogger e imprima um livro. Confesso que antigamente, tive esse sonho. Publicar um livro e ser lida por centenas de pessoas... Mas, ao longo dos anos, tenho visto gente publicando livros medíocres, e os empurrando aos amigos para pagar os custos de impressão... Certo cidadão queria que eu ficasse com uma dúzia de volumes da mesma obra. Obra sofrível, que parei de ler já na segunda página e joguei fora... Não compro livros só pela amizade. E os amigos leem minhas crônicas no blogger, que está chegando a cem mil visualizações.   
Outra questão séria é o custo de impressão. Se não for um best seller nunca pagará o investimento aplicado. E o pior é ver dezenas ou centenas de volumes de excelentes escritores e poetas encalhados nas prateleiras das livrarias e revistarias.
Por tudo isso, nem penso em publicar um livro.
 Mas, quanto à contenda, sobrou para nós Nilene Lacerda e eu lermos o Ulisses. Sei que vai ser difícil, porque o volume tem quase mil páginas!
Mas, decidi que ainda este ano vou lê-lo. Vou anotar tudo de interessante de cada capítulo, e escrever um Ensaio sobre James Joyce e sua obra. Com esse propósito, vou enfrentar essa empreitada.
Só queria ter mais tempo para concluir esse objetivo.
Porque no momento estou tentando traduzir “Snow Country” de Yasunari Kawabata e lendo “O apanhador no campo de centeio”
Mas, vamos lá agora com o Ulisses de Joyce!
Visse, Ulisses Silva Lacerda?
 Mirandópolis, agosto de 2018
kimie oku in


domingo, 5 de agosto de 2018


           A chuva chovendo!
      
        Depois de quatro longos meses de estiagem, ela chegou!
Ensaiou, uns pingos aqui e acolá, ameaçou derramar todo o conteúdo das nuvens escuras e foi embora, para a tristeza de todos os moradores da região... E todo mundo pedindo chuva, olhando o céu e contemplando desolado os campos secos, onde as vacas tristes focinhavam à procura de algo verde, que não mais existia...
      E o ar empoeirado, pesado, irrespirável... As narinas ardendo de secura, sedentas de umidade, exigindo vaporizadores nos ambientes.
      E notícias de chuvas na Capital, no litoral, e em outras regiões do Estado... E aqui, nada. E como sói acontecer “Será praga do padre Epifânio?” era a indagação que estava no ar. Padre Epifânio que era um Monsenhor foi o Pároco daqui, que mais obrou pela Matriz e pelos fiéis católicos. Durante décadas e décadas pregou a palavra de Cristo, mas como era muito rígido e inflexível desagradou a uns políticos locais, que acabaram desterrando-o para uma capelinha perdida, na beira da estrada de um vilarejo distante... E morreu longe da bela Igreja que mandou erigir aqui em Mirandópolis. Igreja onde ele gostaria que depositassem seus restos mortais, como confessara um dia... E até hoje não foi cumprido esse desejo.
      Então, não se sabe de onde nem como surgiu essa história, talvez de remorso coletivo, culpando o Padre pelas estiagens prolongadas daqui. Tenho certeza, porém que ele jamais desejaria isso para Mirandópolis, porque ele adotou esse cantinho do mundo como seu ninho, sua pátria. Monsenhor Epifânio Ibañez era espanhol de Valladolid.
      Mas voltando à chuva, amanhã o ar estará fresco, perfumado e transparente e as gripes e as tosses irão embora de vez. Não mais xaropes, não mais antitérmicos, não mais antigripais, não mais vaporizadores, não mais soro fisiológico para umedecer narinas. Dar um tempo para as farmácias...
      Os campos encharcados prepararão os brotinhos de capim para despontarem da terra, as hortas e os pomares respirarão aliviados depois desse banho caprichado que Deus mandou. E as roças não se perderão mais. Porque as roças de feijão e milho se perderam totalmente, onerando os pobres agricultores com grandes perdas.
      Os pecuaristas e os lavradores se encherão de esperanças para a nova etapa que se inicia. E todos agradecerão a bendita chuva que veio dar novo alento a suas vidas. Mesmo os comerciantes que nada vendiam ultimamente, ficarão contentes porque receberão os atrasados e novas vendas irão ocorrer, com certeza.
      Então que a chuva não vá embora, que ela permaneça por aqui regando os campos que foram duramente castigados, e garantindo a continuidade da vida dos animais e das plantas.
      Sem chuva, não há vida.
      Então, bendita seja!
      E obrigada, Deus!
      Mirandópolis, agosto de 2018.
      kimie oku in


sexta-feira, 3 de agosto de 2018


                        Saúvas...

       
       Sempre tive uma birra enorme de formigas.
     Esses bichinhos silenciosos que vão invadindo as casas, os armários, as paredes, os corredores sem a menor cerimônia.
      Tem praga pior que a formiguinha que vem no açucareiro? Infestou? Tem que jogar todo o açúcar, porque formiga come baratas... Antigamente, diziam que as formigas são um bem para os olhos, porque era sinal que a pessoa ainda as enxergava. Que ideia mais retrógrada! E as formigas que aparecem nos quartos de hospitais? Elas fazem uma romaria pelo prédio inteiro, carregando os germes de doenças terríveis! É assim que se dá a infecção hospitalar, passando os fluídos doentes de um paciente para outros... E o controle é muito difícil porque não há barreiras para elas...
      Em casa apareciam umas formigas grandes avermelhadas e percebi que gostavam dos tacos de madeira. Consegui erradicá-las com querosene. Mas elas moram no pé de sibipiruna lá na calçada. E não posso facilitar que elas voltam...
      Lá no sítio as formigas lava pés são um terror. Elas injetam um veneno na pele que me deixa louca de dor. E formam calombos que doem por horas e horas. As bichinhas são miúdas mas perigosíssimas. Nem botas, nem meias e nem roupas as impedem de atacar.
A formiga que mais combati até agora era a saúva. Por que? Porque quando minhas plantas estavam lindas, de noite sorrateiramente vieram as saúvas e as rapelaram completamente. De manhã eu vi o estrago! A paineira vermelha que cuidei com tanto capricho foi pelada totalmente pela bichinhas duas vezes!  A mesma paineira que ganhei do Moura e foi derrubada pelo vento duas vezes também! Mesmo assim, amarrei seu caule, combati as formigas e a salvei! E recentemente nos galhos desfolhados apareceram os botões das flores! No início timidamente, mas agora estão brotando por todo lado! Mal posso esperar pelas belas flores vermelhas!
Além disso, meu pé de manacá da Mata Atlântica que a Célia mandou através do Dinho estava lindo, cheio de folhas verdes quando elas vieram e o devastaram. Fiquei arrasada e maldisse as bichinhas... Continuei regando os galhos secos três vezes por semana, e agora ele está brotando novamente. Não vai morrer.
      Com tudo isso, pesquisei no Google a necessidade das formigas saúvas pelarem as folhas das plantas... Elas precisam das folhas para a forragem no formigueiro. As folhas colhidas produzem o fungo que é o seu alimento, e sem isso a colônia não sobreviverá. Sempre tive a ideia errônea de que elas consumiam as folhas...Então, minhas plantas tão lindas não passam de uma feira ou um supermercado, onde elas se abastecem... Mas, li também que as formigas ajudam a manter a saúde do nosso solo, drenando, revolvendo e arejando a terra com seus intermináveis túneis.
      E mais ainda, percebi que a colheita que as saúvas fazem nas minhas plantas, tornam-nas mais fortes e resistentes. Parece que é uma poda necessária para a planta se tornar adulta. Assim como as frustrações tornam o homem mais forte diante da vida.
      Antigamente se dizia “ Ou o Brasil acaba com a saúva, ou  a saúva acaba com o Brasil”. Era o slogan de vendedores de agrotóxicos que envenenaram o nosso solo.
      Hoje sei que as formigas são necessárias e devem ser preservadas. Agrotóxicos é que devem ser eliminados, porque além de envenenar o solo, destroem para sempre o ecossistema e tornarão impossível a vida na terra.
      Saúva, parceira de minha horta!
      Eu te respeito como um ser indispensável à saúde da Terra!
Mirandópolis, agosto de 2018.
kimie oku in


segunda-feira, 23 de julho de 2018


            E o funeral vai passar...
      

      Muitas vezes, penso que não faço nada, que nada fiz dos meus dias... Os dias chegam e vão embora e parece que não deixaram nenhum saldo positivo. Tanta coisa para fazer e eu nessa lassidão...
      Mas, hoje resolvi conferir tudo que faço, para não me sentir tão inútil... Na semana que passou fiz fisioterapia na segunda e na quinta feira, fui em Araçatuba fazer uns exames médicos de rotina, comprei uns remédios de que precisava, tive uma aula de piano e ensaiei sozinha três tardes, fui duas vezes ao sítio molhar minhas plantas, replantei mudas de trepadeiras, reguei minhas flores, colhi chuchu e limão, fiz bicos de crochê em panos de prato, visitei duas vezes a dois amigos que não estão bem, fiz a Ciranda, além de caminhar e orar todos os dias.
      Uau! Fiz é muita coisa! Comparando com o Aureliano Buendia de Macondo, que Gabriel Garcia Marquez retratou como o homem que ficava o dia todo sentado, esperando o seu funeral passar...
      Essa frase “esperar o próprio funeral passar...” me impressionou muito. E percebi que é bem a imagem de muita gente, que se aposenta e nada faz para continuar vivendo.
Tenho amigos mais novos que sonharam com a aposentadoria, e continuaram vivendo intensamente cuidando dos netos, dos familiares doentes, dos vizinhos abandonados por parentes... Acho isso muito louvável. E nem é preciso ajudar entidades internacionais para minimizar o sofrimento da humanidade. Muitas vezes, vejo o chamado do programa “Médicos sem fronteiras” e fico penalizada de ver a situação de tanta gente que vive na maior penúria... E fico até com vontade de colaborar! Mas, já ajudo os meus próximos com fraldas, com visitas, com a Ciranda. De que adiantaria cuidar dos pacientes de Médicos sem fronteiras, se nem reparasse na dor de um vizinho, de um empregado, de uma pessoa esquecida?
A única salvação da humanidade é o Amor! É a Solidariedade! É a Empatia, colocando-se no lugar do outro e sentindo sua dor.
Todos nós passamos a vida pelejando para terminar os dias com uma aposentadoria digna. E eu já cheguei nesse patamar. O que me resta fazer? Servir! Servir e Servir. Para agradecer a vida bem vivida, consolando os aflitos, abraçando os que lamentam, enxugando as lágrimas de quem chora.
Não é preciso gastar os dias esperando o próprio funeral passar.
Ele passará, mesmo que você não espere!
Mirandópolis, julho de 2018.
kimie oku in

sábado, 7 de julho de 2018


          Onde é mesmo o Paraíso?

      Tenho visto gente fazendo apologia de países que apresentam melhores condições de vida que o nosso país.
  Realmente nosso Brasil decaiu muito ultimamente.  Educação, Saúde e Segurança são os setores que mais foram prejudicados. Por indiferença dos governantes, por meterem a mão nos reservas destinadas, por superfaturamento de produtos necessários...
      Infelizmente, os recentes governos e o atual nunca se preocuparam com as condições desses setores. Acho que fingem governar e só estão engordando suas contas com os recursos da União, do Estado e dos Municípios. Governo democrático em muitos lugares virou sinônimo de ladrões. Desolador!
      É bem verdade que há países com condições de vida superiores ao nosso. E há muitos, onde quase nem há presídios, porque o estilo de vida tão correto não produz marginais. E têm baixo índice de criminalidade. De causar inveja a todos nós acostumados com os absurdos, que acontecem todos os dias em nossas ruas, cidades, escolas, Bancos...
      É bem verdade que os costumes e hábitos dos japoneses são muito diferentes dos nossos. Sua educação prima pela cortesia, pelo respeito aos idosos, e pela defesa do meio ambiente.
      É bem verdade que Cuba possui uma Medicina avançada, que lá realizam pesquisas para descobrir a cura de doenças terríveis que assolam o mundo.
      É bem verdade que os ingleses se destacam pela pontualidade em cumprir seus compromissos, que os italianos fazem as melhores massas gastronômicas do mundo, assim como a França faz os melhores molhos. E que a Alemanha possui uma governante respeitável acima de qualquer suspeita.
      Mas... toda luz tem sua sombra, todo lado claro tem o seu reverso escuro, toda perfeição tem o lado imperfeito, tudo tem o yin e o yang.
      Nunca pensei em morar no Japão, que é um país de primeiro mundo, onde tudo parece perfeito, onde o povo prima pela educação, pela polidez. Por quê???? Porque o Japão de hoje é um país de centenários, onde os jovens estão sem esperança, sem muita perspectiva no futuro. A guerra lhes roubou muita coisa, e os cataclismos geológicos desanimam qualquer cidadão. Eles pelejam, lutam, batalham, constroem e súbito um tremor abre uma valeta profunda e engole tudo pra dentro da terra. Viver lá e´estar preparado para ser engolido pela terra, a qualquer momento...
      Também não anseio morar em Cuba, onde dizem que a Saúde é de primeira e de graça, que a Escola é perfeita e a segurança é máxima. Por que?  Porque sempre vejo notícias de cubanos arriscando suas vidas nas mãos de coiotes para fugir do país, e atravessar a fronteira para os Estados Unidos. Se lá é tudo de graça e tão perfeito, por que os cubanos querem fugir? Acho que a questão é a Liberdade! Liberdade de ir e vir. De ter opinião própria, de poder adquirir o que bem lhe convier. Ser tolhido nesses desejos é estar amarrado numa camisa de força. Eu, hein!
      Morar na Europa! Paris! Londres! Viena! Também não me atraem! Lá estão os terroristas que odeiam os povos cheios de grana, e querem se vingar de suas vidas tornadas miseráveis pelos exploradores do velho continente. Que roubaram todas as preciosidades dos países que subjugaram na África e no Oriente Médio. Para lhes usurpar o ouro, os diamantes, o petróleo. Em cada esquina, há um terrorista vingativo espreitando, espreitando. E eles arrasam mercados, shoppings e lugares onde circulam as gentes “mais bem” do mundo. Não se preocupando com os inocentes que morrem junto...
      Pensar que o Japão, Cuba, Estados Unidos e Alemanha são pedaços do paraíso é ledo engano. Todos esses países mostram o brilhante anteverso da medalha para o mundo, mas no reverso, quanta miséria, quanta sujeira. Cuba é de uma pobreza sem igual, onde os manda chuvas têm toda regalia de 1º mundo e os súditos têm que se contentar com migalhas. Para quem defende a vida em Cuba socialista, fica uma indagação: Por que os médicos vieram trabalhar no Brasil? Pela lógica e pelas informações divulgadas, a vida de um médico lá deve ser uma maravilha. Então, por que se submeteram a vir ao Brasil e cuidar dos pacientes mais pobres do SUS? Não foi por humanidade voluntária. Foi pelo cacau, que prometeram pagar... e que o governo de lá embolsou a maior porção.
      Então, parem com as apologias de idólatras que só têm olhos para ver um lado da moeda. Cuba não é o céu, assim como a Venezuela, onde reina muita miséria por conta de governos socialistas que não respeitam a individualidade. Todo mundo tem que rezar na mesma cartilha. Não importa se você é redondo, tem que se encaixar na forma quadrada.
      Já imaginaram eu morando em Cuba? Com as minhas ideias independentes? Será que poderia publicar minhas crônicas?
      Mirandópolis, julho de 2018.
      kimie oku in

   

terça-feira, 3 de julho de 2018


               Não sou árvore!  




Sempre que vejo cipós e plantas trepadeiras fico pensando em nossa necessidade de locomoção. Os vegetais em geral são estáticos como os postes que o homem finca no chão, mas acredito que todas as árvores gostariam de sair do lugar e ver outras paisagens.
      As árvores nascem num determinado ponto e lá permanecem até acabarem secando, sem nenhuma possibilidade de mudar de ambiente de per si. A mudança dessa condição só ocorrerá vindo de fatores externos, nunca de vontade própria. Mas, penso que até as árvores desejariam caminhar, conhecer outras árvores, outras folhagens, outros troncos, outras flores...
     Quando passa uma brisa, as folhas se sacodem e parecem estar se comunicando com outras folhas. Se é um vendaval, até os galhos se agitam, revoluteiam e parecem estar se defendendo...
Reparem quando as folhas de outono estão espalhadas pelas calçadas e subitamente sopra um vento. As folhas que não pertencem mais às árvores começam a bailar, rodopiando no chão e às vezes até se elevando a alturas nunca sonhadas... Já vi flores róseas de primavera executando uma dança incrível no meu quintal, desenhando espirais e círculos sem parar... Então, elas têm vontade, têm desejos enrustidos de andar, de rodopiar, de dançar. As folhas e as flores assim caídas realizam um desejo da árvore de onde vieram e, executam movimentos proibidos a ela. Quando penso nisso, lembro-me de Sartre, o filósofo do Existencialismo que abordou a questão da náusea de viver... Árvores centenárias ou milenares habitando o mesmo lugar por séculos e séculos, vendo o mundo sofrer transformações, exaustas de existir  dia após dia, cansadas de viver porque são fracas demais para morrer...
      Também o homem que não achou sentido em sua existência sentirá náusea de viver. Pra quê lutar e pelejar com forças hercúleas, se as pernas estão irremediavelmente condenadas a apodrecer? (expressões de Jean Paul Sartre)
      Ler Sartre dá um nó na cabeça de gente desavisada, porque ele vai fundo na análise do Existencialismo e na falta de sentido da própria existência, provocando a desesperança e desgosto de viver...
      Mas, voltando ao movimento de que são dotados os homens e os animais, ainda penso no desejo das árvores de se moverem, nem que fosse um pouquinho. Há ervas fraquinhas que conseguiram realizar isso, com sucesso. São os cipós e as trepadeiras, que se enroscam em muros e cercas, em árvores mesmo e lá do alto jogam suas flores, suas folhas e seus frutos, como o maracujá, o chuchu...
       E todos os homens e animais têm a vocação de caminhar, de andar por aí, mesmo sem destino. Em geral todos se mobilizam por uma razão fundamental, que é a procura de provisões para se alimentar. Comida não chove do céu...
       Entretanto, ultimamente tenho reparado que pessoas idosas estão cada vez mais confinadas em seus cantinhos, diante de uma tevê assistindo a tantas bobagens e se esquecendo da vida que flui ao seu redor. Pessoas que se levantam apenas para ir à mesa se alimentar, ao banheiro fazer suas necessidades fisiológicas e à cama repousar... Tenho visto amigos que elegeram o sofá e a tevê como limites de seu mundo, de seu cotidiano e não se importam mais com nada, porque passaram a viver numa bolha. Ora, o corpo humano assim como o dos animais foi feito para ser flexionado, para ser estendido, realizando movimentos sempre. É tal qual uma máquina, que precisa funcionar continuamente, para não perder sua função. Máquina parada por meses e anos acaba se travando, se enferrujando. E aí o movimento se torna impossível.
       Tem gente que ainda não descobriu as academias, as hidroginásticas, as clínicas de Fisioterapia. Todos os idosos deveriam frequentar um desses lugares para mexer o seu corpo e conservá-lo em funcionamento.
       Aposentar-se não é parar de viver.
    Grande parte de aposentados deixa de realizar atividades que o manteriam funcionando como um ser vivente e desistem de andar, de circular pela cidade, de realizar compras, de visitar parentes e amigos, de se preocupar com os vizinhos, de cuidar de outros que precisam de ajuda.
     Enquanto no mundo todo há centenários que levam a vida em comunhão com a natureza, procurando uma forma mais saudável de terminar seus dias, vejo por aqui, gentes que desistiram de viver, que estão apenas esperando a morte chegar.
 A vida é tão preciosa! Vamos saborear esse vinho até a última gota. Vamos imitar as trepadeiras, vamos nos enroscar em cercas e alambrados da vida e sentir até o fim os doces haustos do ar, do sol, e da luz.
Morrer de forma gloriosa, porque a vida é prêmio que só acontece uma vez!

Mirandópolis, julho de 2018.
kimie oku in