segunda-feira, 1 de outubro de 2018


               Brasil rachado!
         Já quase na reta final de vida, posso afirmar que nunca assisti a uma Campanha Eleitoral tão nojenta como essa para Presidente da República.
         Com certeza, as redes sociais colaboraram e muito para chegar a esse nível, mas o que me espanta de fato é a apelação barata e totalmente permissiva que está rolando. Nunca imaginei que as pessoas perderiam o senso de dignidade e respeito por causa de uma eleição.
         Mas por quê tudo isso?
         É que essa campanha dividiu o país em dois Brasis. O Brasil dos renovadores e o Brasil dos conservadores. E a disputa ficou acirrada agora no final, rachando os brasileiros, entre bolsonaristas e petistas. Ambos os lados têm seus pontos críticos: Bolsonaro é um militar durão e cheio de preconceitos, cujo lema é a imposição, mesmo que seus seguidores não lhe reconheçam esse defeito. Haddad é apenas um laranja a serviço de um ex Presidente preso no xilindró, por corrupção e roubalheira comprovadas.
         E por que essa polarização entre dois candidatos tão terríveis? Porque a Mídia não apoiou os candidatos menores que, certamente não representam seus interesses. O candidato Amoêdo do Partido Novo parece ser melhor, assim como o Álvaro Dias do Partido Verde que foi um bom Governador do Paraná.  Acredito que se a disputa fosse entre esses dois, a História seria outra e as eleições seriam tranquilas, como devem ser.
A grande dificuldade dessa eleição é que teremos que digitar os numerais de seis candidatos nessa ordem Deputado Federal, Deputado Estadual, 1º Senador, 2º Senador, Governador do Estado e Presidente da República. E se não levar a cola, certamente milhões de votos serão perdidos.
Mulheres totalmente desnudadas rebolando em plena rua para protestar contra o Bolsonaro, que dizem ser homofóbico, machão e contra as minorias... Acho de extremo mau gosto essas infelizes saírem despidas para aparecerem na Mídia, a título de protestos... O meu mal estar é  ver a mulher tão degradada. Mulher brasileira de respeito nunca deve se submeter a papel tão ridículo e humilhante. Contra quem quer que seja!        Nessa Campanha teve de tudo. Tentativa de assassinato, lançamento de um laranja como representante de um presidiário, que quer a todo custo assumir a Presidência, contrariando o Código Penal Brasileiro... Artistas se mobilizando pelo Partido dos Trabalhadores por terem recebido benesses pela Lei Rouanet (milhões e milhões desviados dos cofres públicos para comprá-los!) E o que está sobrando nesta última semana são as apelações através de notícias falsas para alertar o eleitorado desavisado.  De ambos os lados!  Fakes, fakes, fakes, Quanta mentira, quanta bobagem. No fundo dessas mentiras há um desejo imenso de derrubar o outro, de vencê-lo, de destruí-lo, custe o que custar.
          Eu pessoalmente tive uma experiência amarga. Uma pessoa teve a petulância de me mandar a seguinte mensagem: “Se é pra dar voto para bolsonazi, fica em casa no tanque fazendo papel de mulher do século retrasado, que eh essa a imagem da femea ideal para esse eleitorado. Ou então começa a levar socos na cara para “jair” se acostumando”
E isso para responder a minha postagem: “Preciso procurar meu título de eleitor...”  E nunca fiz apologia do Bolsonaro, mesmo porque o acho muito radical e inflexível...  Eu me identifico mais com o Álvaro Dias.
         Concluindo, essas eleições despertaram o que há de mais vulgar, os sentimentos mais condenáveis em alguns brasileiros. Que chegaram ao paroxismo de rancores contra os adversários, se esquecendo que todos são brasileiros e todos querem o melhor para o Brasil.
Infelizmente essa rachadura tão profunda trará consequências desastrosas ainda. Que ganhe o Haddad ou o Bolsonaro, a aceitação dos perdedores vai ser difícil de ser administrada.
Que venha o dia 07 de outubro.
E Deus nos acuda!
Mirandópolis,1ºde outubro de 2018.
kimieoku in
http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/
        

quarta-feira, 19 de setembro de 2018


“Para consertar uma vara torta não basta trazê-la para a posição correta. É necessário vergá-la para o lado oposto”

Frase de Lênin, comunista, marxista e 1° Chefe de Estado da União Soviética. É uma teoria que mesmo sendo verdadeira, pois a vara torta não se endireita tão facilmente, está sendo utilizada até a exaustão pelos comunistas de plantão, atualmente. Só que o extremismo a que chegaram, leva-nos a crer que eles não querem consertar nada. Querem implantar a luta de classes, colocando o empregado contra o patrão, o desviado contra o normal, o errado contra o certo. Querem uma revolução, para ocuparem as posições de comando. E não apresentam nenhuma alternativa de solução aceitável.
Que mundo resultará disso?
Será que a massa cinzenta das pessoas foi eliminada? O que será que passa na cabeça das mulheres, que acham o máximo se exporem totalmente nuas para fazerem seus protestos? Incapazes de usarem seus argumentos apelam para o escândalo e acham que isso é o melhor caminho? Quanto pior, melhor?
Eu acredito que, Lênin o autor da frase jamais imaginaria o uso tão deturpado de seu pensamento pelo povo, um dia. Que fique bem claro que não estou defendendo o comunista, mas a verdade que subsiste na frase. Não acreditam? Peguem uma vara bem torta e tentem voltá-la à posição normal. Uma vez, duas vezes, dezena de vezes. Ela não se apruma. É preciso forçá-la ao outro extremo, que devagarinho chegará ao ponto ideal. Essa teoria foi amplamente usada na Educação, mas sem extrapolar os limites da moral e do respeito. Para não quebrar a vara.
Muitos pais antigos usaram essa fórmula sem conhecerem a frase. Punham seus filhos de castigo quando agiam incorretamente. E às vezes, exageravam na dose, puxando a vara até o extremo quando o erro era inominável. O castigado era obrigado a repensar no que havia cometido e aos poucos, percebia que havia errado. Gerações inteiras foram salvas por esse método. Não se tornaram assaltantes, nem ladrões e nem terroristas. Gerações passadas nos deixaram como legado a honestidade.
Infelizmente, pais e professores se bandearam para o outro extremo, com a desculpa de que não se pode traumatizar os jovens e adotaram o laissez faire. E o mundo ficou do jeito que está. Perdido!
Lênin usou essa frase para implantar uma revolução e dominar as Repúblicas do Leste Europeu, formando a URSS ou União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Mesmo com essa teoria correta, extremos extremíssimos foram cometidos contra o povo inocente e por fim, o sonho dele desmoronou. Com o fim da União Soviética. Ficou mais que provado que a teoria era boa, mas na prática não funcionou, porque foi aviltada pelo egoísmo e desejo de poder dos mandantes.
O que estava errado nessa teoria? A aplicação, a Dominação, o jugo, o fazer fazendo! A total falta de respeito.
Nada dá certo quando uma teoria é imposta, sem a participação de quem está envolvido. Quando se força demais uma pessoa a mudar, corre-se o risco de quebrar essa pessoa, de destruí-la. Por isso, a aplicação deve ser feita com cuidado, com a anuência de quem precisa mudar.
E aqui no Brasil, tudo está ocorrendo como se fosse um grande teatro de horrores, onde os atores apresentam só o reverso da medalha, como o único ideal. E as mentes fracas estão aderindo motivadas por seus traumas, sua preguiça de pensar, sua revolta contra o sistema, sua ganância de conseguir benesses sem ter que trabalhar.
Sei que não vou viver o suficiente para ver no que vai dar esse teatro de horrores!
Mas, as futuras gerações irão sofrer muito, infelizmente.
E o Brasil nunca mais será o mesmo...
Mirandópolis, setembro de 2018.
kimie oku in



terça-feira, 4 de setembro de 2018


    O apanhador no campo do centeio
                    ( literatura)
 Quando li o nome desse livro, imaginei um campo dourado de centeio a se perder de vista no horizonte...
 E achei incrível um livro com um título tão bonito ter inspirado alguns doidos a cometer assassinatos. Como foi o caso de Mark Chapman que matou John Lennon, o caso de John Rinkley que tentou matar o Presidente Reagan e o de Robert John Bardo que assassinou a atriz Rebbeca Schaeffer. Esses assassinos haviam lido O apanhador.
Ao iniciar a leitura, constatei que era a história de um garoto de dezessete anos, que fora expulso de um dos mais conceituados Colégios, por não ter apresentado rendimento aceitável. O jovem Holden Caulfield é apenas um adolescente que não compreende o mundo, a sociedade, a escola e não entende as regras pré-estabelecidas pelos homens. E usa palavras de baixo calão para se referir a tudo que o rodeia: colegas de escola, professores, Diretor... É um rebelde sem causa, que ainda não se encontrou e despeja toda a sua insatisfação contra o mundo que não compreende.
O que mais intriga o leitor é a questão dessa leitura inspirar atos inaceitáveis como os crimes citados. O livro foi escrito na década de 40, e os costumes eram outros. A linguagem era outra, o comportamento das pessoas era outro e, ninguém se atreveria a pôr no papel tanta revolta contra a escola e a sociedade, a não ser o autor J. D. Salinger. Por isso, o livro provocou uma revolução, e foram vendidos 65 milhões de volumes. E parece que foi o gatilho para assassinatos incompreensíveis...
A linguagem é simples, despretensiosa e revela apenas a inquietação e a confusão de um jovem adolescente, que não sabe o que quer, e se sente infeliz por isso. Ao ser expulso de mais um colégio, ele tem medo do confronto com os pais, e evita ir para casa. Fica vagando por bares, por hotéis, pelas praças, vai à casa de um Professor que o tratou com certo carinho, vai se encontrar com sua irmã... Essa embromação dura todo um final de semana até que por fim, ele enfrenta o inevitável e vai para casa. Embora não narrado, pode se perceber que a família não o compreendeu e o internou em alguma Casa de Recuperação, de onde ele está fazendo a narrativa.
Mas, nem tudo é negativo no livro.
O jovem demonstra um carinho especial para com sua irmãzinha de dez anos e outro irmão, já falecido. Seu amor parece incondicional para com eles. Também demonstra um certo respeito para com dois Professores. E uma preocupação inusitada pelo destino dos patos quando o lago do parque congela...  Ele pensa. E é só.
Só fui entender toda a trama e o título quando deparei com isso:
“...fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto... quer dizer ninguém grande...a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o que é que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”
Só que ele não conseguiu proteger John Lennon nem Rebbeca Schaeffer.        E nem seus algozes que caíram no precipício...

Mirandópolis, setembro de 2018.
kimie oku in

sexta-feira, 24 de agosto de 2018


         Ulisses e Ulisses...
  
Desde criança, gostei muito de ler.
      Frequentei Bibliotecas das Escolas por onde andei, da Prefeitura local e de Lavínia, dos Shoppings que visitei, onde hoje há salas de leitura, e você pode ler gratuitamente o que quiser enquanto toma um café ou um sorvete... achei isso o supra sumo para os leitores, espaço confortável, leitura disponível gratuita enquanto espera as horas passarem...
      E por conta da leitura, entrei numa contenda divertida com um amigo que mora em Águas de Lindóia, que me fez pensar....
      Ora, esse amigo é um cidadão inteligente acima da média e se chama Ulisses. Ulisses como o herói do famoso livro de James Joyce. Confesso que um dia, peguei esse volumoso livro da Biblioteca local e tentei lê-lo. Tentei, não consegui... como não consegui ler Os sertões de Euclides da Cunha. Como não consegui ler Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre. E como não consegui ler Grandes Sertões: Veredas de João Guimarães Rosa... Esses quatro livros ficaram quais  espinhas me atazanando a ideia, porque não lhes sei o conteúdo, embora sejam livros importantíssimos da melhor Literatura Mundial.
      Logo que conheci, cismei com o Ulisses de carne e osso e perguntei se já lera o Ulisses de papel. E ele disse que tentou, desistiu e deu o livro a sua irmã, que é ligada às leituras... fiquei pasma! Não querer conhecer o herói homônimo do livro! Eu teria curiosidade, mesmo que isso me custasse noites e noites de leitura... Mas não conheço nenhum livro intitulado Kimie....
      Pois bem, na semana que passou, a irmã Nilene e eu desafiamos o nosso cidadão real que lesse sobre o fictício, para descobrir o que havia de comum entre os dois Ulisses...
      O cidadão treiteiro como ele só, impôs umas condições inviáveis a nós duas para ele aceitar o desafio... Ficamos decepcionadas porque queríamos de fato saber se, o nosso Ulisses tem algumas convergências com o Ulisses do Joyce... Perdemos tempo tentando convencê-lo. Foi irredutível. Alegou mil justificativas, que no final significavam que não está interessado em conhecer o seu xará... e que não perderia tempo com uma leitura que não lhe atraia nem um pouco.
      Em troca exigiu que a sua irmã fizesse regime alimentar ou exercícios físicos para reduzir seu peso. E a mim pediu que publicasse um livro. A Nilene até topou a parada, mas eu não. Publicar um livro? Nem pensar!
      A era digital foi a morte dos livros. Ninguém compra livros e muito menos os lê. Eu que tenho dezenas de amigos posso garantir que, conheço apenas meia dúzia deles que leem. Infelizmente. Os que amam a leitura são fieis e leem sempre, mas há entre os demais os que nunca, nunca leram um livro sequer. E se gabam disso!
      Então quem iria comprar um livro meu?
      A sugestão é que junte as minhas crônicas já publicadas no jornal “Hoje”, que parou de circular, e também publicadas no meu blogger e imprima um livro. Confesso que antigamente, tive esse sonho. Publicar um livro e ser lida por centenas de pessoas... Mas, ao longo dos anos, tenho visto gente publicando livros medíocres, e os empurrando aos amigos para pagar os custos de impressão... Certo cidadão queria que eu ficasse com uma dúzia de volumes da mesma obra. Obra sofrível, que parei de ler já na segunda página e joguei fora... Não compro livros só pela amizade. E os amigos leem minhas crônicas no blogger, que está chegando a cem mil visualizações.   
Outra questão séria é o custo de impressão. Se não for um best seller nunca pagará o investimento aplicado. E o pior é ver dezenas ou centenas de volumes de excelentes escritores e poetas encalhados nas prateleiras das livrarias e revistarias.
Por tudo isso, nem penso em publicar um livro.
 Mas, quanto à contenda, sobrou para nós Nilene Lacerda e eu lermos o Ulisses. Sei que vai ser difícil, porque o volume tem quase mil páginas!
Mas, decidi que ainda este ano vou lê-lo. Vou anotar tudo de interessante de cada capítulo, e escrever um Ensaio sobre James Joyce e sua obra. Com esse propósito, vou enfrentar essa empreitada.
Só queria ter mais tempo para concluir esse objetivo.
Porque no momento estou tentando traduzir “Snow Country” de Yasunari Kawabata e lendo “O apanhador no campo de centeio”
Mas, vamos lá agora com o Ulisses de Joyce!
Visse, Ulisses Silva Lacerda?
 Mirandópolis, agosto de 2018
kimie oku in


domingo, 5 de agosto de 2018


           A chuva chovendo!
      
        Depois de quatro longos meses de estiagem, ela chegou!
Ensaiou, uns pingos aqui e acolá, ameaçou derramar todo o conteúdo das nuvens escuras e foi embora, para a tristeza de todos os moradores da região... E todo mundo pedindo chuva, olhando o céu e contemplando desolado os campos secos, onde as vacas tristes focinhavam à procura de algo verde, que não mais existia...
      E o ar empoeirado, pesado, irrespirável... As narinas ardendo de secura, sedentas de umidade, exigindo vaporizadores nos ambientes.
      E notícias de chuvas na Capital, no litoral, e em outras regiões do Estado... E aqui, nada. E como sói acontecer “Será praga do padre Epifânio?” era a indagação que estava no ar. Padre Epifânio que era um Monsenhor foi o Pároco daqui, que mais obrou pela Matriz e pelos fiéis católicos. Durante décadas e décadas pregou a palavra de Cristo, mas como era muito rígido e inflexível desagradou a uns políticos locais, que acabaram desterrando-o para uma capelinha perdida, na beira da estrada de um vilarejo distante... E morreu longe da bela Igreja que mandou erigir aqui em Mirandópolis. Igreja onde ele gostaria que depositassem seus restos mortais, como confessara um dia... E até hoje não foi cumprido esse desejo.
      Então, não se sabe de onde nem como surgiu essa história, talvez de remorso coletivo, culpando o Padre pelas estiagens prolongadas daqui. Tenho certeza, porém que ele jamais desejaria isso para Mirandópolis, porque ele adotou esse cantinho do mundo como seu ninho, sua pátria. Monsenhor Epifânio Ibañez era espanhol de Valladolid.
      Mas voltando à chuva, amanhã o ar estará fresco, perfumado e transparente e as gripes e as tosses irão embora de vez. Não mais xaropes, não mais antitérmicos, não mais antigripais, não mais vaporizadores, não mais soro fisiológico para umedecer narinas. Dar um tempo para as farmácias...
      Os campos encharcados prepararão os brotinhos de capim para despontarem da terra, as hortas e os pomares respirarão aliviados depois desse banho caprichado que Deus mandou. E as roças não se perderão mais. Porque as roças de feijão e milho se perderam totalmente, onerando os pobres agricultores com grandes perdas.
      Os pecuaristas e os lavradores se encherão de esperanças para a nova etapa que se inicia. E todos agradecerão a bendita chuva que veio dar novo alento a suas vidas. Mesmo os comerciantes que nada vendiam ultimamente, ficarão contentes porque receberão os atrasados e novas vendas irão ocorrer, com certeza.
      Então que a chuva não vá embora, que ela permaneça por aqui regando os campos que foram duramente castigados, e garantindo a continuidade da vida dos animais e das plantas.
      Sem chuva, não há vida.
      Então, bendita seja!
      E obrigada, Deus!
      Mirandópolis, agosto de 2018.
      kimie oku in


sexta-feira, 3 de agosto de 2018


                        Saúvas...

       
       Sempre tive uma birra enorme de formigas.
     Esses bichinhos silenciosos que vão invadindo as casas, os armários, as paredes, os corredores sem a menor cerimônia.
      Tem praga pior que a formiguinha que vem no açucareiro? Infestou? Tem que jogar todo o açúcar, porque formiga come baratas... Antigamente, diziam que as formigas são um bem para os olhos, porque era sinal que a pessoa ainda as enxergava. Que ideia mais retrógrada! E as formigas que aparecem nos quartos de hospitais? Elas fazem uma romaria pelo prédio inteiro, carregando os germes de doenças terríveis! É assim que se dá a infecção hospitalar, passando os fluídos doentes de um paciente para outros... E o controle é muito difícil porque não há barreiras para elas...
      Em casa apareciam umas formigas grandes avermelhadas e percebi que gostavam dos tacos de madeira. Consegui erradicá-las com querosene. Mas elas moram no pé de sibipiruna lá na calçada. E não posso facilitar que elas voltam...
      Lá no sítio as formigas lava pés são um terror. Elas injetam um veneno na pele que me deixa louca de dor. E formam calombos que doem por horas e horas. As bichinhas são miúdas mas perigosíssimas. Nem botas, nem meias e nem roupas as impedem de atacar.
A formiga que mais combati até agora era a saúva. Por que? Porque quando minhas plantas estavam lindas, de noite sorrateiramente vieram as saúvas e as rapelaram completamente. De manhã eu vi o estrago! A paineira vermelha que cuidei com tanto capricho foi pelada totalmente pela bichinhas duas vezes!  A mesma paineira que ganhei do Moura e foi derrubada pelo vento duas vezes também! Mesmo assim, amarrei seu caule, combati as formigas e a salvei! E recentemente nos galhos desfolhados apareceram os botões das flores! No início timidamente, mas agora estão brotando por todo lado! Mal posso esperar pelas belas flores vermelhas!
Além disso, meu pé de manacá da Mata Atlântica que a Célia mandou através do Dinho estava lindo, cheio de folhas verdes quando elas vieram e o devastaram. Fiquei arrasada e maldisse as bichinhas... Continuei regando os galhos secos três vezes por semana, e agora ele está brotando novamente. Não vai morrer.
      Com tudo isso, pesquisei no Google a necessidade das formigas saúvas pelarem as folhas das plantas... Elas precisam das folhas para a forragem no formigueiro. As folhas colhidas produzem o fungo que é o seu alimento, e sem isso a colônia não sobreviverá. Sempre tive a ideia errônea de que elas consumiam as folhas...Então, minhas plantas tão lindas não passam de uma feira ou um supermercado, onde elas se abastecem... Mas, li também que as formigas ajudam a manter a saúde do nosso solo, drenando, revolvendo e arejando a terra com seus intermináveis túneis.
      E mais ainda, percebi que a colheita que as saúvas fazem nas minhas plantas, tornam-nas mais fortes e resistentes. Parece que é uma poda necessária para a planta se tornar adulta. Assim como as frustrações tornam o homem mais forte diante da vida.
      Antigamente se dizia “ Ou o Brasil acaba com a saúva, ou  a saúva acaba com o Brasil”. Era o slogan de vendedores de agrotóxicos que envenenaram o nosso solo.
      Hoje sei que as formigas são necessárias e devem ser preservadas. Agrotóxicos é que devem ser eliminados, porque além de envenenar o solo, destroem para sempre o ecossistema e tornarão impossível a vida na terra.
      Saúva, parceira de minha horta!
      Eu te respeito como um ser indispensável à saúde da Terra!
Mirandópolis, agosto de 2018.
kimie oku in


segunda-feira, 23 de julho de 2018


            E o funeral vai passar...
      

      Muitas vezes, penso que não faço nada, que nada fiz dos meus dias... Os dias chegam e vão embora e parece que não deixaram nenhum saldo positivo. Tanta coisa para fazer e eu nessa lassidão...
      Mas, hoje resolvi conferir tudo que faço, para não me sentir tão inútil... Na semana que passou fiz fisioterapia na segunda e na quinta feira, fui em Araçatuba fazer uns exames médicos de rotina, comprei uns remédios de que precisava, tive uma aula de piano e ensaiei sozinha três tardes, fui duas vezes ao sítio molhar minhas plantas, replantei mudas de trepadeiras, reguei minhas flores, colhi chuchu e limão, fiz bicos de crochê em panos de prato, visitei duas vezes a dois amigos que não estão bem, fiz a Ciranda, além de caminhar e orar todos os dias.
      Uau! Fiz é muita coisa! Comparando com o Aureliano Buendia de Macondo, que Gabriel Garcia Marquez retratou como o homem que ficava o dia todo sentado, esperando o seu funeral passar...
      Essa frase “esperar o próprio funeral passar...” me impressionou muito. E percebi que é bem a imagem de muita gente, que se aposenta e nada faz para continuar vivendo.
Tenho amigos mais novos que sonharam com a aposentadoria, e continuaram vivendo intensamente cuidando dos netos, dos familiares doentes, dos vizinhos abandonados por parentes... Acho isso muito louvável. E nem é preciso ajudar entidades internacionais para minimizar o sofrimento da humanidade. Muitas vezes, vejo o chamado do programa “Médicos sem fronteiras” e fico penalizada de ver a situação de tanta gente que vive na maior penúria... E fico até com vontade de colaborar! Mas, já ajudo os meus próximos com fraldas, com visitas, com a Ciranda. De que adiantaria cuidar dos pacientes de Médicos sem fronteiras, se nem reparasse na dor de um vizinho, de um empregado, de uma pessoa esquecida?
A única salvação da humanidade é o Amor! É a Solidariedade! É a Empatia, colocando-se no lugar do outro e sentindo sua dor.
Todos nós passamos a vida pelejando para terminar os dias com uma aposentadoria digna. E eu já cheguei nesse patamar. O que me resta fazer? Servir! Servir e Servir. Para agradecer a vida bem vivida, consolando os aflitos, abraçando os que lamentam, enxugando as lágrimas de quem chora.
Não é preciso gastar os dias esperando o próprio funeral passar.
Ele passará, mesmo que você não espere!
Mirandópolis, julho de 2018.
kimie oku in