quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019



                 Revisão...
   
   O tempo voa. A vida passa.
       E tudo vai transcorrendo sem incidentes, com algum susto aqui, outro ali. Mas, as tristezas passam assim como as alegrias.
       A nossa peleja de todo dia vai seguindo o rumo ao desconhecido. De repente, o fim pode truncar a caminhada. E será o inevitável C’est fini.
       E enquanto avançamos, carregamos alguns sonhos que desejamos ardentemente realizar antes do ato final. Mas, só Deus sabe das nossas possibilidades e do nosso merecimento. Muitos morreram sem realizar um sonho sequer, então por quê continuamos a sonhar e pensar que somos merecedores?
       Nunca pensei que conseguiria chegar a viver sete décadas! E estou próxima de chegar à oitava! Então, muitas vezes eu me espanto de ter tido a bênção de chegar até aqui. E agradeço todos os dias a Deus.
       Quando a gente chega no limiar da vida, só olha para trás e refaz mil vezes a caminhada mentalmente, pensando que poderia ter sido diferente, poderia ter cometido menos erros, poderia ter sido mais gentil, poderia ter tido menos pressa, poderia ter usufruído mais os momentos com os filhos quando crianças... A infância passa tão depressa...
       Mas o que passou, passou. Nada se repetirá jamais.
       E quando se é jovem, sempre há uma expectativa de que a felicidade durará para sempre, que os caminhos não se dividirão, que os filhos não irão embora, que a harmonia será constante...
Ledo engano. Quando os filhos se tornam adultos, nós os pais passamos a ser a parte descartável da família, que um dia deverá ceder espaço para os novos, assim como esses mesmos novos um dia darão espaço para outros...
Então, os anos vão nos aproximando mais e mais da reta final, e nessa caminhada aprendemos que nada se leva desta vida. Só o que couber no coração.
Antes eu tinha sonhos. Sonho de possuir uma casa maravilhosa, segura e bem confortável. Hoje vejo tanta gente poderosa com residências belíssimas, mas tão sós, tão infelizes... Casas recheadas de coisas douradas, que parecem moradas do Sol... mas habitadas apenas pelo silêncio de amigos, de netos e parentes ausentes, sempre ausentes... Bens dourados e prateados não substituem vozes e risos de crianças. Casas perfeitas, maravilhosas com quadros belíssimos, sempre limpas que mais parecem museus...
Então abdiquei de meus sonhos materiais. Não almejo possuir o carro do ano, não quero títulos de honraria, não quero postos de comando, não quero ser autora de best sellers, não pretendo ser exímia pianista, não preciso de dólares, de marcos, nem de euros. Se os possuísse em quantidade, ficaria tensa de medo de ser assaltada e minhas noites seriam todas de pesadelos. Quero paz. Só paz.
Então, me restou apenas um sonho.
De cumprir bem o meu destino. De continuar a ser a lavradora que mora no meu íntimo, plantando e cuidando dos limoeiros, legumes e flores; carpindo o mato que insiste em afogar minhas plantinhas, e agradecer de coração a chuva e o sol que nunca faltam.
Destino de ouvir os passarinhos que não se cansam de cantar ou chorar. Destino de apreciar o verde dos campos, de apreciar a florada que sempre se repete enchendo o espaço com seus perfumes.
Destino de escrever o que der na teia e abrir o meu coração. De entrar em sintonia com amigos que comungam as mesmas ideias.
Destino de apreciar o que é belo e inocente.
Destino de ser apenas mais uma criatura de Deus.
Que só tem a agradecer a bênção da vida.
Mirandópolis, fevereiro de 2019.
kimie oku in



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019





O lixo nosso de cada dia
     
        Em 1987, aconteceu um fato estranho em Goiânia. O dono de um Ferro Velho, Devair Ferreira achou um aparelho de Radioterapia numa Clínica desativada. Para reaproveitar o chumbo, levou o achado para seu Depósito e com dois auxiliares desmontou o aparelho. Ao fazer isso, eles abriram uma cápsula que expôs 19,26 gramas de cloreto de Césio – 137 (CsCI) um sal parecido com o sal de cozinha, que emitia um brilho azulado no escuro. Encantado com a luz azulada, o sr. Devair levou o sal para casa e mostrou para os familiares.
      Esse fato aparentemente tão inocente provocaria o maior acidente de radiação no Brasil. Mais de mil pessoas foram expostas ao pó por contato direto ou pelo ar, 129 foram contaminadas seriamente, 21 tiveram que se submeter a tratamento intensivo e quatro vieram a falecer...
      Césio – 137 é um isótopo radioativo da fissão nuclear de Urânio ou Plutônio, que ao se desintegrar dá origem ao Bario 137m, que emite radiações gama, altamente prejudiciais à saúde. Essa radiação penetra no corpo e leva à morte. Além disso, ao ser absorvido pelo solo contamina as plantas, que por sua vez contaminam os animais que delas se alimentam. Contamina os lençóis freáticos, afetando os peixes e os animais que beberem dessa água.
Para se ter uma ideia da toxidade desse pó, a cidade de Chernobil na Ucrânia ainda hoje é uma cidade desabitada. O fato é que em 1986, um reator da Usina Nuclear de Chernobil explodiu, liberando uma fumaça radioativa tóxica provocando incêndios que duraram dez dias e, contaminando extensa área da região. Que foi bastante afetada e 116 mil pessoas foram evacuadas. Até hoje mais de 30 anos depois ainda não é seguro morar lá. Virou cidade fantasma.
Outro desastre nuclear foi o derretimento de três reatores nucleares da Usina de Fukushima, no Japão em 2011. Foi provocado por um imenso tsunami e por maremoto. 300.000 pessoas foram evacuadas da região e houve 1600 mortes relacionadas às condições de evacuação. Até hoje há vazamento de água contaminada que é despejada no mar, sem possibilidade de controle. E muitos dos sobreviventes estão irremediavelmente contaminados...
O desastre de Mariana e Brumadinho me fez pensar nos desastres que têm provocado tanto sofrimento à humanidade. Daí, pesquisei os diversos tipos de lixo que produzimos. Nós somos os maiores sujadores do Planeta.
Produzimos:
1.       Lixo Orgânico -  sobras de comida em nossas residências, nos Restaurantes, Lanchonetes e Praças de alimentação, cuja destinação são os Aterros Sanitários.
2.       Lixo Industrial – sobras de plástico, retalhos de metal, de tecidos, de borracha, de couro que em sua maioria são recicláveis.
3.       Hospitalar – material coletado de corpos doentes, de partos, sangue, curativos, drenos e outros materiais utilizados em cirurgias e na convalescença, que são incinerados por empresas especializadas.
4.       Comercial – embalagens de papel, plástico, borracha e tecidos que também podem ser reciclados.
5.       Verde – folhas, galhos, caules, cascas e troncos  resultantes de poda de árvores, da retirada de madeira para a indústria, que podem ser utilizados na compostagem  para adubo orgânico. No Brasil geralmente são jogados no aterro sanitário.
6.       Nuclear – são os resíduos da construção de aparelhos de radiação usados na Medicina e das Usinas Nucleares para produzir energia elétrica. Esses rejeitos que levam mais de cem anos para perder seu poder de destruição pela radiação,
   nem sempre são descartados de forma adequada.
7.       Rejeitos de Mineração – são restos de processamento de minerais para a produção de ferro, carvão e outros minerais. Esses resíduos contêm placas finas de minérios, que misturadas à água acabam formando uma lama, que é armazenada em barragens. E que pode causar danos à saúde.

Como podemos constatar, nós produzimos muito lixo.
E a humanidade até hoje não descobriu uma forma correta de evitar a poluição do planeta. São milênios já passados e a era da industrialização fez o homo faber inventar milhares de aparelhos para facilitar a vida na terra. E toda invenção trouxe o ônus do lixo, que suja os rios, o mar, as fontes, o solo, o subsolo, a atmosfera. E a cada dia está tornando quase impossível a vida na terra.
Insetos polinizadores de frutos que nos servem de alimento estão em extinção. Por conta de terríveis inseticidas que são liberados no ar para combater as pragas que assolam os canaviais. Canaviais que fornecem o álcool... Daqui uns cinco anos, na progressão que estão ocorrendo essas pulverizações, não haverá mais mamão, laranja, manga, banana, abacate, poncã, abacaxi, melão, melancia e toda a sorte de legumes, que são mais sensíveis. Teremos muito combustível para rodar com os carros para ir às compras. Comprar o quê?
Eu sou da geração que está passando.
Mas, outras virão e perceberão que viver será impossível com tanto lixo cobrindo a terra, sujando as fontes e tornando o ar irrespirável. Soube por um Professor que, no Japão a população é estimulada a produzir menos lixos. Os sacos plásticos de lixo são bastante caros e obrigatórios.
 Pesquisadores constataram que, há milênios a passagem de tribos antigas por vilarejos foi marcada por restos de conchas e ossos de animais. A vida era bem simples. Conchas e ossos se desfazem naturalmente. Não deixaram outro lixo.
É urgente descobrir uma forma de descarte racional do lixo no mundo. A Terra não suporta mais tanta agressão.
Pesquisadores deveriam descobrir uma forma de eliminar o lixo sem prejudicar mais o Planeta. Porque o lixo está ocupando muito espaço.
E logo, logo, não haverá espaço para os homens, animais e plantas.

Mirandópolis, fevereiro de 2019.
kimie oku in

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019



            As pessoas morrem.

    Meus pais morreram.
   Meu irmão morreu.
   Minha irmãzinha morreu.
   A  Therezinha morreu.
  Meus amigos morreram.
   Cirandeiros morreram...
   Morreu o Papa João 23
  Morreu a Madre Teresa de Calcutá.
   Marilyn Monroe morreu.
   Van Gogh morreu.
  Morreu Ayrton Sena.
   Morreu Inezita Barroso.
   Morreu Ulisses Guimarães.
   Manuel Bandeira morreu.
   Robin Williams morreu.
  Morreu o Mussum.
   O Zacarias também.
   O Zé Rico morreu.
   Morreu Jerry Adriani.
   Cazuza morreu.
    Raul Seixas morreu.
    Todos morreram...
    E agora foi a vez de Ricardo Boechat.
   A vida é para ser vivida.
    E morrida...
   Até chegar a nossa vez.
    Continuamos a assistir a esse desfile de funerais...
    Carpe Diem!
   Mirandópolis, fevereiro de 2019.
    kimie oku in


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019



       Por quê Brumadinho?
      
       Tive um Diretor de Escola que, tinha o capricho de, a cada semestre letivo chamar um chaveiro, para consertar as chaves dos armários dos professores. Armários esses, onde eles guardavam suas cadernetas e outros materiais pedagógicos para ministrar aulas.
      A primeira vez que ele chamou o chaveiro lhe perguntei a razão. E ele me disse que, os professores na pressa de pegar seus materiais forçavam demais as chaves e as fechaduras, danificando-as. E depois diziam para ele que tinha que consertar ou trocar as chaves... E ele me disse que seria muito chato ensinar um professor a usar as chaves corretamente... Então, ele preferia fazer a manutenção quando eles estavam ausentes. Fiquei admirada de sua humildade e perspicácia...
      Ale mandava consertar e pagava com o dinheiro da Associação de Pais e Mestres. Deixava tudo em ordem, mas daí mais uns meses tinha que chamar o chaveiro de novo. E de novo...
      Então, comecei a observar as pessoas que abriam os armários e as portas. Era tudo na pressa, sem prestar atenção no ato, conversando com alguém e forçando as chaves, sem cuidado algum. É verdade que havia professores mais cuidadosos que faziam isso com calma, com extremo cuidado e nunca estragavam os armários...
      Esse mesmo diretor era “crica” como diziam os funcionários, porque chamava a atenção dos servidores, que deixaram as luzes de várias salas de aula acesas a noite toda. E às vezes, deixavam também todos os ventiladores ligados a noite toda...
      Antes eu havia conhecido um outro Diretor que, no final do semestre, aproveitando a ausência dos professores e alunos, consertava armários de madeira e gavetas de mesas das salas de aula. É verdade que ele pedia ajuda dos Serventes para a limpeza final, mas quando o novo Semestre começava, estava tudo em ordem.
      Eram apenas funcionários públicos e não eram marceneiros nem ferreiros, mas gostavam de zelar de sua Escola. Acho que nunca os professores repararam que tudo funcionava normalmente, porque havia alguém que garantia isso.
      Eu sou de uma geração que se dedicava de corpo e alma ao mister da Educação. E muitos professores e diretores primavam pelo capricho em exercer suas funções. Cuidavam de detalhes que nunca apareciam, mas que garantiam o bom funcionamento, a economia e a duração do mobiliário... E não era para receber prêmios, porque o Estado não pagava e nem paga bem o pessoal da Educação.
      A troco de quê eles faziam esse trabalho extra curricular?
      Eles tinham orgulho de suas funções e de suas escolas, que encaminhavam centenas de crianças na vida. Tudo tinha que caminhar na mais perfeita ordem, para que o ensino acontecesse.
      E hoje constato que o mundo mudou e gente daquele calibre não existe mais... Gente que tinha dedicação total ao trabalho que exercia. Que podiam ser cricas, que podiam ser superexigentes, que eram criticados mas que possibilitavam que os dias letivos ocorressem sem incidentes.
      Hoje, funcionários nas repartições públicas e até nas empresas privadas fazem de conta que trabalham. Passam horas e horas olhando na telinha de seus celulares, e nem percebem que à volta existe gente que precisa ser atendida porque está passando mal, porque precisa amamentar o bebê que ficou em casa, porque precisa voltar logo para bater o ponto no trabalho... Esses funcionários só querem garantir as horas no local de trabalho e nem estão preocupados com o sofrimento alheio. E geralmente são especialistas em falar mal do governo, da sogra, do marido, da empregada...
      Então, é por isso que aconteceu a tragédia de Mariana, de Brumadinho, do Viaduto que se rebaixou na Marginal Pinheiros... Para todas essas obras deve haver uma equipe encarregada de fiscalização e manutenção, que periodicamente tem que vistoriar para garantir a segurança da população. Mas, não! Fingem que trabalham, não fiscalizam nada, não conferem nada e deixam tudo ao Deus dará!
     Tragédias podem e devem ser evitadas!
      Mas no Brasil agora é preciso nomear fiscais para fiscalizar o trabalho dos fiscais!
      Porque muitos estão tão fissurados nos seus Whatsapps, que não têm tempo para cumprir suas tarefas.
      É por isso que aconteceu Mariana.
      É por isso que aconteceu Brumadinho.
E sabe Deus o que mais vai acontecer!
Será que Itaipu é segura?

Mirandópolis, janeiro de 2019.
kimie oku in


domingo, 27 de janeiro de 2019





            Idolatria


Toda vez que leio essa palavra, vem à minha mente a pintura de Rembrandt que mostra Jesus expulsando os vendilhões do Templo de Jerusalém.
Jesus foi ao Templo e vendo aquela feira armada na escadaria, se revoltou e pegando um chicote espantou os bois, os carneiros e as pombas que ali estavam, para serem vendidos pelos comerciantes locais.
E disse “A casa de meu Pai será a casa de oração e não um covil de mercadores.”
Sei que é esquisito associar idolatria à essa passagem da Bíblia. Mas para mim, Jesus estava revoltado com o apego ao materialismo, à moeda, que movia esse mercado improvisado. Todos estavam ali para negociar, para ganhar uns trocados, para encher os bolsos. E não para orar. Idolatria da moeda.
Antigamente, a humanidade movida pelo medo idolatrou fenômenos da natureza como o Sol, a Lua, o Trovão, a Chuva, a Terra, a Água... Depois, passou a idolatrar animais e mais tarde os humanos que se sobressaiam em suas tribos. Sempre houve necessidade de se eleger um Mito, um Ser que julgavam poderoso e que viria em seu socorro nas horas de perigo...
O Homem de hoje também tem necessidade de um modelo, de uma imagem que sirva de exemplo para copiar e não se perder nesse mundo.
E assim ao longo dos tempos os Xamãs, os Sacerdotes, os heróis locais passaram a ser os Mitos a serem copiados.
Na era moderna, muitos mitos foram criados e copiados. Atores de cinema, heróis de guerra, Reis e Rainhas, Santos da Igreja e Pensadores famosos. Assim Marilyn Monroe, Ayrton Sena, Santo  Agostinho, Papa João Paulo II, Tiradentes, Elvis Presley, Pelé, a Princesa Grace de Mônaco, Madre Teresa de Calcutá e John Lennon são alguns dos modelos adotados pela humanidade para serem copiados. Porque todos eles se sobressaíram de alguma forma em seu mister.
Ainda hoje na Índia, a vaca é considerada sagrada, e a respeitam como a um Deus. A vaca lá é intocável.
Desde sempre, o homem sentiu necessidade de um modelo, de um herói, para servir de exemplo em suas ações do cotidiano. Felizmente, sempre elegeram modelos bons e não os párias da sociedade.
Mas o tempo de idolatria já passou. E todo herói tem suas virtudes e seus defeitos. Nenhum mito é perfeito. Nenhum, porque todos são humanos e humanos erram em algum momento da vida. Mesmo que procurem a perfeição.
Então não entendo essa mania de idolatria que tomou posse de certos eleitores, que publicam tantas bobagens nas redes sociais. Postam fotos e atribuem falas não faladas por seus ídolos, como se fossem pessoas perfeitíssimas, que tudo vêm, que tudo podem, que tudo ouvem. Que vão fazer isso e aquilo... Que nunca passou pela imaginação deles. Como se eles fossem videntes que enxergam os passos que os próprios ditos heróis ignoram...
Ora, sabemos que os governantes por mais íntegros que sejam, são dolorosamente humanos e como tais podem cometer gafes, falar inconveniências, errar protocolos... Porque não são deuses, porque são humanos. Humanos. Apenas humanos, mesmo que firmemente bem intencionados.
Mas os idólatras querem endeusá-los e postam tantas inconveniências, que deixam com certeza as personagens citadas de saia justa. E isso é péssimo. Temos sempre que ter os pés no chão. E não criar fantasias e inventar expectativas que poderão nunca se realizar. Eleitores que assim agem, querem mandar nos seus eleitos para que seus sonhos se realizem. Isso demonstra falta de fé, de confiança. Porque os eleitos têm suas personalidades e acredito que tenham suas competências. Então é preciso acreditar. E confiar.
E não inventar um mundo de mentiras.
Porque isso só acirra mais a aversão dos adversários.
E isso é o que mais deploro no momento.
Porque agora é o momento de trabalho, de fé e de união.
Mirandópolis, janeiro de 2019.
kimie oku in


terça-feira, 22 de janeiro de 2019




A minha Rua São João

O amigo Ademar Bispo postou uma crônica no meu face em que a figura central é uma jaqueira. Sim, uma jaqueira que dá aqueles frutos enormes e espinhudos, que alguns amam e devoram e, outros não lhes suportam o cheiro adocicado e enjoativo, que atrai abelhas e moscas.
A jaqueira existiu há décadas nessa mesma rua que moro, a famosa Rua São João, que foi o play ground da molecada nos anos 50/60. Essa rua já teve outras crônicas, que a descreveram como a Rua da Delegacia de Polícia, a Rua da Feira de domingo em que se vendiam frutas e verduras. Foi a rua onde os moleques jogavam bola de tardezinha, em que se reuniam os companheiros do Bispo e do Ulisses Silva Lacerda planejando assaltos aos pomares vizinhos, para roubar bananas, laranjas e melancias...
Naquela época era uma rua de terra batida, cheia de buracos, sem guia, sem calçada e sem iluminação. Mas, com a urbanização, o aspecto foi melhorando e além das calçadas e do asfalto, ganhou algumas árvores, cujas sombras são disputadíssimas o ano inteiro, porque aqui sempre é Verão. Mas, jaqueira não há. Há sibipirunas, uma das quais bem em frente à minha casa, que produz uma sombra maravilhosa, que se eu cobrasse R$5.00 de cada carro que aproveita sua sombra, hoje estaria rica de verdade. Mas, há coqueiros, chapéu de sol, patas de vaca e algumas outras árvores.
O que chama atenção na minha rua São João de agora é a população que aqui mora. Daquela molecada de cinquenta, sessenta anos atrás, não resta ninguém. A maioria das construções sofreu reformas e o aspecto geral mudou bastante. Ficou com um aspecto mais urbano. E todo mundo que mora aqui tem mais de mais de sessenta, setenta anos. Alguns com mais de oitenta. Todos idosos e aposentados... Em geral cada casa abriga um casal apenas e, em algumas mora apenas uma pessoa. A população envelheceu e muitos já partiram para o céu... Não há crianças na minha rua! Só gente idosa. Então é uma rua silenciosa e muito parada. Aqui no meu pedaço felizmente há uma jovem adolescente, a Bruna. É a única. Que dá um toque primaveril ao local.
Outro detalhe: a Rua está se tornando comercial. Nas cinco quadras pra cima e pra baixo instalaram-se bares, oficinas mecânicas, Sapataria do Zagato (desde outras eras), uma loja de produtos para a Agropecuária, Salões de Cabeleireiras, Pet Shops ou Veterinárias, Clínicas Médicas, Odontológicas, Psicológicas, Escritórios de Advocacia, Empresa de ônibus, Loja de roupas e calçados, além de uma Loja de materiais de construção. Devagarinho está perdendo o aspecto de moradia para se tornar mais comercial.
A Rua São João começa lá no pontilhão para Amandaba e termina na Rua que vai para o Cemitério local. Era considerada a rua mais longa, mas perdeu para a Rafael Pereira que acabou se emendando com a Vicinal para Lavínia.
Durante o dia, enquanto funciona o comércio, não há vaga para estacionar carros. Às vezes, até fico irritada porque tem gente que fecha a saída de minha garagem, impedindo-me de guardar ou sair com o carro, tal é o movimento nessa rua. É que a São João é paralela à rua Nove de Julho, que é totalmente comercial.
A vantagem de se morar nessa rua, entre a Praça Manoel Alves de Ataíde e o Clube Nipo é que dispomos de tudo à mão:  a Igreja, os Bancos, Farmácias, Mercearias, Mercados, Lojas de Calçados, de vestuários, de móveis, as Pernambucanas, os Escritórios e os Cartórios... Tudo pode ser alcançado indo a pé, sem precisar usar o carro. Mesmo porque está difícil achar uma vaga no horário comercial. Acho que hoje há dois carros para cada habitante local....
Mas, o que mais eu sinto é o silêncio nos fins de semana. Tudo quieto e silencioso. Às vezes, um cão que late, um carro que passa. E é só. A rua vazia, completamente vazia de carros e de gentes...
Então, para espantar o silêncio, vou ao piano e dedilho algumas valsas e sonatas. Acho que sou a única barulhenta do pedaço.
Mirandópolis, janeiro de 2019.
kimie oku in


     


quinta-feira, 17 de janeiro de 2019





         Sobre armamento
       
        Toda essa polêmica sobre a flexibilização do armamento me fez lembrar de um fato, que um cidadão me contou.
      Ele era Agente de Segurança de uma Penitenciária e certo dia, foi designado para acompanhar um preso ao velório de sua mãe em outra cidade. Eram apenas ele, o motorista da viatura e o presidiário. A viagem foi tranquila, sem incidentes.
 Mas, ao chegar na rua em que ocorria o velório havia uma multidão aguardando... O dito cujo foi recebido como um herói para o espanto dos seguranças. Todos gritavam para liberá-lo e deixá-lo ficar para o enterro... Não havia autorização para isso. A multidão formou um corredor estreito para a passagem dos visitantes. Enquanto os três adentravam no recinto, os familiares choravam e gritavam... E os dois seguranças temendo pelas próprias vidas e tremendo de fato,  acompanharam o indivíduo para se despedir da mãe. Foi só nesse momento que a multidão se aquietou. Mas, o amigo me disse que nunca havia sentido tanto medo diante de uma turba. Se estava armado? Não! Só portava uma caneta Bic no bolso do uniforme... Agentes não podiam portar arma... Felizmente, tudo terminou bem, devido à natureza do presidiário, que devia ser de paz.
Mas, aí ficou a pergunta? E se a multidão quisesse resgatá-lo? E não o entregassem aos Agentes? O que teria acontecido? E o que os Agentes poderiam fazer?
Quando os Imigrantes japoneses vieram para o Brasil, foram encaminhados para as imensas florestas, que tiveram que derrubar para iniciar a lavoura do café. Como era mata fechada, havia muitas onças e outros bichos perigosos rondando suas taperas à noite. E para garantir a segurança de todos, os chefes compraram armas de fogo, que conservavam guardadas para uma emergência. Com certeza, essas armas foram usadas para espantar os animais ferozes, mas nunca para abater vizinhos ou desconhecidos.
E quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial, em que o Japão era um dos participantes, o Governo de Getúlio Vargas, temendo uma reação dos imigrantes japoneses, mandou confiscar todas essas armas. Meu pai que era um dos líderes numa Colônia de Japoneses em Lavínia, foi com um amigo de casa em casa recolher as armas. Encheram quatro sacos de armamento e levaram-nos a cavalo à Delegacia de Polícia de Lavínia. Se bem que as melhores armas eles enterraram no chão para não serem confiscadas. E para garantir a segurança da Colônia. As demais  armas nunca foram devolvidas... Mesmo com o fim da guerra.
Todos possuíam armas de fogo porque era necessário, mas ninguém as usou para resolver questões, que sempre houve entre os imigrantes e seus patrões brasileiros. As armas eram para sua defesa e de suas famílias. Para nada mais.
Houve sim, uma questão em que japoneses mataram japoneses aqui no Brasil, porque não aceitavam a derrota do Japão na Segunda Guerra. Mas, isso foi ordenado pelo grupo Shindo Renme, que tinha o alto comando lá na Capital e era uma facção criminosa, que aterrorizou os imigrantes, que reconheceram a derrota do Japão. Entre os imigrantes que vieram para trabalhar não houve questões mais sérias envolvendo armamento de fogo.
E essa questão da flexibilização da posse de armas tem um regulamento que deverá ser obedecido.
Em resumo, concluí que a permissão é para o maior de 25 anos, que tenha ocupação lícita e residência fixa, sem antecedentes criminais; com comprovada capacidade psicológica e técnica; e comprove a necessidade efetiva de arma, que é o caso dos Agentes Penitenciários e demais funcionários que atuam na área de segurança. E tudo isso deve ser conferido de cinco em cinco anos.
Para finalizar, acho que todas as pessoas são de paz e ninguém pretende matar ninguém. Quem se sente mais seguro e quer uma arma deverá obedecer ao critério acima, quem não quer não precisa se preocupar.
Nos anos 1930, 40, 50 os imigrantes tinham armas de fogo e não saíram matando por aí. Será que a humanidade mudou tanto?
Será que devo temer o vizinho que possua armas?
Mirandópolis, janeiro de 2019.
kimie oku in