sábado, 9 de março de 2019



                Molecagem
        
         Dei a primeira trombada com sete anos de idade.
        O caminhão era um Chevrolet de 6000 quilos.
    O motorista Manoel Jacinto tinha ido almoçar.  Entrei no caminhão, mexi na “mudança” e andei 300 metros. De ré.
O caminhão bateu e derrubou a porta da casa da senhora Albina.
Rachei a cabeça e apanhei pela primeira vez de meu pai.
Levei três palmadas na bunda.
A segunda vez que apanhei foi quando chamei o homem que vendia galinhas de “mula”.
(Mario Varela)

sexta-feira, 8 de março de 2019




                 Óleo de fígado de bacalhau
        
         Todo dia tinha que tomar uma colher de óleo de fígado de bacalhau.
        Eu detestava.
Para me convencer, mamãe me dava uma moeda de um escudo em troca do óleo.
Na terceira garrafa, mamãe me pediu dinheiro emprestado para comprar um presente para mim.
Negociei com ela – só emprestaria se me pagasse em dobro.
Ela concordou.
Então, com o dinheiro que lhe emprestei, comprou outra garrafa de óleo de fígado de bacalhau...
(Mario Varela)

quinta-feira, 7 de março de 2019


      
                    O que é demais sobra...

       Sou de uma família de imigrantes japoneses, que sofreu tudo que é possível sofrer com a falta de recursos, numa terra desconhecida.
       Meus pais vieram para o Brasil em 1913 (papai) e 1917 (mamãe).
       Vieram para trabalhar nas fazendas de café, porque no Japão faltava comida para todos. Vieram com a ilusão de viver no paraíso, mas a realidade era bem diferente. Tiveram que viver no meio de matas fechadas, de árvores centenárias ou milenares, onde moravam as feras... Tudo foi áspero, duro, difícil e tiveram que se virar com a força de seus braços.
       Além disso, foi muito difícil superar as saudades da Pátria distante, a fala ininteligível dos brasileiros, os costumes, as humilhações por serem tão diferentes fisicamente.
       Havia falta de tudo.
De comida, de água, de roupas, de sapatos, de remédios, de assistência médica. Tinham que se virar entre os próprios imigrantes. Por isso, uns começaram a cuidar dos outros como médicos, enfermeiros, assistentes jurídicos. Tudo na raça, na base da experiência e de informações....
Foi um tempo muito, muito difícil. Que até hoje me espanto de terem vencido. Meu pai  Jitsutaro Osaki que trabalhou com o Dr. Kihachi Dayan na Região de Araçatuba e Valparaiso atuou como o homem que curava tracoma, gripe espanhola, ferida brava, aplicava injeções e fazia partos... Serviu a tanta gente gratuitamente, mesmo porque ninguém tinha com que pagar. Uns e outros pagavam com frangos e ovos de galinha... que sempre eram bem vindos naqueles tempos de escassez.
Criada nesse regime, onde tudo era precioso e não deveria ser desperdiçado, aprendi a economizar tudo para não faltar... Calçados eram usados até os ossos, porque cada um só tinha um par, e quando estavam em boas condições eram reaproveitados pelos irmãos menores. Então, roupas e calçados eram comprados ou feitos para os maiores, para servirem sucessivamente aos menores... E isso era tão natural, que ninguém se incomodava. Era assim em todas as famílias. Todos eram paupérrimos. Mais pobres que pobres...
Então, nosso sonho era sempre ter as coisas com fartura, comida que satisfizesse todas as vontades, roupas do bom e do melhor, calçados em quantidade para escolher para sair...
E quando nos tornamos pais, exageramos na aquisição de bens materiais aos filhos pequenos. A criança nem andava e já comprávamos bicicletas... bonecas de todas as marcas... Roupas e calçados que nem cabiam nos armários... tudo em excesso, tudo sobrando... E assim, estragamos uma geração inteira com provisões desnecessárias.
E hoje a moçada não se contenta com três pares de tênis, cinco calças jeans, dez camisetas...  E isso abrange os celulares, os whats, as motos, os carros... Tudo tem que ser bastante. Ostentação é a palavra da moda. Não importa se está devendo até a alma no Banco, tem que ostentar e passar a imagem de poder.
E por tudo isso, pelo excesso de coisas, pela possibilidade de qualquer um poder vender uma imagem poderosa é que os jovens se perderam. Os objetos de consumo não mais lhes satisfaziam, precisavam de outras emoções... E aí procuraram substâncias que fizessem-nos empreender viagens surreais... e com isso, muitos se reduziram a zumbis...
E quanto mais sobra a grana, mais se perdem. O exemplo mais gritante de tudo isso é o político Aécio Neves.  Descendente de uma família respeitável, de boa estampa, seguiu os passos do famoso avô Tancredo Neves, que entrou na História do Brasil como O Presidente que nunca chegou à Presidência...  Aécio tinha tudo para dar certo. Apoio quase total do povo brasileiro, um nome a honrar, uma família de que se orgulhar, posses materiais, Partidos políticos que o apoiavam... Mas, se perdeu porque tudo isso deve tê-lo enfastiado. Queria mais outras emoções, outra sensações misturadas ao poder excessivo. Acredito que nunca passou carência de bens materiais, tinha tudo de mão beijada.
Não só ele, como os demais políticos que todos os dias aparecem na Mídia como corruptos, se perderam pelo excesso de conforto, excesso de comida, excesso de vantagens, excesso de dinheiro. E passaram a comprar tudo. Compraram cargos, amigos, parceiros, sócios, Igrejas, padres, juízes, Delegados, policiais, empresários, Bancos...
O noticiário ficou muito chato! Todos os dias mais nomes de gente corrompida, que não presta. O mais triste de tudo isso é que famosas figuras do cenário artístico também esticaram e muito essa lista. Gente que todos os brasileiros comuns admiravam e idolatravam... E tudo pelo vil metal. Ostentar é preciso?
Então, ter pouco e partir para a luta para conseguir o mínimo necessário é a lição que fica. Se você precisa de algo, vai à luta para obtê-lo. Mas se já tem tudo, pra quê trabalhar? Se a grana está sobrando também vai se aventurar para experimentar outras emoções... E aí ficará irremediavelmente perdido.
Se tem demais, por quê não ajudar jovens que querem estudar?  Apoiar crianças que precisam de assistência médica especializada?
Mas, Não! Preferem se drogar!
Estaremos formando uma geração de ZUMBIS?
Mirandópolis, março de 2019.
kimie oku in



           O grilo
     Na infância em Condeixa ( Portugal), era  costume negociar grilos.  Era um comércio de compra e venda entre crianças.
        O grilo que cantasse mais custava mais caro.
Com três anos de idade comprei um grilo de um garoto de sete anos de idade. Paguei 5 escudos ou 7 dólares.
Fu enganado, porque ele me vendeu um grilo morto. Disse que estava dormindo.
Foi a primeira vez que fui enganado...
(Mario Varela)

quarta-feira, 6 de março de 2019

     

                                                    Felicidade


        Às vezes abro a janela e vejo ginjeiras em flor, que dão frutos vermelhos como ameixas.
        Vejo também margaridas e quaresmeiras e gerânios vermelhos, rosas e azuis.
        Às vezes, vejo nuvens espessas.
Crianças vão para a escola.
Pardais pulam o muro.
Gatos abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas bailando no ar. Duas a duas, como refletidas no espelho.
Um galo canta.
Passa um carro.
Tudo certinho – cada qual cumprindo sua função.
Eu sou feliz. Completamente feliz.
Há felicidade diante de minha janela.
(Mario Varela)

terça-feira, 5 de março de 2019


         Comerciante

       Quando estudava em Condeixa, Portugal comecei a ser comerciante.
    Convenci o Professor Mateus que cuidaria da distribuição de tintas para os alunos, sem derramar. 
  A tinta era para molhar a pena da caneta, com que se escrevia nos cadernos, pois não havia ainda canetas tinteiros nem as atuais esferográficas.
    Inicialmente, punha pouca tinta nos tinteiros
    Quem quisesse mais, teria que me dar cadernos velhos.
  Eu trocava os cadernos velhos com o homem que fabricava bombas, usadas em festas juninas.
   Cada caderno equivalia a três bombas.
   Eu tinha apenas sete anos de idade.
(Mario Varela)




     Passo a publicar umas crônicas interessantes de um dos  homens mais fascinantes que conheci nesta vida.
    Por enquanto, quero que os amigos conheçam os pensamentos dele.

          Da janela

Minha janela se abria para a cidade de Condeixa, que no inverno parecia feita de giz.
Perto da janela havia um jardim.
Era um tempo de estiagem, de terra farelada e o jardim era  muito lindo.
Todas as manhãs vinha a tia Maria com um balde, e em silêncio ia tirando com a mão, umas gotas de água.
Não era rega.
Era uma aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
Eu olhava para as plantas, para a tia Maria, para as gotas  de água que caiam de seus dedos magros, e meu coração ficava completamente feliz.
( Mario Dias Varela, 90 anos)