segunda-feira, 18 de março de 2019




                     Juventude
        Antônio Ventura era meu vizinho.
        Éramos tão amigos como irmãos.
     Seu pai José Ventura foi um grande autor de teatro e latoeiro.
    Dos 12 aos 21 anos, Antônio Ventura, Antônio Pocinho e eu formávamos um grupo de estudos – pegávamos três livros e cada um lia um. Após isso, fazíamos os comentários na biblioteca de minha casa.
   Junto com mais colegas, formamos a primeira biblioteca móvel de Condeixa, com livros que recolhíamos de casa em casa, por doação. Assim nasceu a Biblioteca Itinerante.
   Sob pressão política do Regime de Salazar resolvemos sair de Portugal; queríamos ir para Venezuela. Mas, os desígnios de Deus eram outros.
O Ventura e eu viemos parar no Brasil
(Mario Varela)

domingo, 17 de março de 2019



             Professor Mateus
Na escola primária em Condeixa fui aluno do Professor Mateus, que era casado com dona Mencília.
        Quando nos conhecemos, a empatia foi imediata e a amizade com eles duraria a vida toda. Como não tinham filhos, fui muito benquisto por eles. Sempre que tinha dificuldade em assimilar alguma matéria, recorria sempre ao Professor Mateus. Mesmo quando fazia o Colegial e Ciências Contábeis em Coimbra, ele me ajudou muito.
Eu costumava rever as matérias nas ruínas romanas de Conímbriga, às seis horas da manhã. Pedia ajuda ao Universo e aos romanos para vencer minhas dificuldades.
(Mario Varela)


sábado, 16 de março de 2019




                Família
        Quando meu pai completou 18 anos deixou as propriedades do Vovô Zé Caetano e foi para Condeixa montar uma loja.
Meu avô conhecia um comerciante em Figueira da Foz, e pediu-lhe que treinasse papai no balcão da loja.
As lojas da época vendiam de tudo: desde açúcar e feijão até botão e linha.
Tia Rosa acompanhou papai para ajudá-lo no bazar de Secos e Molhados – o “Varela e
 Cia Ltda”.
        Durante a guerra todo mundo passava fome.
        Papai mandava anonimamente, caixas cheias de mantimentos aos amigos necessitados.
(Mario Varela)

sexta-feira, 15 de março de 2019



                Coimbra
Aos onze anos fui estudar em Coimbra.
        Papai me deu uma nota de 100 escudos, que equivalia a cem dólares e me disse: “Faça o que quiser com esse dinheiro. Se quiser fumar, fume. Se quiser ir com mulheres, lave-se bem. A partir de hoje, a vida é sua. Você tem que administrar a sua vida e o seu corpo”
        No mês seguinte, perguntei ao meu pai se poderia me dar o dinheiro trocado. E ele me perguntou: “Por quê, filho?” “Porque gastei tudo em uma semana.”
        No mês seguinte fui ao Banco, pedi 4 envelopes e dividi os 100 escudos em quatro envelopes de 25 dólares, que teria que durar a semana toda, e sobrar 10%.
Com a economia dos 10 %, quando tinha 13 anos comprei uma escrivaninha de um estudante de Medicina.
Em 1958 quando voltei a Portugal, pedi a João Pocinho para restaurá-la e a trouxe ao Brasil.
(Mario Varela)

terça-feira, 12 de março de 2019



                                       Eu
        Sou Mário Dias Varela, português naturalizado brasileiro.
        Nasci em Condeixa A Nova, ao sul de Coimbra, mais ou menos na região central de Portugal.
        Condeixa é terra de um dos melhores queijos do mundo.
        Nasci, pois em Condeixa em 06 de agosto de 1928.
Sou filho caçula de Manuel Maria Dias Varela e de Maria da Penha Aires da Costa.
Papai participou da campanha pela promoção da República de Portugal, que ocorreu em 05 de outubro de 1910 em Lisboa.
Meus pais já partiram há muito tempo, mas tenho em Portugal lá em Rabaçal, parentes e familiares da linha Varela.
Meu avô Zé Caetano era um cidadão abastado, dono de diversas propriedades. Está enterrado na Igreja do Furadouro, honra concedida a poucos.
Papai tinha três irmãs: Maria da Luz a primogênita é fazendeira em Jaboticabal, estado de São Paulo, Brasil, Ana que foi para Rabaçal e casou-se com Manuel Pedro Pires, e Rosa solteira que faleceu aos 95 anos de idade.
Manuel meu pai nasceu numa Aldeia do Furadouro em 1883 . E faleceu quando eu tinha  apenas 17 anos.
Mamãe Maria da Penha era mulher enérgica, perfeccionista. Era muito exigente quanto à ordem e à limpeza. Faleceu em Mirandópolis em 1984.
Mamãe..
(Mario Varela)

                  O cinema

 Quando criança gostava de ir ao cinema aos domingos.
        Os filmes de Charles Chaplin eram em preto e branco.
     Quando apareceu o cinema colorido, vi o Frank  Sinatra numa limusine, falando  ao telefone móvel. Fiquei fascinado.
        Eu faria qualquer coisa para ir ao cinema.
     Chegava a me benzer na igreja, para Deus abençoar as minhas escapadas ao cinema.
       Para ir ao cinema à noite, mamãe estabeleceu que eu tinha que ir à missa de manhã.
        O padre rezava em latim e de costas para o público.
Para provar que tinha ido à missa, tinha que dizer à mamãe a cor do manto do padre.
Eu entrava pela porta principal, olhava o manto do padre Pimenta e saia pela porta lateral.
Tinha que fazer isso com cuidado, porque da minha casa podia se avistar a igreja.
(Mario Varela)
  

segunda-feira, 11 de março de 2019



                  Nilo

Com sete anos eu já ajudava como balconista de meus tios/padrinhos Manoel Pedro e Ana, no Rabaçal. Ia de carona ou bicicleta.
Meu tio possuía um moinho de vento, que produzia eletricidade para casa.
Às cinco horas, íamos regar na Chácara Agudinha.
Lá, eu montava num cavalo em pelo.
Nilo era andaluz, cavalo proveniente da Andaluzia espanhola.
Os cavalos andaluzes eram muito inteligentes, treinados para as touradas e para as hípicas do mundo inteiro.
Nilo puxava uma carruagem preta com quatro rodas e quatro rédeas.
Quando passava por gente conhecida, meu padrinho puxava as rédeas e o cavalo se aprumava, levantando a cabeça.
(Mario Varela)