sábado, 12 de outubro de 2013



                                     Bombas
    Quando Marta deu à luz a São João Batista, seu esposo fez uma grande fogueira e muito barulho, para comemorar o nascimento do filho. E, conforme o combinado, Maria prima de Marta e futura mãe de Jesus, por esses sinais compreendeu que a criança havia nascido e foi visitá-los
      Essa história bíblica, de alguma forma estabeleceu o costume de comemorar o dia de São João com fogueiras. Até aí tudo bem.
           Acredito, porém que naquela data remota, nenhuma bomba, foguete ou rojão foi explodido, mesmo porque nem existiam. Penso que o barulho no máximo, pode ter sido provocado pelo rufar de tambores tan, tan, tan... que era o meio de comunicação mais usual,  provavelmente.
            Então, por que a bomba?
        Bomba, ou rojão ou foguete é um artefato explosivo, ou engenho de propulsão, acionado pela expulsão de gases, produzidos pela combustão de materiais explosivos; ou ainda uma peça de artifício pirotécnico, constituída por um cilindro cheio de pólvora. (Dicionário Michaellis )
     Artefato... explosivo... expulsão de gases... combustão de material explosivo...  cilindro cheio de pólvora... enfim, o que há de bom na bomba?
            Para que serve a bomba?
        Fazer bebês chorarem... ensurdecer pessoas... causar  choques cardíacos... apavorar cachorros...
       E mais, arrancar a mão e os olhos de muita gente que foi explodi-la, queimar cabelos e roupas de passantes, incendiar quarteirões inteiros quando pega fogo no depósito ou loja de fogos...
         Atualmente, qualquer cidadão que abre uma loja ou faz uma promoção especial de vendas, se acha no direito de perturbar a população pacífica da cidade, com o ribombar dos rojões e mais rojões.
           Por que fazem isso?
           Falta de criatividade, de cérebro, de inteligência.
         Não percebem que as bombas agridem os ouvidos, e ninguém, ninguém fica feliz ao ouvi-las, a não ser o fabricante e o vendedor das mesmas.
         Gostaria que observassem que as bombas afastam as pessoas e, quem as explode não pensa nem um pouco na poluição sonora violenta que provoca. E menos ainda na poluição do ar.
        Há tanta maneira mais inteligente de se anunciar um evento especial: Abriu uma loja? Vai fazer uma promoção? Saiu vitorioso na eleição? O seu time foi campeão? O Brasil ganhou na Copa? Contrate uma banda para cantar música boa na rua, na porta da loja, na avenida, distribua brindes, prêmios – é muito eficaz e inteligente. E é bonito de se ver.
      Mas, se você mesmo assim, prefere a bomba, solte rojões e rojões para anunciar suas novidades. Quem sabe, seus prováveis clientes e eleitores fiquem surdos de vez, tenham ataques cardíacos ou no mínimo, te odeiem para sempre, porque o cachorrinho de estimação chorou horas seguidas, e urinou pela casa toda...
         Quem disse que São João quer bombas no seu dia?
   Não é muito mais bonito apenas dançar em volta da fogueira e confraternizar-se ao som de uma boa sanfona?   
      Quem disse que Nossa Senhora Aparecida quer bombas em 12 de outubro? Santa que é santa quer silencio e recolhimento. Não concorda com aquele barulho todo agredindo as pessoas, causando mal estar na população, fazendo o sangue todo subir à cabeça e de repente, provocar aneurismas...
      Cidadão pensante, em nome da saúde da população, em nome do meio ambiente que está aí pedindo socorro, que tal esquecer a bomba?
     E no Dia 12 de Outubro, se você quer demonstrar sua fé, fique por dez minutos de mãos postas (sem rojões) e ore para que a Santa ilumine e proteja a nossa cidade. Bombas nunca mais!
        
         Mirandópolis, março de 2010.      
         kimie oku
          
         (Publicado novamente, para que a população desperte e pense um pouco)


quinta-feira, 10 de outubro de 2013



                               Além da imaginação
   Após escrever a crônica cheia de confissões “Eu sou duas”, uma ideia tem me intrigado bastante.
       Se não tivessem ocorrido crises de superpopulação no Japão, seguidas de falta de gêneros alimentícios para alimentá-la, papai não teria vindo ao Brasil e nem mamãe... A imigração japonesa em massa para cá não teria acontecido, e nem para outros países. Os japoneses teriam ficado confinados àquela pequena ilha no Pacífico, sofrendo todos os cataclismos naturais. Papai e mamãe teriam sobrevivido a eles? Teriam sobrevivido à Guerra da bomba atômica? Meu pai nascera em Hiroshima...
       Condições geológicas, restrições econômicas e sociais determinaram a saída de tantas famílias do Japão em busca de um futuro melhor. E assim, meus pais crianças ainda para cá vieram, fugindo de uma vida sem muita esperança. É verdade que encontraram o inimaginável em termos de adversidades, de trabalho duro e bruto, de falta de tudo, mas ninguém morreu de fome.
         E aqui, as linhas do destino cruzaram os caminhos de mamãe e papai e eu nasci, assim como todos os meus irmãos. E nascemos todos brasileiros. E desde então, temos vivido aqui, pelejando, sem saber ao certo se somos japoneses ou brasileiros. Os conterrâneos se referem a nós como “a kimie japonesa” ou “a japonesa” mesmo. Nunca ouvi “a kimie brasileira”. Então, tem momentos que a gente nem sabe se é de fato brasileira, porque aos olhos dos outros somos todos japoneses... Sobre essa questão não vejo problema de discriminação, pois ocorre naturalmente, sem segundas intenções.
     O problema de identidade é uma coisa nossa, do mais profundo do ser, pois carregamos os genes de ancestrais nipônicos, com características que definem os povos das Ilhas do Pacífico. Quem nos vê, logo enxerga um ser de origem oriental, mesmo tendo nascido aqui, criado raízes e ter absorvido completamente o “modus vivendi dos tupiniquins”.
        Essas características tendem a desaparecer com as misturas que vêm ocorrendo, de gerações de japoneses se cruzando com os brasileiros. Cada vez mais as diferenças estão desaparecendo, restando apenas uns olhos mais amendoados, uns cabelos mais lisos e escuros....
        O fato de haver essas miscigenações não me preocupa, pois acho natural e nem mais vivemos aqueles tempos difíceis de aversão a outras raças, como ocorreu no passado. Herança de velhos e arrogantes samurais.
     O que me faz dar tratos à bola é se não tivesse ocorrido a imigração, eu não existiria. Não estaria aqui escrevendo essas baboseiras, para encher a cabeça de meus leitores. Foram necessárias diversas condições extremas, para que houvesse a transferência de nipônicos para o Brasil; para mamãe e papai se encontrarem, para que eu passasse a existir. Acho isso uma coisa incrível. Como pequenas lascas que se separam dos rochedos e vão rolando por aí afora, assim foi a vida de meus genitores: se desprenderam de uma ilha e conduzidos pelas vagas do Pacífico, vieram parar aqui.
       E assim, passamos a existir, como brasileiros.
       Mas, se não tivesse ocorrido a imigração?  E meus pais tivessem se encontrado lá na pátria deles? Eu teria tido a bênção de ter nascido? Como teria sido a kimie totalmente japonesa? Seria delicada e cheia de protocolos como as mulheres originariamente japonesas?
       É claro que seria uma verdadeira japonesa vivendo todas as tradições, que eu tenho tanta curiosidade em conhecer. Seria professora também? O que pensaria?  Seria igualmente essa cabeça confusa, que se indaga milhares de vezes por dia? Qual seria a minha prioridade? Teria essa paixão pela cultura dos ancestrais, e estaria como agora estudando a língua japonesa? Acho que teria o privilégio de frequentar bibliotecas super abastecidas de livros dos tempos medievais, para conhecer a linhagem da minha família. Aqui não posso nem pesquisar sobre isso, por ter a minha história truncada, pois a origem ficou perdida lá do outro lado do mundo.
      Supondo-se que realmente tivesse nascido lá, não seria brasileira, não conheceria essa terra abençoada, com esse sol de 40 graus, que tanta inveja causa aos moradores de terras geladas...  Seria mais uma senhora japonesa preocupada com os tsunamis e os terremotos, que volta e meia assolam o país. Estaria totalmente embutida no “modus vivendi japonês”, e não possuiria essas incertezas, que me fazem indagar a mim mesma sempre: “Sou brasileira? Ou sou japonesa?”
       Seria apenas uma e não duas como me sinto todos os dias. Duas kimie em constante conflito, cada qual me empurrando para um lado. Uma, a brasileira querendo exercer o livre arbítrio e escrever tudo que me aflora à mente, e a outra a japonesa me cerceando a toda hora para ser mais discreta, rigorosa e muito mais respeitosa.
      Ah! Se fosse possível, gostaria de um dia experimentar ser uma kimie completamente japonesa em sentimentos, em atitudes, de corpo e alma. Amando a natureza como todos os japoneses amam - Após um terremoto arrasador, ter forças para reconstruir tudo de novo, mesmo sabendo que outros abalos sísmicos virão... Não desistindo nunca. Tendo a fortaleza do povo japonês, herança milenar.
        E ser por um dia, uma kimie totalmente brasileira, com cara de brasileira, sem nada para diferenciar dos demais e agir como uma verdadeira brasileira, sem restrições e autocontrole. Ser livre, agir impensadamente, falar o que der na telha, não pensar muito nas consequências e ser movida apenas pelo impulso... Seria livre, sem amarras e provaria um pouco da felicidade de nascer num país tropical, com uma cultura nova de quinhentos anos, que não restringe quase nada.
         Esquisito pensar assim?
        É que ninguém sabe da dor de ser duas pessoas totalmente diferentes num corpo só. E sonhar não faz mal pra ninguém, né?

        Mirandópolis, outubro de 2013.

terça-feira, 8 de outubro de 2013


                            Eu sou duas

          Há em mim duas pessoas distintas: uma oriental, japonesa e uma ocidental, brasileira. Percebi isso pouco a pouco, ao escrever minhas crônicas. As duas são de alguma forma, antagônicas. Em conflito todos os dias.


           A kimie japonesa tem origem numa ilha perdida no Círculo de Fogo, chacoalhada todos os dias pelos vagalhões do Oceano Pacífico. Há milênios se formou o país, que se instalou num pequeno ponto do outro lado do mundo, Japão. E é exatamente aí que a minha história começou. É nesse lugar que os meus antepassados mais distantes descansam.
     A kimie ocidental nasceu aqui nos trópicos e não conhece neve, mas conhece o calor desta terra tupiniquim, que se estende aos abraços calorosos dos amigos compatriotas. Brasil é onde estou vivendo desde que nasci e convivendo com os irmãos brasileiros.
       A parte oriental me leva a estudar a cultura japonesa, os costumes e tradições, a História registrada, a complicada escrita em ideogramas cheios de traços, com significados profundos, que acredito não conseguir absorver totalmente, por mais que me empenhe. Estudo a língua de meus ancestrais há mais de vinte anos.     A parte ocidental me transformou em professora, e passei metade dessa vida pelejando com a educação, inventando formas de facilitar a compreensão dos discípulos. E há pouco, passei a escrever sobre coisas que me emocionam, que me incomodam, que atingem os corações de meus leitores. Prá dizer a verdade, sou feliz em poder divulgar minhas ideias, e constatar que muita gente concorda com o que eu penso. Alguns discordam é verdade, pois existe o livre arbítrio.
         A minha porção oriental deseja escrever também essas crônicas na língua materna, porque tem coisas que só consigo definir em japonês. Meus conhecimentos dessa língua, porém ainda são insuficientes para me aventurar a tanto. Enquanto isso, vou me abastecendo de cultura japonesa, pesquisando sobre expressões e palavreados que os japoneses usam na sua rotina diária.
          Se de um lado aprecio os poemas de Manuel Bandeira, Cora Coralina, João Cabral de Melo Neto, e os romances de Josué Montello e de Graciliano Ramos, por outro fico fascinada com os poemas de Miyazawa Kenji, e com as biografias de heróis como Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi , Tokugawa Ieyassu, Noguchi Hideyo e Higuchi Ichiyo.
         Se aprecio o Guarani de Carlos Gomes e a música popular do Brasil desde Mílton Nascimento e Raul Seixas até as caipiras como Menino da Porteira e Chico Mineiro, por outro lado aprecio demais os enka, ou música popular japonesa, notadamente as antigas da Era Showa, cantadas por Minami  Haruo e Murata Hideo.  Aprecio muitíssimo o Teatro Butô, que é uma interpretação do mundo, através da expressão corporal. Vejo o Butô como uma variação fina e sofisticada da Capoeira, herdada dos africanos.
       Se os trajes ocidentais são adequados e confortáveis para o nosso clima, os quimonos japoneses são encantadores, feitos de seda com estampas maravilhosas, que parecem pinturas. É claro que essas vestimentas nunca poderiam ser adotadas nestes trópicos. Mesmo com a ocidentalização pós-guerra, os japoneses preservaram essa vestimenta, cuja origem remonta há dois mil anos.    O quimono é usado em cerimônias sociais, núpcias e outros eventos importantes quando o cerimonial é essencialmente à moda oriental.
         No Brasil, o instrumento musical que me impressiona fortemente é o berimbau, porque o seu toque exige uma coreografia, a capoeira que é sempre movimentada e positiva. Do Japão, o mais impressionante é o shakuhachi, ou uma flauta de bambu, que guarda em seu interior sons de arrepiar. O shakuhachi sempre me emociona fortemente. Ele toca o mais profundo de minha alma e desperta integralmente a minha porção oriental. Viro japonesa de verdade.
         Comida brasileira boa de fato é o arroz e o feijão de todo dia, além de uma boa feijoada, uma peixada... Do Japão curto o gohan ou arroz branco, sashimi, além da sopa de missô.
        

         Esses contrastes todos mostram a diferença de cultura de dois países, que existem exatamente em pontos opostos do planeta. E é  surpreendente que, duas culturas tão diversas tenham se misturado em nossos pais, os primeiros imigrantes que aqui chegaram. Foram cem anos de luta, de adversidades, de sofrimento, de incompreensão, de aproximação, de desentendimentos, de discriminação até chegarem à aculturação final, para todos viverem em paz.
         Com a aculturação, agora todos sabem o que é bom odori, sashimi, tsunami, yakissoba, ipon, okanê, happi, taikô, manju, kaikan, bachan, konnichiwa, kombanwa, sayonara, e mais umas dezenas de palavras que são faladas diariamente, misturadas ao linguajar português de cada dia. Por outro lado, os imigrantes idosos também aprenderam o significado do café, feijão, futebol, samba, salário, viagem, festa, pagamento, troco, compras, Banco e Hospital...
      Se sou apaixonada pela música instrumental de Kitaro, por outro lado tenho orgulho de ter vivido em tempos de Ayrton Senna, de ter o grande estadista Rui Barbosa como referência nacional.
        O mais impressionante para mim e que é motivo de reflexão constante é a diferença de comportamento dos japoneses e dos brasileiros em geral. Os brasileiros são alegres, expansivos, chegando a ser até exagerados em suas manifestações de dor, de emoção e de felicidade. Quando choram o fazem em altos brados, sem nenhum pudor, quando comemoram também o fazem escandalosamente, sem se preocuparem com o local e as pessoas presentes.
         Os japoneses são comedidos, seguram sua dor e seus sentimentos, porque foi assim que passaram de geração a geração, para não preocupar nem magoar as demais pessoas. Mesmo nas saudações formais não há toque físico, em sinal de profundo respeito ao outro.  Em geral toda saudação é feita apenas oralmente, sem um abraço, sem um aperto de mão, muito menos por beijos. Nós percebemos essa diferença, quando ocasionalmente aparecem comitivas do Japão aqui em nossa terra, Tudo é formal e respeitoso, mas um bocado frio e não cabe em nosso estilo de vida.
         Outra atitude bem diferente é em relação aos idosos. Sempre os mais idosos têm a atenção privilegiada das pessoas, não só para tomar assento, como prioridade numa fila de atendimento, sem que precise de regras e filas especiais, porque o natural é ceder lugar para eles, sem nenhum conflito. Isso faz parte da cultura milenar: Aos mais idosos, sempre a prioridade, acompanhada de atenção e gentilezas. Aqui foi preciso inventar uma lei, para que todos aprendessem a ceder a vez e o lugar para idosos, que não têm mais condições de esperar. Diferença gritante.
       Em relação à escrita, é tão fácil a brasileira porque o alfabeto  romano possui apenas vinte e seis símbolos ou letras, e com eles dá para escrever tudo, tudo mesmo. Por isso é muito prático escrever. Até consigo escrever essas crônicas a partir desse alfabeto tão limitado.
         Com relação aos ideogramas já a coisa é muito complicada. Mesmo lá no Japão, só uma parcela de pessoas domina todos os ideogramas. É muito difícil porque há mais de seis mil caracteres e o traçado deles tem uma ordem estabelecida. E cada caractere colocado em determinado contexto muda sua leitura e seu significado. Só que tiro o meu chapéu para quem inventou a língua chinesa, de onde foi retirada a japonesa, porque tudo tem uma razão e uma lógica incontestáveis. Como os ideogramas são muito apreciados, há concursos de caligrafia, em que os participantes escrevem com pincel ou fudê molhado em tinta de carvão mineral.
         Também gosto muito de escrever com fudê, e o faço diariamente. Isso é herança de meu pai, que gostava de traçar as letras com a ponta do dedo molhado em água, sobre a mesa enquanto esperava a refeição. E toda vez que traço um ideograma, meu pai vive em mim. E mantenho viva a tradição e a herança da família. Porque essa é a mais preciosa herança que recebi de meu pai.
         Viver com essas duas pessoas tão contrastantes é muito difícil.
        O eu oriental exige uma postura, uma fala, uma expressão mais severa, comedida, restrita. O eu brasileiro me libera para falar o que me incomoda e gritar o que me sufoca. Gosto demais de um abraço de amigos, de trocar ideias com todo mundo, de beijar minhas amigas queridas e meus familiares. Mas, o meu lado oriental me poda o tempo todo, para ser mais discreta e controlar as emoções.

        O eu brasileiro me faz escrever tudo que me incomoda, que me emociona e que me faz feliz. Mas, na revisão, a kimie japonesa tira uma expressão aqui, troca uma palavra ali e o texto perde a originalidade. Eu me lembro que um dia, uma amiga disse num desses cursos de professores, que por eu ser um tanto expansiva me considerava uma japonesa falsificada. Pode até ser verdade, porque não consigo ser totalmente japonesa e nem totalmente brasileira.
         É mole, gente?

         Mirandópolis, outubro de 2013.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/


terça-feira, 1 de outubro de 2013

É Primavera

   


                               É Primavera!
    A Primavera é a única estação do ano que nós brasileiros sentimos na pele. As demais estações são indefiníveis, porque tardam a chegar e, às vezes demoram para ir embora, como o Inverno deste ano que, se arranchou por aqui e se esqueceu de procurar outras paragens. Quando julgamos que o frio havia partido e guardamos as cobertas, lá vem ele de novo, com os ventos do sul. Invadindo sem cerimônia o tempo de Primavera.
          Mesmo o Verão chega rapidamente e, invade os meses reservados para o Outono, e o povo sofre com o calor e o suadouro, que, deixa todo mundo desconfortável. Parece até que o sol quer nos cozinhar! Verão por aqui é terrível. Quente demais!
         Com a Primavera é diferente. Os dias ficam luminosos, as tardes ficam longas como as sombras das árvores. E o perfume das flores invade casas e nossas narinas. Tudo fica florido, até os matinhos que teimam em nascer nas frestas das calçadas.

         Gosto de reparar como a natureza é insistente. Por mais que você tente arrancar os matinhos, quando chove os brotinhos verdes despontam nas brechas dos muros, nas fendas das calçadas, e um belo dia, lá estão florindo timidamente e, ostentando a beleza de suas flores, que ninguém repara... Assim acontece também com as ervas daninhas, como o picão, carrapicho e outras plantinhas que classificamos de daninhas, só porque possuem armas poderosas para se proliferarem em qualquer ambiente. Sim, porque o picão e o carrapicho se agarram nas roupas dos humanos, e nos pelos dos animais para se disseminarem, para garantirem a continuidade da espécie. É uma forma inteligente da Mãe Natureza. Mas incomodam os seres que tocam neles, porque pinicam e irritam a pele.
         Mas, voltando à Primavera, é um tempo de dias luminosos e tardes preguiçosas, cheios de chilreio de pássaros, de alados cruzando os ares e de cantorias sem fim. É tempo de acasalamento, de disputas das fêmeas disponíveis e machos brigando entre si. Também os humanos se rendem ao amor, e não raro cruzamos com jovens tão apaixonados, que não conseguem ver o que se passa em volta. Se perdem em abraços intermináveis e longos beijos, como se estivessem sorvendo o soro da vida. Esquecem-se de deveres, da família, de se alimentar direito, dos amigos, porque a vida se resume só naquela cara metade, que tem o poder de transformar o seu mundo num paraíso, só com um sorriso.
         Mistérios insondáveis do Amor.

       De setembro a dezembro curtimos um tempo agradável, nem muito quente, nem muito frio, com o sol aquecendo o solo e provocando o desabrochar de flores em todos os cantos. As borboletas coloridas não param de voar, executando um bailado sem fim sobre as ramagens floridas. Os arapuás ficam enlouquecidos com a fartura do mel.     Sobre os muros debruçam-se pendões de primaveras, num despropósito de beleza em cores. As acácias soltam os cachos de ouro como se fossem arandelas perfumadas, enfeitando ruas e jardins graciosamente. O mundo todo se veste de cores, cores quentes que atraem as abelhas, os beija-flores e as formigas sugadoras de mel.
         E quando vem a chuva mansa, o ar fica translúcido e se enche de perfume, mas não enfastia ninguém, porque a natureza é sábia e os perfumes são sempre suaves. As folhas perdem a opacidade provocada pela poeira, que se dissolve na chuva. As árvores ficam brilhantes, como se exibissem um traje de gala.
     Nessa época é impossível percorrer uns dez minutos sem topar com uma flor. Flor azul, rosa, vermelha, branca, amarela... Enfim flores de todas as cores do arco-íris. E a cada descoberta é um encantamento. Pelas cores, pelos perfumes, pelas delicadezas que elas exibem ao ar, sem nenhum pudor. Elas enfeitam o mundo de forma deslumbrante, de tal forma que é impossível deixar de pensar no Criador. Deus criou toda essa beleza.
        Toda vez que penso em criatura e Criador, lembro-me de uma história contada nas aulas de Catecismo. “Jesus Menino brincava com outras crianças. E brincavam com barro, moldando objetos. Então, Jesus fez uma borboleta de barro. Aí um garotinho disse: Também sei fazer isso! E fez uma borboleta igualzinha. Mas, Jesus soprou na sua obra e ela criou vida e saiu voando. E o menino soprou em vão na sua borboleta, e viu que havia algo misterioso aí.”    
         E assim é com todas as coisas criadas. O homem aperfeiçoa tudo e chega aos limites inimagináveis da criação, mas não consegue passar o sopro da vida. Faz robôs que substituem o homem em diversas tarefas, mas não consegue dar-lhes vida.
         Hoje, o interior das casas, das lojas e até o s cemitérios e igrejas estão enfeitados com vasos de flores lindíssimas, mas são todas artificiais. Não têm vida própria. Não germinaram, não nasceram, não cresceram, não se alimentaram de adubos e água e não passaram pela fotossíntese. São lindas, mas sem vida. Sem a essência do existir.
         Então, ao curtirmos esse tempo tão agradável de Primavera, vamos apreciar as flores, que são umas das mais perfeitas criações de Deus. E cultivá-las, se possível.
        
         Mirandópolis, setembro de 2013.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com


         

terça-feira, 24 de setembro de 2013

E tudo passa



                                               E tudo passa...

     Algumas vezes, passamos por momentos que parecem insuperáveis, que nos deixam sem chão e perdidos. Sem rumo na vida.
         Ninguém está livre disso. Todo mundo tem o seu quinhão. E sabe bem do que estou falando.
     De repente, os caminhos se fecham e a escuridão toma conta de tudo, deixando-nos sem opção. E a única e verdadeira companhia nessas horas é o desespero, a impotência. E só quem está passando por isso é capaz de avaliar a dor que enche a alma, que parece sufocar.
         É um filho querido que partiu, cheio de vida, carregando todos os sonhos dos pais que o criaram tão forte, tão belo para ser um vencedor...
        É um bebê que, tão pequenino nasceu só para pelejar contra as adversidades e o céu o arrebatou...
     É um pai, que acalentava tantos desejos para o futuro dos filhos, e pelejou tanto, que o coração não aguentou...
        A doce mãe, tão valente, tão generosa, que sucumbiu.
       Se, ao nascermos conhecêssemos o plano traçado para cada um de nós, talvez nossas ações tivessem um rumo diferente. Se soubéssemos que o nosso tempo é de apenas tantos anos, talvez fôssemos mais cuidadosos e não deixássemos escoar os minutos em vão.
       Mas, não! A gente tem ânsia de viver e não se preocupa muito com o depois. É o momento presente que importa, é preciso usufruir o máximo, curtir o melhor e viver na plenitude...
       Entretanto, o tempo passa e os problemas surgem. Do nada! Inicialmente, são pequenas dores, aborrecimentos esporádicos, alguns desentendimentos com os familiares, vizinhos e colegas de trabalho. Mas, como é preciso viver cada dia, a gente vai deixando tudo isso para resolver depois, para mais tarde repensar. Enquanto isso, a vida dá tantas voltas e um dia, aquele probleminha volta já transformado em doença incurável, em relação deteriorada para sempre, em inimizade total. E aí, é tarde demais.
      E nessa hora de desespero, de tristeza máxima a gente pensa que poderia ter sido diferente, se tivesse parado e analisado os pequenos sinais denunciadores... É tarde demais, porém.
      Sei de gente que está com problemas sérios de saúde, mas não sei por que razão, não procura ajuda de especialistas. Prioriza o trabalho, o bem estar dos filhos, a aquisição de um carro novo, a reforma da casa, a tranquilidade do esposo e vai levando. Capengando, sofrendo, carregando dores e dizendo a si mesma que, um dia vai procurar ajuda. Quando esse dia chegar será tarde demais. E aí, o bem estar dos filhos vai acabar de vez, não haverá dinheiro para resolver o problema e, seu marido deixará de estar tranquilo para ficar desesperado. Talvez, para sempre...
      A gente não sabe viver. Não sabe planejar. Não sabe priorizar o que  de fato é importante. Porque viver é um duro combate, que todos os dias exige decisões acertadas.
     E quando se nos deparam momentos cruéis, que parecem o fim do mundo, o medo do futuro toma-nos de assalto e nos deixa perdidos um bocado de tempo. Não há perspectiva de porvir. É um túnel sem luz, sem saída. Nessa hora nada nos consola.
       Qual um tornado que arrasa tudo que acha pela frente, esses duros momentos também vão destruindo a nossa fé, a esperança, o desejo de vencer... Tudo que, a gente construiu em termos de essência humana, parece perdido para sempre.   
    O tempo, porém passa e acomoda tudo. Assim como o que foi destruído é reconstruído, o homem vai se recompondo devagarzinho, colocando um remendo aqui, aplicando uma atadura ali, engolindo a saudade, a dor da ausência e retoma a vida. É verdade que nada será como antes. A dor será a companheira inseparável de todas as horas. E a consciência da transitoriedade das coisas estará sempre presente.
      Não tem como fugir desse destino cruel, porque o homem é apenas humano. Mesmo tendo herdado de Deus o espírito, ele age como uma formiguinha frágil, carente de sabedoria e pronta para errar, errar e aprender. E muitas vezes, errar de novo sem aprender nada.
      Se visitarmos as campas onde repousam as almas queridas, veremos tanta gente formosa, poderosa e sábia que teve o mesmo fim. E todas elas também amargaram um bocado seus problemas e suas dores, antes de cumprirem o ato final de partir.
       O sofrimento parece ser o quinhão de juros que, Deus reservou para todos que foram abençoados pela ventura de nascer. Não há como fugir dele. E ninguém está isento dele. Cedo ou tarde, a dor vem e demora para ir embora.
       Mas, tudo passa. Assim, como a alegria rara de momentos compartilhados com amigos acaba passando, os momentos mais dolorosos também passam. Muitas vezes deixam-nos tão devastados, sem força para retomar a vida. Sem vontade até de viver.
        Mas, o sol volta a brilhar, a luz obriga a enxergar em volta, os amigos dão um abraço aqui, um sorriso ali, uma palavra amiga de fortaleza e pouco a pouco, a dor vai diminuindo. A dor não vai embora, fica meio camuflada, e volta a latejar quando se está sozinho e as lembranças buscam o passado. E nesse sofrimento de repassar pelas dores antigas, parece haver um consolo porque não deixa esquecer. Quem tem saudades é porque já viveu bons momentos, que não quer esquecer.
         A vida é dura?
         Sim! Já dizia o poeta Gonçalves Dias na Canção do Tamoio:

         “A vida é combate,
         que aos fracos abate,
         que aos fortes, aos bravos
         Só pode exaltar.”

      Então, vamos viver com coragem, enfrentando as dores de cada dia, sem reclamar, porque todos têm a sua parcela, é o ônus de ter nascido. E não existe ventura maior que viver.
         E assim, como a chuva mansa, como a tempestade arrasadora, como o manso regato, tudo passa. Passam os momentos felizes, as alegrias inesperadas, os intermináveis aborrecimentos, os choros, os gritos, as manifestações de felicidade.
         Tudo passa, essa é a inexorável verdade.
         E nós passaremos também.
         Então, viver é preciso!
         Carpe diem!

         Mirandópolis, setembro de 2013.
         Kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/





segunda-feira, 23 de setembro de 2013


    Uma tarde de alegria...

     Na última sexta-feira, dia vinte aconteceu mais um Encontro de Cirandeiros. Foi no lugar de sempre, a partir das catorze horas.
         Fui chateada para lá, pensando na ausência de Mílton e Remir,  que se mudaram para Campo Grande, deixando-nos sem a sua preciosa e inestimável companhia. Mas, lembrei que o Mílton me dissera na despedida: “Enquanto houver três amigos é possível fazer a Ciranda”
         Quando fundamos o grupo, os colaboradores eram: Seu Mário Varela, dona Mary Magro, Ana Maria Abranches Jacomelli, Egídio Vicente de Souza, Ikuko Kazi, Mílton Lima e eu.
         Desse grupo inicial, perdemos o seu Egídio para o céu, o seu Varela deixou de participar, Ana Maria foi embora de mudança para Ribeirão Preto, Ikuko Kazi está ausente. Sobraram dona Mary, Mílton e eu. Daí a razão de, o Mílton ter se tornado uma peça importante para o grupo. Ele foi o fiel da balança nas horas difíceis. Sempre prestativo e gentil com os idosos, nunca se eximiu de buscar e levar de volta os cirandeiros sem condutores. Aprendi muito com ele, por causa do seu equilíbrio, e capacidade de analisar situações com ponderação. E também pela atenção e gentileza com que cuidava dos cirandeiros. Deixou saudades...  Mas, as exigências da vida cortam as linhas paralelas, e não há como evitar essas separações. Que nos deixam desamparados...
       É verdade que outros colaboradores chegaram como a Flora Forte, o Gabriel Tarcizzo Carbello, o José Maria da Carvalho e o João Torrente, que felizmente continuam empenhados para o sucesso da Ciranda. Continuar é preciso.
         A tarde estava luminosa, com temperatura agradável e os cirandeiros foram chegando com a alegria de sempre. Alegria de compartilhar umas horas com outros cirandeiros.
         A surpresa do dia foi a presença da dona Iracy Caldatto, que chegou sorrindo ao ver tanta gente conhecida.  A dona Vina trouxe o seu filho Renato Ramires, que se esbaldou de felicidade ao reencontrar velhos amigos.
         As conversas pareciam não ter fim. Então, o Renato relembrou fatos engraçados ocorridos décadas atrás, com pessoas que marcaram época com suas bravatas. Assim, foram relembradas as façanhas do Tião preto e do Dão, ambos do Hospital Geral, que viveram como dois meninos levados da breca, aprontando artes com todos. A lembrança dos dois foi muito boa. A dona Nair declamou um poema cômico intitulado O guarda-chuva e, o seu Orlandinho declamou dois poemas que emocionaram os presentes.
         Aí foi a hora da cantoria. Entre umas e outras, a Vina e o Renato cantaram Barracão de zinco, encantando a todos com a voz poderosa do Renato e a afinação de sua mãe.
         No final, a Kimie consultou o grupo sobre a comemoração dos três anos da Ciranda, que ocorrerá em outubro. Ficou estabelecido que faremos um almoço na Chácara mesmo, em data a combinar.         
       E assim, aconteceu mais uma tarde de Ciranda, proporcionando alegria a todos e fortalecendo os ânimos das pessoas sós.
         Mês que vem tem mais!

         Mirandoóplis, setembro de 2013.
         Kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com

quinta-feira, 19 de setembro de 2013



                                Só para matar saudades...
       A publicação do meu antigo texto Reflexões provocou uma onda de saudade. Amigas que participaram daquele time da AABB me ligaram e me disseram que havia um outro texto sobre o mesmo assunto.
         Procurei nos meus recortes e achei. E concluí que vale a pena deixar registrado no meu blog todas essas lembranças, que fizeram parte de minha vida e de muitas amigas.
         A Regina, uma das basqueteiras, que é mais nova do que eu, disse que o nosso time durou dez anos. Dez anos! Então foi de 1979 a 1989. É que a partir desse ano, passei a trabalhar fora e a equipe se desmembrou. Que pena! Poderia ter continuado, e o time talvez existisse até hoje, se a continuidade fosse garantida com adesão de gente mais nova.
         Mas, não importa! Valeu enquanto durou.
         Vou reproduzir o outro texto, que foi publicado em 18 de abril de 1985, dois anos depois do anterior.

                           Reflexões II
                                         Kimie
      O ser humano é gregário por natureza. Tudo que faz só tem sentido se compartilhado pelo grupo que o cerca.
       É por isso que o homem não consegue viver só – na rotina do dia a dia, na luta contra as dificuldades da vida e nos momentos de alegria, o homem sempre procura alguém para repartir suas emoções.
         Essa busca espontânea de alguém é que forma os diversos grupos sociais.
         Assim também é com o lazer.
         Assim também aconteceu conosco...
     Há exatamente seis anos, iniciamos o nosso basquete feminino da AABB de Mirandópolis. Tão desajeitadas éramos então – dez atletas cuja faixa etária ia dos 25 aos 37 anos. Nem sabíamos bater bola na quadra, quanto mais encestar! Mas o desejo de lazer, de união era tão forte, que a persistência nos trouxe até aqui.
      Houve muita briga é verdade, muito de “nunca mais volto nesta droga!”... Mas voltava. Religiosamente às segundas, às quartas e às sextas-feiras.
      Foi assim que marcaram presença entre nós... Messy a fundadora, Carmen, Zena, Dora, Neuza, Florinda, Ceição, Alessandra, Dirce, Mariazinha, Nilza, Dalva, Eliana, Alice, Sueli, Kalu, Denise... Todas devem se lembrar que, por falta de grana jogávamos com bolas rombudas, que quicavam para o lado errado, bolas carecas que escorregavam das mãos, bolas cheias de esparadrapos para segurar o ar que teimava em sair... Com bolas desbeiçadas que não rolavam no chão e se enroscavam na rede.        Parávamos a cada três minutos para retirar os nossos bebês da quadra, aos gritos de “Me dá um tempo para tirar o Jenner da quadra!” “Cuidado com o meu Leandro!” “Menina, chame o papai para cuidar da Andressa!” “Olhe o Ricardinho!” “Nenê, vá tomar um sorvete no bar!”
       E a criançada aproveitava...
     Hoje temos um time mais maduro. Renildes é a brava capitã. Eloísa, a professora. Regina, a cômica sem igual. Nair e Neide, as garotas finas que salvam a educação do time. Célia é, sem dúvida a Hortência do time. Terezinha, o melhor rebote. Eliane a trombuda cestinha. Beth é a “maria bronquinha”. Lika e Adriana, “os foguetinhos que voam” e fazem misérias... Estela é a juventude, a garra. Margarete, a super inteligente Paula, sempre preocupada com a participação de todas. E Kimie sou eu, que não joga nada mas se diverte à beça!  Ah! Sou a “public relation” do time. Porque sou muito grata a esse grupo pelos momentos de alegria que proporciona.
      O basquete entrou em minha vida e me ensinou muitas coisas. Aprendi a respeitar as diferenças individuais de cada ser humano. A enxergar o lado positivo de cada um. A amar as pessoas.
     E não há nada mais positivo e gratificante que, correr numa quadra, disputando uma bola. Lutando, gritando, brigando e xingando... Fazendo as pazes... Para depois tomar uma geladinha...
       E viva o nosso Basquete!


                                      Folha da Região (Araçatuba) 18/04/85