quinta-feira, 10 de junho de 2021

 

                                     Alienígenas

     Ultimamente, o tema Alienígenas que visitaram ou ainda visitam a Terra está em alta. Há uma infinidade de programas que abordam esse assunto, com a seriedade própria de renomados cientistas. Mesmo os céticos extremos, ficam com uma imensa interrogação na mente após assistir a esses depoimentos.

     Sempre me perguntei quem seriam os construtores de Machu Picchu, de Stonehenge, dos moais da Ilha de Páscoa, das Pirâmides do Egito. Porque o homem comum seria incapaz de tais proezas, mais ainda sem nenhuma tecnologia. Foi numa época que a roda não havia sido inventada... Como transportaram toneladas de pedras montanha acima?  Como enfileiraram os moais, uns ao lado de outros? Como encimaram as pesadas traves de pedras sobre os pilares de Stonehenge? Como colocaram pedra sobre pedra nas pirâmides? E a precisão das construções sem o material de medição própria? É de dar nó na cabeça de gente como eu, cuja inteligência é bem limitada...

     E os adeptos da teoria de Antigos Astronautas são incansáveis em procurar provas, que atestam a presença de alienígenas de inteligência e capacidade superiores, que visitaram a Terra. E ensinaram técnicas inusitadas aos egípcios, aos maias, aos incas, aos indianos, aos chineses... Porque alguém deve ter ensinado... Mas... por quê não houve continuidade? Por quê esses conhecimentos nunca mais foram aplicados? Por quê não há comprovantes dessas técnicas utilizadas, como máquinas, rodas, ferramentas, carretas, e anotações em algum lugar?

     Por quê, a humanidade precisou passar pela  civilização moderna, para descobrir esses métodos utilizados há centenas ou milhares de anos? A nossa tecnologia é coisa recente, e mesmo as poderosas máquinas de hoje são incapazes ainda de realizar obras como as pirâmides, os moais, as linhas de Nazca.

     Sim, aconteceu algo muito extraordinário há milhares de anos. Se não foram os alienígenas que trouxeram essas técnicas, quem foram os autores dessas obras monumentais?  Ninguém tem a resposta. Os incrédulos não aceitam a teoria dos Antigos Astronautas, mas não conseguem apresentar uma alternativa  convincente e definitiva.

É que de repente, acreditar nessa teoria seria anular tudo que ouvimos sobre Deus, Virgem Maria e Jesus Cristo. E a Religião é ainda uma coisa sagrada par nós humanos.

Entretanto, há muita coisa inexplicável sobre o mundo antigo, que se mistura com anjos que vieram do céu, com suas carruagens de fogo... Mesmo os três Reis Magos foram guiados por uma estrela brilhante que ia à frente, indicando o caminho para Belém... Estrela, cometa, ou uma nave espacial? E a ressurreição de Cristo que voltou para o céu? Será que foi ressurreição mesmo, ou um retorno a outro planeta?

Estranho é que todas as culturas antigas se referem a deuses que desceram dos céus, e trouxeram o Conhecimento para facilitar a vida de todos.

Se você assistir à Série Alienígenas do Passado, dificilmente deixará de ficar confuso. Mesmo que você tenha Fé em Deus e na Paixão de Jesus Cristo, ficará com uma grande interrogação na mente. E o programa está bem alicerçado em cientistas famosos do mundo todo. Eles não estão tentando acabar com a religião, estão tentando procurar respostas para as grandes indagações do homem que pensa.  Religiosos/Pesquisadores também participam da Série, porque mesmo eles têm muitas dúvidas.

Então, você crê em alienígenas visitando a Terra?

Eu creio!

Mirandópolis, junho de 2021.

kimie oku in

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segunda-feira, 7 de junho de 2021



                                               Amigos que se vão...

     Estamos todos cansados de perder tantas pessoas queridas. Todos os dias, alguém está partindo e nos deixando desolados, sem chão...

     Esse vírus terrível já roubou a vida de tanta gente amada daqui e do mundo inteiro. Mas, a dor maior é sempre quando a pessoa é próxima da gente.

Eu como sou muito terrena e egoísta, suspiro aliviada quando não conheço a pessoa que morreu. Porque é muita pancada no peito... Imaginar que nunca mais verei aquela pessoa querida, que nunca mais falarei com ela, que nunca mais ouvirei sua voz...

É brutal demais!

A morte é um grande mistério. Ninguém sabe o que ela significa. Mas todos têm uma certeza. A morte é definitiva. Um dia, você está aqui falando, brigando, comprando, vendendo, pregando, chorando, dançando, cantando, trabalhando, vadiando... E no outro dia, você já era.

E a tristeza maior é que as pessoas lamentam sua morte por um dia, uma semana, um mês e depois... esquecem. A vida continua, os amigos e até os familiares cuidam de suas obrigações, e nesse vaivém a lembrança se apaga. No final, você é apenas um nome que alguns lembram. Por mais importante que tenha sido, por mais amado que tenha sido, por mais generoso que tenha sido, você será esquecido. Essa é a dura verdade dos humanos.

E que importância tem ser lembrado? Você nunca mais poderá voltar àquela loja onde atendia a todos com presteza e distinção. Você nunca mais poderá curtir os amigos numa roda de cerveja. Você nunca mais poderá reclamar das rasteiras da vida. Você nunca mais poderá dizer aos filhos que tem muito orgulho deles... As lembranças só têm mão única, não têm volta.

Partiu? Acabou! Simples assim!

Bete, Mafalda, Akemi, Pacotinho (Marcelo Vendrame), Fauez, seu Ahmad, Hata, Estela, Kiko Vilas Boas, Seu Nelson Veronese, Frazilli... Todos já cumpriram sua missão. E nos deixaram desolados quando partiram para sempre. E nem adianta lamentar, porque não tem solução...

Então, o que fazer? O que pensar?

A única saída é viver bem, porque a vida é uma bênção.

Viver, usufruindo da companhia de cada membro da família, da amizade das pessoas que nos querem bem, sendo gentil com todos que nos cercam, para não ter arrependimentos depois...

Li em algum lugar “Viva de tal modo que aos morreres, todos chorem e não sorriam como quando nascestes”

Não gosto desse ditado! Muita dor embutida, e a vida já é repleta de dores... Quero viver em paz, estendendo a mão para os que me rodeiam e morrer em paz por ter realizado a missão. Quero que a minha partida desperte sorrisos e só lembranças boas. Que todos riam de fato!

Quisera que os enterros fossem como em algumas aldeias do mundo, onde a morte não é lamentada. No funeral é celebrada a vida daquele ser que cumpriu a missão. Celebrada com bumbos, flautas e sinos enquanto o cortejo leva o morto para sua morada final. Quer glória maior que isso?

Mirandópolis, junho de 2021.                                            

kimie oki in

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sábado, 5 de junho de 2021

 

                    Eu e a água


    Taí, uma relação que me acompanha desde que nasci.

   Quando temos uma relação constante, nunca reparamos nas vantagens que usufruímos.

     Um dia desses percebi que, me é impossível ficar sem água, mesmo por um dia. Desde a hora que abro os olhos e vou ao banheiro, uso água. E nunca reparo que ela está lá à minha disposição, faça sol ou faça chuva, ou esteja claro, ou esteja escuro... Está lá na torneira, no vaso sanitário, no chuveiro...

Não foi sempre assim. Quando criança e até a adolescência, tinha que tirar a água do poço lá no sítio. Como era isso? Tinha um buraco, onde minava água fresca e saborosa. Felizmente o poço não era muito fundo. Uns cinco metros de profundidade. Sobre o poço, havia uma armação de cimento e por cima uma trava de madeira ligada a um sarilho que a gente rodava para descer um balde amarrado a uma corda. O balde chegava ao fundo, se enchia de água e então, o sarilho pesado era rodado para trazer o precioso líquido para cima. Lembro ainda que havia um tampo de madeira para tampar a boca. Para evitar que caísse sujeira. O poço era sagrado.

Nem tenho ideia de quantas centenas de vezes rodei esse sarilho. Era água para a cozinha de casa, para os potes e filtros, para a lavagem de roupa, para os banhos. Para os porcos, para as galinhas, para o gado... E o poço nunca negou! Mesmo em épocas de longa estiagem, aquele poço foi generoso, sempre nos forneceu água boa e saudável. Como nem havia geladeira na época, era um prazer imenso tirar um balde de água do poço nas tardes quentes, para matar a sede. E como custava muito esforço para “puxar água do poço”, sempre a usávamos com parcimônia, sem desperdiçá-la. Todas as casas da vizinhança tinham seus poços.

Eu me lembro, quando voltávamos da Escola, passávamos na casa de uns vizinhos e bebíamos água tirada do poço na hora... Estávamos cansados da caminhada de quatro quilômetros, suados e sedentos. E a água era uma bênção.

Mais tarde, já adulta tive contato com a água encanada. Nossa! Que maravilha! Que facilidade! Era só torcer a trava da torneira e a água jorrava sem parar. Nada de poço, nada de baldes em cordas, nada de sarilho... Quem será que teve a ideia de encanar a água?  Por outro lado, a facilidade levou ao desperdício. As gerações novas não sabem o que é um poço, o que é ter que puxar água do poço para cozinhar, lavar, tomar banho... Então, usam e abusam da água, como se fosse um bem inesgotável. Um dia, ela pode chegar ao fim. E a vida também.

Também minha relação com a água tem sido tão ignorada por mim mesma. Até hoje. Hoje percebi que minha dívida com a água é impagável. Tenho setenta e nove anos de idade, e ao longo desse tempo todo, bebi milhares de litros de água, tomei milhares e milhares de banho, lavei roupa também milhares de vezes, e toda a sujeira que produzi, a água levou embora. Além disso, minhas plantas foram regadas todo esse tempo. Como posso retribuir essa graça, essa bênção?

Nunca poderei! Porque estou viva pela água. Sem ela, eu já era. Mas, procuro não desperdiçá-la. Uso a água do enxágue de roupa da máquina para lavar o chão, o quintal e as varandas.  Uma amiga me perguntou porque não lavo a calçada, quando lhe disse que deixava por conta de São Pedro, ela me perguntou se a minha conta de água era assim tão alta!!!!

E por falar em água, cadê a chuva?

Mirandópolis, junho de 2021

kimie oku in

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domingo, 23 de maio de 2021

 

            Provérbios

     “Sangue é mais denso que água”

Vertido para o japonês é: 血は水より濃い

É um dito popular mais profundo do que uma simples comparação. A referência é a família. Significa que os laços de sangue são mais fortes ao se comparar os membros de uma sociedade. É porque a família é a célula inicial do indivíduo ao nascer, e tem uma ligação profunda com ela. Mesmo entre os demais seres podemos notar a ligação que existe entre pais e filhos. Entre cães, entre gatos, entre galinhas... A mãe e o pai defendem a prole.

Nos seres humanos, percebem-se claramente os laços de afetividade que se desenvolvem ao longo do tempo. Mesmo os avós idosos e muitas vezes já sem boa memória, são amados pelos netos. É o sangue, essa torrente que passa de geração a geração que estabelece essa ligação.

Até os tempos atuais, as famílias têm mantido esse padrão. Os pais socorrem os filhos, e estes a eles nas horas de dificuldades. E isso é mais que justo porque os filhos foram cuidados ao nascerem até se tornarem adultos. E no limiar da vida, quando os pais já estão alquebrados com o peso dos anos, os filhos retribuem os cuidados recebidos, para que tenham um final digno. Bem, existem exceções lamentáveis nos dias de hoje...

Mas, pela lógica em geral as famílias priorizam seus membros numa situação de emergência. Porque o DNA fala mais alto. Não tem como negar. A família é o apoio, a segurança e a reserva com que se pode contar em momentos críticos.

“Estranho que mora perto que um parente distante”

Vertido para o japonês:       遠い親戚より他人

Família é fundamental, mas quando ela mora longe, os vizinhos é que servem de apoio. Normalmente, nos momentos críticos, os vizinhos é que socorrem uns e outros. Daí, esse ditado: Estranho que mora perto do que um parente distante. Vizinhos sabem mais dos problemas que os afligem, do que seus parentes distantes. Mesmo com o avanço dos meios de comunicação, muita coisa não é comunicada aos pais, aos filhos e outros parentes que moram longe. Mas, aos vizinhos, sim.

Então, um vizinho que não tem laço de sangue, que está ali ao alcance de um grito é que presta o socorro necessário em situações de emergência.

Concluindo: O sangue é mais denso que a água, mas um estranho próximo é mais útil que um parente distante. Então, procuremos viver em harmonia com os vizinhos. Porque viver não é fácil. Todos os dias, um desafio.

     E a gente leva melhor a vida quando aprendemos a respeitar a todos. Parentes ou não.

Porque consanguinidade fala alto, mas amizade é fundamental.

Mirandópolis, maio de 2021.

kimie oku in

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quinta-feira, 6 de maio de 2021

 

            YOSHITSUNE  

Quando bebê, sua mãe caminhou na dura nevasca durante horas e horas em busca de ajuda. Ele no colo da mãe, e mais dois meninos, que choravam de frio, fome e canseira... Caminhando aos trambolhões na neve sem fim. Ela buscava ajuda de uma parenta distante no interior. Seu esposo Minamoto Yoshitomo, Capitão do Clã Fujiwara fora derrotado e executado pelas forças de Kiyomori Taira. Eram os idos de 1100, há mais de novecentos anos.

Esse bebê era Ushiwaka Maru, que mais tarde seria conhecido como Minamoto Yoshitsune. É a mais dolorosa e comovente história de samurai que li.

Mas, toda a caminhada fora em vão. Ninguém podia socorrer a esposa e os filhos de Minamoto Yoshitomo, pois  espiões inimigos estavam rondando o Vilarejo. Desesperada, a mãe Tokiwa resolveu voltar para a capital Kiyoto, quando soube que sua mãe estava refém dos Taira...

Movida pela coragem foi falar com o poderoso  Kiyomori, chefe supremo do Clã inimigo.  E disse que daria a sua vida para salvar a mãe e os filhos...

Kiyomori ficou impressionado com a elegância natural e a beleza de Tokiwa, e pela semelhança com sua falecida mãe. Nesses tempos de guerra, o regulamento mandava executar toda a família e os descendentes dos inimigos, para evitar problemas futuros. Mas, Kiyomori não fez isso. Mandou os meninos maiores estudar num Mosteiro, para serem Monges e não guerreiros. Os filhos adultos de Kiyomori pediam para o pai executá-los. Mas, ele conservou o pequeno Ushiwaka e a mãe junto de si, transformando-a numa concubina... Além desses três meninos, Yoritomo um meio irmão de Ushiwaka também fora desterrado por Kiyomori para a Província de Izu.

E Ushiwaka Maru cresceu com outras crianças do Castelo, recebendo um carinho especial de Kiyomori. Em sua inocência, julgava que ele era seu pai... Quando completou sete anos de idade foi mandado para o Mosteiro  de Kurama para também ser um Monge. Lá, com ajuda de um preceptor, dedicou-se ao estudo das Escrituras Sagradas. Um dia, apareceu no Mosteiro, um Monge que estivera a serviço da Família Fujiwara e falou ao jovem agora com dezesseis anos sobre a sua origem. Falou também do meio irmão Minamoto Yoritomo que estava vivo em Izu.

Quando o garoto soube de sua origem, passou a se exercitar para ficar forte e lutar contra os inimigos. Ao anoitecer, ele se embrenhava na mata escura e ficava horas e horas praticando exercícios para se desenvolver. Usando paus como espadas praticava toscamente a esgrima.

Mas, a curiosidade não o deixava sossegado. Procurou amigos para saber sobre a família de seu pai. Aos poucos se inteirou de toda a história. E ficou bastante confuso ao descobrir que o senhor Kiyomori, que ele tanto admirava tinha mandado executar seu pai e demais membros da família.

Uma noite, saiu do Mosteiro e tocando a flauta que ganhara de sua mãe, estava passando na ponte Gojou em Kiyoto. De repente, se deparou com um homem gigante com uma longa espada. O estranho ordenou que o jovem lhe entregasse a espada que carregava na cintura. Ele recusou. Então, o outro declarou que estava na ponte, tomando as espadas de todos que por lá passassem. Já havia recolhido centenas e a de Ushiwaka seria a milésima... Como este não concordou, o homem avançou sobre ele com sua naginata (espada longa) para cortá-lo. Mas, Ushiwaka saltou sobre o beiral da ponte, deixando o outro atordoado. E de pirueta em pirueta conseguiu escapar da terrível espada... O gigante ficou impressionado com o jovem, porque ninguém até então o havia vencido. E a partir desse dia, Musashi Benkei que era o seu nome, passou a seguir Ushiwaka até o Mosteiro, oferecendo os seus préstimos. Insistiu tanto que foi aceito, e se tornaria o seu guardião e parceiro até a morte.

Um dia, apareceu no Mosteiro um ambulante que convidou o jovem a ir a Hiraizumi em Iwate ken encontrar-se com seu parente Fujiwara Hidehira. Foi uma longa jornada, porque naquele tempo não havia outro meio de locomoção que andar a pé. Benkei o acompanhou, assim como três amigos que levavam uma vida de privações na capital.

Hidehira gostou de Ushiwaka, que havia proclamado a  maioridade, adotando o nome de Minamoto Yoshitsune Kuro. Durante cinco anos, Yoshitsune ficou com os parentes se preparando para as batalhas, que viriam para derrotar a família Taira. E um dia, foi se encontrar com o irmão Yoritomo, em Kamakura perto de Tóquio. Este que também fora desterrado por Kiyomori, era de natureza desconfiada, e recebeu o meio irmão Yoshitsune com certa ressalva. Yoshitsune, porém feliz de conhecer um irmão, ofereceu seus préstimos para unir forças e vingar a morte de seu pai.

Kiyomori herdara o poder de seu pai, que havia derrotado o grupo de piratas e corsários que aterrorizava os navios do Mar de Seto. E toda a família era bem considerada pela Casa Imperial. Utilizando a sua influência, conseguiu que uma de suas filhas se tornasse a esposa do Príncipe herdeiro. Quando nasceu um neto, Kiyomori percebeu com orgulho que era o avô do futuro Imperador... Com esse poder, Kiyomori passou a nomear seus familiares para os cargos mais importantes do governo, em detrimento de outros mais capazes. A família Taira ficara tão poderosa até um de seus membros declarar que “se não for um Taira não é gente!”

Mas, poder demais corrompe, e aos poucos a violência, os abusos e a injustiça praticados pelos Taira revoltaram a população, que aqui e ali provocavam escaramuças... Impostos elevadíssimos que a família cobrava levaram a população a passar necessidades, a ponto do Imperador pedir ajuda a Yoritomo de Kamakura.

Entrementes Yoshinaka de Kiso, primo de Yoritomo se antecipou e chegou à capital, expulsando a família de Kiyomori, que levando o neto herdeiro do trono se refugiou em Fukuhara, Kobe. Yoshinaka foi tratado com deferência pelo Imperador Go Shrakawa que o nomeou Guardião do Palácio. Mas, Yoshinaka e seus soldados também começaram a cometer atrocidades contra a população. E Go Shirakawa recorreu novamente a Yoritomo para salvar a capital Kiyoto.

Yoritomo organizou um exército e ordenou ao seu irmão Noriyori e a Yoshitsune para pacificar a capital, no que foram bem sucedidos. Go Shirakawa ficou encantado com a atuação de Yoshitsune e o nomeou Protetor da Capital. Isso irritou Yoritomo, que a partir daí passou a odiar o irmão.

Mas, Yoshitsune devia combater os Taira, conforme o trato inicial com Yoritomo. A mais famosa batalha ocorreu em Ichino Tani. As forças de Taira estavam acampadas em Fukuhara, diante do mar aberto. Atrás estavam protegidas com uma montanha que terminava num penhasco quase vertical. Todos estavam tranquilos, pois Yoshitsune não dispunha de uma esquadra para atacar pelo mar. E pela montanha era inimaginável. Indagando aqui e ali, Yoshitsune soube que as cabras da montanha conseguiam descer por ali. Então, fez um cavalo seguir morro abaixo. Vendo que era possível, resolveu atacar por aí. Muitos cavalos despencaram e seus donos morreram juntos. Mas grande parte da tropa desceu incólume e partiu para o ataque. Os soldados de Kiyomori estavam dormindo e foram pegos de surpresa. Apavorados, os homens fugiram para o mar para o abrigo dos navios ali atracados... Foi uma vitória e tanto de Yoshitsune.

As forças de Taira fugiram para Kiyushu, e Yoshitsune voltou para a capital, para reforçar o exército. O Imperador ficou muito satisfeito e pediu que Yoshitsune ficasse na capital para garantir a paz. Mas, ele saiu em perseguição aos Taira que estavam em Kiyushu. Entretanto, Yoritomo ficava cada vez mais incomodado com o sucesso do irmão. Via nele um rival e nunca um parente próximo. Yoshitsune, porém era sincero e queria uma relação amistosa com o irmão. Tinha um natural carisma de atrair amigos e parceiros pela hombridade e coragem. Estava inocente da inveja e do rancor de Yoritomo.

Um monge foi enviado para emboscar e matar Yoshitsune... Benkei o apanhou e entregou para o amo. Yoshitsune, porém acreditou na inocência dele e o deixou ir. Isso só não terminou em tragédia porque Shizuka a esposa de Yoshitsune mandou segui-lo. E descobriu a armação. Benkei o executou a mando de Yoshitsune. Isso enfureceu Yoritomo, que mandou um exército caçar o irmão...

Entrementes, Yoshitsune estava no encalço dos Taira que se refugiaram em Kiyushu. Yoshitsune estudou o horário exato das marés, porque o combate seria nas ilhas, e ele não dispunha de muitos navios. Os Taira possuíam uma frota imensa. E o combate se deu à beira mar... Quando os inimigos resolveram atacar o exército de Yoshitsune, a maré os afastou mais e mais, não possibilitando o ataque e Yoshitsune conseguiu vencê-los com seu pequeno exército... E ali aconteceu um fato curioso que ficou para a posteridade. Da parte dos Taira, um barco veio se aproximando devagar, ostentando um leque com o sol nascente da Bandeira japonesa. Era uma provocação para Yoshitsune com a meia irmã, filha de Kiyomori segurando o mastro. Qualquer um que se habilitasse a derrubar o leque poderia atingir a jovem... E se algum soldado de Yoshitsune conseguisse derrubar o leque, a vitória estaria confirmada... Foram momentos de grande tensão. E o barco vinha, com a moça corajosa desafiando o próprio irmão... E um jovem arqueiro conseguiu sem titubear, com apenas uma flechada derrubar o leque no mar... Foi tão preciso, sem ferir a portadora que todos aplaudiram, até os homens de Taíra. Então, as mulheres da família de Taíra se jogaram ao mar, para não caírem nas mãos inimigas. E levaram junto o pequeno Príncipe herdeiro. Assim foi o lastimável fim dos poderosos Taira ou Heishi...

Mesmo com tudo isso, Yoritomo não reconheceu a bravura de Yoshitsune e a perseguição se tornou mais acirrada. Cada vez mais as tropas de Yoritomo se aproximavam e Yoshitsune pediu abrigo ao tio Fujiwara Hidehira, de Hiraizumi, onde passara boa parte de sua juventude. Foi bem acolhido assim como a Benkei e os outros amigos mais próximos. Estavam todos se preparando para enfrentar as forças inimigas, quando o tio Hidehira faleceu de repente. Antes de morrer, ele aconselhou os filhos a protegerem Yoshitsune. Seu herdeiro Yasuhira, porém atraiçoou e o denunciou a Kamakura.  Dois irmãos seus que protegiam o primo também foram mortos por Yasuhira... E Yoshitsune se viu de repente, acuado diante de quinhentos soldados de Kamakura. Ele e Benkei só dispunham de uma dezena de parceiros... Sem saída, Yoshitsune praticou o seppuku ou suicídio, para não ter a desonra de ser morto pelos inimigos. E Benkei morreu lutando bravamente, com o corpo varado de flechadas. Foi  bravo e fiel companheiro até o fim...

Os inimigos levaram a cabeça de Yoshitsune para o irmão Yoritomo, que o expôs em praça pública numa estaca... Até os vassalos de Yoritomo choraram ao avistarem essa cena... Só o sanguinário irmão não se comoveu.

Antes de ir para Hiraizumi, Yoshitsune pedira a Shizuka que voltasse para Kiyoto, prometendo que iria ao seu encontro na Primavera que se aproximava. Mas, Shizuka  foi descoberta e levada para Kamakura, onde deu à luz a um filho de Yoshitsune. O cruel Yoritomo mandou matá-lo e jogá-lo num rio... Daí um tempo, Shizuka também morreu sem nunca mais ter encontrado o esposo...

Yoritomo seria venerado por ter se tornado o primeiro Xogun e por ter instalado o Regime Feudal ou Kamakura Bakufu no Japão. Esse Regime tirou o poder de administração da Casa Imperial, de tal forma que Yoritomo se transformara num General Imperador, com todo poder de mando em suas mãos. Politicamente, realizou muitas benfeitorias, templos às dezenas... Mas... Foi cruel demais com o irmão Yoshitsune. E ninguém sabe até hoje o que o moveu para fazer isso.

E os japoneses nunca se conformaram com o triste fim desse jovem guerreiro, que era simples, compassivo e morreu com apenas trinta e um anos. Transformaram-no numa lenda, e todos os livros e filmes com esse tema tratam-no como um herói injustiçado. Não aceitaram sua morte e chegaram a pregar que ele se transformara no famoso guerreiro mongol Gengis Khan, que conquistou toda a Ásia. Para consolar os milhões de fãs...

Eu pessoalmente, confesso que sinto uma comoção profunda quando leio sobre esse jovem, que não conheceu o pai, foi confinado num Convento e quando descobriu com alegria um irmão de sangue, foi por este odiado e executado.

Resta-me agora reler sobre Yoritomo e descobrir algo que explique essa maldição...

Mirandópolis, maio de 2021.

kimie oku in

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sexta-feira, 16 de abril de 2021

 

Vocação      
 

   Quando meus irmãos mais velhos eram crianças aprontaram uma grande arte, na ausência de nossos pais. Papai e mamãe tinham ido pra roça e deixaram o Minoru e o Mário em casa.

Acontece que na pobre casinha onde moravam, só havia duas preciosidades: uma máquina Singer de costura e um velho despertador, movido a corda. Aqueles despertadores antigos faziam muito barulho com seu tic tac, tic tac intermitente.

Ora, os dois moleques de seus seis, sete anos trancados em casa, ficaram olhando o relógio e quiseram ver como ele funcionava. Pegaram a coisa e fuçaram daqui e dali pra verem de onde vinha o barulho... Curiosidade natural de criança.

Quando meus pais voltaram da roça, o despertador já era. Um monte de pecinhas espalhadas no chão, que eles não conseguiram montar de novo. Com certeza, levaram uma surra.

Mas, papai contou essa história dezenas de vezes, porque se orgulhava de ver como os meninos eram espertos e curiosos desde crianças...

Um dia, quando meus filhos ainda eram crianças, fomos ao antigo Play Center que havia em São Paulo. E o Hideo meu irmão foi junto com seus filhos. E toda a criançada se esbaldou na roda gigante, nas enormes xícaras que rodavam com a gente dentro e outros brinquedos. Mas o sobrinho Walter não parecia curtir a diversão. Estava inquieto, olhando aqui e ali como se procurasse algo. E o pai lhe perguntou o que o incomodava. E ele muito sem jeito, disse que só queria saber como essas máquinas funcionavam... Curiosidade de criança.

     Quando o Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira trouxe a Indústria automobilística para o Brasil, lá pelos idos de 1960, papai disse que em breve haveria necessidade de mecânicos para consertar carros. E mandou os meus irmãos deixarem a lavoura para aprender essa profissão.

E foi assim que começou a vida dos graxeiros...

Na família Osaki, há muitos varões entre os nisseis e sanseis, gerações descendentes de papai e mamãe. E grande parte deles gosta de graxa. Graxa mesmo! Essa graxa que suja os macacões e encarde as mãos. Tive quatro irmãos mecânicos, que passaram a vida consertando carros. Quem gosta de graxa, gosta de por a mão na massa e, sente o desafio de fazer a máquina funcionar... Sofri muito para lavar os macacões...

Aquele menino que no Play Center queria saber como as rodas funcionavam virou mecânico e gosta do que faz. Tenho um filho que não mexe com carros, mas é louco por motocicletas... E outros sobrinhos também escolheram as motos para sujar suas mãos.

E tive um sobrinho que passou a vida a consertar motos e mais motos. Sempre diante do desafio de novos modelos, novas velocidades. E como as motos atraem motoqueiros, ficou conhecido como o Hata que conserta motos. Aqui ficou conhecido pela Oficina Motomira, onde serviu a vasta comunidade de motoqueiros da região. Mais tarde em Araçatuba, passou a preparar motos para competições, realizando com certeza um grande sonho. E participava de um grupo imenso de gente que gosta de duas rodas... Foi ele que iniciou o meu filho como graxeiro...

Mas, de repente, ele que vivia acelerado (qual motoqueiro não vive acelerado?) parou no meio do caminho...

Tão de repente...

E foi acelerar no céu...

Todo motoqueiro gosta de viver intensamente. Imagino como essa febre deve atingir quem sabe das engrenagens, e conhece o funcionamento da máquina. Mas, a máquina humana é muito vulnerável. É muito frágil. Muitas vezes, o profissional fica tão envolvido no desafio de consertar as máquinas, que acaba se esquecendo das urgências de sua máquina pessoal... E foi o que aconteceu.

Mas, não podemos lamentar.

Foi breve? Foi muito breve!

Gostaríamos que tivesse continuado a caminhada, porque partiu na flor da idade. Mas, quem sabe dos desígnios de Deus? E quem sabe, ele não sonhava acelerar entre as nuvens???

Ficou na família uma estranha sensação de que ele não terminara a corrida. Porque parou com apenas sessenta anos de idade. Tinha muito que produzir ainda, tinha muito que viver ainda, tinha muito que usufruir da vida. Mas... Um vírus deu o Stop.

E eu olhando as velhas fotos da família achei esta que, já prenunciava o futuro dele. Era pequenino, mas “arteiro” como se dizia na época. Tinha que fuçar nos brinquedos para descobrir como funcionavam... Com uma ferramenta transformou o seu mundo. Transformou sua vida. E a vida de muita gente.

Tal como os meus irmãos que desmancharam o despertador, o Walter que queria saber como os brinquedos do Play Center funcionavam, ele também tinha essa curiosidade natural, que preencheu a sua vida.

Tenho certeza que foi muito feliz fazendo o que gostava.

Que esteja feliz lá no infinito, de onde possa visualizar este vasto mundo e proteger as pessoas que amou.

Sérgio Hikuo Hata, que esteja com Deus.

Mirandópolis, abril de 2021.

kimie oku in

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quarta-feira, 14 de abril de 2021

 

          

 Brimos Turcos

 

Perdemos há pouco o último dos moicanos...

Bem, acho que de verdade era um sírio libanês.

Um vizinho quieto, sério e tranquilo que cuidava de sua vida.

Quem o via andando pelas ruas da cidade, nunca imaginaria

que viera das longínquas terras do Oriente.

Daquele Oriente, onde as guerras nunca chegam ao fim...

Ele, como tantos outros amigos e parentes seus, vieram ao Brasil com certeza em busca de paz.

E aqui construíram suas vidas.

Inicialmente como negociantes, como mascates.

Lá pelos idos de 1940, 1950,1960 se aventuravam pelos sítios e fazendas...

Em lombos de animais e carroças...

Batendo de porta em porta...

Oferecendo tecidos em metros

 para as gentes, que não tinham acesso a esses luxos.

E era uma festa, quando apareciam com aqueles

cortes de tricoline e seda para camisas e vestidos;

de caxemira para calças e paletós masculinos.

Nada de tecido sintético...

Nessa época, as cidades eram pequenas.

E a maioria da população morava

em distantes fazendas...

Então, esses imigrantes árabes assumiram essa tarefa.

De prover as pessoas com o que era necessário

para confeccionar suas vestimentas.

Porque esses moradores rurais nem possuíam

meios de locomoção para virem à cidade.

Essa forma de comércio que devem ter herdado de

seus antepassados das Arábias,

fez a ligação tão necessária entre

o vendedor e o consumidor.

Com a venda ambulante.

O sonho dos "Brimos turcos"

como eram chamados,

era abrir uma lojinha na cidade,

para prover a todos com  mais conforto.

E aqui tivemos famosos "turcos" com suas belas lojas,

que na verdade eram sírios libaneses...

Seu Asman Sheeran,

seu Mohmad Fayes Omar,

seu Mohmad Zogbi,

e seu Ahmad Fayes Omar......

aos quais rendo essa pequena homenagem,

como comerciantes construtores de Mirandópolis.

Do Oriente Médio vieram

para engrandecer o nosso Brasil.

A todos eles a nossa gratidão.

Mirandópolis, abril de 2021.

kimie oku in

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