Hoje ao tentar no modo Público
perdi uma crônica. Não sei onde foi parar, porque sou uma nulidade em
resolver esse tipo de questão. Então, achei por bem reescrever a crônica que a
Luzitania Sangali quer compartilhar.
Era mais ou menos assim:
Em setembro de 1977 em plena ditadura Militar, Lourenço Diaféria escreveu a crônica
"Herói. Morto. Nós " na Folha
de São Paulo que lhe rendeu muitos dissabores e, até prisão por causa de uma
frase: "Prefiro esse Sargento herói ao
Duque de Caxias. O Duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma
estátua na Praça Princesa Isabel. O povo está cansado de espadas e cavalos. O
povo urina nos heróis de pedestal."
Essa frase indignou os
Generais, dentre os quais Geisel era o
Presidente da República. Regime de então era a Ditadura Militar. E Duque de
Caxias foi considerado e ainda hoje é o Patrono do Exército Brasileiro, por sua
atuação como soldado destemido na
Guerra do Paraguai.
Diaféria foi preso e ameaçaram fechar o Jornal.
Entretanto, ele foi condenado a oito meses de prisão, dos quais
cumpriu apenas cinco dias na cadeia e o resto em sursis.
Qual fora o motivo de Diaféria escrever tal frase?
Ele se referiu a um Sargento que pulou num tanque em Brasília, para socorrer um garoto de 14 anos atacado por ariranhas. O garoto foi salvo,
mas o sargento morreu estraçalhado pelas ariranhas.
O que Diaféria escreveu foi muito grave comparado ao que a Débora
fez. Ela escreveu "Perdeu, Mané" na estátua da Justiça, também em
Brasília.
Diaféria foi condenado a oito meses de prisão, dos quais ficou
apenas cinco dias encarcerado, e o resto dos dias só ficou limitado.
Débora pegou 14 anos e mais uma tremenda multa que jamais
conseguirá pagar.
Lá era a declarada Ditadura Militar.
Aqui agora é a tal da tão decantada Democracia.
Mas que raio de Democracia é essa que pune tão duramente uma mãe de
duas crianças, por pixar uma estátua de pedra?
Que Democracia é essa, que castiga
um ser humano em defesa de uma estátua de pedra?
Estátuas são representações que homenageiam gentes e entes mitológicos que povoam o ideário
popular. Mas são de pedra.
Não estão vivos!
Dirão alguns que a estátua representa a Justiça. Mas que Justiça há
em condenar uma jovem mãe a ficar 14 anos longe de suas filhas?
A estátua representa a Justiça.
Representa.
E a Débora representa o quê?
Ela não representa.
A Débora é.
A Debora é um ser vivo, pulsante.
A Débora é de carne e osso.
Ela é filha.
Ela é irmã.
Ela é esposa.
Ela é mãe.
Ela é uma cidadã.
Ela tem endereço.
Ela trabalha.
Ela cuida de sua prole.
Brasileira.
Como todas nós brasileiras.
Pedra vale mais que sangue. O inanimado é intocável. O ser humano vivo nada vale para essa gente
togada.
Amigos, cheguei à triste conclusão que a Ditadura Militar tão
condenada e odiada foi menos severa que os Ditadores togados de hoje.
Triste, muito triste.
Desiludida com a Justiça do Brasil.
Mirandópolis, 24 de março de 2025.
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