sexta-feira, 29 de julho de 2022

 

            Bucha

      Meu irmão mora num sobrado em São Paulo.

E ele gosta de plantas, flores, verduras.

Um dia, caiu em suas mãos uma semente de bucha. Dessa mesma bucha que usávamos para lavar louça, para tomar banho.

Como cresceu no sítio e fora lavrador quando jovem, desejou ver a planta nascer e frutificar. Plantou a semente e a regou até atingir um bom tamanho. E de repente, viu que não podia deixar a plantinha ali, no sobrado. Porque ela é trepadeira, e não haveria apoio para ela se enroscar...

Então, levou a mudinha para um amigo, que tem espaço no quintal para a bucha se desenvolver naturalmente. Só estabeleceu uma condição: que o amigo lhe dê uma bucha, quando estiver na época da colheita.

Depois de um tempo, ele viu uma longa bucha amadurecendo.

E agora está na expectativa de receber uma bucha vegetal para usar no banho.

Sei que é uma história prosaica, mas estou publicando porque ela me tocou bastante. Um cidadão de São Paulo, mecânico aposentado de 79 anos, que mora sozinho, se interessar por uma bucha! Era apenas uma semente preta, sem graça, que existe de montão no meu sítio.

E eu vivo cortando as ramas de bucha que teimam em subir nas bananeiras e no abacateiro.

Bucha é mato lá.

Mirandópolis, julho de 2022.

kimie oku in

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domingo, 3 de julho de 2022

 

                                                               Vilma

          Ontem fizemos o seu funeral.

      Foi um misto de saudades e boas lembranças que tomou o coração de todos nós. Presentes todos os filhos, netos e esposo. E outros familiares que a amaram durante sua permanência entre nós.

Vilma Haruyo Amikura foi uma menina simples que andou por essas ruas de Mirandópolis, passeou pela Praça, aprendeu os ensinamentos de Jesus na bela Matriz São João Batista e frequentou o Kaikan. Estudou no Edgar e se formou Professora pelo Noêmia Dias Perotti.

Um dia, seu caminho se cruzou com o de Hideo Osaki, com quem formou uma bela família em São Paulo. Enquanto cuidava dos filhos, lecionou em Escolas do Estado e do Município. Sua vida foi permeada de dificuldades, porque o esposo tinha a seu cargo dar assistência a quatro irmãos, que pelejavam para descobrir o seu caminho. Muito sacrifício, perdas e atritos... Mas, de um jeito ou outro, venceram os maiores obstáculos...  

Quando tudo parecia entrar nos eixos, ela foi acometida de um violento acidente vascular que a deixou cadeirante para sempre. E foi aí que o amor dos filhos e do esposo se revelou em cuidados diários, com banhos, massagens, fraldas, alimentação cuidadosamente preparada... E ela nunca foi deixada de lado como uma inválida. O pessoal ia para a praia? A Vilma ia também, mesmo que fosse só para respirar o ar marinho e ver a paisagem... Compras? Ela ia também na cadeira conduzida pelo Hideo nos Mercados e nos Shoppings... Eventos sociais na família? Ela vinha também, vencendo a longa viagem de mais de seiscentos quilômetros...

Era difícil? Sim! Mas o desvelo da família era uma coisa boa de se ver. Ela participando de tudo. Uma lição para todos os familiares...

E assim, cercada de extremo carinho, ela sobreviveu ao AVC por dezessete anos. E acredito que foi muito feliz. Mesmo paralisada, mesmo limitada, mesmo cadeirante. Porque foi amada incondicionalmente.

E ontem depositamos suas cinzas na tumba da família, junto de seus pais e irmãos. E foi uma cena bonita, porque não faltou ninguém.

E na bênção, o Padre Orlando nos lembrou que todos somos pó... E que ao pó voltaremos...

Enquanto não retornarmos ao pó, toda uma vida floresce. E o que fazemos nesse intervalo é que faz a diferença.

E a diferença da Vilma foi a presença de tanta gente que veio de longe assistir ao último ato de sua vida.

Vilma Haruyo Osaki, nós te amamos.

Mirandópolis, julho de 2022.

kimie oku in

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domingo, 26 de junho de 2022

 

                                               Saudades...


      Ontem passei uma tarde maravilhosa com a Ariadne, minha amiga. Foi uma tarde de confidências, desabafos e muitas saudades...

      Relembrando o João, que partiu tão cedo e deixou a Adne sem chão. Mas a Adne herdou a coragem e a determinação da Lena sua mãe e, apesar das saudades sem fim, está enfrentando valentemente o dia a dia junto com o lindo filhote João Vítor.

      Confidências à parte, tomamos café com pão de queijo, biscoitos e bolo. E toquei piano! Porque a última lembrança boa que temos é da Lena dançando com o João, enquanto eu tocava! Foi uma tarde feliz e ela valsou, rodopiou e riu muito. E agora, nem você, nem o João...

      Lena, Lena quanta saudade! Vontade de vê-la e dizer que seus filhos estão bem, compensaram tudo que você fez para criá-los. Fazem juz à valentia da mãe. E são carinhosos, trabalhadores, pés no chão.

    Lena, você e a Mafalda marcaram um tempo de minha vida. Tempo de Faculdade em Dracena... viagens cansativas... Bereta e sua Estatistica tão difícil... E a luta diária, de Escola em Escola...

Tudo passou... Até vocês...

E me deixaram aqui com tantas saudades.

Mirandópolis, junho de 2022.

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sábado, 11 de junho de 2022

 

                        Oitenta árvores...

    Tenho uma seringueira, que estou tentando salvar há bom tempo. Vivo combatendo as saúvas que não dão folga... E ela estava tão bonita cheia de folhas fortes e viçosas, mas um bezerro a transformou em três varinhas finas... Não sei se vai sobreviver... É difícil cultivar plantas e fazê-las crescer e se tornarem adultas. É preciso muito cuidado, muita dedicação constante. Reflorestar não é só plantar e esperar o milagre de ver um bosque, uma mata...

     Pensando nisso, fui até a Represa Santa Helena, que abastece a cidade, para conferir a plantação de árvores, que os associados da APAM (Associação de Professores Aposentados de Mirandópolis) realizaram no final do ano passado. Queria ver como estavam as oitenta mudas plantadas à beira da Represa... Mesmo que algumas não tivessem vingado, esperava fotografar algumas já bem crescidas. Soube que na época até o Prefeito Sodário participara ativamente do evento, além do Responsável do Meio Ambiente... Mais de vinte Professores aposentados se empenharam nessa empreitada, movidos pelo espírito de salvar a natureza, recuperar a mata ciliar e proteger as águas da Represa... Tudo muito bonito e louvável, com Professores já aposentados querendo deixar um mundo melhor para as gerações futuras. Aliás, tarefa que deveria ser do Meio Ambiente.

     Mas... Qual não foi a minha decepção... No local, só havia mato, nenhuma muda plantada. Nem sinal das dezenas de mudas... Só ervas daninhas prosperaram e pés de mamona encheram o espaço. Fiquei sabendo que soltaram gado aí... Que acabou com todas as mudas.

     Parece que funcionários da Prefeitura zelariam pela plantação, e os Professores ficaram esperançosos que logo haveria mais umas dezenas de árvores. Não sei se os responsáveis seriam funcionários do SAAEM ou do Meio Ambiente. Todos esperavam que  os trabalhadores braçais da Prefeitura cuidariam das árvores, regando-as e protegendo-as.

Mas, ninguém se responsabilizou pelos cuidados... Será que não há funcionários responsáveis para cuidar da Represa, que fornece o líquido mais precioso para toda a cidade?

     Foi em vão tanto empenho, tanta esperança e tanta boa vontade. O Prefeito teria pedido aos Professores que repetissem essa atividade na Represa São Lourenço.

Parece piada! Professores aposentados se dispondo a reflorestar parte da Represa, e toda essa trabalheira jogada fora! Ou os funcionários e os manda-chuvas da Prefeitura esperavam que os aposentados professores fossem lá cuidar das mudas? Professores que, com o avançar da idade têm problemas de coluna e de joelhos? Que apesar de suas dores físicas ainda têm esperança, de deixar um mundo melhor para posteridade.

É por tudo isso que os serviços públicos primam pela incompetência. Ninguém se responsabiliza pelo que é importante, é um jogo de empurra-empurra, e nada é feito.

Se um funcionário tivesse cuidado daquelas mudas, hoje teríamos mais oitenta árvores frondosas, que iriam compor a mata ciliar da Represa, cortando o vento e filtrando a sujeira que cai na água.

Pra quê existe o Departamento do Meio Ambiente? Não tem capacidade de zelar por oitenta árvores plantadas gratuitamente por Professores? Claro! O Departamento existe só pra inglês ver. Cada um recebendo o dim dim, nada mais importa? Triste Departamento inútil.

Conclusão: Não vi nenhuma árvore nova. E fotografar mato e mamona selvagem seria uma vergonha para todos.

Um povo que não sabe cuidar do líquido mais importante da cidade é um povo que não prospera. Povo fadado a desaparecer...

Enquanto o mundo inteiro está preocupado com o desmatamento, a nossa Prefeitura é incapaz de cuidar de oitenta árvores. Plantadas gratuitamente por Professores aposentados. Aposentados!

Desventurada Prefeitura!

Mirandópolis, junho de 2022.

kimie oku in

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quinta-feira, 9 de junho de 2022

 

        Porque já fiz oitenta anos...

      Viver oitenta anos é um privilégio concedido a poucos.

Honestamente nunca pensei que viveria tanto.

Só que no limiar da vida, a gente fica só olhando pra trás e pensando como poderia ter vivido melhor, sem errar tanto, sem cultivar mágoas, sem discriminar pessoas, sem ter sido tão exigente...

Porque nessa altura da vida, a gente percebe que somos apenas uma carreira de formiguinhas operárias cumprindo uma dura missão: alimentar e proteger a prole. Apenas isso. Nada mais importa.

Vivi os primeiros vinte anos querendo ser alguém... Depois passei trinta anos trabalhando incansavelmente para melhorar a vida de crianças e jovens.  Apesar de nunca ter sido reconhecida como Educadora na verdadeira acepção da palavra, tive momentos maravilhosos nessa missão de ensinar e aprender.  Acho que mais aprendi que ensinei. Conheci crianças simples, inocentes, completamente ignorantes dos problemas do mundo, que se tornaram cidadãos honrados e trabalhadores, dos quais muito me orgulho.

Nos últimos trinta anos aposentei o relógio e vivi para a minha família e para mim. A ironia dessa fase é que quando eu me tornei disponível, meus filhos já não estavam mais em casa, tinham partido para procurar seus destinos. Mesmo assim, pude curtir a neta.

E nesses trinta anos pude cuidar de mim, pensar em mim, viver por mim. Fazendo o que gosto de fazer como ler, tocar piano, escrever, estudar a cultura e a língua de meus ancestrais. Nunca fiquei depressiva, porque o tempo foi sempre muito limitado para tudo isso. Conheci muita gente maravilhosa que me apontou caminhos, que me indicou e emprestou livros em nihongô/japonês. Gostaria de ter começado esse estudo mais cedo, mas... o tempo!

Hoje, já antevejo o fim dessa jornada e quero viver plenamente, sem remorsos. Por isso, me reservo o direito de aceitar ou recusar propostas. Não aceito propostas ou convites que não me acrescentam nada. Não me preocupo com as opiniões alheias. Vivo como uma roceira, cutucando o chão, plantando minhas mudinhas, colhendo os frutos da época e distribuindo aos amigos.

Com essa idade percebi qual é o propósito de Deus ao nos colocar nesta terra. É ajudar na obra de Deus. Cuidando dos desventurados, entendendo a mão, o coração e doando-se diariamente. Quando faço algo pelo próximo como um agasalho para uma criança, sinto que o dia foi abençoado. E quando recebo uma muda de uma flor ou de um legume, sinto que a bênção é maior...

Como tenho oitenta anos, quero usufruir a vida só cirandando.

Com amigos.

Mirandópolis, junho de 2022.

kimie oku in

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domingo, 1 de maio de 2022

 

Carência...


Na última Cirandada percebi a importância das nossas reuniões.

Os idosos isolados por dois anos sentiram que a vida estava indo embora... E muitos deles sofreram com a obrigação do confinamento.

Só de saber que não podiam sair, que deveriam permanecer em casa, os levou ao desespero. Mesmo sabendo do vírus inimigo que rondava o ar,  ficar limitado aos quatro cantos da moradia foi  difícil demais.

Os idosos em sua maioria não têm vida social ativa. O máximo que  usufruem é de uma conversa com os vizinhos,  um abraço nos netos, um contato rápido com os filhos, uma ida na quitanda onde encontram amigos...

E tudo isso foi proibido.

Foi como apagar a luz de suas vidas.

Tudo ficou nebuloso, incerto e triste. 

Todos os idosos ficaram de castigo.

Para a gente jovem é menos traumático. Porque eles têm a vida toda pela frente.

Mas, os idosos já estão no limiar da vida, ninguém garante o porvir... E é aí que estava a ansiedade. Terminar a vida nessa agonia, sem uma alegria, sem um contato, do quarto para a cozinha, da cozinha para a varanda. Só espiando a vida que estava indo embora.

O ser humano é gregário, não gosta de ficar só.

Então na última Ciranda, a conversa, as confissões, a cantoria, a dança libertaram os cirandeiros. E todos riram muito, soltaram a franga.

E na despedida:

"Quando será a próxima?"

 

Fukuzawa Yukichi


Houve um tempo no Japão em que os trabalhadores eram meros escravos de seus patrões. Era a época do Xogunato ou Bakufu, cujos representantes eram os Daimyos... Esses Daimyos eram senhores poderosos que possuíam vastas terras e viviam em constante guerra com seus vizinhos, para lhes tomar as propriedades e aumentar os próprios domínios. Esses domínios eram fortemente defendidos por um exército de samurais ou espadachins. E os Daimyos ou Tonosamas tinham o poder de vida e morte sobre seus vassalos... O povo humilde vivia entre a cruz e a espada...

O pai de Fukuzawa Yukichi era um samurai. Mesmo sendo um homem culto servia ao Tonosama como um trabalhador braçal, porque era um samurai de categoria inferior. Naquela época, as famílias estavam restringidas às castas da pirâmide de classes sociais. E não podiam mudar de categoria. Quem nascia numa família de sapateiros assim deveria continuar pelos séculos afora...

Quando criança, Yukichi detestava Escola e estudos e proclamava isso para a família. Mas era uma criança inteligente e o pai desejava um futuro melhor que o seu para o filho. Então decidiu que o garoto seria um monge, ou bonsan. É que um monge poderia estudar e revelar suas habilidades. Era o único caminho de estudos para a gente plebeia. Mas, o pai faleceu quando Yukichi tinha apenas três anos de idade...

Seu irmão mais velho Sannosuke tomou as rédeas da casa e passou a servir ao Tonosama. E decidiu que Yukichi deveria ir à escola para iniciar sua educação, mas o garoto revoltou-se e não aceitou. Então sua mãe lhe contou o desejo do falecido pai para fazer dele um monge. Yukichi ficou bastante abalado e disse que nunca, jamais seria um monge. A mãe muito sábia então fez um acordo com ele: Não o mandaria para um Templo como futuro monge, desde que ele passasse a estudar. E foi assim que o caminho se abriu para o jovem, que um dia mudaria a História do Japão.

Na Escola se revelou um aluno aplicado e sobressaiu logo na classe. Era muito dedicado e nunca aceitava como verdades o que outros lhe diziam. Um dia, ele foi espiar o oratório que havia nas proximidades e, percebeu que todos os crentes estavam apenas orando para uma pedra! Uma pedra como as dezenas que havia no caminho. Depressa, sem que ninguém visse, ele trocou a pedra por outra. Queria saber se seria castigado pelos céus pela má ação. Uma mulher veio e juntou as mãos e orou. E nada aconteceu. Ele ficou pasmo, porque diziam que ali era sagrado e ninguém nem podia tocar no interior do altarzinho (Batiga ataru! O castigo viria!).

Fukuzawa percebeu que as verdades sempiternas eram um monte de mentiras para uns dominarem outros. E desse dia em diante, ele passaria a conferir in loco tudo que ouvia falar.

Nessa época, o Japão era um país fechado, só se relacionando comercialmente com a China e a Holanda. Olhava com desprezo os demais países do mundo e vivia em completo ostracismo, ignorando o que se passava fora do seu território. Eles temiam o Cristianismo, que derrubaria suas crenças sobre a divindade do Imperador. Acreditavam que era no Japão que o Sol nascia e, o Imperador descendia diretamente do Rei Sol (daí o sol na bandeira japonesa). A família imperial era venerada como se realmente tivesse descido dos céus! A nós parece conto de carochinha!

E justamente nessa época ali chegou o Comandante Peri, trazendo uma intimação do Presidente americano para abrir os portos do Japão ao comércio exterior Se se recusasse, os americanos atacariam o Japão com forte artilharia. E demonstraram isso atirando com o canhão em alto mar. Foi um Deus nos acuda! Os poderosos Daimyos tremeram na base e perceberam que, seus milhares de espadachins não seriam páreo para armas de fogo. Os japoneses só guerreavam com espadas. E os americanos disseram que voltariam em um ano para receber a resposta. Foi um Deus nos acuda! O Japão precisava se armar e de repente, formaram-se duas correntes: uma pela abertura dos portos e outra contra. A Casa Imperial era fortemente contra.

Foi então que o Sannosuke Fukuzawa teve a ideia de encaminhar o irmão Yukichi para estudar holandês. O objetivo era traduzir os livros holandeses que ensinavam a produzir armas de fogo. O Japão precisava formar sua defesa, seu exército e sua artilharia.

Yukichi se dedicou totalmente a essa tarefa e aprendeu a ler holandês em cem dias! E passou uns cinco anos estudando essa língua estrangeira e chegou a traduzir Dicionários Holandeses para o Japonês.  E foi Professor da Língua Holandesa...

No ano seguinte, conforme promessa, os americanos voltaram e mesmo não tendo autorização da Casa Imperial, diante da ameaça americana de um ataque, o Representante mor do Xogunato Ii Naosuke assinou o Acordo, abrindo os portos para o Comércio com os Estados Unidos, a França, a Inglaterra, a Rússia, além da Holanda.

Foi uma abertura e tanto! De repente, estrangeiros invadiram os portos e os japoneses ficaram pasmos ao perceber a diferença física, além da língua inglesa tão difícil de compreender...

E foi aí que Yukichi percebeu decepcionado que o Holandês não mais servia. E teve que começar do zero, estudando Inglês...

Quando o Japão mandou uma missão aos Estados Unidos para acertar os termos do Acordo Comercial, Fukuzawa fez parte da Delegação. E chegando lá, todos os japoneses ficaram maravilhados com o progresso ocidental em termos de conforto nas casas, de transporte, de urbanização... E Yukichi constatou com pesar que, a sua terra natal estava muito aquém da cultura ocidental. Que era preciso retomar o tempo perdido e levar essa cultura para o Japão. E comprou o Dicionário Webster, que seria o primeiro a entrar no Japão.

Quando o Japão mandou uma missão diplomática para a Europa, Fukuzawa foi como intérprete do grupo. Foram recepcionados com muita festa e tudo indicava sucesso da missão. Mas... Ao retornarem da Rússia para a França perceberam que o clima havia mudado, todos foram tratados com muita frieza.

É que enquanto estavam percorrendo a Europa, houve um incidente grave em Kagoshima ken. Um Daimyo e seu séquito estava se dirigindo para Edo (Tóquio) e no meio do caminho, um turista inglês a cavalo tentou passar ao lado do palanquim. Isso foi considerado uma agressão inominável e, os samurais do Daimyo derrubaram o cidadão estrangeiro e lhe cortaram a cabeça! Naquela época, os vassalos e todos os cidadãos deveriam se ajoelhar e postar suas cabeças no chão, para a passagem de autoridades e até para os samurais. Quem ousasse levantar a cabeça, tê-la-ia decepada... O costume era esse. Mas o cidadão inglês não sabia de nada...

E Fukuzawa percebeu todo o atraso do Japão nesse incidente e no fato de nos países ocidentais haver Democracia, que permitia aos cidadãos escolherem livremente seus governantes. E então, resolveu contar para os jovens japoneses o que estava ocorrendo no mundo.

Passou a escrever livros e mais livros em linguagem acessível, e fazia palestras, tentando despertar a consciência da juventude, uma vez que os adultos não botavam fé em suas premissas.

Felizmente, seus livros tiveram sucesso e foram muito procurados. A Escola que abriu ensinava Inglês e era bem frequentada. E pouco a pouco, a juventude japonesa, que nunca aceitou a servidão dos vassalos aos senhores feudais, acabou despertando. É verdade que os conservadores não aceitavam as ideias inovadoras e até um amigo do Fukuzawa foi assassinado, por pregar a ocidentalização de costumes.  Naosuke que assinou o Tratado de Abertura dos Portos também foi assassinado numa emboscada. Pelo grupo que não aceitava estrangeiros no Japão. Atraso grande, ideias medievais, difíceis de superar...

Fukuzawa Yukichi foi o homem que modernizou o Japão anacrônico, combatendo velhas ideias de domínio e servidão. Foi ele quem disse a um pai que lamentava o nascimento de mais uma filha: “E que mal tem em ser uma menina? Desde que seja forte e saudável, fique feliz!” Naquela época o machismo imperava e todos queriam só filhos homens...

Também ele pregava a igualdade entre os homens: “Deus não colocou ninguém acima de uma pessoa, nem abaixo dela”

“A melhor forma de ser livre é através do estudo”

E ele provou isso não só libertando a si mesmo, como ao próprio país natal através do estudo. Estudo que durou a vida toda!

Ele é considerado a luz que incandesceu para tornar o Japão um país moderno, libertando-o dos grilhões do anacronismo.

Mirandópolis, janeiro de 2020.

Revisado em abril de 2022.

kimie oku in

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