segunda-feira, 1 de agosto de 2022

 

             Um quilo de carne

      Todos os dias aparece alguém pedindo comida.

      Em outros tempos, havia pedintes, mas não tanto assim.

      Realmente estamos vivendo tempos difíceis. Consequência do vírus que arrasou com a economia do mundo e, da recente guerra na Ucrânia, que fez o preço dos combustíveis chegar à estratosfera.

Gente pedindo uma ajuda para comprar comida, gente pedindo uma refeição, gente meio desesperada pedindo ajuda para comprar um lanche para o filho pequeno... E percebe-se que não é mentira, que a fome bateu nas portas de muitas famílias. Por outro lado, constatei que o número de coletores de recicláveis se multiplicou. Antes, havia uma dúzia de cidadãos conhecidos catando papelões e latinhas. Hoje há tanta gente, que a gente não conhece. Provavelmente, são  trabalhadores que perderam emprego por conta da recessão, ocasionada pela pandemia. Gente honrada, que não fica esperando ajuda dos céus. Que vai à luta para garantir o leite, o feijão e o arroz. Realmente está muito difícil para muita gente.

Eu pessoalmente estou fazendo o que posso para ajudar duas famílias, ofertando-lhes um quilo e meio de carne por semana. Sei que é pouco, mas essa porção já minimiza a necessidade de proteínas dessas famílias. Porque a carne nunca esteve tão ausente da mesa dos pobres... E estou escrevendo isso só para meus amigos também adotarem essa forma de ajuda. É gratificante ir ao mercado ou açougue e comprar carne de porco, linguiça ou frango para contribuir com as cozinheiras, que não sabem o que servir aos filhos... Elas estão só servindo ovos todas as semanas. Quando podem! E três quilos de carne não vão empobrecer nenhum amigo meu, com certeza.

Acho que Campanha da Fraternidade deve ser assim: estender a mão e o coração para os que estão passando dificuldades.

E há tanta gente assim.

E há muita gente que pode ajudar.

Vamos todos fazer uma ciranda de ajuda fraterna. Ajudando duas famílias por semana. Não precisa ser um quilo e meio. Pode ser um quilo ou meio quilo. Mas que seja semanalmente, para aliviar a  necessidade dessas famílias.

Os trabalhadores estão precisando de ajuda.

Vãos salvá-los!

Mirandópolis, agosto de 2022.

kimie oku in

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sábado, 30 de julho de 2022

 

                Simplicidade

       E falando em bucha, me dei conta que a vida era tão simples.

       Vivíamos no campo, em contato direto com a terra, a água e o ar.

       A terra era generosa, não precisava de implementos para produzir o arroz, o feijão, as frutas e as verduras. Só tínhamos que plantar e pedir a Deus que nos mandasse chuva. E as colheitas eram fartas. Não tínhamos que ir a lugar algum para comer. Tudo era retirado da terra. Ninguém precisava ir ao mercado para comprar um litro de leite. E tudo era saudável. Eu me lembro que colhíamos tomates tão grandes e saborosos. E os quiabeiros eram plantados entre as fileiras do cafezal. Lembro com saudades das manhãs de sexta feira santa, em que papai e eu íamos plantar alho no brejo. Por quê na sexta feira santa, nunca entendi. E aproveitávamos para plantar também ervilhas, essas ervilhas tão caras nas feiras. Não eram orelhas de padre, eram ervilhas mesmo, macias e deliciosas.

       Lembro que todos os vizinhos também tinham pomares como nós. Mangas, laranjas, limões e bananas que consumíamos o ano todo. Lembro especialmente de um pé de limão galego, que produzia limões amarelinhos e cheirosos. Era difícil catar as frutas, porque os galhos eram cheios de espinhos. Nunca parou de produzir...

Lembro também da tuia, onde guardávamos pendurados os cachos de banana maçã. Eram tantas bananas tão amarelinhas, que não dávamos conta de consumi-las. Muitas eram dadas aos porcos...

Lembro com gratidão do poço, de onde retirei centenas e centenas de baldes de água límpida e saborosa. O balde era amarrado na ponta de uma corda, e a gente puxava para cima através de um sarilho. Todas as crianças maiores tinham a obrigação de puxar água do poço. Água para a cozinha, para lavar roupa, para os banhos. Era um dever de todos e ninguém reclamava. E a água era usada com mais parcimônia, porque era duro  “puxar água”.

Usávamos fogão a lenha, e linguiças de porco ficavam dependuradas sobre o fogão para defumar. E queijo havia com fartura, que mamãe fazia bolinhas fritas de queijo ralado... Deliciosas.

A vida era rústica, no chão mesmo. Andávamos descalços, e era uma delícia tomar banho de chuva... O cheiro da terra molhada depois de um longo estio... Não havia luxo, duas ou três mudas de roupa, um par de sapatos, que eram passados dos meninos mais velhos para os menores.

Puxa! A vida era boa! Não era complicada como hoje.

E éramos felizes sendo completamente caipiras.

Uma semente de bucha me trouxe essas maravilhosas lembranças. Lembranças que infelizmente as novas gerações nunca experimentarão.

Mirandópolis, julho de 2022.

kimie oku in

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sexta-feira, 29 de julho de 2022

 

            Bucha

      Meu irmão mora num sobrado em São Paulo.

E ele gosta de plantas, flores, verduras.

Um dia, caiu em suas mãos uma semente de bucha. Dessa mesma bucha que usávamos para lavar louça, para tomar banho.

Como cresceu no sítio e fora lavrador quando jovem, desejou ver a planta nascer e frutificar. Plantou a semente e a regou até atingir um bom tamanho. E de repente, viu que não podia deixar a plantinha ali, no sobrado. Porque ela é trepadeira, e não haveria apoio para ela se enroscar...

Então, levou a mudinha para um amigo, que tem espaço no quintal para a bucha se desenvolver naturalmente. Só estabeleceu uma condição: que o amigo lhe dê uma bucha, quando estiver na época da colheita.

Depois de um tempo, ele viu uma longa bucha amadurecendo.

E agora está na expectativa de receber uma bucha vegetal para usar no banho.

Sei que é uma história prosaica, mas estou publicando porque ela me tocou bastante. Um cidadão de São Paulo, mecânico aposentado de 79 anos, que mora sozinho, se interessar por uma bucha! Era apenas uma semente preta, sem graça, que existe de montão no meu sítio.

E eu vivo cortando as ramas de bucha que teimam em subir nas bananeiras e no abacateiro.

Bucha é mato lá.

Mirandópolis, julho de 2022.

kimie oku in

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domingo, 3 de julho de 2022

 

                                                               Vilma

          Ontem fizemos o seu funeral.

      Foi um misto de saudades e boas lembranças que tomou o coração de todos nós. Presentes todos os filhos, netos e esposo. E outros familiares que a amaram durante sua permanência entre nós.

Vilma Haruyo Amikura foi uma menina simples que andou por essas ruas de Mirandópolis, passeou pela Praça, aprendeu os ensinamentos de Jesus na bela Matriz São João Batista e frequentou o Kaikan. Estudou no Edgar e se formou Professora pelo Noêmia Dias Perotti.

Um dia, seu caminho se cruzou com o de Hideo Osaki, com quem formou uma bela família em São Paulo. Enquanto cuidava dos filhos, lecionou em Escolas do Estado e do Município. Sua vida foi permeada de dificuldades, porque o esposo tinha a seu cargo dar assistência a quatro irmãos, que pelejavam para descobrir o seu caminho. Muito sacrifício, perdas e atritos... Mas, de um jeito ou outro, venceram os maiores obstáculos...  

Quando tudo parecia entrar nos eixos, ela foi acometida de um violento acidente vascular que a deixou cadeirante para sempre. E foi aí que o amor dos filhos e do esposo se revelou em cuidados diários, com banhos, massagens, fraldas, alimentação cuidadosamente preparada... E ela nunca foi deixada de lado como uma inválida. O pessoal ia para a praia? A Vilma ia também, mesmo que fosse só para respirar o ar marinho e ver a paisagem... Compras? Ela ia também na cadeira conduzida pelo Hideo nos Mercados e nos Shoppings... Eventos sociais na família? Ela vinha também, vencendo a longa viagem de mais de seiscentos quilômetros...

Era difícil? Sim! Mas o desvelo da família era uma coisa boa de se ver. Ela participando de tudo. Uma lição para todos os familiares...

E assim, cercada de extremo carinho, ela sobreviveu ao AVC por dezessete anos. E acredito que foi muito feliz. Mesmo paralisada, mesmo limitada, mesmo cadeirante. Porque foi amada incondicionalmente.

E ontem depositamos suas cinzas na tumba da família, junto de seus pais e irmãos. E foi uma cena bonita, porque não faltou ninguém.

E na bênção, o Padre Orlando nos lembrou que todos somos pó... E que ao pó voltaremos...

Enquanto não retornarmos ao pó, toda uma vida floresce. E o que fazemos nesse intervalo é que faz a diferença.

E a diferença da Vilma foi a presença de tanta gente que veio de longe assistir ao último ato de sua vida.

Vilma Haruyo Osaki, nós te amamos.

Mirandópolis, julho de 2022.

kimie oku in

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domingo, 26 de junho de 2022

 

                                               Saudades...


      Ontem passei uma tarde maravilhosa com a Ariadne, minha amiga. Foi uma tarde de confidências, desabafos e muitas saudades...

      Relembrando o João, que partiu tão cedo e deixou a Adne sem chão. Mas a Adne herdou a coragem e a determinação da Lena sua mãe e, apesar das saudades sem fim, está enfrentando valentemente o dia a dia junto com o lindo filhote João Vítor.

      Confidências à parte, tomamos café com pão de queijo, biscoitos e bolo. E toquei piano! Porque a última lembrança boa que temos é da Lena dançando com o João, enquanto eu tocava! Foi uma tarde feliz e ela valsou, rodopiou e riu muito. E agora, nem você, nem o João...

      Lena, Lena quanta saudade! Vontade de vê-la e dizer que seus filhos estão bem, compensaram tudo que você fez para criá-los. Fazem juz à valentia da mãe. E são carinhosos, trabalhadores, pés no chão.

    Lena, você e a Mafalda marcaram um tempo de minha vida. Tempo de Faculdade em Dracena... viagens cansativas... Bereta e sua Estatistica tão difícil... E a luta diária, de Escola em Escola...

Tudo passou... Até vocês...

E me deixaram aqui com tantas saudades.

Mirandópolis, junho de 2022.

kimie oku in

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sábado, 11 de junho de 2022

 

                        Oitenta árvores...

    Tenho uma seringueira, que estou tentando salvar há bom tempo. Vivo combatendo as saúvas que não dão folga... E ela estava tão bonita cheia de folhas fortes e viçosas, mas um bezerro a transformou em três varinhas finas... Não sei se vai sobreviver... É difícil cultivar plantas e fazê-las crescer e se tornarem adultas. É preciso muito cuidado, muita dedicação constante. Reflorestar não é só plantar e esperar o milagre de ver um bosque, uma mata...

     Pensando nisso, fui até a Represa Santa Helena, que abastece a cidade, para conferir a plantação de árvores, que os associados da APAM (Associação de Professores Aposentados de Mirandópolis) realizaram no final do ano passado. Queria ver como estavam as oitenta mudas plantadas à beira da Represa... Mesmo que algumas não tivessem vingado, esperava fotografar algumas já bem crescidas. Soube que na época até o Prefeito Sodário participara ativamente do evento, além do Responsável do Meio Ambiente... Mais de vinte Professores aposentados se empenharam nessa empreitada, movidos pelo espírito de salvar a natureza, recuperar a mata ciliar e proteger as águas da Represa... Tudo muito bonito e louvável, com Professores já aposentados querendo deixar um mundo melhor para as gerações futuras. Aliás, tarefa que deveria ser do Meio Ambiente.

     Mas... Qual não foi a minha decepção... No local, só havia mato, nenhuma muda plantada. Nem sinal das dezenas de mudas... Só ervas daninhas prosperaram e pés de mamona encheram o espaço. Fiquei sabendo que soltaram gado aí... Que acabou com todas as mudas.

     Parece que funcionários da Prefeitura zelariam pela plantação, e os Professores ficaram esperançosos que logo haveria mais umas dezenas de árvores. Não sei se os responsáveis seriam funcionários do SAAEM ou do Meio Ambiente. Todos esperavam que  os trabalhadores braçais da Prefeitura cuidariam das árvores, regando-as e protegendo-as.

Mas, ninguém se responsabilizou pelos cuidados... Será que não há funcionários responsáveis para cuidar da Represa, que fornece o líquido mais precioso para toda a cidade?

     Foi em vão tanto empenho, tanta esperança e tanta boa vontade. O Prefeito teria pedido aos Professores que repetissem essa atividade na Represa São Lourenço.

Parece piada! Professores aposentados se dispondo a reflorestar parte da Represa, e toda essa trabalheira jogada fora! Ou os funcionários e os manda-chuvas da Prefeitura esperavam que os aposentados professores fossem lá cuidar das mudas? Professores que, com o avançar da idade têm problemas de coluna e de joelhos? Que apesar de suas dores físicas ainda têm esperança, de deixar um mundo melhor para posteridade.

É por tudo isso que os serviços públicos primam pela incompetência. Ninguém se responsabiliza pelo que é importante, é um jogo de empurra-empurra, e nada é feito.

Se um funcionário tivesse cuidado daquelas mudas, hoje teríamos mais oitenta árvores frondosas, que iriam compor a mata ciliar da Represa, cortando o vento e filtrando a sujeira que cai na água.

Pra quê existe o Departamento do Meio Ambiente? Não tem capacidade de zelar por oitenta árvores plantadas gratuitamente por Professores? Claro! O Departamento existe só pra inglês ver. Cada um recebendo o dim dim, nada mais importa? Triste Departamento inútil.

Conclusão: Não vi nenhuma árvore nova. E fotografar mato e mamona selvagem seria uma vergonha para todos.

Um povo que não sabe cuidar do líquido mais importante da cidade é um povo que não prospera. Povo fadado a desaparecer...

Enquanto o mundo inteiro está preocupado com o desmatamento, a nossa Prefeitura é incapaz de cuidar de oitenta árvores. Plantadas gratuitamente por Professores aposentados. Aposentados!

Desventurada Prefeitura!

Mirandópolis, junho de 2022.

kimie oku in

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quinta-feira, 9 de junho de 2022

 

        Porque já fiz oitenta anos...

      Viver oitenta anos é um privilégio concedido a poucos.

Honestamente nunca pensei que viveria tanto.

Só que no limiar da vida, a gente fica só olhando pra trás e pensando como poderia ter vivido melhor, sem errar tanto, sem cultivar mágoas, sem discriminar pessoas, sem ter sido tão exigente...

Porque nessa altura da vida, a gente percebe que somos apenas uma carreira de formiguinhas operárias cumprindo uma dura missão: alimentar e proteger a prole. Apenas isso. Nada mais importa.

Vivi os primeiros vinte anos querendo ser alguém... Depois passei trinta anos trabalhando incansavelmente para melhorar a vida de crianças e jovens.  Apesar de nunca ter sido reconhecida como Educadora na verdadeira acepção da palavra, tive momentos maravilhosos nessa missão de ensinar e aprender.  Acho que mais aprendi que ensinei. Conheci crianças simples, inocentes, completamente ignorantes dos problemas do mundo, que se tornaram cidadãos honrados e trabalhadores, dos quais muito me orgulho.

Nos últimos trinta anos aposentei o relógio e vivi para a minha família e para mim. A ironia dessa fase é que quando eu me tornei disponível, meus filhos já não estavam mais em casa, tinham partido para procurar seus destinos. Mesmo assim, pude curtir a neta.

E nesses trinta anos pude cuidar de mim, pensar em mim, viver por mim. Fazendo o que gosto de fazer como ler, tocar piano, escrever, estudar a cultura e a língua de meus ancestrais. Nunca fiquei depressiva, porque o tempo foi sempre muito limitado para tudo isso. Conheci muita gente maravilhosa que me apontou caminhos, que me indicou e emprestou livros em nihongô/japonês. Gostaria de ter começado esse estudo mais cedo, mas... o tempo!

Hoje, já antevejo o fim dessa jornada e quero viver plenamente, sem remorsos. Por isso, me reservo o direito de aceitar ou recusar propostas. Não aceito propostas ou convites que não me acrescentam nada. Não me preocupo com as opiniões alheias. Vivo como uma roceira, cutucando o chão, plantando minhas mudinhas, colhendo os frutos da época e distribuindo aos amigos.

Com essa idade percebi qual é o propósito de Deus ao nos colocar nesta terra. É ajudar na obra de Deus. Cuidando dos desventurados, entendendo a mão, o coração e doando-se diariamente. Quando faço algo pelo próximo como um agasalho para uma criança, sinto que o dia foi abençoado. E quando recebo uma muda de uma flor ou de um legume, sinto que a bênção é maior...

Como tenho oitenta anos, quero usufruir a vida só cirandando.

Com amigos.

Mirandópolis, junho de 2022.

kimie oku in

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