quarta-feira, 12 de dezembro de 2012


Memórias de dona Severina

Severina é uma menina que nasceu em 1921 em Jacobina na Bahia, filha de pais pernambucanos. Sua mãe chamava-se dona Ernestina Barbosa de Luna e seu pai Misael Leandro Alves, cujo nome ficou eternizado numa das ruas da cidade de Mirandópolis. Seu Misael foi o primeiro barbeiro daqui. 
 Seus pais eram meio nômades, mudando-se de um lugar para outro, em busca de trabalho e melhor lugar para se morar. Assim, quando a Severina tinha mais ou menos cinco anos de idade, mudaram-se para a cidade de Cedro no Ceará, e logo depois para Bodocó, perto de Nova Exu, em Pernambuco.
Em Bodocó, Severina estudou um pouco com a Professora dona Videlina, com quem iniciou a alfabetização.
Quando Severina tinha onze anos, a família se emigrou para o Estado de São Paulo, vindo a fixar-se na Fazenda Pio Prado, na região de Araçatuba. Ali foram colonos de café, e Severina aprendeu a derriçar e abanar os grãos dos cafezais. Tarefa difícil demais, mais ainda para uma menina adolescente.                                          
Dez meses depois, mudaram-se para a Fazenda Santa Helena, em Aguapeí, município de Valparaíso, também para se dedicar à lavoura de café. Em Aguapeí, estudou um pouco mais com a professora Nicácia. Nessa época, o pai Misael cortava os cabelos de todos os membros da família e, ensinava a leitura para quem quisesse aprender. Mas, para a Severina, escola foi só até aí, com a professora Nicácia. E ela aprendeu a ler e a escrever.
                                        Em 1935, vieram para Mirandópolis.
Aqui era tudo mata fechada, sem ruas e com pouquíssimas casas.
 Havia um pedaço de clareira desmatada por Manoel Alves de Ataíde, o fundador da cidade, e lotes à venda. Em volta da clareira era tudo floresta virgem, cheia de imensas árvores e tabocas, e havia bichos como onças rondando. Para espantá-los, o senhor Ataíde fazia uma imensa fogueira e estourava bombas.
Seu pai e seu tio compraram duas datas de Manoel Alves de Ataíde, na Rua do Comércio, atual Nove de julho, onde hoje estão instaladas a Loja de Marcos Calçados e a Tipografia Alves do nosso amigo Paulinho. Construíram no local, casas de barro, e mais tarde transformaram-nas em casas de tijolos.
Misael Leandro Alves trabalhou um tempo na Serraria de Belmiro Jesus, ali nas proximidades do Nilton Supermercados, na Rafael Pereira. Ao construir sua casa, porém, instalou num anexo o seu Salão de Barbearia, e começou o ofício de barbeiro. E a dona Ernestina sua esposa fazia rendas de bilro, que havia aprendido lá no Norte.
          
Com 19 anos de idade, Severina casou-se com Benedito Santos, que viera com o irmão Porfírio da cidade de Colina. Porfírio era lenheiro e Benedito tinha uma Alfaiataria, onde hoje existe a Padaria do Antonio, na Rafael Pereira. Porfírio foi o primeiro taxista da cidade.
Dona Severina se encantou com o Benedito, que ficou conhecido como Ditão na praça. Era um homem negro, alto, vaidoso e muito elegante em seus ternos de linho branco, que ela passava com esmero, usando ferro de brasa.
Quando se casaram, dona Severina e o senhor Benedito foram morar numa casa de tábuas, na esquina da Rua Nove de julho com a Domingues de Souza, onde hoje está o Bar do Rosalem. Para ajudar no orçamento familiar, dona Severina lavava e engomava ternos, que eram roupas de uso do cotidiano na época. Ela tinha clientela fixa, porque o marido confeccionava ternos e ela zelava deles.
 Com o casamento vieram os filhos: Ana Edite, cujo parto foi realizado pelo Dr. Frederico Freires em casa mesmo, porque não havia hospital; a Valdeíte Inês, que também nasceu em casa sob os cuidados da famosa Parteira dona Júlia Cabrini; e o Vanderley que nasceu na Maternidade Santa Terezinha, sob a assistência de Dr. Macoto Ono. Ana Edite viria a falecer  alguns anos depois.
No dia sete de março de 1950, foi instalado o Ginásio Estadual de Mirandópolis, que teve início como Escola Normal Municipal de Mirandópolis, lá atrás da linha, na Avenida Dr. Raul da Cunha Bueno.

O senhor Savero Tramonte, que era Vereador na época, e cliente de dona Severina na lavagem de ternos, indicou-a para trabalhar no Ginásio como faxineira. Também começou na mesma função o senhor Sílvio Marchi.  A dona Terezinha e o senhor Jorge Cury foram designados Inspetores de Alunos.
 O Diretor provisório era o senhor Neif Mustafa, até a chegada do Diretor efetivo, Pedro Perotti Neto, que veio de São José dos Campos. Então, o senhor Neif assumiu o cargo de Secretário da Escola, tendo como Escriturários Auxiliares, o senhor Benedito Paschoal e Wilson Monteiro.

Havia quatro salas de aulas, banheiros, pátio, salas da Direção e da Secretaria, além de uma pequena Biblioteca, que a dona Severina e o seu Sílvio Marchi tinham o dever de manter limpos. A escola funcionava de manhã e à tarde. Por anos, o Ginásio funcionou ali, mas a população cresceu e aumentou o número de alunos, mesmo porque vinham ainda, muitos estudantes de Lavínia e de Guaraçaí.
Dessa época, dona Severina se lembra dos professores: Júlio Mazzei de Educação Física, Dalva Monteiro Colaferro de Geografia, Francisco de Assis Neves de Latim, Maria Ernestina Barbosa de História, Dirce Jodas Gardel de Português, dona Florinda de Francês, Carlos Roberto de Pádua de Desenho, dona Sílvia Ferraz de Abreu de Trabalhos Manuais e de dona Rhada, que fez uma belíssima demonstração de Ginástica Rítmica com as alunas da escola, no antigo campo de beisebol do Clube Nipo.

Lembra também de alguns alunos como: Carlos de Sylos, Edna Galvani, Nilton Orsi, Angélica Giometti e Juracy Carvalho, ambos de Lavínia, Zenaide e Zenilde Eid, Junichi da Aliança, João e Seimi Sadano, Neusinha Leite e Silvina Viana. Sobre esta, ela se lembra que a mãe foi pedir ajuda para o Diretor Perotti, para que ela pudesse estudar, pois não tinha condições de mantê-la na escola. Seu Perotti autorizou as irmãs Silvina e Rachel a prestarem os exames de Admissão ao Ginásio, e a Silvina passou em primeiro lugar.
Com a assistência da Caixa Escolar elas puderam estudar. A Silvina seria uma competente Professora de Português, justificando o investimento  e atuando na Escola em que estudou.     
Dona Severina se lembra do dia que a dona Noêmia chegou para dar aulas no CENE. Ao ser apresentada ao Diretor Pedro Perotti, ficou muito impressionada pela beleza e finesse do Perotti. Acabou terminando um noivado anterior, para se casar com o Diretor da escola.
Em 1961, o Ginásio se transferiu para o novo prédio, onde está o CENE até os dias de hoje. Havia oito salas de aulas, e passou a funcionar em três períodos: manhã, tarde e noite. Também foram nomeados mais faxineiros: seu Zezé e Cruz Martins, além do Inspetor de Alunos Valter e o Secretário passou a ser Abílio Candil.   
                           
 Além do Curso Normal para Formação de Professores Primários, que foi encampado pelo Estado, passou a funcionar também o Curso Colegial em duas modalidades: o Científico e o Clássico.
Como o funcionamento abrangia o período noturno, dona Severina também teve que trabalhar à noite. Lembra que tinha que deixar as salas limpas, para as aulas do dia seguinte. E até deixar tudo em ordem passava da meia noite, mas o seu marido Benedito ia buscá-la, e muitas vezes ele acabava ajudando-a.
Dessa época, dona Severina se lembra dos professores: Antonio Sanvito, Kazuo Kawamoto, Toshio Suguisaka, dona Helga, dona Irene Jacobs, Valter Teixeira, Walter Victor Sperandio, dona Celina, Lucy e Odair Dornellas, Joaquim Pompílio, Gabriel Tarcizzo Carbello e Jorge Chain Rezeke.
De alunos tem uma lembrança engraçada do Zapata. Ele lhe pedia para deixá-lo na sala de aula durante o recreio: “Pelo amor de Deus, dona Severina me deixa ficar aqui, para ver se a desgraça da Matemática entra na minha cabeça!” Naqueles tempos, os alunos eram muito preocupados com o rendimento escolar. Mas pelas normas da Escola, não podiam permanecer na sala de aulas durante o Recreio.  E o Perotti era inflexível.
Lembra também do Antonelli Antonio Secanho, que era muito estudioso e mais tarde seria Promotor Público. Dona Severina diz que os alunos eram muito educados e atenciosos e nunca teve problemas com eles, durante os trinta e dois anos que varreu e limpou as dependências da escola, para que o ensino ocorresse confortavelmente para todos.
Além da função de Servente, dona Severina administrou também a Cantina do CENE, durante um certo tempo.
Nas comemorações do Dia das Mães havia festa na escola toda, comandada sempre com muito entusiasmo pela dona Noêmia. E no Dia dos Professores, os alunos sabiam homenagear os professores, com muita festa.
Era um tempo bom, pois havia muito respeito e cordialidade.

Quanto à família, diz que ficou bastante orgulhosa quando a filha Valdeíte se formou Professora, e ficou muito feliz quando nasceram os netos e bisnetos. Só lamenta que o filho Vanderley não tenha estudado, pois desde cedo optou pela carreira de jogador de futebol.
A partir dos dezesseis anos, o filho passou a ser jogador, e como tal jogou em times famosos como: Comercial de Ribeirão Preto, Bangu do Rio de Janeiro, Atlético de Curitiba, XV de Jaú, XV de Piracicaba, Juventus, Misto de Cuiabá, Penapolense, Ipiranga da Bahia, Sergipe Esporte Clube, Corinthians Esporte Clube, Portuguesa de Desportos. Quando jogava no Juventus esteve no Japão e na Europa. Esteve também no Japão como Técnico do XV de Jaú.
 Toda vez que ele jogava, dona Severina ficava em casa torcendo por ele. Após parar de jogar, Vanderley trabalhou um tempo como Técnico, e atualmente está aposentado, mas sempre envolvido com o futebol à cata de talentos.
Seu Ditão faleceu em 1993, com 77 anos de idade. Nessa época já não era alfaiate, porque apareceram as roupas prontas nas lojas, e a moda era outra. Passou a fazer Corretagem de carros, fazendas e casas.  Fez muitas transações com gente de posses da cidade. Para dona Severina foi um bom companheiro.
Do seu tempo de juventude ela lembra que dançou muito e, seus parceiros foram Alcino Nogueira de Sylos, Elias Alagoano e José Silvino, de quem foi  muito apaixonada antes de conhecer o seu marido.
Lembra também que seu pai ajudou a desmatar a redondeza para construir o Estádio Municipal, a Estação Ferroviária e o Cemitério local. Lembra que o primeiro enterro foi do menino Raimundo de oito anos, filho de Fortunato Vieira.
 A amiga mais querida foi a senhora Floripes, que era costureira, mãe do nosso amigo Ademar Bispo. Também foi amiga de Anésia do Edézio. Lembra com saudades das festas de São João, promovidas pelo fundador Manoel Ataíde, que fazia uma imensa fogueira e todo mundo participava.
Ainda tem uma comovente lembrança do seu Manoel Alves de Ataíde. Quando o fundador morava sozinho, perto da Escola Dr. Edgar, dona Severina levava o almoço de Natal para ele. Ele já estava velho, pobre e sozinho, ele que fora o fundador de nossa cidade, a que inicialmente chamou de São João da Saudade.
Conheceu Dr. Massayuki Otsuki, Dr. Edgar Raimundo da Costa, suas esposas e muita gente mais.
Agora aposentada, passa um tempo com a filha Valdeíte e o genro Lupércio (filho do saudoso Professor Durval Nery Palhares) em São Paulo, e outro tempo com a nora Vera e o filho Vanderley, em Mirandópolis.
Sua nora Vera Lúcia Rodrigues (a popular Verona) natural de Ribeirão Preto está aposentada como funcionária da Prefeitura, onde trabalhou na área da Saúde.
Devido aos longos anos varrendo as salas de aula, dona Severina adquiriu bursite e problemas na coluna, que dificultam seus movimentos, e por causa da idade não sai mais sozinha. Mas, leva a vida numa boa, de bem com todos e relembrando o passado com saudades. A maior alegria de dona Severina agora é estar perto dos netos e bisnetos.

Dona Severina, peregrina do Nordeste brasileiro, veio menina e acampou em Mirandópolis. Aqui pelejou e construiu sua vida e sua história, participando da vida de milhares de jovens, que passaram pela Escola Noêmia Dias Perotti.
Hoje com noventa e dois anos se tornou memória viva da cidade.                                                                                                                                                                                                          Memória fabulosa!

Mirandópolis, 27 de novembro de 2012.
Kimie oku in “cronicasdekimie.blogspot.com”

 Legenda de fotos:
1.     Severina fantasiada para o Carnaval,
2.     O povoado de Mirandópolis em 1939,
3.      Casamento de Severina com o Benedito Santos em 1940,
4.  O antigo Ginásio com professores e alunos,
5.  Professores do antigo Ginásio, dentre os quais se destaca o Diretor Pedro Perotti Neto, o Secretário Neif Mustafa, o Professor Júlio Mazzei e o Inspetor de Alunos Jorge Cury,
6.     Ginástica Rítmica pela Profª Rhada,
7.     Professores e Funcionários do CENE, dentre os quais, o prof. Valter Teixeira, Walter Sperandio, Zezé Franco, dona Terezinha, Izaura, Sílvio Marchi, Joaquim Pompílio, Romualdo Galvani, Tokiko Yamamoto, Marly Queiroz, Irene Jacobs, Jorge Chain Rezeke, seu Zezé e no centro a própria dona Severina,
8.     Com a nora Vera Lúcia,
9.     Severina Alves dos Santos.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012


Floradas na Terra


  As flores são responsáveis por grande parte do colorido do mundo.
 E é muito raro encontrar alguém que não admire a beleza de uma flor. O encantamento que ela nos transmite independe de religião, de raça, de classe social, de cultura, de origem da pessoa. E também não importa o sexo nem idade. Todos admiram uma bela flor.
   Há flores que são tão amadas em certos países, que se tornaram  símbolos deles.                                                                              
   No Brasil, a flor símbolo é, sem dúvida nenhuma, o ipê. O ipê é uma árvore silvestre e dá flores de diversas cores: branco, rosa, roxo, amarelo. Como as cores nacionais são o verde e o amarelo, o ipê amarelo é considerado a árvore-símbolo do nosso país. E um ipê todo carregado de flores no meio de uma paisagem, no pasto, entre outras árvores é sempre deslumbrante. E a cor amarela é quente, vibrante, e parece transmitir uma energia sem par.

 O hibisco, de flores grandes e coloridas existe em mais de mil variedades. Ele nos lembra sempre as dançarinas havaianas, requebrando-se cheias de alegria, na sua dança hula-hula. É uma flor de existência curtíssima, pois dura um dia apenas, mas a natureza nos compensa com floradas durante o ano todo.

     O crisântemo é a flor-símbolo do Império Japonês.                        
  É a logomarca do milenar Mikado. E ele se desenvolve bem naquele país, por causa do clima frio, e mais ainda, pelos cuidados que os japoneses dispensam às flores e à natureza.
 Embora essa seja a flor que identifique os Imperadores, a flor que mais nos lembra o Japão é o sakurá, a flor da cerejeira. Os nipônicos amam o sakurá. São árvores grandes, que florescem na Primavera, em meados de março e abril, e suas flores têm existência brevíssima, pois caem com um dia de existência. Esta é a razão porque, os haikaístas sempre comparam a flor de sakurá com a existência humana, que é tão efêmera também.

 A florada das cerejeiras anuncia sempre a chegada da Primavera no Japão.  É costume entre os japoneses fazer o “hanami”, que é apreciar as cerejeiras floridas, fazendo um piquenique debaixo delas. Já é um hábito nacional, porque todos os japoneses curtem as flores do sakurá.
   Sobre o sakurá existe uma história lindíssima, que ocorreu em  Hiroshima, após a destruição pela bomba atômica. No pós-guerra, quando tudo faltava, e faltava até coragem para reconstruir a cidade  que tinha desaparecido, um dos moradores descobriu uma cerejeira toda quebrada, sob os escombros. Mesmo com os galhos soterrados, a árvore encontrara forças para florescer. Um dos galhos exibia no meio da sujeira e da destruição, a beleza ímpar de suas flores. E todos os sobreviventes da bomba entenderam que, aquela era uma mensagem de Deus, para que pelejassem e superassem o momento difícil que estavam vivendo. E foi assim que, Hiroshima renasceu das cinzas.

   Outra flor surpreendente é a flor de lótus.
  O lótus é uma planta aquática, que fornece raízes comestíveis. E se desenvolve somente no barro. As folhas e as flores surgem na superfície, e são muito belas. Há uma lenda que liga o nascimento de Buda com a flor de lótus. 
No Budismo, as imagens dos santos sempre seguram uma flor de lótus. Essa flor simboliza a pureza que brota mesmo em ambientes adversos. Simboliza também o renascimento após a morte.  Por isso, é usada pelos japoneses nos cumprimentos e homenagens aos falecidos, como nos envelopes e ou mimos de agradecimento, pelo comparecimento ao funeral ou missa.

  Uma flor muito comum nessa época do ano é a acácia imperial, que dá cachos deslumbrantes de flores amarelas. As flores pendem de um fio longo, que chega até a um metro de extensão. Parecem arandelas vivas, pendendo dos galhos da árvore. Essas flores fazem a alegria dos arapuás, e de outros insetos que colhem o pólen e o mel. E têm um perfume suave e muito agradável. Tenho uns pés no sítio, e todos os anos elas florescem duas a três vezes, e é um espetáculo de beleza. Essa flor se tornou o símbolo dos maçons, porque representa a verdadeira iniciação para a vida futura.

Uma flor delicada que já provocou guerras entre a Inglaterra e a China foi a papoula.
 A papoula possui uma cápsula que contém as sementes. Da cápsula madura extrai-se uma substância, que depois de processada se transforma em ópio. Um dos componentes do ópio é a morfina, que possui poder depressor, que faz o cérebro funcionar devagar. O ópio, usado como droga e como remédio, foi muito disputado entre as potências inglesas e chinesas, provocando até duas guerras entre essas nações.

Não poderia deixar de falar da rainha das flores, a Rosa.
 Esta é uma planta tropical, que gosta muito de sol e floresce o ano inteiro. Hoje com os cruzamentos feitos pelo homem, há uma variedade infinita de rosas miúdas, comuns, imensas, especiais. Todas são muito belas e exalam um perfume magnífico. Há rosas brancas, amarelas, cor de rosa, alaranjadas, vermelhas, lilases, mistas. A maioria possui espinhos, que as protegem de predadores.
Elas são as campeãs do gosto popular para ramalhetes.
As flores são belas, coloridas, cheirosas, enfeitam ambientes, agradam as pessoas, alimentam colibris, abelhas e borboletas e ainda têm a missão de formar as futuras sementes, para garantir a continuação da espécie.
Não é demais dizer que elas são uma das obras mais perfeitas de Deus.

Mirandópolis, novembro de 2012.
kimie oku in “cronicasdekimie.blogspot.com”

quarta-feira, 28 de novembro de 2012


            

Cirandando pela 25ª vez

    

Na sexta-feira última, 23 de novembro realizamos o último Encontro de 2012 da Ciranda.
A tarde estava bonita, mas muito, muito quente, o que fez alguns cirandeiros faltarem à festa.
Mas, na Chácara do seu Albertino Prando estava melhor do que na cidade, porque em ambientes abertos no campo, corre mais vento e refresca mais                                                            
Apesar do calor, os amigos foram chegando, trazendo uns refrigerantes e uns salgados, para o lanche da tarde.
A novidade e surpresa do dia foi a presença da senhora dona Severina Alves dos Santos, de 92 aninhos, que compareceu para rever os amigos.
Dona Severina trabalhou no CENE, como servente faxineira durante  trinta e dois anos, e conheceu todos os alunos e professores, que por lá passaram durante esse período.
Todos os ex-alunos e ex-professores fizeram muita festa ao reencontrá-la. Ela se distraiu bastante, relembrando os tempos passados na escola, com os amigos que se encantaram com a sua prodigiosa memória.
Também compareceram as senhoras Júlia Valverde e dona Zorides Carvalho de Oliveira, que gostaram da reunião e prometeram voltar.
A tarde foi de muita cantoria, animada pela sanfona de seu Albertino e o pandeiro do Toninho. Muita conversa, troca de notícias e curtição de saudades.

Foi servido um lanche reforçado, panetone e refrigerante para todos.        
Para finalizar, a Kimie comunicou o falecimento de duas cirandeiras: a dona Maria Menegatti, ocorrida em outubro e a Lourdinha Codonho há duas semanas. Como o grupo é de idosos, essas ocorrências irão acontecendo com o passar do tempo.


Então, o melhor é viver cada dia com alegria, cirandando sempre.
E em 2013 teremos mais, se Deus quiser!

Mirandópolis, novembro de 2012.
Kimie oku in “cronicasdekimie.blogspot.com”



quinta-feira, 22 de novembro de 2012


     

                    Chocolate

14 de fevereiro, Dia de São Valentim é uma das datas mais comemoradas no Japão, na Coréia do Sul e em Taiwan.
Nesse dia, as mulheres dão chocolates de presente aos namorados.
Isso já virou tradição nesses países, e os homens aguardam os seus pacotes de doces, para comemorarem a relação do casal.
E um mês mais tarde, no White Day, as mulheres recebem presentes dos namorados, em retribuição aos chocolates ganhos. Presentes que, necessariamente não precisam ser chocolates.
Mas, a data de São Valentim mobiliza toda a indústria chocolateira  oriental, para criar os mais doces e belos presentes.
Acredito que não há um presente mais delicioso para se comemorar o dia dos Namorados que o chocolate. O chocolate é doce, e agrada a maioria das pessoas, conseguindo quase a unanimidade no mundo.
Hoje, o chocolate é consumido em todos os cantos do planeta.
Mas, como começou isso?
A grande revolução na indústria confeiteira foi, sem dúvida, a descoberta do cacau.
É do cacau que se extrai o chocolate, que é consumido na atualidade como doce, como bebida, como remédio.                            
Há uma história lendária que explica a aparição do chocolate.
Entre os índios Astecas do México, conta-se que o Deus da Lua Quetzalcóalt roubou dos deuses as sementes do cacau, e as ofereceu de presente aos humanos, para lhes proporcionar energia e prazer. Com as sementes, os astecas fabricaram uma bebida, que era consumida em taças de ouro, em rituais religiosos.
Os índios Maias da América Central também a consumiam como a bebida dos deuses.                                                  
Quando os espanhóis chegaram à América, as sementes de cacau eram usadas como moedas pelos astecas. Serviam para trocar qualquer coisa. Mas, o que impressionou o conquistador espanhol Fernão Cortez foi a bebida de chocolate amargo e apimentado, que o Imperador asteca Montezuma lhe ofertou, pensando que era um Deus, devido à extravagância de suas vestes e por estar montado num cavalo. Cortez percebeu que, o chocolate dava uma vitalidade impressionante aos índios, que nem precisavam de outro alimento para suas jornadas de caçada.
 Então, Cortez levou as sementes para a Espanha, e logo o cacau se espalhou pela Europa.
O botânico sueco Lineu, que viveu há uns 250 anos e consagrou a vida no estudo das plantas, ao conhecer o cacau, deu-lhe o nome de “Theobroma cacao”, ou Maná dos deuses.
No Brasil, o cacaueiro encontrou um ambiente propício para seu desenvolvimento nas terras úmidas do sul da Bahia, onde marcou época com os coronéis do cacau, dos anos 60 a 80. Essa sociedade cacaueira foi descrita magistralmente por Jorge Amado, nos romances “O país do cacau” e “Terras do sem fim”.
O chocolate é extraído da semente do cacau, que é fermentada, torrada e moída. É um pó amargo, a que acrescentaram açúcar e leite e conseguiram assim, transformar radicalmente a indústria doceira no mundo.
E logo, logo, surgiram Casas de Chocolate na Europa, onde a elite se reunia para tomar o chocolate quente e comer o lanche da tarde. As Casas de Chocolate vieram competir com as Casas de Chá e as Casas de Café.
E então, o “tchocolatl” como era denominado entre as civilizações pré-colombianas, virou moda no mundo inteiro, sendo consumido atualmente como doce, creme, pasta, pó, bolo, bebida e até como remédio.
Lembro que, há mais de três décadas atrás, viajando com a família por Minas, os meus filhos, crianças ainda, sofriam muito com as estradas tortuosas nas montanhas mineiras, e nada parava em seus estômagos. Um dia, visitando uma famosa fábrica de chocolates em Vila Velha, Espírito Santo, descobrimos que  o chocolate era o único alimento que os sustentava, e lhes dava resistência contra os enjôos de viagem.  Salvou o nosso passeio.
E dizem que, além de revigorar e dar muita energia, ainda o chocolate é estimulante, e serve como afrodisíaco.
O chocolate já serviu de motivação para filmes famosos, como “A fantástica fábrica de chocolate” – de 1971, que virou cult dos cinéfilos. No Brasil, o chocolate foi tema de novelas, como em “Chocolate com Pimenta”, e das novelas “Gabriela” e “Renascer”, que retrataram a sociedade cacaueira tão poderosa, que marcou época no Brasil há algumas décadas atrás.
O maior produtor de cacau hoje é a Costa do Marfim, na África, que tem na floresta úmida e quente, o ambiente adequado para o desenvolvimento do cacaueiro.                                               
Atualmente, se não existisse chocolate, como seriam feitos os ovos de Páscoa, que fazem a felicidade da criançada? Conheci um garoto tão inocente, que ao se deleitar com um ovo de chocolate, pediu para a mãe lhe comprar a galinha que botava ovos tão deliciosos... E os produtores de alimentos não resistem à tentação de colocar um pouco de chocolate em todos os doces. Até os mestres de confecção de pães usam e abusam do chocolate. E a combinação perfeita foi chocolate com leite, sem dúvida.
Mas, o grande lance foi a invenção de bebidas usando-se chocolate. Álcool e cacau dão um toque especial e caem muito bem.      
Que tal então, saborear uma taça de amarula ou um licor de creme de cacau ?

Mirandópolis, novembro de 2012
Kimie oku in “cronicasdekimie.blogspot.com”

segunda-feira, 19 de novembro de 2012


Bandeira do Brasil

                              
Bandeira do Brasil,
Ninguém te manchará.
Teu povo varonil                        
isso não consentirá.
Bandeira idolatrada
altiva a tremular,
onde a liberdade
é  mais uma estrela a brilhar.

Esta é parte da canção “Fibra de Herói“, escrita por Teófilo de Barros Filho e musicada por Guerra Peixe em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. Foi cantada por Sílvio Caldas e adotada pela Infantaria como seu hino.
Quando professora nos anos 70, ensinei e cantei muito com as crianças nas escolas.
Naqueles tempos duros, parece que o sentimento de brasilidade era outro, as pessoas cultivavam um amor e um respeito pela Pátria com fervor, e o povo tinha muito orgulho de ser brasileiro.
Todos sabiam cantar o Hino Nacional, em postura de respeito, com emoção de verdade. Ninguém cantava o nosso Hino de chapéu na cabeça, sentado, agachado ou mascando chicletes.
 E todos sabiam cantar o “Salve lindo pendão da esperança, Salve símbolo augusto da paz”, que é o Hino em louvor à Bandeira Brasileira. Em desfiles nas datas comemorativas, carregar a Bandeira era uma honra muito disputada pelos estudantes.
  E qualquer brasileiro de minha geração tem na memória, a diferença que fez o verde-amarelo na “Campanha das Diretas já”, com os  jovens de caras pintadas pedindo as eleições, para restabelecer a Democracia roubada pelos militares, que impuseram a Ditadura.
 Foi quando a Bandeira brasileira virou uma marca, um agasalho, circulando aos milhares no meio da multidão, transformando-se num troféu do povo. Foi um tempo de recuperação do sentimento de brasilidade, que todos sentiram na pele. Nunca um movimento político conseguiu unir tantos cidadãos, que foram às ruas, gritar o inconformismo com a situação econômica e política do país. Pobres, ricos, sábios, analfabetos, intelectuais, políticos, religiosos, todos se irmanaram para resgatar o direito ao voto direto. 

A força da Bandeira fez a diferença, porque despertou os brasileiros adormecidos no regime de Ditadura, que mandava e desmandava no país. E o grito de guerra foi: “Um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos eleger o Presidente do Brasil”.
O voto direto foi assim recuperado.

Uma década mais tarde, o povo comandado por estudantes secundaristas e universitários saiu às ruas num mesmo movimento, pedindo o Impeachment do Presidente, que desgovernou o Brasil, refém que foi de grupos poderosos, que o haviam apoiado durante a campanha eleitoral.
Novamente, os jovens de caras pintadas de verde-amarelo saíram aos milhares e num uníssono gritaram: “Fora, Collor!”.
         E o Presidente caiu.

        Em várias ocasiões, tivemos momentos de pura emoção, quando Ayrton Senna, o eterno ídolo da Fórmula 1 carregava a Bandeira brasileira na volta triunfal, nas pistas de tantos autódromos  do mundo. E isso, não foi uma vez apenas, foram dezenas de vezes, que levaram o povo brasileiro ao delírio. Tanto é que ele, mesmo após 18 anos de falecido, ainda tem fã-clube em vários países. 
                                     
         Também o Guga foi responsável pelo despertar de patriotismo em nossos corações, quando vencia as partidas de tênis, em famosas quadras internacionais. Muitas alegrias nos proporcionou esse tenista gaúcho.
        
         Nosso futebol fazendo bonito nas Copas do Mundo, o basquete nos Jogos Pan-americanos, o judô nas Olimpíadas foram outros momentos de glória, onde o pendão verde-amarelo esteve sempre tremulando e, enchendo nossos corações de orgulho.
        E nesse dia 19 de novembro de 2012, fico matutando aqui comigo, se não será necessário mais um movimento semelhante, para despertar consciências, e resolver de vez a questão do mensalão.
         Exigindo a devolução de tudo que os corruptos políticos roubaram.
E cadeia pra eles!

Mirandópolis, 19 de novembro de 2012.
kimie oku in “cronicasdekimie.blogspot.com”

quarta-feira, 14 de novembro de 2012


Um Domingo Em Mirandópolis
          Sete horas da manhã. Os sinos repicam chamando para a missa. Os garotos se divertem na torre da igreja, pois as cordas presas aos sinos os elevam e abaixam. As famílias saem de suas casas, vestidas com suas melhores roupas. É um acontecimento  mais social que religioso.
 A igreja fica lotada, Mirandópolis em peso está presente. O burburinho dos cumprimentos vai cessando. O padre já está à frente do altar: Padre Epifânio Ibãnez, espanhol, bravo, verdadeiro sargentão.  Tenho certeza que o Diabo sempre passou longe daquela paróquia. Sidnei e Milton Crevelaro coroinhas, imaginem só. Se uma criança chora, Padre Epifânio interrompe a missa e, sem nenhuma sutileza, com aquele sotaque forte do espanhol,  pede para que a mãe saia e vá embalar a criança lá fora.  Se percebe alguma mulher com uma blusa sem manga, manda-a para casa, se vestir, pois a Igreja não aceita pessoas nuas.   Missa demorada, sermão longo... E a gente querendo sair logo para o futebol na rua São João.
          Hora do almoço, a cidade fica deserta. Ouve-se o bater das louças, o tilintar dos copos, as conversas, os risos. As famílias estão  reunidas em casa, para a tradicional macarronada. Nada de comer em restaurante... Nem existia, só pensão para os viajantes. Nada de comida por quilo, churrasco então, só nos casamentos. Em uma ou  outra casa um radinho ligado, o latido dos cães, um irmão xingando o outro porque pegou seu bife.
          Duas horas da tarde, hora da matinê, no cine São Jorge, de propriedade do Jorge Nametala Nars e depois de João Ferratone. Onde trabalhei como varredor, espanador das 930 cadeiras, lavador dos banheiros e carregador das placas que ficavam nas esquinas das ruas com o nome dos filmes do dia, isto quando também não tinha de ir buscar os rolos de filmes que vinham de trem. O gerente era Pedro Romero, filho do senhor Romero do carroção de lixo, outro espanhol, casca grossa... Gente, será que... Bom deixa prá lá... O Kaká foi bem recebido. Ele ia pelos corredores, passando os dedos nas cadeiras para ver se tinham sido espanadas. Mal sabia que eu só espanava as cadeiras dos corredores...
          Enquanto não se iniciava a sessão do cinema, tocando a música que falava: como os pobres de Paris, que era o que chamávamos de prefixo, os meninos, na porta do cinema, trocavam gibis: Zorro, Tarzan, Mandrake, Pato Donald,  capitão Marvel, Super Homem, Capitão América, Fantasma.... Um Almanaque valia quatro gibis simples. Também jogavam “bafo” e trocavam figurinhas de futebol. As carimbadas eram:  Baltazar, Luizinho, Leônidas, Oberdã, Gilmar, Canhoteiro... E  valiam três ou quatro das outras.
Como havia engraxates... Também pudera, só  se usava  “kedis” para fazer Educação Física. Hoje se usa tênis até de terno. Além do sapato calçavam-se botinões e botas de cano longo, os mais pobres usavam alpargatas Rodas, o popular “pé de cachorro”.   Às vezes surgia uma briga aqui, outra acolá que não eram apartadas, eram incentivadas pelos outros meninos. Xingar de FDP podia, mas chamar de Xibungo era comprar briga na certa. E agora, eles têm até passeata na Paulista... Vai entender.
          Os filmes da matinê eram quase sempre de índios ou comédias com Jerry Lewis. Quando a cavalaria ou o “mocinho” aparecia, o cinema virava um pandemônio, eram gritos, palmas e uma bateção de pés no chão que se ouvia lá de fora, na rua.   Após o filme tinha o seriado, que era apresentado em capítulos, todo domingo. Os seriados  mais famosos foram os do Zorro, do Tarzan e do Fu-Manchu. Terminada a matinê, eu tinha de varrer rapidamente o cinema, porque no domingo tinha sessão dupla à noite, principalmente se era filme do Mazzaropi. O Silvio  Tavares e o Alcides Espirito Santo me ajudavam.
          Já adolescente, jogando no time do Paulistinha, ficava sentado na grama do jardim, em frente ao cinema e ao bar Kibon, juntamente com outros jogadores, vendo esta movimentação da qual já tinha participado, e esperando a hora de descermos para o estádio. 
 Num determinado domingo, estávamos lá, “moscando”, como se costumava dizer:  eu, Moacir Inforzato, Pim, Nata, Josué Bucheiro, Bisteca, Zé Martins, Didier, Cabinho, Paraguaizinho, Gambá, Xepa, Toco, entre outros, quando vimos o Vardo Cascudo e o Zé Antonio virarem a esquina, vindos da Rua São João e se dirigirem para o cinema. A sessão já havia sido iniciada. Eles passaram direto pela frente do cinema, e foram para um terreno vazio, que ficava entre o bar Kibon e a lateral do cinema, os banheiros. Sabíamos o que ia acontecer, já tínhamos presenciado muitos garotos entrarem pelos vitrôs dos banheiros para assistirem aos filmes. Éramos cúmplices, nunca falamos nada.

          O Vardo Cascudo foi o primeiro, passou e pulou para dentro. O Zé Antonio passou as pernas, o corpo, e a cabeça ficou presa. Nem pra frente, nem pra trás. O Vardo puxava, e nada.  Não agüentamos... Começamos a rir, a gritar, a vaiar, a fazer a maior algazarra. Pessoas dos outros cantos da praça vieram ver o motivo da bagunça. E o Zé Antonio esperneando, o Vardo voltou, puxava agora pela cabeça e, nada. E nós de cúmplices passamos a delatores, pois o senhor João Ferratone, ao ouvir aquele barulho todo, saiu para ver o que acontecia. Foi até ao vitrô, ele era grande, forte, puxou e “desenroscou” a cabeça do Zé. Tirou-o, deu-lhe um cascudo e,  tanto o Vardo quanto o Zé saíram correndo debaixo de vaias e gargalhadas. 
          Descemos para o estádio, rindo, comentando, tínhamos ganho o Domingo. À noite, voltaríamos ao cinema para assistir “Casinha Pequenina”, com Mazzaropi.
         Ademar Bispo

Finados



Nós, os vivos, temos o hábito de cultuar os mortos da família, desde os primórdios dos tempos.
É um costume que vem de gerações e gerações, e tem a ver com o lado espiritual dos humanos. Porque os animais não têm esse costume.
Ao longo da História, a humanidade construiu templos, sinagogas, pagodes para realizar esses cultos de forma mais organizada e contínua.
Mesmo as tribos que vivem no oco das florestas têm esse hábito. De alguma forma, elas reverenciam os antepassados, às vezes em forma de totens, de máscaras, de cerimônias e rituais religiosos, que compreendem danças e cânticos...
No mundo atual, nós comparecemos ao cemitério, levando flores, velas e incensos. E acho que esse costume não desaparecerá, mesmo com todo o avanço da civilização. É que a morte é um enigma difícil de entender e desvendar, e mexe com a nossa inteligência e com a nossa alma.
A celebração para os mortos, que mais se evidencia no mundo de hoje, acho que é El Dia de Los Muertos do México, um festival de origem indígena, considerado Obra Maestra do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade, pela Unesco.
O que mais se destaca nessa celebração é o sentido dado aos mortos, que são tratados como vivos, e é uma festa alegre, com peças teatrais e canções populares, para saudar a todos os finados. As lojas são enfeitadas com manequins de caveiras vestidas e ornamentadas, doces são fabricados em formas de crânios e colocados sobre as lápides, onde repousam os mortos. A crença popular é que nesse dia, os mortos têm autorização para visitar os familiares que deixaram na Terra. Por isso são recebidos com muita festa, muita alegria que se manifesta em danças, cânticos, mesa farta, doces e enfeites nas casas.

Muitos desses costumes foram copiados e adotados por povos de diversas partes do mundo, especialmente na Europa.
No Japão, o Bom Odori (dança para os mortos) que no Brasil virou sinônimo de festa, é uma manifestação popular de origem budista, para dar as boas vindas aos espíritos dos mortos, que têm três dias ao ano para revisitar os vivos.
  No Obon, é tradição nas cidades do Japão, as famílias irem ao cemitério, limpar os túmulos e fazer oferendas de flores, frutas e bolinhos de arroz, além de orações, velas e incensos. Monges realizam cerimônias especiais nos templos, em memória dos mortos.
 Este costume está bem arraigado nas famílias, que passam parte do tempo preparando as cerimônias para os antepassados, em dias que antecedem a data.  Durante esse período, que é um dos grandes feriados no país inteiro, as pessoas retornam aos seus vilarejos, para fazerem essa visita aos túmulos de seus ancestrais, e aproveitam para rever os parentes que ficaram no lugar. 
E na ultima noite, existe uma cerimônia muito bonita com danças alegres, “odori”, que ocorre nas ruas. As músicas tradicionais mais conhecidas são cantadas ao som do “taikô” ou tambor e de flautas de bambu, ou “shakuhachi”. Tudo é muito festivo, porque é uma homenagem às pessoas que já partiram desse mundo, que já cumpriram o seu destino, a sua missão.
E para finalizar as cerimônias, há uma sessão de orações, e o lançamento de velas em barquinhas de papel nas águas dos rios, para iluminar os caminhos dos visitantes, em sua volta para o mundo dos mortos.
Muitas dessas tradições foram trazidas pelos imigrantes japoneses ao Brasil. O que mais intrigou os brasileiros é a oferenda de comida (frutas, doces, arroz cozido e água) que os japoneses faziam sobre os túmulos de seus mortos. Esse costume remonta aos primórdios dos tempos, quando o país passou por terríveis crises, e incontáveis nipônicos morreram de fome. De fome mesmo, por falta de arroz, literalmente.
Se os brasileiros estranharam essa tradição japonesa, mais deve se estranhar o que ocorre à porta dos cemitérios, hoje em dia. O espaço diante dos portões, que conduzem ao campo santo, foi totalmente ocupado por uma feira a céu aberto.
 Ali são vendidas além de flores e velas, que são apropriadas para o momento, sorvetes, refrigerantes, talhadas de melancias, e outros que tais. Toda vez que vejo essa cena de ambulantes à porta dos campos santos, me vem à lembrança a cena de Jesus expulsando os vendilhões do Templo.
Lembro também que, o local já foi usado por candidatos políticos para  suas campanhas, oferecendo água aos romeiros. Se não era campanha política, por que não continuaram ofertando água de graça aos visitantes, nos anos subseqüentes?
E olhem que fez um calor danado nesse Finados, e uma água  mineral geladinha ia calhar bem...
Mas, não houve 2º Turno dessa vez...

Mirandópolis, novembro de 2012.
kimie oku in “cronicasdekimie.blogspot.com”