segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016


Escorpiões


           Um susto imenso.
           Um escorpião andando em minha casa.                      Tranquilamente.  Foi nesta semana. 
           E a minha casa e o quintal são varridos todos os dias.
Como apareceu aqui? O que há de errado no meu quintal? Será que há outros? De onde veio? É a espécie venenosa?
De repente, um pânico!
Calma, calma, calma. Não adianta se apavorar. É apenas um bichinho meio vermelho que se arrasta pela terra, pelo chão, pelas troncos das árvores, pelos telhados, pelas janelas, pelas paredes...
E aí fui pro Google em busca de informações: Se escondem entre tijolos, telhas e pedras, tábuas   empilhadas no quintal. E no meio das quiçaças... Daí a necessidade de se manter sempre limpo todo o espaço do quintal e terrenos não construídos ou casas desabitadas.
Descobri que escorpiões existem há mais de quatrocentos milhões de anos. São da classe dos aracnídeos e existem mais de mil e seiscentas espécies. São bichinhos resistentes e sobrevivem a temperaturas de 0º a 56º centígrados. Bichinho resistente!
Eles são carnívoros e se alimentam de pequenos insetos, aranhas e até de passarinhos, ratos e outros bichos menores... Dormem durante o dia e saem para caçar à noite. Possuem as quelíceras, ou presas que usam para dilacerar as presas. Mas, a arma mais poderosa está na sua cauda, que termina num aguilhão ou ferrão, por meio do qual ele inocula o veneno nas presas que caçam, para imobilizá-las. Seu veneno causa nos humanos dores muito fortes, pontadas, aceleração cardíaca e diminui a temperatura corporal. Conforme a resistência da vítima pode chegar à morte com esse veneno.
Todos os escorpiões são venenosos, mas só vinte e cinco espécies são mortais aos homens. Sua ferroada equivale a uma picada de um marimbondo. O tratamento é feito com a ingestão de anestésico e soro antiescorpiônico, e deve ser feito em unidade hospitalar.
Seus maiores predadores são o sapo e a galinha de Angola, aquela ave estranha cinzenta, de cabeça pequenina, que grita o dia todo “To fraco! To fraco!” Que de fraco nada têm. Dizem que é o melhor meio de acabar com os escorpiões. Mas, criar sapos? Galinhas de Angola? Nos sítios, até daria certo, mas na cidade....
Pelo Google descobri que, há um grupo de moradores de um condomínio do Bairro Morumbi em São Paulo que, saem à noite para caçar os escorpiões. Elas se armam de botas, pegadores de macarrão e lanternas e vão combater os bichos. Dizem que a quantidade tem aumentado de ano para ano...
Se fosse na China, haveria um mercado para esses bichinhos que são consumidos como aperitivos por lá. E vi um vídeo de um escaravelho que trava um duro combate e, consegue decepar a cauda onde se localiza o ferrão. Cultivar escaravelhos?
O escorpião já foi tema de bandas musicais, de canções, de filmes, de livros. A canção Mulher Escorpião faz muito sucesso no Japão, pois ela é cantada por um homem gay travestido de mulher muito elegante e famosa. E existe até uma constelação no céu chamada Escorpião, porque tem uma forma que lembra esse bicho.

Mas, apesar de compêndios e cantores que louvam os escorpiões, sinto uma enorme repulsa por esse inseto, com seu aguilhão ameaçador, que vai entrando sorrateiramente nas botas e nos cantos escuros das casas, para pegar suas presas.
Um tempo atrás, peguei um desses bichinhos e levei ao Departamento da Prefeitura, para ver a destinação dele e receber orientações sobre como combatê-los. E fiquei muito decepcionada. Os funcionários lá presentes não deram importância, e voltei menos informada do que fui. Eles nem estavam querendo ficar com o escorpião, não fizeram nada para direcionar uma pesquisa sobre a infestação, não perguntaram em que bairro eu moro...
Fiquei matutando sobre a atitude deles...
E cheguei à triste conclusão que, ninguém leva a sério o seu trabalho, a sua função. Só querem assinar o ponto e receber o seu cacau no fim do mês. É por isso que, o aedes egypti se multiplica a olhos vistos, porque ninguém quer combatê-lo. Se eles acabarem, acaba o serviço de visitar as casas. Que o mundo se dane! Triste Verdade!
Infelizmente, o ser humano só pensa em dinheiro. Pouco está se importando se os caramujos nojentos estão invadindo todos os jardins, que os mosquitos matem centenas ou milhares de vítimas de dengue, que os escorpiões causem mortes de trabalhadores...

Ele só se importará quando a desgraça acontecer em sua casa, com sua família, com seus filhos, pais e agregados...
O homem é um bicho totalmente burro, cego, egoísta, irresponsável.
     Salvo raras e honrosas exceções.
E vai um escorpião aí? Frito? Assado? Cru?
Mirandópolis, janeiro de 2016.
kimie oku in

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

                                                                                                                                                                                 A Ciranda continua

Novo ano, nova vida.

As férias se foram, as festas acabaram e a vida segue sua rotina. E o calor voltou com força total nesse Verão.
Então, voltamos a cirandar.
Porque é preciso cultivar amizades, que dão sabor à vida. E cuidar de quem vive muito sozinho.
Foi na última sexta-feira, na Chácara Prando.
Apesar do mormaço, das temperaturas elevadas, compareceu a maioria. Porque curtir a companhia de amigos não tem preço.
A novidade foi a presença de Regina Mustafa, que é a
Diretora da Escola APAE local e, promotora de eventos em benefício de entidades como o Hospital de Câncer de Barretos. É uma pessoa muito respeitada e sobretudo querida por todos. Sua presença deu um brilho maior à reunião.
     Alguns membros do Asilo local compareceram também, como tem acontecido ultimamente. Para os internos  comparecer à   Ciranda sempre é uma festa. E eles animam mais a tarde.
     Depois de colocar a conversa em dia após dois meses sem encontro, foi servido o lanche e logo depois começou a cantoria. Havia dois sanfoneiros e dois violeiros que suaram as camisas acompanhando os cantores.
     Durante uma pausa, o seu Orlandinho declamou seus poemas e a Vina cantou “Chão de Estrelas” e “Creio em Ti”, sendo bastante aplaudidos.
     À tarde, começou a soprar um vento fresquinho e ficou muito agradável. As pessoas dançavam, cantavam, se abraçavam e posavam para fotos.
Foi uma tarde maravilhosa.
Cirandar é muito bom.



Mirandópolis, janeiro de 2016.
kimie oku in




terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Boys, be ambitious!

Essa frase é famosa no mundo inteiro e foi dita por um Professor americano.
 Há mais de duzentos anos, o Japão pelejava para melhorar a produção agrícola, a fim de atender às necessidades de sua população que crescia sem parar.
Para tal fim, o Governo de Saporoo, Hokkaido instalou uma Escola Agrícola para formar técnicos, que orientassem melhor os lavradores da região. Ora, Hokkaido é a porção extrema Norte do País, e é uma ilha que sofre temperaturas rigorosíssimas de até 40 graus negativos. E a vida se torna quase impossível.
 Mas, a Escola foi instalada e, dentre os Professores foi contratado Dr. Willian Smith Clark, Professor de Botânica e Zoologia, que era o 3º Presidente da Escola Agrícola de Massachusetts, dos Estados Unidos.
 É evidente que deve ter sido difícil a comunicação entre o Professor e alunos, mas durante oito meses todos se empenharam e conseguiram chegar a excelentes resultados. Dentre os formandos houve quem desenvolveria técnicas para fertilizar ovas de salmão, multiplicando com sucesso sua produção. Salmão, o peixe de carne vermelha, que atualmente é apreciada no mundo inteiro em forma de sashimi. Outros alunos partiram para a pesquisa do petróleo, que viria a mudar radicalmente a indústria de automotores. Petróleo que viria a revolucionar a história da humanidade.
As novidades introduzidas pelo Professor Clark foram tão importantes para a economia de Hokkaido, que em sua homenagem há várias estátuas suas espalhadas pela Província, demonstrando assim a gratidão do povo japonês. Para nunca mais esquecê-lo, por ter salvo a cultura agrícola, pastoril e pesqueira de Hokkaido.
A antiga Escola Agrícola hoje é a famosa e mui conceituada Universidade de Hokkaido, que além dos Cursos voltados à Agronomia, Pecuária, Pesca, Meio Ambiente, Veterinária e Zoologia, ainda oferece outros na área de Medicina e Saúde, Arquitetura, Informática e Direito.
Os ensinamentos e a postura do Professor foram tão marcantes, que mesmo sem querer mudariam a vida de muitos jovens alunos seus. Alguns, impressionados pela retidão de seu comportamento adotaram a religião cristã que ele seguia, além de abolir hábitos nocivos à saúde como o consumo do álcool. Muitos o elegeram como um exemplo a seguir em suas vidas.
Quando seu tempo se esgotou, o Professor Clark voltou para a América. E essa despedida foi marcada por dois fatos interessantes. Todos os seus alunos montados em cavalos acompanharam-no solenemente até o local da despedida final. Então ao se despedir dos alunos, o Professor proferiu a derradeira frase: “Boys, be ambitious!” ou seja, “Jovens, sejam ambiciosos!
“Boys, be ambitious!”
Não era um chamado para a ganância, para a ambição desmedida de acumular bens materiais. Era no sentido de perseguir um sonho, e realizar algo em benefício da humanidade. Foi assim que os alunos interpretaram essa mensagem. E a frase ficou célebre e conhecida em todo o Japão. E muitas   vidas se transformaram graças a essa pequena frase, conduzindo estudantes para os mais nobres objetivos. Muito se escreveu sobre essa frase, e muita gente saiu da inércia graças a esse chamado, mudando totalmente sua forma de encarar os desafios da vida.
Jovens, sejam ambiciosos!
Infelizmente, hoje muitos jovens estão totalmente perdidos na flor da idade. Nada fazem e só pensam em beber, andar de carros importados, levar vantagem em tudo. Sem contar com os mortos vivos dos becos de fumo...
O que aconteceu com a humanidade?
Por que jovens promissores estão cada vez mais se drogando, como se a anfetamina fosse a substituição de todos os sonhos, de todas as ilusões, de todas as ambições? E o terrível de tudo isso é que meninos muito inteligentes, que se julgam poderosos e invencíveis é que estão se perdendo cada vez mais para as drogas.  Exemplos tristes e lastimáveis foram o Fred Mercury, Raul Seixas, Cazuza e tantos outros... E crianças tão pequenas e inocentes estão sendo levadas para esses caminhos de perdição.
E é um caminho sem volta. A droga atua no cérebro da criatura e lhe rouba toda a força de vontade, transformando-a num robô ávido de mais veneno. E conforme vai se drogando, vai aniquilando sua saúde física, suas forças, deu alento. No final, acaba virando um saco vazio de tudo, um morto/vivo.
É desolador pensar que, passados menos de dois séculos da passagem do Professor Clark por Hokkaido, o mundo tenha se transformado assim. E não é só no Brasil. A desgraça de jovens perdidos ocorre no mundo todo, no Japão, na Índia, na China, no Oriente Médio, nos Estados Unidos, na América Latina...
No início dos tempos, a humanidade usou a religião para impor respeito e medo aos jovens. A Religião foi usada até a exaustão, com promessas de castigos inenarráveis punindo os transgressores, e premiando os crentes conformados. Mas, o tempo passou, os jovens evoluíram e não viram nada acontecer para os maus, para os que vivem à margem da lei. E muitas vezes assistiram a cidadãos honestos, cumpridores das leis, tementes a Deus serem punidos com tragédias dolorosas e inexplicáveis.
Então, aconteceu uma revolução no modo de pensar da juventude. Cada jovem passou a querer usufruir do bom e do melhor, levando vantagens em tudo, chegando ao topo da escala social, para ficar inatingível.
E a Religião ficou totalmente desacreditada.
É que a Religião promete prêmios e castigos para o futuro. E os jovens são extremamente imediatistas. É o AQUI e AGORA que lhes interessa. Fora disso nada tem significado para os impacientes, ávidos de prazer e realização plena.
Entretanto, no afã de perseguir seus desejos imediatos, eles cruzaram com muitas porcarias inventadas por seus antecessores, como cigarro, narguilé, álcool, anfetaminas, cocaína e todas as suas variáveis. E esses jovens que nada temem, que se acham donos de seus destinos, se julgam invencíveis e são descrentes de DEUS, se perderam para sempre ao provarem de substâncias tão poderosas, que são ofertadas em todas as esquinas desse mundo.
E foi assim que a juventude se perdeu.
Irremediavelmente...
O que o Professor Clark diria aos jovens de hoje?
Be ambitious?
Seria pregar no deserto...
Entretanto, há ainda esperança no mundo.
Lá em Hokkaido, há uma Universidade que direciona os jovens para seus destinos através da pesquisa, do trabalho, da peleja diária em benefício da Humanidade.
E o lema dessa famosa Escola é
    “Boys, be ambitious!”
    Que desperte também mais jovens no mundo inteiro para a graça e a felicidade de viver.

    
      Be ambitious!

     Mirandópolis, janeiro de 2016.
kimie oku in



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

      Uma viagem surreal
        
        A noite passada tive um sonho estranho.
      Sonhei que viajava de ônibus pela estrada de terra para Tabajara, bairro distante do município de Lavínia. Meu destino era o sítio onde cresci e morei até minha adolescência, a uns quatro quilômetros antes de Tabajara.
        No ônibus havia apenas quatro passageiros, Noboru Sato um amigo de infância falecido há muito, uma mulher preta, um homem branco e eu, além do motorista que nem cheguei a vislumbrar.
     O sonho começa comigo dentro do ônibus (ou jardineira?) já chegando ao destino, numa das curvas do caminho. A estrada era de terra, então era cenário da minha infância, porque hoje a mesma está asfaltada. O Noboru que não consegui definir como era, estava se preparando para apear, numa curva antes de onde eu desceria. Acho que lhe pedi (não tenho certeza) para avisar ao motorista onde eu apearia, ou seja na curva seguinte... E comentamos que sobrariam apenas dois passageiros para prosseguir viagem.
E o sonho foi só isso.
Mas fiquei impressionada.
Não vi o ônibus parando, nem o amigo descendo, nem a minha figura chegando ao destino. Nem o ônibus seguindo adiante.
E o estranho é como explicar essa viagem para um lugar que não mais faz parte de minha vida. O sítio que antigamente tinha cafezais, terreiro para secar café, horta no brejo, um carreador estreito que fazia divisa com o sítio do Baiano, um cavalo branco chamado Brinco, algumas vacas no pasto perto de casa, um poço com água saborosa e uma casa simples e branca com janelas azuis, foi transformada num imenso pasto, reino do gado nelore de outras gentes. E quase nada mais resta daqueles tempos, nem o poço...
Lá só restaram o imenso bambuzal, que papai plantou há mais de setenta anos, o pé de guaivira, que nos forneceu tantos cabos retos de machado e enxadas... E algumas paredes da antiga casa, que virou pousada de gado... E de morcegos...
Nem sinal das duas seringueiras falsas de folhas redondas logo na entrada, do pé de limão galego, com que fizemos jarras e jarras de suco, dos pés de abacate, de manga Bourbon, espada, coração de boi, cujos frutos nos adoçaram a infância; dos pés de tangerina, mexerica, de laranja baiana tão sumarenta e doce! Do pé de amora junto à vasca de lavar roupa... E das fileiras de galpões de telha vermelha, onde gritavam sem parar, as brancas galinhas poedeiras...
Não entendi o meu sonho. O que me motivou para retornar ao passado, como se estivesse vivendo naquela época e viajando de jardineira, e descendo na reta, para caminhar a pé mais de um quilômetro de carreador para chegar até a casa? Para uma casa que nem era mais nossa? E o Noboru que só conheci moleque, porque depois eles se mudaram da vizinhança, e mais tarde acabou falecendo... Nunca mais o vi. E no sonho não consegui definir se éramos crianças, adolescentes ou adultos... Mas acho que éramos crianças, pois só o conheci nessa fase de sua vida.
Mas nada disso importa. O sonho foi um flash de vida vivida quando jovem. Aconteceu porque deve haver em mim, um desejo enrustido de voltar a viver tudo aquilo que vivi lá. Importa pensar que tenho um anelo, como a maioria das pessoas deve ter. O sonho de retornar à infância, de rever os lugares onde fomos felizes, onde reinamos com toda a inocência dos verdes anos... O sonho de resgatar um passado, onde tudo começou. Por isso, as imagens não eram nítidas e parecia uma imagem surreal...
Mas, retornar lá não tem mais sentido. O cenário é outro. Papai e mamãe já partiram para a morada definitiva, assim como um dos irmãos que tanto labutou naquelas terras. Os demais partiram para outras paragens e, levam uma vida completamente diversa, sem pensar em retornar ao passado, como eu.
Mas, eu tenho saudades... saudades.
Saudades das conversas ao pé do fogão de lenha sempre aceso, onde costumávamos assar  batata doce e espigas de milho verde... Da panela de ferro de onde retirávamos o arroz quentinho, do feijão cremoso no caldeirão vermelho de esmalte... Dos ovos fritos com fartura, porque tínhamos granja, dos queijos colocados ali perto para apurar, das linguiças de porco penduradas para defumar... Da bela e imensa mesa de madeira de pés torneados, que não levava toalha porque éramos tão pobres, onde se assentavam  todos(em bancos compridos) para as refeições... Do papai que ficava desenhando os ideogramas japoneses com as gotas de água,  que caiam das tampas (ai, como dói essa saudade!). Dos irmãos que comiam apressados para escaparem da mesa... Para irem chupar mexericas e tangerinas no pomar... Saudades das galinhas e dos pintainhos que ciscavam no quintal... Dos porcos famintos que gritavam pedindo milho... Dos cachorros que latiam anunciando visitas... Saudades das vozes, dos alaridos, da vida...
Saudades da lida na roça, onde nós crianças derriçávamos café maduro dos cafezais, que não acabavam nunca... Ou do terreiro, onde ficávamos rastelando pra lá, pra cá o café colhido para secar... Ou indo ao brejo com papai na Semana Santa para plantar alho, dente por dente... E plantávamos ervilhas... Que davam tantas vagens depois da florada de mimosas flores roxas, entre as folhas verde esbranquiçadas. Ervilha é uma planta elegante, frágil e muito linda. Sempre que consumo ervilhas em vagem, meu coração estremece de saudades do papai...
Saudades das colheitas de arroz. Mamãe comandava o trabalho. Havia uma espécie de jirau feito de ripas grossas, onde os feixes de arroz eram batidos para soltar os grãos dourados, que caiam sobre um encerado no chão. O arroz era plantado e colhido só para o consumo da família. Nunca faltou arroz em nossa mesa.
 Tudo era produzido pela família. Até frangos, ovos, leite e carne de porco. Era uma vida dura, feita só de trabalho e mais trabalho, mas a maioria das famílias era autossuficiente. Apenas o arroz e o café eram beneficiados nas máquinas da cidade. Beneficiar era retirar as cascas. O café era torrado e moído em casa, e o sabor era bem melhor. Torrar café não era brincadeira, uma quentura só! Ficar por horas rodando a torradeira preta, junto do fogão de tijolos improvisado no chão, debaixo das mangueiras... Fiz isso algumas vezes...
Não comprávamos legumes e verduras. Tudo era cultivado em casa. Lembro que o repolho era plantado no meio do cafezal e dava cada repolho imenso! Quiabo e tomate também eram plantados entre os pés de café. Lembro que consumíamos muita acelga fresquinha, que colhíamos ali no quintal. E alface repolhuda, de que comíamos só as folhas brancas... Tal era a fartura. E tomatinhos miúdos que eram usados para fazer molho, salada e tempero... E havia muita berinjela, vagem, cenoura, maxixe, jiló, mandioca, abobrinha, batata doce, batata inglesa e milho verde...
Éramos tão pobres em dinheiro, em roupa e em conforto, mas éramos ricos pela fartura de legumes, frutas e verduras, porque cultivávamos de tudo e trabalhávamos muito. Nem aos domingos descansávamos, porque era necessário retirar o leite das vacas para o consumo da família e, alimentar as galinhas da granja e recolher os ovos, e tratar dos porcos e das galinhas caipiras...
E tirar água do poço, porque era tudo assim rústico, bruto e no muque... E tínhamos que rodar o sarilho dezenas de vezes ao dia, para puxar a água do poço para a cozinha, para a lavagem de roupas e para os banhos... Ninguém desperdiçava água, porque não estava disponível em torneiras como hoje... E recolhíamos água de chuva das bicas dos telhados para lavar roupa. Era mais fácil que tirar do poço...A água de chuva é ótima para lavar os cabelos.
E as roupas eram lavadas sobre uma tábua, onde eram esfregadas com o sabão de soda, feito em casa com as vísceras dos porcos, que matávamos periodicamente, para o consumo de carne. O porco era castrado e colocado para engordar, para produzir a banha que era usada para cozinhar tudo. Não existia óleo vegetal ainda. E o dia da matança de porco era uma festa. Todos participavam com alegria, pois teríamos carne fresca e saborosa logo no almoço. E teríamos muita linguiça, que seria defumada junto ao fogão de lenha. E teríamos por uns dois meses, carne frita conservada em latas de dezoito litros dentro da banha de porco, que era o único jeito de conservá-la, porque ainda não existiam refrigeradores...
Rememorando o passado, percebo que nunca passamos fome nem sede. A comida sempre foi farta, embora fosse frugal, porque se constituía de muitos legumes e verduras. Mamãe fazia conservas de pepinos, de acelgas, nabos e mesmo que a horta estivesse sem produção, nós tínhamos legumes para consumir. Quando faltavam verduras, comíamos cambuquira refogada ou flores de abóbora feito tempurá. Cambuquira é broto novo de abóbora.  E comíamos muita mandioca cozida e frita. Ah! E consumimos muito broto de bambu, isto ocorria mais no final do ano, quando nasciam em profusão, por causa das chuvas.
E quando matávamos porco, levávamos um pedaço de carne especial para a vizinha dona Regina Pascoal, que retribuía da mesma forma quando matava seus porcos. Essa senhora pôs o apelido de Aurora na mamãe Torá, que ficou depois conhecida como dona Aurora... Os vizinhos eram uns italianos alegres e trabalhadores, que acabaram se mudando para o Estado do Paraná, e nunca mais soubemos deles... Um dia, alguém de casa foi até a casa deles e pediu o “salvador” emprestado. E eles ficaram confusos, porque o filho mais velho deles se chamava Salvador. Papai queria emprestado um fole, que jogava inseticida nos buracos dos formigueiros, que devastavam as nossas roças. E os japoneses apelidaram o fole de “salvador” porque realmente salvava as plantações...
Desses tempos duros, a melhor lembrança que tenho eram as idas à escola. Iniciei meus estudos numa escolinha rural, localizada na Fazenda Santa Emília do senhor João de Paula, que ficava distante uns quatro quilômetros de casa. Éramos minha irmã Neide e eu, tão pequenas e indefesas... Atravessávamos uma matinha perto de casa, com o coração suspenso de medo, porque às seis horas da manhã, a mata estava envolta em bruma e mal víamos o carreador...Qualquer barulhinho deixava nossos cabelos em pé... Depois, passávamos na casa do Aristeu, um colega que também ia à escola. Eles tinham uma olaria, que fabricava tijolos...Um animal atrelado a uma roldana, ficava girando em volta de uma caçamba, onde era colocado o barro para ser amassado... Então, era colocado em caixas de madeira, de onde saiam os tijolos depois de secos... Era uma fabriquinha de quintal, mas deve ter sido um sucesso, pois os tijolos eram muito procurados ... Acho que o privilégio deles era o fato de morarem perto de um riacho, onde existia argila, matéria prima para o fabrico de tijolos.
Nossa! Relendo o que anotei até aqui, percebo que fiz uma viagem através do tempo, e revivi partes de minha vida. O sonho permitiu que eu retornasse ao passado, e matasse as imensas saudades que moram em meu coração.
Na realidade já estive lá duas vezes com alguns familiares. Apesar da desolação do cenário, cada canto despertou fatos ali vividos e, chegou a doer por tudo ter passado.
Na última visita que fizemos há uns sete ou oito anos, fomos até o bambuzal que papai plantou há mais de setenta anos. E lá na sombra benfazeja, nos demos as mãos formando um círculo e, oramos por todos que lá moraram e acabaram partindo...
Foi um momento mágico, de comunhão com o passado.
E gratidão por termos sido tão bem acolhidos por aquele chão, onde deixamos para sempre as nossas pegadas...

Mirandópolis, novembro de 2015.
kimie oku in
http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

            Feliz Ano Novo!
      
      Mais um final de ano...
   Sinal que conseguimos chegar vivos até aqui. Muitos não tiveram essa ventura... Ainda nesta semana duas pessoas queridas nos deixaram.
     Para chegar até aqui muita coisa aconteceu. O ano passou num instante, cheio de problemas que pareciam insolúveis, mas com um passo atrás de outro, conseguimos vencer.
  Em termos de família foi muito difícil, com desentendimentos que poderiam ser resolvidos facilmente, porém o orgulho falou mais alto e todos nós estamos sofrendo as consequências... Dar tempo ao tempo para as coisas se encaixarem... Nada fácil.
     Em termos de saúde, o corpo começou a definhar e me encheu de preguiça e lerdeza, como nunca senti. Mesmo assim vou reagindo e não entrego os pontos. Hipertensão, diverticulite, problemas de dentes... Mas, as pernas ainda estão firmes e caminhar é preciso. Com 73 anos no lombo, até que estou bem.
Em termos de realizações, me dou por satisfeita. Escrevi minhas crônicas e acho que a maioria levou mensagens positivas... Feedback foi mais positivo. E no blogger, as visualizações já ultrapassaram os 53 mil, e tenho leitores em vários países como Reino Unido, Alemanha, Portugal, França, Canadá, Japão... Isso para mim é uma grande realização. E    em termos de estudo da Língua Japonesa, estou traduzindo a história genuína de uma japonesa, que ficou desterrada por dez anos na Sibéria...
Uma alegria foi a companhia da Ikuko Kazi, cirandeira que resolveu ficar esse semestre por aqui. Passamos várias tardes dedilhando ao piano, para tirar um somzinho. Não somos pianistas e nem temos pretensão para tanto, mas as tardes foram gratificantes, com os do re mi enchendo minha sala e minha casa. E fizemos algumas visitas para amigos que não víamos há um bocado de tempo. E passamos tardes muito agradáveis na companhia da Theresinha, do Jorge e da Leonor, da dona Assme, da Maria José e do André, do seu Albertino e dona Cleusa, da Maria e Orozino... No próximo ano pretendemos ampliar o horizonte. Além disso, ainda crochetamos um bocado. Trocamos amostras e até novelos de linhas, para terminar nossas obras primas em linha Mercer.
Em termos do nosso Brasil, o ano foi decididamente negativo. Na política sobrou notícia ruim, com o Mensalão, o Petrolão, os rombos no BNDS, urnas eleitorais fraudadas, pedido de Impeachment da Presidente Dilma, destituição do Presidente da Câmara Eduardo Cunha... Tudo isso ainda em andamento.
E o combate ao mosquito Aedes Egypti, que não se deixa vencer e fica cada vez mais forte para atacar humanos. E a zica, a microcefalia vitimando tanta gente no Nordeste. E os Hospitais tão necessários encerrando atividades por falta de recursos, deixando a população ao Deus dará. Pobre sofre!
E agora, com a quebra geral da Economia Brasileira, os desgovernantes estão sobrecarregando sem dó o contribuinte com a elevação de impostos, dos preços de combustíveis, de energia e outros gêneros, provocando o fechamento de grandes empresas, que por sua vez estão causando desemprego em massa.
Natal triste e sem boas perspectivas. Muita gente enterrada em dívidas que não poderão ser  saldadas... A esperança indo embora junto com o ano velho. Futuro negro para todos em 2016.
Muito difícil manter a fé e a determinação quando ficou provado que pessoas eleitas para governar a sociedade não passam de ladrões de lesa pátria, e não possuem escrúpulos nenhuns. E Brasília se revelou um covil, onde se digladiam quadrilhas, que apenas lá estão para assaltar os cofres públicos. E uns e outros se acusando e ameaçando revelar os podres praticados... E a população que, todos os dias enfrenta o batente com coragem e fé em Deus, garantindo o funcionamento regular desse querido Brasil, descobrindo estarrecida que, os piores elementos e maiores ladrões é que estão com todos os poderes de mando. Quadrilha de bandidos. O povo brasileiro se tornou refém de governantes desonestos, como nunca se viu.
Além dessa sujeira toda, ainda aconteceu Mariana, que veio mostrar como nossos órgãos governamentais são omissos. Ninguém assumiu o desastre e os manda chuvas só falam em milhões de reais para cobrir o estrago. Como se o dinheiro pudesse resgatar vidas perdidas. Vidas de gentes inocentes, de criações dos moradores ribeirinhos, de peixes e outros viventes dos rios e seus afluentes, de toda a fauna e flora que foram enterrados pela lama. Da sujeira tóxica que invadiu até o mar, levando o veneno quem sabe até onde...
É minha gente, se os anos passados foram difíceis por várias razões, nunca tivemos um ano tão ruim, tão devasso, tão podre e tão vergonhoso como esse de 2015. Nossas vergonhas estampadas em manchetes de jornais do mundo inteiro. Todos os dias mais sujeira vindo à tona com as investigações do Lava Jato, a ponto de nos perguntarmos: Há alguma gente impoluta no Governo? Uma só que seja?
E tudo isso se refletindo na vida pacata de nossa pequena cidade. A elevação desordenada dos preços dos combustíveis, da energia elétrica e do dólar estão quebrando os nossos pequenos comerciantes, que de repente cerram suas portas, despejando mais alguns desempregados para a rua da amargura.
Se analisarmos bem, podemos recordar que tivemos anos tranquilos, com a população feliz, trabalhando e cheia de esperança adquirindo bens materiais. Se bem que o consumismo desenfreado tinha que dar nisso.  Mas, poderia ter sido diferente. Se os governantes tivessem usado de sabedoria e controlado a nossa Economia, que tinha a moeda estabilizada. E tenho amigos petistas que se vangloriaram dizendo que, nunca o poder de compra do assalariado esteve tão alto. Sim, nos dois últimos anos, a compulsão de comprar era ilimitada. Tudo financiado, tudo facilitado. E compraram aparelhos de tevê de última geração, refrigeradores, condicionadores de ar e casas e carros... Mas, veio o desemprego da dona de casa, por causa do Fundo de Garantia da empregada doméstica, ou do chefe de família, porque sua firma está inadimplente e teve que encerrar atividades... E aí?
Aí tem que vender a casa, devolver o carro pago até uma boa parte... E os condicionadores e congeladores passaram a ser trambolhos inúteis, porque usá-los é impossível, devido ao custo elevadíssimo da energia elétrica. Tudo não passou de uma Mentira!
Nessa fase triste de nossa Economia, vista com olhos desconfiados pelos analistas políticos e econômicos do mundo inteiro, lembro-me da Ebe Camargo que dizia em seu programa de tevê: “Lá tinha uma loja, lá tinha um restaurante, lá tinha uma farmácia, lá tinha um Hospital, lá tinha, lá tinha...”
É, Ebe, Não tem mais. E agora a coisa é feia!
E até a alimentação passou a ser artigo de luxo.  Lula disse desrespeitosamente que, a população tem que se abdicar da carne e só comer arroz. Pimenta nos olhos alheios é refresco! Como teve coragem!
Neste final de ano tenho um pequeno sonho. Pode até parecer Utopia, mas ainda assim é meu sonho. Que em 2016, os Juízes honrados do Brasil, (que ainda existem, graças a Deus!) consigam obrigar dos lesa pátrias da Nação, a devolução de tudo que roubaram. E são bilhões e bilhões!
Só assim, será possível recuperar a Petrobrás, o BNDS e outras Estatais que viraram pó nas mãos dessa quadrilha gananciosa, que usou o voto para roubar a própria Pátria.
Quando essa devolução acontecer, recuperaremos não só a Economia como o orgulho de nossos Magistrados, por conseguirem recolocar o trem do Brasil nos trilhos da legalidade.
É um sonho, e acho que é o maior sonho de todos os meus compatriotas. Seria um presente de Natal tardio, mas muito bem vindo.
E com a realização desse sonho, desejo de coração que 2016 seja um Ano de Glória para o Brasil!

Mirandópolis, dezembro de 2015.
kimie oku in

domingo, 27 de dezembro de 2015

   Assuntando...
As festas de fim ano são cumulativas, por isso elas me cansam.
      O início do novo ano deveria ser bem distante do Natal. É muita festa para um prazo reduzido de oito dias.
Por tudo isso, os últimos dias do ano viram uma azáfama de correria, de compras, de preparativos... É muito difícil comprar nesse período.
 E neste ano, essas datas caíram na sexta-feira, então acumularam-se com o sábado e o domingo. Dias compridos de comilança e bebelança. E dias parados, comércio lento e gente zanzando prá lá pra cá, procurando não sei o quê. E juntando o calor de quase 40 graus, dá uma lerdeza e uma preguiça sem tamanho.
Hoje domingo 27, a cidade parou! Desde o Natal, está tudo parado. Não se vê vivalma nas ruas, e o silêncio chega a ser pesado. Parece que toda a cidade está de ressaca. Todos dormindo ou recolhidos em seus cantos, porque dinheiro pra viajar ninguém tem...
Três dias no Natal e três dias no Ano Novo de paradeira total... Nunca tinha acontecido isso. É que para os comerciantes nem vale a pena fazer os funcionários aguentarem o batente, porque os clientes sumiram. E os vendedores bocejando não é uma boa imagem para se mostrar.
Se fosse um tempo de fartura, seria uma festa! Todo mundo estaria festejando, rodando de carro à toa pelas ruas... Mas o combustível no preço que está não permite. O jeito é ir dar uma pescadinha num corguinho próximo de bicicleta, visitar a sogra, os tios esquecidos que moram na cidade, pra mudar de ambiente. E fazer cooper com amigos, que isso não onera ninguém. E as comadres fazendo crochê, que dá uma aflição ficar parada. As crianças e os adolescentes felizmente têm a sua diversão. O mundo pode desabar, que eles não tiram os olhos das telinhas de seus celulares e se divertem sozinhos, alienados completamente em seus cantos... E alguns adultos também adotaram esse costume.
E como as lojas estão fechadas, dá um frisson em todos, que querem comprar qualquer coisa como sorvetes, esmaltes, xampus, revistas de palavras cruzadas, ou mesmo uma comida diferente dos perus e leitoas sobradas... Tudo para fugir dessa paradeira não esperada, porque nem o estômago nem as vontades foram programados...
E aí a mãe diz: Tá fechado! Hoje não abre! Tá tudo fechado!
E todos ficam frustrados.
Só tem bares abertos. Bares onde juntam homens para comentar sobre as últimas do futebol, do José Maria Marin, aquele mesmo que foi Deputado e Governador de São Paulo, que pagou uma fortuna de fiança para ficar curtindo a vida boa em Nova Iorque. E aí todos da rodinha concordam que, vale a pena ser desonesto, corrupto, ladrão num país onde só os cidadãos honrados são penalizados todos os dias, com carga tributária pesada e custo de vida escandaloso.
E aí a conversa envereda pelos corredores de Brasília, que virou covil de ladrões. E há tanta sujeira a ser comentada, que todos se atropelam e ninguém é petista, mesmo que tenha votado neles na última eleição. É sobre o Cunha, o Renan Calheiros, a Dilma, o Lula, inesgotável lista de bandidos no poder. E o inacreditável é que nessa roda e nas centenas de rodas que se formam nas esquinas e nos bares, ninguém é petista, ninguém votou neles. Ninguém sai em defesa dos corruptos. Mas de uma coisa tenho certeza, meus amigos super inteligentes que são petistas convictos e declarados, devem estar bem incomodados com os rumos de nossa Economia. Não dão o braço a torcer e defendem a Dilma até a morte, mas eles não me enganam, devem com certeza sentir um travo amargo na boca, toda vez que sai mais uma denúncia nos noticiários. Por que não aceitam que o Partido degringolou e, que eles só queriam roubar o país? Mas o orgulho é uma coisa triste, fingem acreditar nos falsos ideais do Partido e não enxergam o óbvio: o Partido traiu a todos. Ao invés de encarar a verdade vergonhosa, preferem garimpar notícias de corrupção de políticos de outros Partidos, como se isso limpasse os nomes dos petistas presos e investigados. Usam o ataque como meio de defesa. Mas os corruptos presos e os que estão sendo investigados são indefensáveis. São bandidos e pronto! Até o famoso Maluf que ficou conhecido como o político que “rouba mas faz” virou trombadinha de esquina diante dos atuais políticos presos...
Não queria comentar mais sobre a nossa política, mas a podridão é tanta que está extravasando. E não tem como não desabafar a nossa indignação, porque a vida do brasileiro comum que dá duro na vida, que trabalha o ano todo está apertada, difícil de tocar. Graças aos combustíveis e energia elétrica que não param de subir e puxam sempre para o alto os preços do arroz e feijão de cada dia.
Por que uns brasileiros são capazes de ferrar outros?
Cadê o sentimento de brasilidade, de conterrâneo, de irmão da  mesma Pátria? Tudo isso morreu? O que será que ensinei na Escola durante a vida toda para os jovens de minha Terra?
Concluindo essa triste crônica, vou creditar essa paradeira e essa ressaca de nossa pequenina cidade aos poderosos que desgovernam o nosso país. E temo pelo que virá.
Mirandópolis, 27 de dezembro de 2015.
kimie oku
in http://cronicasdekimie.blogaspot.com.br/

      

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

     Não gosto de Natal
    Quando era criança nunca soube o que era Natal. É que meus pais imigrantes do Japão tinham outros costumes, pois seguiam as tradições herdadas de seus antepassados lá nas terras orientais.
     E o que mais contribuiu para não conhecer o Natal era o fato de morarmos em sítios e fazendas isoladas, que eram agrupamentos de japoneses, que conjuntamente cultivavam outros costumes. Além disso, éramos muito pobres e, não tínhamos acesso ao que acontecia na cidade, uma vez que ninguém possuía carros ou caminhões para sair de casa.
     Assim, passei minha infância ignorando totalmente os costumes cristãos, embora tivesse sido batizada aos dez anos de idade na Religião Católica. Somente quando vim morar na cidade para estudar é que tive contato com a Igreja e a Religião. As pregações do Padre Luiz Camargo Crescente e do Padre César Toppino em Lavínia foram abrindo a minha mente para o lado espiritual cristão. E depois participei de alguns grupos religiosos: Filhas de Maria, Grupo de Catequese e Círculo Católico Estrela da Manhã, que agregava jovens nisseis para seguir a Igreja Católica.
Quando se é jovem há sempre um entusiasmo para participar de grupos e eu não fui diferente. Fui muito devota, rezei bastante, participei de procissões, de celebrações de Semana Santa, com fé mais ou menos titubeante. Automática e formalmente.
Ao tornar-me adulta comecei a questionar comigo mesma se todo aquele ritual seria necessário para pregar a palavra de Deus... E comecei a perceber que, nem todos os fiéis que iam às missas infalivelmente, agiam corretamente no dia a dia. E via na vizinhança as beatas tão “santinhas” que criticavam tudo e todos...
E li muitas biografias de santos, que me impressionaram de verdade. Santa Maria Goretti, São Sebastião, São Tomás de Aquino, Santa Terezinha do Menino Jesus, São Francisco de Assis e tantos outros... Que até esqueci. Comecei a comparar a verdade pregada e a verdade que acontecia. E depois em História da Humanidade, li sobre a Inquisição da Igreja na Idade Média, que queimou pessoas vivas inocentes a pretexto de bruxaria... As Guerras Santas... Em nome de Deus mataram tanta gente. Tudo isso me desencantou.
Mais tarde leria e veria filmes terríveis sobre a Ku Klux Klan... E seus adeptos brancos e loiros eram fervorosos seguidores da Religião Cristã, oriundos das terras europeias.
Aos poucos fui me desencantando da Igreja e de seus padres... A pregação boa não era ouvida e poucos cumpriam os ensinamentos do Evangelho. Era tudo apenas fachada para todos posarem de bonzinhos, mas na realidade eram pessoas muito cruéis e cheias de preconceitos burros.
E estudando a História das Civilizações percebi como a humanidade foi terrível com os negros, os aborígenes, os ilhéus, os habitantes de outras latitudes. Sofri na pele a discriminação de colegas na escolinha rural, porque nasci japonesa. Naqueles tempos, há mais de sessenta anos!
Com o passar do tempo ao me socializar, acabei adotando o Natal. Lembro-me que, já adolescente fui ao sítio de meus pais em Tabajara, e meus irmãos estavam trabalhando na roça. E era dia de Natal! E nunca havíamos comemorado essa data. Penalizada de meus familiares, fui ao quintal e peguei um frango e o depenei. Em seguida peguei umas espigas de milho verde. E fiz uma panela grande de frango com milho verde. E foi uma alegria para todos! E foi o meu primeiro Natal. Tão simples, tão rústico mas feliz de ver o sorriso estampado nos semblantes de pessoas queridas... Foi o meu Primeiro Natal! E foi o Melhor de todos que vivi.
De lá pra cá tive Natais e mais Natais. E fui à Missa do Galo, que era celebrada à meia noite mesmo, pelo reverendíssimo Padre Epifânio Ibañez. E tive Ceias, umas boas, outras nem tanto... E adotei o costume de presentear meus filhos...
Hoje, porém, não celebro mais isso. Natal se transformou em Festa Pagã. A humanidade toda usa o Natal como a Noite de comes e bebes, de festas, de presentes, de ceias, de consumismo puro. E eu sei que Natal não é isso. Parece que nesse dia, todos têm a obrigação de ficar felizes, mesmo que não tenham motivos para isso.
Os dingo bells que tocam sem parar, as luzes que piscam sem cessar dão um tom de artificialidade, que nada têm a ver com o Nascimento de Jesus.
Natal para mim é um tempo de reflexão, de renovação para a vida, para firmar novos propósitos para seguir os caminhos traçados. É um tempo de balanço das atividades realizadas durante o ano, de programação de outras em favor dos irmãos, de purificação.
Natal não é o peru, o Chester, a leitoa recheada, o arroz de festa, a champanhe, a cerveja, as castanhas, o Papai Noel.
Natal é tempo de União, de Perdão, de Paz em família. Só isso. Tempo de abraços sinceros e reais.
Acho que não só é para Drummond que um anjo disse: “Vá ser gauche na vida!”
Porque também sou avessa, torta, antiquada e esquisita.
Mas, Feliz Natal para todos! (automaticamente)
     Mirandópolis, dezembro de 2015.
kimie oku in
http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/