quinta-feira, 24 de março de 2022

 

 Eeja naika  

   ええじゃないか


Depois de Nobunaga e Hideyoshi, Ieyasu assumiu o Governo do Japão e estabeleceu o Xogunato Tokugawa que duraria por 260 anos.

A Era da Guerras já era coisa do passado, mas os velhos hábitos ainda perduravam. Os Daimyos/Suseranos exigiam subserviência do povo, que devia postar a cabeça no chão à sua passagem em sinal de reverência... Quem não o fizesse tinha a cabeça decepada pelas espadas dos terríveis samurais. Muitas cabeças rolaram ... O povo aterrorizado estava cansado de ser humilhado.

Nessa época, o Palácio Imperial não dispunha de um exército e ficava à mercê dos Xoguns e seus caprichos. O Imperador era mera figura decorativa.

Diante das atrocidades cometidas pelo Xogunato contra o povo, muitos intelectuais planejavam devolver o poder de governo ao Imperador. E só havia dois Feudos com Exércitos que pudessem enfrentar o Xogun. Eram os Exércitos de Satsuma liderado por Saigo Takamori e Okubo Toshimichi; e o de Chosu liderado por Takasugi Shinsaku. Mas os dois grupos estavam sempre se confrontando e se tornaram arqui-inimigos...

Enquanto isso, um famoso espadachim que havia assistido a humilhações inomináveis começou a acalentar um sonho, que era  libertar o povo da opressão. Os opressores eram os Daimyos e o Xogun seu líder supremo. Sakamoto Riyoma de Chosu era esse jovem.

Então, de repente apareceu no Japão uma poderosa frota de navios negros, dirigida pelo Comodoro Perry. Vinha trazer uma carta do Presidente dos Estados Unidos, intimando o Japão a abrir os Portos para o Comércio exterior. O Japão era um país isolado e não admitia estrangeiros em suas terras. Na mente dos japoneses o Imperador era de origem divina, e o país não precisava de estranhos em suas terras. Só comerciavam com os chineses e holandeses.

Quando o teor da carta americana foi revelado, o povo se dividiu em dois grupos: os conservadores que não aceitavam a abertura dos portos, e queriam expulsar todos os estrangeiros que aparecessem; e o grupo dos modernistas que pretendiam se relacionar com outros povos. Muitos adeptos desse último grupo foram assassinados pelos fanáticos conservadores.

E aí ocorreu a questão de um turista inglês, que ignorava a obrigatoriedade de reverências, e tentou passar a cavalo pela comitiva de um Daimyo. Foi acusado de desrespeito e morto ali mesmo, pelos samurais do Suserano. Por essa morte, o Japão teve que pagar uma altíssima reparação, para não enfrentar uma guerra com os britânicos...

Com isso, recrudesceram os movimentos contra estrangeiros. Quando o Comodoro voltou um ano depois para saber da abertura dos portos, mostrou o poder destrutivo dos canhões. O que podiam as espadas diante de canhões? Então, Ii Naosuke representante do Xogun abriu os Portos de Shimoda e Hakodate, e assinou um Tratado de Paz e Amizade com os Estados Unidos, prometendo abrir cinco portos.

Isso despertou a fúria dos conservadores que numa emboscada executaram Naosuke.

Sakamoto Riyoma percebeu que chegara o momento de intervir. Parlamentou com Saigo Takamori e seu adversário Takasugi Shinsaku, apontando o Xogunato como o inimigo comum. E já era tempo de acabar com ele. Diante do inimigo maior, os dois Exércitos se uniram para derrubar o Xogun. Com apoio da Casa Imperial. Houve algumas batalhas, mas os oponentes venceram. E o 15º Xogun Tokugawa  Yoshinobu deixou o cargo e devolveu a Administração do país à Casa Imperial, em 1867.

A Corte baixou um Decreto extinguindo o Sistema Feudal no país e o governo foi centralizado no Imperador. Os Daimyos foram intimados a sair da capital para irem morar em seus domínios distantes.

Essas mudanças custaram a vida do paladino da Restauração do país, Sakamoto Riyoma que foi assassinado junto com um companheiro, pelos radicais extremos. Não chegaram a assistir ao advento da Era Meiji.

Por essa época, ocorreu um movimento em Nagasaki. Era uma espécie de festival, onde as pessoas dançavam e cantavam e refrão Ee já naika (いいじゃないか) que traduzido seria “ Quem se importa? Por que não?” A onda cresceu e tomou conta de todo o Japão.

Muitos historiadores acreditam que seria uma espécie de protesto contra a situação caótica reinante, sem um governo forte que desse segurança ao povo. Entretanto, protestos sociais e políticos eram terminantemente proibidos. Então, o movimento assumiu um aspecto religioso e carnavalesco, para burlar os fiscais. De verdade, era um grande desabafo do povo miúdo que fora humilhado e anulado por gerações, acredito eu. Era como uma grande brincadeira, onde verdades estavam sendo lançadas para o povo despertar.

Ainda houve o Boshin war, uma guerra civil entre os que apoiavam o Xogunato e os que se opunham a ele. Muita gente perdeu a vida inutilmente...

Porém, o Xogunato foi extinto e começou a Era Meiji.

E foram introduzidas mudanças: A capital foi transferida de Kyoto para Edo, que foi renomeado Tóquio. Os hans/feudos passaram a ser denominados Ken/Prefeitura. E cada Ken teve governadores nomeados pelo Palácio. O novo governo aboliu o sistema de classes, declarando a igualdade dos homens. E os trabalhadores foram chamados Hemin.

Dentre as mudanças importantes destacam-se: O Sistema Educacional, que obrigava crianças a partir de seis anos de idade a frequentarem escolas fundamentais; a Reforma da Taxa sobre os territórios que passou a cobrar 3% sobre os produtos colhidos; e a Reforma Militar, que obrigava homens acima vinte anos de idade a se submeterem ao serviço militar, para a defesa da Pátria.

O Imperador que assumiu a Era Meiji/Iluminação foi o Príncipe Mutsuhito, que seria o 122º Imperador a assumir o trono e governaria o Japão por quarenta e cinco anos.

Outras grandes mudanças foram introduzidas, com a instalação de muitas indústrias que transformariam totalmente o Japão.

A Era Meiji foi realmente de iluminação, porque resgatou um Japão mergulhado na obscuridade de ideias conservadoras, que o mantinham isolado e fechado para o mundo para um país moderno, e uma das grandes potências que se destacam no cenário mundial. 

Mirandópolis, março de 2022.

kimie oku in

http://cronicasdekimie.blogspot.com 

domingo, 20 de março de 2022

 



         Wabi Sabi

   Não sei quando foi que a humanidade começou a valorizar apenas o que é belo, perfeito... Quando a nossa geração veio ao mundo, o ideal já estava estabelecido: todos tinham que ser belos, admiráveis e competentes.

     Já existiam Concursos de Beleza para escolher a Mulher mais bela do mundo. Competições para escolher quem corre mais, quem salta mais alto, quem é mais forte na luta corporal... Quem sabe mais...

     Eu nunca gostei dessas competições. Eu nunca poderia competir com ninguém em nenhuma categoria... Nunca fui modelo de nada. E assim como eu, existem bilhões de pessoas que não se encaixam nessas formas inventadas pelo homem. Se o ser humano tivesse que ser perfeito, Deus o teria criado assim. No entanto, há tanta gente com partes faltando, sofrendo por alguma deficiência... E foi Deus que os criou.

     Então, pra quê esses Concursos? Pra provar o quê? Para selecionar o que Deus nunca selecionou?

     Acredito que todas as pessoas têm uma missão neste mundo. Viver em prol de alguém, de alguma causa, de algum objetivo, de algum propósito que só Deus sabe. Ninguém veio a este mundo para ostentar o belo sorriso, nem medir forças com outros, nem exibir a sua sabedoria. Então, todos esses concursos não têm sentido. Pura bobagem inventada por mentes sem equilíbrio.

     Felizmente, em contrapartida existe uma Filosofia japonesa chamada Wabi Sabi, que valoriza as imperfeições e a impermanência da vida. Sabemos por experiência própria que nem tudo é perfeito, nem tudo é excelente, nem tudo é o máximo. E temos que conviver com essas imperfeições, com a fugacidade do tempo e a fragilidade do ser humano. Todos os dias.

     Então, selecionar os melhores, os mais fortes, os mais competentes não tem sentido. Seria o mesmo que condenar 99% da humanidade como escória... E sabemos também que esses 99% somos nós os imperfeitos, os frágeis, os inseguros, os que pelejam diariamente para sobreviver nesse mundo de gente tola, que elegeu coisas absurdas como padrões ideais.

     Esqueçamos todos esses ideais para viver e usufruir das coisas boas. Não importa se a casa é velha e imperfeita, pensemos que ela é o nosso canto, que nos protege do mundo e das tempestades; não importa se o parceiro tem manias, mas pensemos que ele é o companheiro de todas as horas; não importa se somos limitados em nossas ações, mas continuemos a dar o máximo para dar conta da existência... Isso não é entreguismo, é a verdadeira postura diante da vida que sempre será imperfeita.

     Vamos observar o mundo com outros olhos. E reparar na beleza das coisas rústicas, imperfeitas, naturais... Reparar nas folhas secas dos caminhos, no sorriso tímido de um trabalhador, na insegurança das crianças que voltaram às aulas... Porque diante de Deus somos todos essas folhas secas, somos o sorriso tímido pedindo a bênção e somos a total insegurança de humanos imperfeitos...

 侘 寂。。。 para uma vida sem estresse, uma vida leve e boa.


Mirandópolis março de 2022.

kimie oku in

http://cronicasdekimie.blogspot.com


terça-feira, 15 de março de 2022


Takeda Shingen 武田信玄

“Veloz como o vento.

Tranquilo como um bosque,

Destruidor como o fogo,

Inabalável como uma montanha”.

Esse foi o slogan do exército de Takeda Shingen senhor de Kai em Yamanashi ken, que utilizou as imagens do Vento, Bosque, Fogo e Montanha em suas flâmulas e bandeiras nos combates. Foi um sábio samurai da Era das Guerras(1467 a 1573) no Japão Medieval. O maior e mais temido de todos os guerreiros! Foi contemporâneo de Nobunaga, Hideyoshi e Ieyasu.

Época do Feudalismo em que os poderosos senhores feudais só pensavam em expandir seus territórios e aumentar o seu poder, para dominar regiões inteiras. E todos tinham a meta de ir para a capital Kiyoto e se tornar o próximo Xogun.

O pai de Shingen, Takeda Nobutora foi um suserano feroz, que  avançava sobre territórios vizinhos para dominar toda a região de Kai, Sagami, Izu, Suruga, Shinano em Nagano ken, Yamanashi ken e Niigata ken. Guerreou com todos os seus vizinhos, tomando posse de seus castelos. Só parou ao ser desterrado pelo próprio filho Shingen, para os domínios de seu genro Imagawa Yoshimoto, que era o senhor dos territórios de Suruga, Tootoumi e Mikawa (Aichi ken). Ao se livrar do autoritarismo do pai, Shingen que na época tinha apenas vinte e um anos explicou aos membros do Feudo a razão de desterrar o pai, que não cuidava de plantar e colher para o povo sobreviver. Todos os lavradores estavam sempre nos campos de batalha. O jovem Shingen tinha outra forma de administrar um Feudo. Tomou medidas para conter as inundações nos campos de arroz na época das chuvas. E prometeu que as guerras só seriam após a colheita, para deixar as famílias abastecidas. Retirou os impostos. Todos os lavradores, os militares e os serviçais ficaram muito contentes com isso. Nobutora o pai nunca atendera as necessidades dos trabalhadores. Então, os operários se empenharam com entusiasmo na construção de diques para controlar as cheias. Alguns rios foram até desviados de seus cursos normais, para proteger os arrozais. Foi uma obra monumental que ficou para a posteridade. Até hoje há na região ruinas das famosas barragens de Shingen.

Kai era uma região cercada por montanhas e de poucas terras cultiváveis, então era necessário aumentar o território. Shingen preparou o seu exército e após um ano partiu para novas conquistas. O objetivo era incorporar as terras de Suwa, que pertenciam ao cunhado Suwa Yorishige, casado com sua irmã Nene. Suwa foi dominado e forçado a praticar o haraquiri... E um tempo depois, a viúva Nene desolada com a morte do esposo ficou doente e acabou falecendo. Essas tragédias aconteciam com frequência, porque era um tempo de guerra, e os sentimentos eram outros. Era matar ou ser morto... E assim, invadindo pequenos Feudos e tomando castelos, os domínios de Takeda Shingen foram se alargando... Estava seguindo exatamente os mesmos passos do terrível pai...

Por essa época, na Ilha de Tanega chegaram umas armas nunca vistas. Eram os fuzis conhecidos como teppo, que com um tiro derrubavam o inimigo mortalmente. Diante desses fuzis, o arco e a flecha pareciam armas de brinquedo... Logo, esses fuzis foram adotados e produzidos em série. Isso mudaria drasticamente a duração de uma guerra.

Um dia, alguém apresentou um homem muito esquisito para Shingen. Chamava-se Yamamoto Kansuke. Era cego de um olho e deficiente de uma perna e ninguém dava nada por ele. Mas, se revelou ser um grande estrategista militar. Sabia como ninguém organizar ataques e,  também a hora exata de se retirar de um campo de batalha, ganhando ou perdendo. Kansuke fez de Shingen um guerreiro forte, autoconfiante e temido por todos. Shingen o nomeou Instrutor de Guerra, porque era muito inteligente. Ele dizia que mesmo os inimigos mereciam respeito, e quando a pressão é demais, ao invés de conquistá-los, comprava o seu rancor.  “Gentileza conquista parceiros, e injúria compra inimigos!” Essas ideias fizeram de Shingen um guerreiro bem mais humano.

Shingen também criou um Regulamento para governar o seu Feudo. Esse Regulamento estabelecia direitos e deveres dos cidadãos, leis sobre Segurança e sobre o Comércio. Elaborado após consultar longamente seus assessores, esse Regulamento foi utilizado mais tarde pelo Xogun Tokugawa Ieyasu, para consolidar o Xogunato Tokugawa que governaria o Japão por mais de 260 anos.

Ao longo de sua carreira de guerreiro, Shingen teve dezenas de adversários, mas o mais difícil foi sem dúvida Kagetora de Echigo (Niigata ken). Kagetora que mais tarde se nomearia Uesugi Kenshin era um senhor feudal muito poderoso, que ao ver seus territórios ameaçados por Shingen, organizou-se para combatê-lo. Shingen se aliou a Imagawa Yoshimoto de Mikawa e Owari, a Houjo Ujiyasu de Sagami, formando a poderosa Triplice Aliança. Com essa poderosa união, parecia fácil vencer Kagetora(Kenshin). Por essa época, a barragem de Kamanashi ficou pronta após quinze anos de monumental trabalho não interrompido mesmo durante as guerras, e foi uma obra ímpar daqueles tempos. Foi uma alegria geral para os lavradores ver a obra pronta e, mais ainda para Shingen.

Shingen e seus aliados Imagawa e Ujiyasu se posicionaram pela quinta vez junto a Kawanaka, para combater o exército de Kenshin, que estava posicionado a quinhentos metros de altura na montanha. Além do íngreme acesso, chegou o Inverno com densas nevascas e tudo se complicou. Após dez dias de combate, ambos os lados deixaram o campo de batalha, que ficara coberto com cerca de setecentos cadáveres  dos dois exércitos. Foi a última vez que Kenshin e Shingen se confrontaram, mas até hoje ninguém pode dizer quem ganhou essa batalha.

Tem um fato curioso que prova a coragem desses dois inimigos. Shingen que historicamente foi chamado o “Tigre de Kai” estava descansando sentado num banquinho e assistindo ao desenrolar da batalha. De repente, surgiu à sua frente um soldado montado num cavalo e brandiu a espada para matá-lo. Shingen não se abalou, simplesmente afastou a espada com seu abano de bambu e não ficou ferido. O agressor era o adversário Kenshin ou o “Dragão de Echigo”...

Tigre e Dragão: Guerreiros insuperáveis.

A certa altura, Shingen resolveu atacar o Feudo de Imagawa, que havia se voltado contra ele. Mas encontrou oposição no próprio filho que era casado com a filha de Yoshimoto Imagawa. Shingen o obrigou a cometer suicídio por haraquiri... Ao próprio filho!

Parceiros de ontem se tornaram inimigos de agora. Imagawa e Houjou fecharam o caminho de Kai. De repente, Kai não tinha acesso ao mar. Isso significava que ficariam sem sal que é muito precioso para a culinária. Mas, Shingen nem se abalou, atacou Imagawa e tomou posse do território, assim como seu aliado Ieyasu se apoderou de Tootoumi. Mas, Kenshin se aliou a Houjou e a Imagawa. E Shingen sem condições de enfrentá-los voltou para Kai...

Houve um momento em sua vida, que Shingen quis ser um monge. Percebeu que fora cruel com a família obrigando as filhas a se casarem com filhos de adversários, só para manter a segurança de seu Feudo. Isso era costume na época, os filhos eram moedas de troca. E depois invadiu as terras onde elas moravam arrasando tudo e executando os genros. Além disso, obrigou dois filhos seus a praticarem o haraquiri, por terem se rebelado às suas ordens. E mais ainda desterrou o próprio pai... Tudo isso deve ter pesado muito... Mas... Não havia tempo para lamentações! Os inimigos que eram muitos vinham de todos os lados e urgia sair para o combate. Então, não parou para meditações...

 Nessa época, o Xogun era Ashikaga, que fora guindado ao posto por  Nobunaga, que tinha intenções de tomar-lhe o lugar. De repente, o Xogun Ashikaga Yoshiaki mandou um emissário para Shingen eliminar o Nobunaga. E de todos os lados chegaram pedidos semelhantes...

Shingen sentiu que estava com força suficiente para ir a Kioto e se tornar Xogun. Decidiu ir a Kioto ao mesmo tempo em que atacaria Nobunaga. Nessa empreitada Ieyasu, agora adversário atravessou o seu caminho, mas foi vencido. Shingen queria chegar a Kioto, mas um câncer no pulmão o impediria de realizar o seu mais acalentado sonho. Teve que voltar para recuperar as forças. Mesmo doente, mandou atacar o Castelo de Noda em Mikawa. Shingen mandou cortar a água e como as provisões já estavam no fim, Noda se rendeu... Shingen usava esses ataques para que todos acreditassem que ele estava forte e saudável. Entretanto, sua saúde piorou e teve que voltar a Kai.

Ele pediu ao filho Katsuyori que mantivesse sua morte em segredo durante três anos. Após três anos, seu corpo deveria ser colocado no Lago Suwa para repousar... Shingem faleceu em 12 de abril de 1573.

Como era difícil disfarçar essa morte tão chorada pelos seus vassalos, Katsuyori e seus Generais contrataram um sósia de Shingen para provar que estava vivo. Mas, três dias depois a notícia da morte já era conhecida de todos. Nobunaga ficou feliz, mas Ieyasu comentou que “Guerreiro como ele nunca mais irá aparecer!”

Sobre esse fato, o Diretor e Cinegrafista Akira Kurosawa produziu um filme chamado “Kagemusha, a Sombra do Samurai” que tive a oportunidade de ver. Kagemusha recebeu o Oscar de Melhor filme estrangeiro e Palma de Ouro, e foi magistralmente interpretado por Nakadai Tatsuya no papel de Shingen e seu sósia.

Mesmo com a recomendação de ficar isolado em Kai por um bom tempo, Katsuyori, o filho de Shingen partiu para um combate em Nagashino, para atacar um aliado de Ieyasu. E foi totalmente derrotado, porque Nobunaga e Ieyasu usaram armas de fogo, os famosos teppo, pela primeira vez. Foi em 1582. Derrotado, Katsuyori foi obrigado a cometer suicídio por haraquiri.

Foi o fim do Clã Takeda...

Gente é castelo,/人は城

Gente é muralha,/人は石垣

Gente é fosso/.人は堀

Gentileza conquista parceiros, /情けは味方

Injúria compra inimigos./仇は敵なり

Takeda Shingen..........武田信玄  1521 – 1573

Mirandópolis, junho triste de 2020.

kimie oku きみえ in

http://cronicasdekimie.blogspot.com


 

domingo, 13 de março de 2022

 

                Kizuná 

Quando moramos por anos num determinado lugar ou cidade, acabamos mesmo inconscientemente, estabelecendo domínios sobre os locais que mais frequentamos. A padaria, a farmácia, a mercearia, a igreja, a livraria, o bar, a praça, o mercado e até mesmo as ruas vão ao longo do tempo, se transformando em extensão de nossas casas.

Esses locais se tornam pontos de referência, onde pisamos como chãos a nós pertences.  E é tão confortável saber que o médico estará sempre lá, que o merceeiro oferecerá frutas e verduras frescas, que haverá sempre um banco na Praça para acolher o transeunte cansado, que as dores físicas poderão ser aliviadas logo ali na farmácia.

Quando o sítio que nos pertenceu por trinta e sete anos foi ocupado pelos novos donos, eu tive a sensação de que eles eram invasores. Parecia que eles estavam violando um lugar sagrado. Quando  o amigo Sérgio vendeu a Livraria que eu frequentava, eu me senti traída... (E agora? Com quem vou conversar sobre os livros?)

"Kizuná"/ é um vocábulo japonês que significa laço, relação, elo, ligação de afeto, bem querer, apego...

O ideograma de kizuná tem como radical  linha, como se amarrasse os

 sentimentos para não rompê-los. Kizuná é um sentimento que

 desenvolvemos para com coisas, pessoas e lugares que amamos.

Todos nós temos vários e maravilhosos kizunás, porque isso tem a ver com a alma, a ponto de considerarmos sagrados os lugares onde passamos a infância, e a casa que pertenceu a nossos pais... São apenas lugares, mas que traduzem algo que só a gente é capaz de sentir... Porque representam a infância, a juventude, anos de contato com a terra, com os campos, com as árvores, com a habitação, com o poço, com os fatos que ali ocorreram.

A sensação de perda, de ter sido traída pela vida quando perdemos lugares, relíquias e pessoas, só sentimos por causa dos kizunás.

É bem verdade que os sentimentos não morrem com a distância, nem com o tempo. Mas gente como eu, que viveu  oito décadas, se torna egoísta e não gosta de abrir mão de certas comodidades. E nada é mais confortável que ter amigos por perto, e lugares que amamos sempre à disposição.

Daí a dolorosa sensação de traição quando os perdemos...

Mesmo assim, vale a pena passar por tudo isso, porque é nesses momentos que podemos avaliar a força de nossos sentimentos. Somos puros sentimentos.

Quando perdemos um kizuná, o círculo da existência vai se fechando, porque um kizuná  nunca substitui outro.

Kizuná........ 絆

Por isso é tão doloroso viver.

Mirandópolis, fevereiro de 2022.

Texto de 2011, atualizado.

kimie oku in

http://cronicasdekimie.blogspot.com

sábado, 12 de março de 2022

 

                                               Guerra/ Sensou戦争

 Vendo a fuga dos ucranianos desesperados em busca de outras pátrias, eu me lembrei de um fato bizarro.

Os japoneses devem ter sofrido tanto na Guerra, que após o término da conflagração mundial, se tornaram acumuladores. Acumuladores de coisas, que normalmente jogaríamos fora. Garrafas vazias, baldes furados, bonecas sem braços, roupas maltrapilhas, botinas pequenas e gastas, brinquedos quebrados, escovas velhas de dentes...

No pós guerra, muitos imigrantes que vieram para o Brasil possuíam essa mania de colecionar coisas inúteis. E essas coisas atravancavam gavetas e armários, ocupando o espaço necessário para guardar objetos de uso diário.

Quando indagados por que guardavam isso, eles respondiam: “E se houver uma guerra? São coisas necessárias que não acharemos nos tempos difíceis.”  E não adiantava explicar que não haveria outra guerra, porque eles não se desfaziam desses objetos.

Por aí pode se avaliar quantas dificuldades eles passaram, quanto ansiaram por uma cadeira, uma colher, uma tesoura, um chapéu, uma bengala, um agasalho, naqueles tempos terríveis em que um artefato feito pelo homem reduziu tudo a cinzas em segundos...

Então, fico imaginando quanto está sendo difícil para os ucranianos, que saíram apenas com a roupa do corpo, sem o carro, sem as fraldas do bebê, sem os remédios de uso contínuo, sem  as cobertas para enfrentar o frio congelante da Europa...

Quando saímos para uma viagem, tudo é meticulosamente organizado na mala para dois dias, uma semana, um mês. Mas, quando se foge dos inimigos, não há tempo para planejar... Leva se o que tem à mão, e só lá longe em terras estranhas, é que se percebe a falta das coisas mais necessárias... Isso é traumático.

Guerra é uma coisa devastadora. Divide a família, uns indo pro front combater, outros fugindo em busca de abrigo. O medo, a incerteza, a desesperança são os companheiros constantes.

E tudo isso por quê?

Porque há os mandantes, que são movidos pela arrogância e pensam que são Deus. E não têm a humildade de reconhecer seus erros. São incapazes de perdoar. São megalomaníacos.

Os ataques são constantes e violentos. Os negociadores temem o Putin, estão pisando em ovos e a Paz está distante. Até quando vai durar essa maldita guerra?

Mirandópolis, março de 2022.

kimie oku in

http://cronicasdekimie.blogspot.com

 

sexta-feira, 11 de março de 2022

 

Nobunaga, Hideyoshi e Ieyasu


Após concluir as biografias desses três heróis japoneses, sobrou em mim uma vontade imensa de comparar os feitos deles.

É muito estranho esses três heróis japoneses terem vivido a mesma época, sonhado o mesmo sonho de organizar o Japão como um país autônomo e soberano diante do mundo. Além de terem conseguido salvar o país das guerras intestinas. Coisas do destino? Pode ser, mas essa estranha continuidade de um suceder a outro dá o que pensar...

Oda Nobunaga nasceu em Owari ou Aichi ken  em 1534 e faleceu em 1582, e sua vida foi abreviada por Akechi Mitsuhide. Viveu totalmente voltado para guerras, invadindo, tomando posse, matando, destruindo Castelos. Seu objetivo, porém era unificar o Japão acabando com as guerras bárbaras, que já duravam mais de cem anos. O povo estava esgotado, não havia paz, a fome era impiedosa porque os homens só estavam guerreando, e ninguém cultivava arroz... Era um homem muito inteligente e perspicaz. Fingiu ser um jovem confuso para que os vizinhos não o temessem. Foi apelidado de “o tolo de Owari”. Mas, tudo era fingimento para os inimigos ficarem despreocupados e se descuidarem.

Quando chegou ao Xogunato, mostrou a firmeza de propósitos e a crueldade sanguinária, para ninguém duvidar de sua palavra. O feito mais chocante foi o incêndio do Templo Enryaku no Monte Hiei, matando cerca de três mil monges, seus familiares, inclusive crianças. Razão dessa matança bárbara foi a traição dos monges, que abrigaram inimigos do Xogunato no Mosteiro...

Toyotomi Hideyoshi nasceu em Nagoia, Aichi ken em 1537 e faleceu em 1598 com sessenta e um anos de idade. Quando nasceu era tão feio que o apelidaram de “Filhote de macaco” ou “Macaquinho”. Era de família humilde e teve uma infância difícil que o obrigou a sair pelo mundo, para achar uma ocupação para ajudar a mãe. E o seu caminho se cruzou com o de Nobunaga, que o tratou com respeito. Sob a orientação deste, Hideyoshi cresceu e mostrou do que era capaz, porque era muito inteligente. Quando seu amo foi assassinado, Hideyoshi ficou enlouquecido e saiu pelo mundo para caçar Mitsuhide, o assassino. Que acabou morto por um lavrador.

A característica de Hideyoshi era a autenticidade. Quando estava feliz cantava, dançava e fazia festas... Quando estava triste, gritava, chorava e imprecava. Não conseguia esconder as emoções. Mas era também muito vaidoso e arrogante. Chegando ao Xogunato, considerava-se o Todo Poderoso. E ambicionou invadir a Coréia, a China, quem sabe até a Índia! Sonhos mirabolantes o levaram a encetar guerras contra a Coréia e contra a China, sem nenhum sentido, que fez muita gente morrer inutilmente. Por outro lado, conseguiu continuar a unificação do Japão, iniciada por Nobunaga. E acabou com a Era das Guerras, recolhendo as armas dos lavradores, para que estes se ocupassem apenas com a agricultura. Assim, o país recuperou a Economia. Foi poeta também, deixando vários poemas interessantes.

Tokugawa Ieyasu nasceu no Castelo de Okazaki também na Província de Aichi em 1543 e viveu até 1616 morrendo, pois com 73 anos de idade. Teve a vida mais longa. Tinha origem nobre por parte da mãe, de quem teve que se separar aos dois anos de idade, por questões políticas da família. Dos dois aos dezesseis anos viveu como refém da Família de Oda Nobuhide, pai de Nobunaga e da família Imagawa. Naquela época de guerras entre Clãs, era costume tomar um filho, uma esposa, uma irmã dos vizinhos como reféns, para que não se rebelassem contra o mais forte e poderoso do lugar. Rebelar significava morte para o refém. Ieyasu não conheceu carinho familiar. O mais próximo disso foi a atenção recebida de Nobunaga nos dois anos que fora refém dos Oda. Nobunaga, o tratou como a um irmãozinho, lhe ensinando montaria, natação. Os outros anos de refém foram passados em Mosteiros junto de indiferentes Monges... Mas, essa vida de vicissitudes iria fortalecer o caráter de Ieyasu, que percebeu que tudo era aprendizagem... Observava os erros dos outros para não cometê-los também.

A vida de Ieyasu foi toda pautada pela paciência... Perdeu a chance de ser o Xogun sucessor de Nobunaga, porque Hideyoshi tomou a frente. Era a sua vez, tinha o poder político e econômico para derrubar Hideyoshi, mas aguardou décadas até chegar a sua vez... E foi seu colaborador incansável para acabar com as guerras tribais que assolavam Japão.

Quando Hideyoshi morreu, mostrou toda a competência de que era capaz. Ele acolheu os vassalos dos Feudos conquistados como um pai que consola, a ponto de ganhar o respeito de todos.

Aos poucos, conquistou os inimigos mais ferrenhos e consolidou a paz no país. Cuidou da questão da sucessão do Xogunato com extrema sabedoria, inaugurando uma nova era, o Xogunato Tokugawa que governaria o Japão por 250 anos.

Mas, era também movido pelo espírito de samurai. Quando recebeu ordem de executar sua esposa e seu filho, que tramavam contra Nobunaga, ele não titubeou. Ele sabia que a ordem era Matar ou Morrer. Também foi cruel com os cristãos que pregavam sobre Jesus no Japão. Expulsou-os a todos temendo a radicalidade da fé cristã... E ainda, não abriu os portos japoneses para os estrangeiros, com exceção da Holanda. Isso atrasou muito o desenvolvimento do país.

Como vêm, os três mais famosos Xoguns do Japão nasceram na Província de Aichi ken, entre os anos 1534 a 1543. E o mais estranho é que seus caminhos se cruzaram e conviveram parte da vida juntos.

E como samurais sábios e convictos perceberam que o Japão precisava acabar com as guerras tribais. O país estava convulsionado em guerras de feudos contra feudos, e isso terminaria em completa destruição. Não haveria futuro para o Japão. Por isso se empenharam nessa missão, para construir um Japão forte e autônomo. E para isso era preciso eliminar quem resistisse. E nunca titubearam. Foram corajosos até a crueldade matando familiares, monges e adversários.

E venceram e constituíram esse Japão admirável que hoje conhecemos. Tinham o mesmo propósito, que outros não perceberam. Que era acabar com o Sengoku Jidai/Período de Guerras internas que durou de 1467 a 1603. Essas guerras ocorriam também na Europa, com os senhores feudatários invadindo e tomando posse de propriedades alheias, nos países onde não havia um governo forte.

No Japão foi devastador, porque as terras eram poucas e havia cerca de 260 Daimyos poderosos, que ambicionavam o cargo de Xogun, ou o Generalíssimo que governaria acima de todos. E havia os Samurais que decepavam a cabeça dos inimigos...

E esses três homens conseguiram em pouco mais de trinta anos acabar com a matança geral, que já durava mais de cento e cinquenta anos, estabelecer a ordem e firmar um governo centralizado no Imperador.

Eram tão iguais e tão diferentes!

Alguém escreveu um poema que define exatamente o caráter deles:

“Se o pássaro não canta, eu o mato”   Nobunaga

“Se o pássaro não canta, faço-o cantar!”  Hideyoshi

“Se o pássaro não canta, espero até que cante.”  Ieyasu

Mirandópolis, outubro de 2020.

Revisto em março de 2022.


kimie oku in

http://cronicasdekimie.blogspot.com


segunda-feira, 7 de março de 2022

 

             Made in Japan

      Há umas décadas, nossa cidade firmou um contrato de irmandade com a cidade de Takaoka, Nagano ken, Japão. E durante uns vinte anos ou mais, houve um intercâmbio ativo de cultura, de costumes e tradições brasileiras e japonesas.

E para essa troca de experiências, a Prefeitura de Takaoka mantinha um Nihongô Gakko/ Escola de Língua Japonesa junto ao prédio do nosso Kaikan. E sempre havia um Professor vindo de lá para ensinar a nossa meninada, a falar e escrever a língua japonesa. A língua japonesa foi ressuscitada por muita gente graças a essa escola.

Na agenda de compromissos, Mirandópolis, recebia anualmente um grupo de jovens japoneses, pra um contato mais direto. Vinham para conhecer o Brasil e trocar impressões com os jovens daqui. O mesmo acontecia com os jovens brasileiros que iam ao Japão, para esse mesmo fim.

Certa vez, um Professor levou a moçada daqui ao Japão. E dentre os pedidos dos nossos jovens estava uma visita às lojas de eletrônicos. O Professor/Sensei os levou a uma boa loja e ficou muito incomodado, porque os meninos não satisfeitos com os aparelhos de som, relógios e outros que tais, pediam para ver outros, mais outros... e mais outros... E os vendedores pacientemente mostravam outros produtos...

O Professor sentindo pena dos vendedores, perguntou a um jovem o que estava acontecendo. E ele respondeu: “São tudo produto da China, queremos os made in Japan”

E o Sensei ficou admirado...

Olhou o próprio relógio e......”Naruhodo!”

Era made in China...

Mirandópolis, março de 2022.

kimie oku in

http://cronicasdekimie.blogspot.com