terça-feira, 23 de outubro de 2012

Autumn leaves



  Autumn Leaves


          The falling leaves 
          drift by the window, 
          The autumn leaves
          of red and gold.

         "As folhas  que caem contra a janela
         são folhas vermelhas e douradas de outono"


          Esta canção tão simples marcou época desde que foi composta lá pelos anos 45/46, como Feuilles mortes, ou Folhas mortas para os franceses. Foi cantada por Edith Piaf, por Nat King Cole, Frank Sinatra e mais recentemente por Eric Clapton.
           No Brasil foi sucesso nos anos sessenta e setenta.
        É uma canção despretensiosa, que fala das folhas que caem no outono, e das saudades que desperta esse desfolhar das árvores.
Toda vez que vejo as ruas cheias de folhas no chão e percebo a mudança da estação, penso na genialidade da pessoa que escreveu essa cançoneta.
Interessante é que o desfolhar das árvores no Brasil acontece mais no fim de Inverno e não no Outono. Nas últimas semanas é que a gente percebeu como as pessoas lutavam contra o vento, para juntar as folhas mortas nas calçadas. E a estação era Inverno, que cedeu lugar agora para a Primavera.
Nos países frios como no Japão, Canadá, Estados Unidos, é possível perceber essa ocorrência no Outono mesmo, quando as folhas ficam amarelas, douradas e vermelhas, como se as árvores vestissem uma roupa de luxo, para uma festa. É o famoso "Koyo" dos japoneses, que deixa as montanhas coloridas.
         E é de encher os olhos o colorido que toma conta das florestas, das praças e dos jardins. E é apenas a transformação que sofrem as folhas devido à falta da iluminação solar, que fica mais suave nessa época. Esse koyo chega a ser deslumbrante em alguns lugares, e todo mundo percebe que a estação é Outono. No Brasil não ocorre essa mudança, porque o sol é sempre muito forte e não dá tréguas.           
Aqui, ao contrário nunca se percebe a mudança das estações, porque temos um sol forte o ano todo, uma iluminação poderosa e muito calor. Flores e frutos ocorrem durante todas as estações. Mesmo no Inverno vemos primaveras deslumbrantes nos muros das casas, e isso confunde a gente sobre as quatro estações.  E de repente, em pleno Inverno acontece um veranico, ou um calor de estralar mamona. Ou, ao contrário, em pleno Verão vem um frio danado, que deixa todo mundo encolhido.
As estações do ano no Brasil são apenas nomes, que não combinam muito com as condições da natureza.
Quanto a isso, acho que não temos nada a reclamar, pois, o sol tropical proporciona vantagens que outros países não têm: Como a luz solar é o mais poderoso desinfetante, nosso povo tem mais saúde, com menos ocorrência de gripes e resfriados, menos problemas respiratórios do que nos países gelados. Além disso, as plantas crescem com mais vigor, e alimento não nos falta. Afora isso, as roupas secam em instantes nos varais, dispensando na maior parte do ano, as secadoras elétricas.
Na verdade, somos abençoados por vivermos numa região tropical, onde a diversão de fim de semana é a praia. E praia e sol escaldante é que não faltam no Brasil.
Mas, voltando às folhas mortas, tenho uma mania: Gosto de desenhar folhas secas, observando todas as nervuras, que um dia alimentaram a planta, levando a seiva da raiz até os botões para florir.
Vejo na folha seca, uma vida que um dia deslumbrou o mundo com sua beleza. Vejo em cada folha seca que vem bailando pelos ares, uma pessoa que um dia nasceu, cresceu e viveu a vida com entusiasmo, com alegria, com paixão... Cada folha é como uma senhora idosa no fim da vida, procurando um pouquinho mais de seiva, para continuar usufruindo da grande aventura de viver. Cada folha seca caída na calçada é um ancião, que um dia teve sonhos, ilusões, ambições e que está se despedindo da vida, com relutância, porque viver é muito bom.
E cada folha seca me inspira um poema:  


   Galho cortado
   vida partida.
   Mas, a ânsia por viver, 
   ainda permanece
   na folha cheia de espinhos
 implorando........seiva. 


                                                                                                                                                          

    Que segredo precioso 
 queres guardar, folha plissada?
Lembranças da bela árvore,
dos botões verdes e redondos,
das flores brancas e quietas...
ou das tardes luminosas 
 que alongavam as doces sombras?

                                                                                                     
                                 Que mistério transforma

         O verde em prata?
         A folha condenada
         no seu suspiro final,
         se veste de luz
         e de prata...
         Despedindo-se da vida.


    
      Mirandópolis, setembro de 2012.
      kimie oku in "cronicasdekimie.blogspot.com

quinta-feira, 18 de outubro de 2012




Maria Benedita Moreira de Assis


Eu a conheci no final dos anos 60.
Ela, mãe de aluno; eu, professora de seu filho.
        Grupo Escolar de Amandaba, quando o Bairro era um lugar super-povoado, pobre e sem conforto.
Para ir até lá, atolei trocentas vezes com o meu fusca nos buracos da estrada, enfrentei barreiros inacreditáveis, poeira sem fim...
Alunos? Trinta e cinco, quarenta por classe. Todos paupérrimos, de chinelos havaianas os que tinham melhores condições. Os demais, descalços mesmo. Material escolar? A Caixa da Escola tinha que acudir, senão não haveria freqüência... Merenda? Sopa de fubá com almeirão e ocasionalmente, um arroz doce. Os meninos reclamavam do fubá: “Não sou filhote de louro prá comer papa de fubá”
Aula era na lousa, no giz branco, que colorido, só quando a professora comprava... Livro de leitura em preto e branco com raras ilustrações, cadernos só de brochura, borracha, caneta... Os pontos de História do Brasil, de Ciências, de Geografia eram todos colocados no quadro negro, e copiados pelos alunos. Não existia livros dessas matérias, e os alunos copiavam e estudavam, sem resmungar.
Alunos que não dominavam os pontos ensinados, as operações matemáticas, e que não eram capazes de redigir textos eram inexoravelmente reprovados, para reverem todas as matérias no ano seguinte. Não havia Conselhos de Classe, de Série...
Só que todos aprendiam a calcular porcentagem, áreas de terrenos, tabuadas, quem descobriu o Brasil, quem foi Anchieta, Mem de Sá, Duque de Caxias, Tiradentes e sabia o significado do dia 7 de setembro, de 15 de novembro e  cantava o Hino Nacional e respeitava a  nossa Bandeira.
E havia um respeito muito grande pelo Professor. Os pais compareciam às reuniões de Pais e Mestres e ouviam respeitosamente a fala do Diretor e as orientações dos Professores. Os Mestres primavam pelo empenho de serem professores orientadores e os Pais primavam pelo desempenho de sua missão de serem progenitores de alunos. Assim as coisas caminhavam. A Educação era para valer. O professor era a imagem em que se espelhavam os alunos.
Foi por essa época que conheci Dona Maria. Apareceu-me na Escola no final do período, vestida toda de preto, enlutada pela morte do esposo, que havia ocorrido uns dias antes. Conduzida pelo filho Antonio,  que era meu aluno, veio falar comigo. Estava desesperada. O fazendeiro havia jogado sua mudança no terreiro, porque seu marido morrera e ela não tinha serventia para ele. Tinha seis filhos com menos de dez anos de idade, e estava prestes a ter o sétimo.
Sua mudança fora despejada e era um dia de chuva, e não tinha onde abrigar os filhos... Fiquei atarantada, sem rumo... Como ajudá-la?  Naquela época, eu também estava pelejando para criar meus filhos pequenos, e não tinha um cômodo para abrigar uma família inteira.
Atordoada, olhei para cima, pedindo ajuda a Deus, e quando baixei os olhos vi uma colega professora, cujo marido fazendeiro viera buscá-la e a seus filhos, porque moravam numa fazenda próxima. E sem hesitar, fui  até eles e pedi que me ajudassem a resolver o problema.
E ele, generoso, disse apenas: “Tenho uma tulha de café que está vazio aqui no bairro, se a senhora não se incomodar, pode ficar lá.”
E o próprio fazendeiro mandou seus empregados buscar a mudança e acomodar a família de dona Maria, que ficou morando por anos nesse lugar. Além do mais, o fazendeiro lhe forneceu leite de graça por anos.
Esse período de vida foi o mais sofrido para dona Maria. Por mais que trabalhasse no Bairro como lavadeira e ou cozinheira nas casas de família, a renda era mínima, porque mesmo as patroas eram pobres e, não podiam lhe pagar como merecia e precisava para alimentar as crianças.
Lembro-me que sempre que podia, fazia cestas de comida para ajudá-la. Um dia, me contou que havia cozinhado milho seco que havia na tulha, para alimentar os meninos. Outra vez, ela mandara as crianças dormirem mais cedo, porque não havia nada para comer...
         Um dia, conseguimos incluí-la num programa de assistência do Governo, cuja responsável local era a Cartorária Doutora Julieta Antonieta Simioni. E todos os meses, ela vinha receber esse auxílio, que era irrisório, mas que ajudou a comprar o arroz e o feijão.
Entretanto, o fazendeiro que a abrigou na tulha se tornou Prefeito, e atendendo a um pedido dos professores e pessoas do Bairro, contratou dona Maria como Merendeira. E dona Maria merendeira se tornou. E a estabilidade chegou, com os filhos já mocinhos enfrentando serviços nas roças da vizinhança.
Dona Maria Merendeira era caprichosa, e amava fazer merenda. Não faltava às suas obrigações, a não ser para acudir a uma filha excepcional que possuía.
Por anos e anos, dona Maria foi a Merendeira da Escola. Respeitada pelos alunos e estimada pelos professores, para quem sempre fazia o almoço.
No final dos anos 70, deixei o Bairro, por transferência de sede de serviço e por um bom tempo, perdi o contato com ela.
Mas, os filhos foram crescendo e se casando, e a filha que precisava de sua assistência ficava sozinha em casa. Temendo que algo de ruim pudesse acontecer a ela na sua ausência, dona Maria se aposentou sem ter completado o tempo necessário, com renda parcial.
No começo dos anos 90, eu me aposentei e retomei o contato passando a visitá-la. Estava envelhecida, triste e só com a menina Ivanilde. Tinha muitas saudades da escola onde fora merendeira por anos, e tinha um desejo imenso de revê-la.
 Um dia, há uns três, quatro anos, eu a coloquei no carro e rumamos para a escola, que ficava distante de sua casa. Era uma tarde de sábado e a escola estava fechada, mas demos uma volta, relembrando os tempos agitados, com centenas de crianças correndo pra lá, pra cá. Percebemos que as árvores do bosque estavam imensas, e aproveitando a tarde silenciosa, sentamos à sombra delas e ficamos ouvindo os pássaros cantando. Passamos uma hora agradável ali.
De outra vez, eu a convidei para dar um passeio e a levei à escola, num dia de semana. A escola estava aberta e pudemos rever as dependências. Revisitamos o refeitório e a cozinha, onde havia um fogão de lenha, no qual dona Maria fizera tantos doces. Mas, ela não ficou feliz nessa visita. Todas as dependências tinham sido reformadas, e nada lembrava a cozinha e o refeitório de antes. Dona Maria se sentiu um estranho no ninho. Para consolá-la, sentamos sob as árvores amigas e relembramos os Diretores e Professores que ali havíamos conhecido...
Entretanto, a menina, que os médicos prognosticaram uma existência de 15 anos no máximo, viveu até os quarenta e tantos anos. Sua deficiência era a seqüela de Meningite, que contraíra aos dois anos de idade, que afetou sua fala e seus movimentos, tornando-a dependente de ajuda. E assim, a vida da dona Maria ficou limitada a cuidar da filha, cujas dificuldades de fala, e de locomoção foram aumentando com o passar dos anos.  Mesmo nos últimos tempos, quando a fala era quase impossível, a Ivanilde me reconhecia como a “dona Timie”. E há dois anos, essa menina acabou falecendo, após muito tempo acamada. A menina era a paixão de Dona Maria.
Com a partida da moça, dona Maria se viu de repente, sem a companheira de anos e anos e perdeu o rumo na vida. Após o funeral, ela se deitou e nunca mais se levantou.
E agora, aos setenta e nove anos de idade, está também de partida. Entre uma internação e outra, está cada vez mais fraca, mais esquecida e mais confusa. Com ocasionais reidratações no Hospital, vai sobrevivendo, mas sabemos que o fim está próximo. Ainda me reconhece e sabe dizer meu  nome...
E estamos orando que Deus tenha misericórdia e a leve mansamente, sem sofrimento, para um lugar de sonhos, onde está a querida filha Ivanilde.
Dona Maria Benedita Moreira de Assis, minha valente amiga...

Mirandópolis, outubro de 2012.
Kimie oku in “cronicasdekimie.blogspot.com”

Dona Maria faleceu hoje aos oitenta anos de idade, em 26 de maio de 2013.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012



Aos Mestres... com saudades

    Era o nosso primeiro dia de aulas no GEM, Ginásio Estadual de Mirandópolis e  chegávamos com um misto de curiosidade e medo, mas ao mesmo tempo orgulhosos, pois havíamos passado na frente de dezenas de meninos ao sermos aprovados no Exame de Admissão. Íamos freqüentar um novo mundo escolar, deixávamos a aritmética e conheceríamos a matemática, alunos  de uma professora polivalente passaríamos a ser alunos de professores específicos para cada matéria. Na hora da chamada teríamos nosso nome substituído por um número.  Coitado daquele que recebesse o número vinte e quatro.
          Os alunos veteranos nos observavam fazendo gozações e já nos colocando apelidos, tivemos sorte porque o diretor Pedro Perotti tinha proibido o trote a partir daquele ano. Só fomos intimados a não aparecermos mais de “cuecas” no ginásio, isto porque usávamos calças curtas. Os uniformes também mudaram, o tradicional terno cáqui e gravata foram abolidos e os novos seriam calças verde oliva e camisa  bege com gola trespassada. Os de educação física seriam calções azuis, camisetas brancas, kédis e meias  brancas.
          Durante estes anos de ginásio tivemos muitos professores, alguns por pouco tempo, outros por muito tempo. Todos permanecem em nossa lembrança, mas para o garotinho de dez ou onze anos de idade, que recebeu o impacto daquela mudança, os primeiros marcaram muito.
          A professora Zei nos apresentou às notas musicais, às fusas e semifusas; às colcheias e semicolcheias; ao pentagrama e à clave do sol. Aprendemos a ler a partitura e a solfejar: dorémifásol...rémifá   rémi  rédo ...
          Com o professor Ademar Sigristi realizamos vários trabalhos manuais: com a tesoura, cartolina e cola construímos vários poliedros,  com papel sulfite nos tornamos peritos na arte das dobraduras.
  O professor Onofre aumentou os nossos conhecimentos da História do Brasil e o professor Ivan nos levou a conhecer o mundo: conhecemos  os Maias, Astecas e Incas. Ao lado de Simon Bolívar participamos da libertação de países da América do Sul. Acompanhamos George Washington na proclamação da independência dos Estados Unidos,  ficamos com Abraham Lincoln e o General Grant  e os vimos vencer o General Lee, comandante dos Confederados, na guerra de Secessão. Passamos por todos os períodos da história da humanidade, mas foi o Renascimento, na Idade Moderna, que mais nos agradou., com seus artistas, cientistas e literatos.
   Na antiguidade conhecemos a coragem de Davi, a força de Sansão e a sabedoria de Salomão. Passamos medo na Idade Média com a Inquisição e sofremos  as dores de Joana D’Árc. Torcemos por Napoleão Bonaparte na batalha de Waterloo e assistimos à Guerra dos Cem Anos. Nos silenciamos perante o horror de Nagasaki e Hiroshima.
          Aos onze anos de idade tínhamos aulas de Latim ministradas pelo professor Sanvito. Tínhamos de saber as declinações: puella, puellae, puellarum, puellam... Suas citações em latim eram conhecidas, principalmente a que dizia quando íamos fazer uma prova: Alea jacta est... Ingênuamente, ele distribuía as provas para que cada aluno corrigisse a do colega. Passamos a fazer as provas a lápis.
         Julio Mazzei foi embora para o Santos, para o Kosmos e no seu lugar veio o professor Jenner  que trouxe na bagagem uma bola pequena, cheia de crina de cavalo e regras para um jogo de quadra. Era o futebol de salão. Amor à primeira vista. Paixão para uma vida toda.
          Tivemos poucas aulas com a dona Noêmia, uma pessoa, simpática, querida por todos, mas Deus a levou. O professor Zanin veio substituí-la, recém formado, dinâmico, chegou querendo transmitir o que sabia e conquistou todo mundo.  Fizemos experiências, conhecemos todos os ossos do corpo humano, do calcâneo ao occipital. Aprendemos que o maior órgão do corpo humano é a pele e que o coração é do tamanho da nossa mão fechada. Vimos que temos a mesma quantidade de costelas dos dois lados do corpo apesar de a Bíblia citar que Deus tirou uma para criar Eva. Eu acho que ELE tirou duas: com uma fez a mulher que não conhecemos e com a outra fez a mulher que pensamos conhecer. De qualquer modo foi o melhor presente que ELE nos deu,  melhor que a própria vida, pois sem a mulher a vida não teria significado.
          Ela era simpática, pequenina, graciosa e nos conquistou aos nos cumprimentar fazendo beicinho: bonjour, mes amis. Dona Ani desenvolveu em mim o interesse pela língua francesa. O Hino Nacional Brasileiro, o Hino da Independência e a  Marselhesa são, para mim, os três hinos mais bonitos que conheço: Allons enfants de la Patrie. Le jour de gloire est a arrivé!...
          Nós já a conhecíamos dos exames de admissão. Era grandona,  rigorosa, enérgica  e às vezes gozadora. Dona Dirce ensinou-nos que “menas” não existe, que não se diz “fazem” tantos anos e que índio é que fala “ mim fazer... mim pegar...” Nas sextas feira, as aulas eram de redação. Alunos eram sorteados para apresentarem uma redação na aula seguinte. Fui sorteado e meu tema era “o entardecer”. Pedi para o Zé Pedro fazer para mim. No dia da apresentação ele me entregou a redação. Neste dia o diretor, dr. Neif, foi assistir à apresentação.
Todo trêmulo fiz a leitura da minha redação. Fui aplaudido, todos gostaram e dr. Neif me elogiou, mas perguntou-me se já tinha lido José de Alencar. Intrigado com a pergunta respondi-lhe que não, nunca tinha lido José de Alencar. A conversa acabou ali.
          Anos depois, já no científico, lendo Iracema, qual não foi a minha surpresa ao verificar que o famoso escritor havia usado a “minha redação’ para descrever o anoitecer. Que vergonha!!!! Ah Zé Pedro!!!Ah Zé Pedro!....
          Dona Celina era bonita, bonita, gostosa e autoritária. Não dava um sorriso, parecia um sargentão ministrando aula. Suas aulas eram de disciplina militar. Tínhamos de sentar eretos, olhando na nuca do colega da frente. Se um objeto caísse não podíamos pegar. Acho que ela descobriu porque alguns alunos derrubavam a caneta e abaixavam para pegar. Se fôssemos falar tínhamos de erguer a mão e...: teacher, may  I have a question?    I don’speak  and I don’t know English, but I to learned lot from her.
          A professora Dalva Colaferro ficou pouco tempo conosco. Estava doente, tirou afastamento e não voltou mais, vindo a falecer. Dona Myriam assumiu as aulas e com ela navegamos pelos oceanos, conhecemos os cinco continentes. Atravessamos os canais do Panamá e de Suez, escalamos as Montanhas Rochosas, os Alpes e os Andes. Do alto do Kilimanjaro avistamos toda a África, admiramos o Grand Canyon e nos aquecemos nos gêiseres da América do Norte. Vimos a fertilidade do Nilo, descemos o Velho Chico numa gaiola e nos assustamos com a pororoca no Amazonas.
          O professor Oswaldinho e o Kazuo nos ensinaram a regra de três, que tanto galho nos quebrou, mostraram-nos que logaritmo não era nenhum bicho de sete cabeças, que hipotenusa não era palavrão e que catetos não são só porcos do mato.
          Queridos mestres, como o lavrador que ara e semeia a terra  vocês semearam o saber. Temos um pouco de vocês na nossa formação.
A vocês, os nossos agradecimentos e as nossas saudades.

Ademar Bispo
          
              
         
         

segunda-feira, 8 de outubro de 2012


E agora, José?


A festa acabou. E agora, José?
Foram três meses de campanha dura, andando daqui prá lá, de lá prá cá... Gastando as solas de sapatos, formando bolhas, tomando cafezinhos frios, sucos mornos, comendo lanches, que hora de almoço era precioso e não podia desperdiçar.
Quando estava em casa era só para conferir a agenda, prá ver se não havia esquecido de visitar aquele eleitor amigo, que faz questão de um abraço, de uma visita pessoal... E conferir se os santinhos darão pro gasto.
E o telefone tocando o dia todo. Uns eleitores mal acostumados folgando em cima de candidatos, e pedindo um botijão de gás, porque acabou e não tem grana prá comprar... e as crianças estão sem comer desde ontem. Ta bom, pega o gás lá no compadre e diz que depois eu passo lá. Não, acho que vou telefonar... depois você vai lá buscar, ta?
Então vem o cabo eleitoral pedindo prá adiantar umas notas, porque a mãe não está passando bem e é preciso comprar uns remédios caros, que a farmácia popular não fornece. Puxa! Mas, já lhe adiantei meio salário!
E enfrentar a via sacra: Vamos mudar de bairro, que lá onde fomos ontem o clima não estava nada amistoso. Mas, o bairro é de trabalhadores e a maioria das casas só tem crianças trancadas, que os pais estão todos pelejando pela vida. Mamãe falou que não é para pegar nada de estranho. Nem santinho deu prá entregar. Numa rua comprida só três moradores foram amáveis, mas disseram: Nóis não vota. A gente num sabe ler nem escrever. Tudo bem, vamos em frente que atrás vem gente. Noutra casa um eleitor zangado, despeja toda a fúria de uma vida desgraçada na visita inesperada: Vocês vêm cum essa cunversa mole, e dispois qui ganha, uma banana prá nois. Nunca mais põe os pés por aqui. Vou votar é nada. Qui qui eu ganho cum isso? Num vem qui num tem.
Saldo do dia: Zero! Andamos tanto prá nada! Que calor! Puxa! Será que essa chuva vem ou não vem?Amanhã será melhor, se Deus quiser!
E amanhã, amanhece com dor de barriga e fica acamado, indo ao banheiro de hora em hora. Será que foi aquele suco, que bebi junto com o cumpadre lá no boteco? Tava morno e parecia vencido... Mas eu tenho que sarar, porque os adversários estão de carro de som na rua, bandeirolas e um bando de cabos eleitorais... Passo na farmácia e tomo uns remédios e vamos prá luta! Na primeira hora foi tudo bem. De repente, porém a dor de barriga voltou com força total e não havia banheiro à vista. Foi preciso apelar prá aquele boteco da esquina, com um banheiro mal cheiroso prá bebum vomitar. Mas era emergência e não houve escolha... e não havia papel higiênico. O jeito foi usar santinho mesmo. Mas que papel duro e seco! Amanhã tenho que me lembrar de carregar papel higiênico... Puxa! Como candidato sofre! Será que os outros já passaram por isso? Acho que só eu mesmo! Mas, a dor passa e a tarde termina com o encontro de alguns eleitores fiéis, que prometem votar: Pode deixar, amigo, que só na família tem 13 votos garantidos! E o candidato vai pras nuvens de felicidade.
Quando chega ao Comitê, descobre que acabaram os santinhos, e fica sabendo que o Partido já lhe subvencionou tudo que tinha direito, e daqui prá frente terá que arcar sozinho. E tou devendo os folders na Tipografia... E estamos no meio da campanha! Nunca pensei que a brincadeira ia sair tão caro!
E aí o telefone toca! É o filho reclamando sua presença na reunião de Pais e Mestres prá amanhã à tarde. Enquanto está falando com o filhote, chega um amigo, e ele não pode perder a oportunidade de passar um santinho. Ta bom, filho! Ta bom, amanhã, né? Pode deixar, eu vou. E aí, atendendo ao amigo nem se lembra mais do que falou com o filho. Este percebe que o pai está cada vez mais distante e a revolta lhe cresce no peito de adolescente... Porcaria de eleição... Daí a meia hora, a mulher lhe grita: Preste mais atenção aos seus filhos! Como vai servir à comunidade, se não dá nem atenção aos próprios filhos? Ta bom, ta bom, depois a gente se fala. E desliga..
Mas, vamos lá, a campanha tem que continuar. Na esquina vê o maior adversário rodeado de correligionários e puxa-sacos. E vão todos pro barzinho beber uma cerveja. Até que gostaria de uma geladinha. Mas, a luta continua. Aproveita prá falar mal daquele candidato prá um passante, que sorri amarelo, provando que é dele.
Quando volta prá casa, está moído de cansado. Puxa, hoje estou podre! Toma um banho às pressas, engole qualquer coisa e... A mulher: Aonde vai? Ah! Esqueci de dizer, tem uma palestra no Centro Comunitário, e não posso perder a oportunidade de ganhar uns votos... De novo? E a voz da mulher está estridente, e ele não entende o porquê...
Outro dia! Chuva! Chuva abençoada, mas como fazer a via sacra com toda essa água descendo? E escorregando e molhando as barras das calças, lá vai ele abordar alguém, que lhe dá uma resposta malcriada e o descarta de vez. Aproveita para ir ver uns amigos de verdade, lá na oficina onde trabalham, e eles prometem conseguir mais votos. E um deles o chama de lado e lhe pede um emprego pro filho que fica o dia todo zanzando pra lá prá cá... Tá bom, vou ver, mas primeiro preciso me eleger. Ah! Não! Tu tá eleito. E com essas doces palavras ecoando até o coração vai seguindo sua via crucis... 
E aí o Presidente do Partido o convoca para o Comitê. Você só ta preocupado com você. Esqueceu a campanha do chefe, do Prefeito. Dizem que só tá pedindo votos procê. Tá errado, companheiro. Tu foi convidado prá acrescentar. É prá isso que o Partido aceitou a sua participação. Tá certo, Chefe, eu estou meio atrapalhado, mas vou acertar, podes crer. Oia lá, hein! Fidelidade partidária, viu?
E ele: Mais essa, quando falo o nome do candidato a prefeito, todo mundo faz cara feia. É brincadeira? Mas, vamos lá, não falo nada, mas entrego os santinhos dele, e aí ninguém pode me cobrar nada.
E aí, José fica tão atarantado com a bronca do chefe, que esquece da Reunião de Pais e Mestres do filho. Come uma porcariazinha num boteco e emenda o dia com a noite. Distribui uns santinhos, recebe uns abraços de alguns ex-colegas de escola e volta às 21 horas para casa.  Antes nem tivesse voltado. O pau comeu a noite inteira e depois, a mulher chorava num canto e o filho no outro. Nem dormiu direito, sentindo-se culpado, mas achando que ninguém o compreendia e nem lhe dava apoio. Tou lutando por todos...
Mas, estamos na reta final. Depois eu conserto tudo. Procurou ser gentil com o filho, levando-o à escola. Procurou a professora e soube que o garoto não está indo bem nos estudos. Anda muito distraído, e por qualquer coisa, perde as estribeiras. Pai, vocês estão com algum problema em casa? Que é isso, professora? Está tudo bem. Problemas de adolescente, fessora! É, pode ser. Mais essa! Não posso falar nada prá a mulher, que está uma fera, e pro menino, o que vou dizer?
Vem almoçar em casa e diz: Gente, tenham um pouquinho de paciência, que quando o pai for vereador, tudo vai mudar! Vou ganhar mais e poderei comprar aquele celular moderninho que você tá querendo. Oba! Vou torcer procê, pai!
Nesse dia tudo corre bem, conseguiu distribuir muitos santinhos, recebe apoio de alguns conhecidos e volta feliz prá casa.
E enfim chega o dia. Quanta gente! Zé, você também tá nessa? É, e conto com o seu apoio. Mas já me comprometi com o meu vizinho, que me socorre sempre que preciso. Não posso trai-lo. Tá bem. Boa sorte, compadre! Como será que tá na outra escola? Será que meus amigos vieram votar? E aí, roda feito barata tonta de uma escola pra outra. Sempre aquela festa, com bandeirolas e santinhos na faixa permissível...
 Está tão ansioso que passa o dia só com água. Nada lhe desce pela garganta. Será que a mulher vai votar em mim? E os meus parentes? Bom, tem aquele que nunca foi com a minha cara, mas os outros cinco com certeza. E os vizinhos? Prometeram que metade da família votaria em mim. Então, somando, cinco mais três, mais vinte colegas de trabalho, mais uns duzentos amigos do bairro... Ah! E os votos prometidos pelos favores que fiz, mais uns cento e cinqüenta, mais os amigos de meus pais e seus filhos. Ah! Com certeza, tou lá. Quem sabe, pego o primeiro lugar. Aí, serei o Presidente da Câmara! Aí sim, troco de carro e mudo de bairro, que aquele onde moramos é muito chinfrim... muito pobre. Mereço coisa melhor. E o Zé, de sonho em sonho foi tomado pela canseira e fome e acabou desmaiando, bem na hora que começaram a anunciar os resultados.
Horas depois acordou no sofá, com a barulheira da família: Eu não acredito! Tanto sofrimento pra nada! Tanto desperdício, socorrendo outros com fraldas geriátricas, com remédios caros, com botijões de gás, fora as contas de petiscos e cervejas nos botecos!  As corridas de carro de graça pra gente que nunca vi mais gorda!  E só 18 votos? Zé, acorda seu tonto. Vê se aprende de vez! Tu foi um idiota! Foi usado e não conseguiu nada. Vereador, não me faça rir. Dá até prá saber quem votou em você! Viu só, prá que serve uma campanha eleitoral? E pelo amor de Deus, venha dar um fim nesses folhetos e santinhos que eu não agüento mais  ver isso.
Pai, e o meu celular?
E agora, José?
A festa acabou.

Mirandópolis, 8 de outubro de 2012.
kimie oku in “cronicasdekimie.blogspot.com”


P.S.   Dedico esta crônica a todos os cidadãos simples, que são manipulados para arrebanhar votos para os partidos políticos. Que acreditam no que fazem acreditar, mesmo não tendo a mínima chance de chegar lá. Escrevi isto com muita dor na alma, ao constatar o desempenho dos menos votados. É doloroso demais.

sábado, 6 de outubro de 2012


Alea jacta est

Felizmente, a campanha eleitoral chegou ao fim.
Como não havia oponentes muito fortes, até que desta vez foi uma jornada mais calma, sem as costumeiras baixarias, que já conhecemos de sobra. Mesmo assim, deu uma canseira na população, que ouviu tanta bobagem anunciada nos carros de som, como se os candidatos fossem gente milagrosa, que desceu dos céus, para vir realizar obras magníficas.
Às vezes, fico pasma de constatar a coragem que certos velhos conhecidos nossos, que nunca fizeram nada pela cidade, têm a coragem de anunciar que irão “fazer isso e aquilo na saúde, na educação”. Gente que nunca cuidou de ninguém, nunca percebeu que há um vizinho necessitado, que nunca cuidou de um familiar idoso e doente. O termo exato para defini-las é “cara de pau”.
Percebi também que, tem gente que veio preparando a cama há um tempo atrás, participando de grupos e promovendo ações coletivas, para fazer nome, e quando o povo estava acreditando no cidadão, pronto, lá vai ele candidato. Dá prá acreditar? Usar pessoas como degraus para subir no pódio. Esses são os piores, porque usam da inteligência e pensam que o povo não seja capaz de fazer as ligações...
E o que dizer de outras, que nunca deram um bom dia, um boa tarde,  nem pelo amor de Deus, de repente se tornarem tão gentis, e virem apertar sua mão, como se fossem as “rainhas da cocada”?
Mas, nessa campanha eleitoral, aprendi uma lição: não confiar demais nas pessoas, porque muitas vezes, elas só mostram o lado que dá para mostrar, e ocultam o lado sombrio. E como há negrume ali...
Entretanto, posso dizer que hoje tive a satisfação de apertar a mão de um candidato, que me apresentou as suas realizações como edil, e disse que não faria a descortesia de pedir meu voto, sabendo que há um familiar disputando também.
Então pensei: “Nem tudo está perdido. É possível fazer uma campanha aberta e clara, sem mentiras, com respeito!” Com classe e elegância.
Ocorrência desse tipo é coisa rara, porque tem a ver com a formação da pessoa, com o berço, com a educação. Que a maioria não tem.
Só fico na torcida para que não seja eleito nenhum candidato, que ultrapassou os limites do tolerável, em termos de poluição sonora, abusando de nossos maltratados ouvidos, com as besteiras estridentes que andou anunciando. Repetindo centenas de vezes, na mesma rua, no mesmo bairro, para os mesmos eleitores... Eleitores, que fizeram o juramento de não votar nele, justamente pela falta de respeito.
Que não se eleja nenhum candidato, que sujou os muros com um visual horrível, que só destaca o lado pobre e feio da cidade. Será que irão limpar todo esse lixo depois?
Que não se elejam os candidatos, que usaram recursos subliminares e que,  almejam o poder  visando  aumento de proventos. E usaram o viés da cultura, da religião e da solidariedade para disfarçarem  suas ambições políticas.
Tenho ou não tenho razão em torcer assim?
Um candidato, que nos aborreceu com o som estridente todo esse tempo, saberá respeitar os direitos do cidadão se for eleito?
Um candidato, que lambuzou de tinta espalhafatosa os muros da cidade, saberá um dia discernir o feio do bonito, o correto do indecente?
Um candidato que arma em cima do povo de forma disfarçada, não irá compor grupos amanhã, para conseguir alcançar apenas seus objetivos usando desse mesmo recurso? Seguindo o modelo da Presidente Cristina Kirchner da Argentina, que está usando o filho para formar grupos nos diversos setores da sociedade , para a continuação do poder....
É. A votação está aí. Espero que as pessoas tenham consciência e votem com liberdade.
         Despertem, eleitores!
Voto de cabresto só prá um quadrúpede.
Alea jacta est. A sorte está lançada.

Mirandópolis, 6 de outubro de 2012.
kimie oku in “cronicasdekimie.blogspot.com”

segunda-feira, 1 de outubro de 2012


9. História de Mirandópolis

dos anos 40/50

Relato de Elídio Ramires



Capítulo IX – Mudança para Campinas como fiscal de Rendas


Após solicitar demissão do cargo de Inspetor Federal do Trabalho, assumi o cargo de Agente Fiscal de Rendas na Coordenadoria da Secretaria da Fazenda em São Paulo, em abril de 1983, e ao escolher a Delegacia Regional para trabalho, optei pela DRT/5, em Campinas. A escolha se justificou, sobretudo por uma questão familiar. Na época meu filho Eduardo Augusto já estudava na Faculdade da USP do Largo  S. Francisco em S. Paulo, o Carlos Alberto estudava Engenharia Elétrica na Faculdade Federal de Itajubá – Minas Gerais, localidades mais próximas de Campinas, e minhas filhas Regina Célia e Vera Lúcia pretendiam fazer o curso superior em uma cidade que tivesse faculdades

Embora tenha assumido o cargo de AFR em abril, a mudança para Campinas, todavia, só foi feita após a conclusão do meu estágio na Secretaria da Fazenda em São Paulo. Em agosto, durante a realização do referido estágio, comprei casa em Campinas, mas que se encontrava ocupada por um inquilino. A mudança foi feita no mesmo mês, porém em casa alugada provisoriamente pela Imobiliária. Só mudamos para a casa por mim comprada em dezembro de 1983.

O início de minha carreira como Fiscal de Rendas foi sofrido em virtude de ter sido realizado em patrulha de fiscalização nas ruas e em estradas, mas a situação durou pouco tempo. Alguns meses depois, ao tomar conhecimento de meu currículo de advogado, jornalista e ex-Inspetor Federal do Trabalho, o Delegado Regional convidou-me para trabalhar no Gabinete como Assistente Fiscal, órgão de assessoria do Delegado, onde permaneci por mais de 4 anos.

Com a substituição do Delegado no Governo Orestes Quércia, fui convidado para trabalhar no Tribunal de Impostos e Taxas em São Paulo, órgão da Secretaria da Fazenda que julga os processos de imposição de multas aos contribuintes por sonegação.

No Tribunal exerci, durante 10 anos, o cargo de Representante Fiscal (espécie de promotor público), nas Câmaras Julgadoras, formadas por 3  juizes classistas e 3 juizes fiscais.

Quando fui designado para exercer  o cargo, comprei um pequeno apartamento em prédio em frente a Secretaria da Fazenda. Permanecia em São Paulo de 2ª a 6ª feira. A Neiva ficava em Campinas em companhia da minha filha Vera Lúcia, que era solteira.

Em 1998 deixei a Representação Fiscal e fui trabalhar nos últimos 2 anos de minha carreira na Secretaria da Fazenda, na Corregedoria Fiscal, o órgão que processa e julga administrativamente os fiscais acusados de “desvio de conduta”.

Em junho de 2000 me aposentei no estado, restaurei meu registro na Ordem dos Advogados e voltei a advogar com escritório no meu próprio apartamento em S. Paulo.

Em 2001, após 43 anos de casamento, eu e a Neiva nos separamos consensualmente. Comprei uma casa para ela morar com a Vera Lucia no Condomínio San Conrado, em Souzas, distrito de Campinas, onde ela continua morando. Eu fiquei com a casa em que morávamos e voltei a me casar novamente em 2002, com a profª Marylaine Silvestrini. No ano passado mudei para a cidade de Valinhos, onde comprei uma casa, após vender a casa de Campinas onde morei 27 anos. Em  Valinhos não estou exercendo a profissão, mas continuo  inscrito na OAB e acompanho  vários processos em tramitação há mais de 10anos nos Tribunais.

Quanto aos meus filhos, estão todos formados em curso superior e bem situados na vida, graças a Deus. O Eduardo Augusto é advogado formado pela Universidade de S. Paulo (Faculdade do Largo S. Francisco), sócio de conceituado escritório de advocacia na Av. Paulista em S. Paulo, casado com a psicóloga Denise Maria de Oliveira; Carlos Alberto, formado em Engenharia Elétrica com especialidade em Eletrônica, pela Faculdade Federal de Engenharia  de Itajubá-MG, é proprietário  de uma escola de formação de técnicos em telefonia, em Campinas, casado com a psicóloga Renata de Souza; Regina Célia, formada em Direito pela Faculdade PUC – Campinas, é Diretora da Secretaria do Tribunal Regional do Trabalho em Campinas, casada com o Juiz de Direito Roberto Chiminazzo Junior e Vera Regina, formada em Engenharia de Alimentos pela Faculdade De Engenharia de Barretos e em Direito  pela UNIP – Campinas, é também funcionária de nível superior do Tribunal Regional do Trabalho de Campinas, casada com o Desembargador Francisco Alberto da Motta Peixoto Giordano.

De cada filho ganhei dois netos. O Eduardo, o Carlos e a Vera, me deram um casal cada. A Regina Célia, duas meninas, hoje todos jovens adolescentes, com exceção dos dois da Vera Lúcia, ainda crianças. O Eduardo ainda me brindou com um filho adotivo que virou meu neto tambem.

Sobre minha família, minha mãe faleceu em 1972, alguns anos depois de meu padrasto. Dos meus 9irmãos, quatro faleceram, o José, a Aparecida, a Irmã e o Osvaldo, que faleceu em Mirandópolis em 1974, deixando minha cunhada Etelvina (Vina) e meus três sobrinhos, os únicos parentes que tenho aí.

O meu irmão Antonio (Nico), também divorciado da esposa Hortência, mora em Ribeirão bonito com o filho mais velho, João Antonio; a Elza, casada com Arnaldo Silva Leão, mora em Araçatuba; a Conceição (Tita) mora em Catanduva; o Adelino, casado com uma paraense, mora em Belém do Pará e o Hélio, o caçula, mora com a esposa Carminha, em Piraposinho. Os meus cunhados; Pedro, marido da Irmã, Ecio Rosário Bardelli, marido da Aparecida e Éden Eder Botura, marido de Titã, também já faleceram.

                  ‘É isso aí, Kimie. Missão cumprida.




E assim, terminamos de publicar o Relato do senhor Elídio Ramires, que fez um retorno ao passado dos anos 40 e 50, que viveu e cresceu em Mirandópolis. Através desses textos, recuperamos parte da História de Mirandópolis dos tempos heróicos, quando o povoado estava se formando no meio de uma mata virgem.

Hoje, Mirandópolis é uma pequena e pujante cidade do interior cercada por canaviais, e movida em grande parte pelos presídios, que aqui se instalaram nas últimas décadas.  O progresso chegou e, com ele muitos problemas próprios de lugarejos que dependem da cultura de cana e da manutenção de Penitenciárias.

O povo continua labutando, honrando o slogan “Cidade Labor” e podemos dizer que a vida em geral aqui é muito tranqüila. Toda a população está pelejando, em busca de uma vida confortável e harmoniosa.

Desde os tempos relatados por seu Elídio, já se passaram mais de setenta anos, e muitos dos cidadãos da época já não fazem parte do cenário atual. Mas, suas obras aí estão, e nós, os cidadãos que aqui estamos, procuramos organizar um Acervo Histórico de Mirandópolis, para que a história do nosso povo não seja perdida.

Esse Relato do Senhor Elídio ficará para sempre no Acervo Histórico de Mirandópolis.

        Oxalá, outros cidadãos sigam o exemplo do senhor Elídio e façam o mesmo, relatando a memória de nossa cidade.

        Muito obrigada, senhor Elídio Ramires, o povo de Mirandópolis e as gerações futuras lhe agradecem.


Mirandópolis, outubro de 2012.

Kimie oku in “cronicasdekimie.blogspot.com”