sábado, 27 de fevereiro de 2016

     Cirandando de novo!


     Hoje foi a cirandada do mês.

   Depois de dias de chuva, amanheceu sem nuvens e o sol apareceu com força total. Como seria a tarde?
   Fomos à Chácara do Seu Albertino Prando e já havia muita gente reunida, conversando.
   Aí chegaram os músicos. E mais cirandeiros chegaram trazendo petiscos e bebidas. Após servir um lanche, o pessoal soltou a voz e cantou, acompanhado pelas sanfonas do seu Albertino e do Gerval e o violão do Jovaninho.
  

   Houve muitas surpresas agradáveis como a Ana Maria Abrantes Jacomelli e sua irmã, que vieram de Ribeirão Preto, o Milton Lima Lima e a Remir que vieram de Ilha Solteira.      Além disso, ainda o pessoal da Amai Mirandopolis compareceu também. E já no final da tarde, os meus sobrinhos Sonia Osaki, Noriyoshi e Vilma Osaki apareceram para conhecer a Ciranda.
   A Vina cantou Chão de Estrelas e Creio em ti para os meus sobrinhos, o seu Orlandinho declamou um poema e a Nair declamou um poema cômico... Foi uma tarde muito agradável!
   Os visitantes amaram a Ciranda.




                                   

   Mirandópolis, fevereiro de 2016.
   kimie oku in







                                      

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

     Após o Carnaval vem uma criança...

      Estava sem inspiração pra escrever e um amigo colocou uma observação no face: “Depois do vendaval vem a bonança, e depois do Carnaval às vezes vem uma criança” (Marinho Guzman de Guarujá).
      E aí aproveitei o mote para assuntar um pouco.
      O Carnaval seria uma festa de confraternização, de explosão de alegria, de renovação de energias... Antigamente acho que era assim. Mesmo a Igreja condenando-a, pregando que era uma festa do Capeta, o povo brincava nos salões e nas ruas. Mas era uma festa sadia, onde famílias inteiras participavam e concorriam como melhores foliões, melhores fantasias e que tais. Havia o Rei Momo que era imenso, que esbanjava alegria e a Rainha do Carnaval escolhida entre as beldades...
      O tempo passou e o artificialismo tomou conta de tudo. Hoje tudo é plástico, emborrachado e silicone. Ninguém sabe se as meninas perfeitas que desfilam têm enxertos ou não, se os olhos são azuis de verdade... Se o parceiro é homem... Se a menina é de fato mulher mesmo.
      Mas, isso não importa. O mundo mudou. Os costumes mais ainda. O que assusta é a devassidão dos costumes.
A humanidade perdeu o brio, o recato, a vergonha e faz coisas em público, coisas que até Deus duvida. Vi no face fotos de madames folionas fazendo suas necessidades fisiológicas no meio da rua, carnavalescos urinando nas portas de lojas fechadas... Sem contar sobre as orgias sexuais que acontecem em salões e a céu aberto...
E então, daqui a nove meses vem uma criança...
Uma criança que nem a mãe sabe ao certo a paternidade,  nem onde foi gerada... Ao som de baterias, de cantares enlouquecidos dos foliões, de desejos repentinos resolvidos ali mesmo num cantinho qualquer... Mas a fecundação aconteceu. Nem o macho nem a fêmea se preocuparam com essa possibilidade. A urgência era saciar o desejo, a fome sexual. Como dois gatos no quintal, como cães em cio que se encontraram pela primeira vez...
E mais tarde, uma criança virá ao mundo.
Não desejada, nem esperada, nem programada.
Será com certeza mal amada, maltratada como um estorvo,  uma despesa que não cabe no orçamento.
E a idiota da mãe não poderá nem recorrer ao macho que a fecundou, porque não lhe lembra a cara, nem nome, nem endereço. Um gato qualquer, sem referência alguma. Um puto qualquer, como ela....
E o mundo será mais uma vez povoado com uma enxurrada de crianças enxovalhadas, largadas nas esquinas, a pedir uma esmola,  um pão, um carinho...
É triste demais o que ser humano faz com as próprias crias, como se fossem gatos sem dono, sem serventia.
Já vi em algum documentário que, ultimamente na cidade do México tem crescido assustadoramente, o número de avós que cuidam de crianças abandonadas pelos filhos. São produtos das transas que ocorrem entre jovens perdidos por drogas, que moram nas ruas como zumbis. E quando têm filhos, eles os trazem para as avós cuidarem. Estas, já cansadas das lidas da vida, sem saúde e com idade um tanto avançada, não conseguem ignorar esses bebês, sangue de seu sangue, inocentes das depravações dos que as geraram. E essas avós idosas acabam aceitando a dura missão de criar a segunda geração da família, que muitas vezes se constitui de meia dúzia de crianças ou mais...
E isso, com certeza deve estar acontecendo em várias cidades do Brasil, apesar de não haver um estudo sobre essa situação.
O que aconteceu com a humanidade?
Por que os seres humanos ficaram tão irresponsáveis? Por que  passaram a agir como irracionais, jogando fora as próprias crias? Nem os bichos fazem isso.
Atualmente, entre a gente sadia e responsável tem diminuído o número de filhos. Os pais premidos pelos custos de sobrevivência e educação têm programado apenas um ou dois filhos. Sem considerar as dificuldades de orientação e encaminhamento dos mesmos nos dias atuais, em que as drogas insidiosamente adentram no seio de famílias mesmo estáveis. E acabam destruindo não só o usuário como a todos os familiares.
Viver hoje é muito difícil.
E não precisamos de folias de Carnaval para piorar a sociedade. Se nove meses pós carnaval, nasce uma leva de crianças indesejadas, a sociedade jamais irá melhorar. Essas crianças renegadas pelas próprias mães, serão os marginais de amanhã, os que irão roubar, assaltar, matar, porque não herdaram um sentimento de humanidade dos genitores, que as geraram num beco qualquer. Porque estes também são um subproduto da sociedade, que nunca receberam uma educação adequada e, nem sabem a que vieram ao mundo.
Carnaval? Desfile? Festa? Luzes? Cores? Brilhos? Maior Festa do Planeta? Yes, temos Carnaval!
Yes, temos também tanta sujeira, tanta devassidão por trás desse brilhos, desse roncar das baterias, desse gingar das mulatas peladas, dessas cantorias que sufocam os gritos e os lamentos de crianças abandonadas nas esquinas, a pedir um carinho. Tá na hora de parar com essa diversão que só traz desgraças para a sociedade.
É bonito ver uma mulata pelada? É bonito ver a Escola  preferida desfilar? É bonito ver os bateristas suando suas camisas para a Escola brilhar? É muito bonito mostrar para o mundo...
Bonito é que por trás desse brilho todo, desses roncos de baterias afinadas muita coisa ruim está acontecendo. A televisão mostra um belo show para chamar os turistas, que vêm ver mulheres peladas... E para atrair gente que deixe seus dólares aqui... Mas a realidade brasileira é essa tragédia.
Nove meses depois, uma leva de crianças mal desejadas será o resultado desta festa obscena.
E a sociedade brasileira continuará sendo essa mesma constituída de menores delinquentes, de meninas perdidas, de filhos mal amados, de pais irresponsáveis e idiotas.
Carnaval é belo?
Crianças perdidas nas esquinas pedindo uma moeda, um carinho podem ser o produto dessa festa de arromba. Onde está a beleza?
Nove meses depois do Carnaval, muitas vezes vem uma criança.
Mirandópolis, fevereiro de 2016.
kimie oku in


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016


          Minhas ferramentas de trabalho

Hoje estava capinando a horta e percebi que, uso ferramentas completamente diversas para realizar minhas atividades diárias.
Vou ao sítio duas a três vezes por semana e, não aguento ver o mato crescendo adoidado com as chuvas, que caíram semanas seguidas. As ervas daninhas crescem numa velocidade espantosa e acabam sufocando os legumes. E a solução que me resta é capinar.
Tá certo que não tenho mais aquela energia de outrora de passar horas tirando o mato, mas consigo trabalhar uma hora mais ou menos. E durante essa hora é possível limpar apenas um pequeno pedaço da horta. Dá um suadouro, uma canseira que só Deus sabe, mas é tão gratificante limpar um cantinho e constatar que o cenário mudou. Descobri recentemente que a terra tem um cheiro bom, que cavoucar o chão atrai passarinhos, e que nasci lavradora desde sempre. E que amo o chão que piso. Melhor estar em cima do que dentro.
Hoje não tenho aquela força e coragem de enfrentar horas seguidas ao sol, mesmo porque tenho alergia à radiação solar, que me ataca e deixa a pele em carne viva...  Mas, eu me armo de cremes bloqueadores, de roupa apropriada, luvas, botas, chapéus e enfrento a natureza com muita disposição. Só até as dez horas, porque depois fica impossível aguentar a quentura que vem da terra e cruza com a do sol...
Para executar essa capinagem uso enxada, meu instrumento de trabalho braçal. Ela é pesada, tem um cabo meio torto, mas funciona regularmente e me ajuda a limpar o terreno.  Aprendi a usá-la quando menina e morava na roça. E fazia bem mais de sessenta anos que não a empunhava. Até que dou conta do recado. Tem um mato chamado pé de galinha que cresce e se esparrama para todos os lados, e eu vivo combatendo-a. E tem outras ervas daninhas como o picão, cujas sementes longas e pretas grudam na roupa e me ferem as pernas...  E carrapichos... E tem a invencível tiririca, que cresce a olhos vistos e não há meio eficaz para combatê-la. Conforme vou capinando, sanhaços, sabiás e outros passarinhos aparecem para comer os bichinhos, que saem do meio do mato capinado e do chão revolvido.  De alguma forma salvo sua refeição do dia. Trabalhar na terra é gratificante, mais ainda ouvindo os canários, os joões-de-barro, os quero-quero e os bem-te-vis cantando. Pena que muita gente substituiu esses cantares com os elevadíssimos sons eletrônicos e impessoais...
A enxada é a minha ferramenta no trabalho da roça.
 E quando escrevo essas crônicas, meu instrumento de trabalho é mais leve, é o teclado onde digito os pensamentos que enchem a minha cachola. Antes de ingressar no mundo digital, escrevia as crônicas usando lápis e cadernos. E como faço muita revisão, usava lápis e borracha, muitas borrachas. Depois de muito resistir, tentei o computador. E não é que é muito mais fácil, rápido e eficaz?  Ainda mais com o Word que oferece um leque enorme de opções de letras, de tamanhos, cores... De correções, de transposições, de cópias instantâneas... Se bem que ainda sou uma amadora no mundo digital; não sei explorar os mil recursos que estão disponíveis... Minha cabeça baratina se tentar...
A Internet me abriu um mundo novo, onde a comunicação rápida e instantânea permite contatos com gente de outras partes do mundo. Assim, me comunico com amigos do Japão, da Alemanha, de Portugal, da Irlanda, da Espanha... É uma coisa espantosa, que me deixa perplexa. Meu blogger com as crônicas chega a países que nem supunha existir... Tenho leitores além do Brasil, nos Estados Unidos, na Alemanha, no Canadá, no Reino Unido, em Portugal, na Espanha, na Irlanda, na França, na Holanda, Ucrânia, Malásia...
Acho isso inacreditável.
E o melhor de tudo é que vou espalhando minhas ideias, para transformar esse mundo num lugar melhor para se morar. Amo escrever sobre a natureza, as plantas, as flores, a chuva, o vento, os pássaros, as matas, as águas...
Outro instrumento que uso muito todos os dias é uma agulha de crochê. Faço rendas, bicos, toalhas para enfeitar meus cantinhos da casa e para presentear pessoas que amo.
Herdei essa mania de minha mãe, que foi crocheteira até o fim de sua vida. Ela amava crochetar, e onde quer que fosse levava uma agulha e um novelo de linha na bolsa. Tirava amostras em salas de espera, em casa de conhecidos e amigos e sempre estava produzindo peças belíssimas.
É tão bom ter uma habilidade para ocupar as horas no fim da vida. Tenho pena de senhoras que nada sabem fazer, e passam horas e horas só esperando a morte chegar. Se soubessem bordar, crochetar, tricotar, costurar, pintar, tocar um instrumento musical, suas vidas poderiam ser mais alegres e nem perceberiam o tempo passar. Estar aposentado não significa necessariamente que nada deve fazer. As horas de ócio levam à tristeza sem fim e à depressão. É por isso que antigamente as avós viviam fazendo trabalhos manuais, enquanto conversavam com as vizinhas, as amigas.
Hoje, com a tevê, ninguém faz mais nada, só enchem a cabeça com o besteirol que todo dia é despejado nos lares...
Tenho o hábito de tricotar agasalhos para crianças não passarem frio. Quando chega o Outono começo a tricotar e saio entregando nas Creches no Inverno. Nos dias mais frios dá para conhecer as crianças mais necessitadas. Eu não aguento ver criança passando frio, acho que devo ter passado muito frio quando pequena. Éramos uma família imensa e nunca havia calçados e roupas suficientes...
É tão bom agasalhar uma criança com uma peça tricotada pelas próprias mãos. É como se abraçasse aquelas crianças todos os dias, oferecendo-lhes o calor para superar a dor do frio...
Sempre considerei que viver por viver não tem sentido. É preciso ter um objetivo, uma meta. E o meu é servir. Não importa se é filho de um peão, de um empregado, de parente dos agregados de casa, se são carentes gosto de estender o meu abraço e amenizar a dureza de suas vidas.
Conheci uma pessoa idosa que, por não ter ocupação varria as calçadas dos vizinhos, todos os dias. E fazia isso com gosto, com alegria, cumprimentando os vizinhos, os que passavam, os amigos; e muitos lhe davam os Bom Dia que lhe iluminavam o dia, já de manhãzinha.
E existem pessoas que ficam recolhidas em casa, num cantinho, gemendo de dor, de solidão e nada fazem para pôr uma pitada de alegria em suas vidas. É tão fácil vencer a solidão, a depressão, se a pessoa quiser. Ficar recolhido no casulo é realmente negativo. Os nervos vão se travando, a fala fica lenta, os ouvidos  param de escutar, os olhos enxergam tudo embaçado e as pernas param de funcionar. Ficar recolhido num casulo, numa saleta, num quarto é o mesmo que esperar o trem da morte chegar...
Como gosto demais de viver, vou driblando a chegada da morte com atividades diversas. Carpindo o mato da horta, cuidando do jardim e enchendo de flores meus canteiros, estudando a língua de meus ancestrais, tocando piano, fazendo crochê e tricô, cirandando com amigos, e ainda escrevendo essas crônicas para os meus leitores. E quando a bendita chegar, irei de alma lavada, feliz por ter realizado tudo que desejava, sem lamentar um instante da vida bem vivida. E viva a vida!
Mirandópolis, janeiro de 2016.
kimie oku in




segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016


Escorpiões


           Um susto imenso.
           Um escorpião andando em minha casa.                      Tranquilamente.  Foi nesta semana. 
           E a minha casa e o quintal são varridos todos os dias.
Como apareceu aqui? O que há de errado no meu quintal? Será que há outros? De onde veio? É a espécie venenosa?
De repente, um pânico!
Calma, calma, calma. Não adianta se apavorar. É apenas um bichinho meio vermelho que se arrasta pela terra, pelo chão, pelas troncos das árvores, pelos telhados, pelas janelas, pelas paredes...
E aí fui pro Google em busca de informações: Se escondem entre tijolos, telhas e pedras, tábuas   empilhadas no quintal. E no meio das quiçaças... Daí a necessidade de se manter sempre limpo todo o espaço do quintal e terrenos não construídos ou casas desabitadas.
Descobri que escorpiões existem há mais de quatrocentos milhões de anos. São da classe dos aracnídeos e existem mais de mil e seiscentas espécies. São bichinhos resistentes e sobrevivem a temperaturas de 0º a 56º centígrados. Bichinho resistente!
Eles são carnívoros e se alimentam de pequenos insetos, aranhas e até de passarinhos, ratos e outros bichos menores... Dormem durante o dia e saem para caçar à noite. Possuem as quelíceras, ou presas que usam para dilacerar as presas. Mas, a arma mais poderosa está na sua cauda, que termina num aguilhão ou ferrão, por meio do qual ele inocula o veneno nas presas que caçam, para imobilizá-las. Seu veneno causa nos humanos dores muito fortes, pontadas, aceleração cardíaca e diminui a temperatura corporal. Conforme a resistência da vítima pode chegar à morte com esse veneno.
Todos os escorpiões são venenosos, mas só vinte e cinco espécies são mortais aos homens. Sua ferroada equivale a uma picada de um marimbondo. O tratamento é feito com a ingestão de anestésico e soro antiescorpiônico, e deve ser feito em unidade hospitalar.
Seus maiores predadores são o sapo e a galinha de Angola, aquela ave estranha cinzenta, de cabeça pequenina, que grita o dia todo “To fraco! To fraco!” Que de fraco nada têm. Dizem que é o melhor meio de acabar com os escorpiões. Mas, criar sapos? Galinhas de Angola? Nos sítios, até daria certo, mas na cidade....
Pelo Google descobri que, há um grupo de moradores de um condomínio do Bairro Morumbi em São Paulo que, saem à noite para caçar os escorpiões. Elas se armam de botas, pegadores de macarrão e lanternas e vão combater os bichos. Dizem que a quantidade tem aumentado de ano para ano...
Se fosse na China, haveria um mercado para esses bichinhos que são consumidos como aperitivos por lá. E vi um vídeo de um escaravelho que trava um duro combate e, consegue decepar a cauda onde se localiza o ferrão. Cultivar escaravelhos?
O escorpião já foi tema de bandas musicais, de canções, de filmes, de livros. A canção Mulher Escorpião faz muito sucesso no Japão, pois ela é cantada por um homem gay travestido de mulher muito elegante e famosa. E existe até uma constelação no céu chamada Escorpião, porque tem uma forma que lembra esse bicho.

Mas, apesar de compêndios e cantores que louvam os escorpiões, sinto uma enorme repulsa por esse inseto, com seu aguilhão ameaçador, que vai entrando sorrateiramente nas botas e nos cantos escuros das casas, para pegar suas presas.
Um tempo atrás, peguei um desses bichinhos e levei ao Departamento da Prefeitura, para ver a destinação dele e receber orientações sobre como combatê-los. E fiquei muito decepcionada. Os funcionários lá presentes não deram importância, e voltei menos informada do que fui. Eles nem estavam querendo ficar com o escorpião, não fizeram nada para direcionar uma pesquisa sobre a infestação, não perguntaram em que bairro eu moro...
Fiquei matutando sobre a atitude deles...
E cheguei à triste conclusão que, ninguém leva a sério o seu trabalho, a sua função. Só querem assinar o ponto e receber o seu cacau no fim do mês. É por isso que, o aedes egypti se multiplica a olhos vistos, porque ninguém quer combatê-lo. Se eles acabarem, acaba o serviço de visitar as casas. Que o mundo se dane! Triste Verdade!
Infelizmente, o ser humano só pensa em dinheiro. Pouco está se importando se os caramujos nojentos estão invadindo todos os jardins, que os mosquitos matem centenas ou milhares de vítimas de dengue, que os escorpiões causem mortes de trabalhadores...

Ele só se importará quando a desgraça acontecer em sua casa, com sua família, com seus filhos, pais e agregados...
O homem é um bicho totalmente burro, cego, egoísta, irresponsável.
     Salvo raras e honrosas exceções.
E vai um escorpião aí? Frito? Assado? Cru?
Mirandópolis, janeiro de 2016.
kimie oku in

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

                                                                                                                                                                                 A Ciranda continua

Novo ano, nova vida.

As férias se foram, as festas acabaram e a vida segue sua rotina. E o calor voltou com força total nesse Verão.
Então, voltamos a cirandar.
Porque é preciso cultivar amizades, que dão sabor à vida. E cuidar de quem vive muito sozinho.
Foi na última sexta-feira, na Chácara Prando.
Apesar do mormaço, das temperaturas elevadas, compareceu a maioria. Porque curtir a companhia de amigos não tem preço.
A novidade foi a presença de Regina Mustafa, que é a
Diretora da Escola APAE local e, promotora de eventos em benefício de entidades como o Hospital de Câncer de Barretos. É uma pessoa muito respeitada e sobretudo querida por todos. Sua presença deu um brilho maior à reunião.
     Alguns membros do Asilo local compareceram também, como tem acontecido ultimamente. Para os internos  comparecer à   Ciranda sempre é uma festa. E eles animam mais a tarde.
     Depois de colocar a conversa em dia após dois meses sem encontro, foi servido o lanche e logo depois começou a cantoria. Havia dois sanfoneiros e dois violeiros que suaram as camisas acompanhando os cantores.
     Durante uma pausa, o seu Orlandinho declamou seus poemas e a Vina cantou “Chão de Estrelas” e “Creio em Ti”, sendo bastante aplaudidos.
     À tarde, começou a soprar um vento fresquinho e ficou muito agradável. As pessoas dançavam, cantavam, se abraçavam e posavam para fotos.
Foi uma tarde maravilhosa.
Cirandar é muito bom.



Mirandópolis, janeiro de 2016.
kimie oku in




terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Boys, be ambitious!

Essa frase é famosa no mundo inteiro e foi dita por um Professor americano.
 Há mais de duzentos anos, o Japão pelejava para melhorar a produção agrícola, a fim de atender às necessidades de sua população que crescia sem parar.
Para tal fim, o Governo de Saporoo, Hokkaido instalou uma Escola Agrícola para formar técnicos, que orientassem melhor os lavradores da região. Ora, Hokkaido é a porção extrema Norte do País, e é uma ilha que sofre temperaturas rigorosíssimas de até 40 graus negativos. E a vida se torna quase impossível.
 Mas, a Escola foi instalada e, dentre os Professores foi contratado Dr. Willian Smith Clark, Professor de Botânica e Zoologia, que era o 3º Presidente da Escola Agrícola de Massachusetts, dos Estados Unidos.
 É evidente que deve ter sido difícil a comunicação entre o Professor e alunos, mas durante oito meses todos se empenharam e conseguiram chegar a excelentes resultados. Dentre os formandos houve quem desenvolveria técnicas para fertilizar ovas de salmão, multiplicando com sucesso sua produção. Salmão, o peixe de carne vermelha, que atualmente é apreciada no mundo inteiro em forma de sashimi. Outros alunos partiram para a pesquisa do petróleo, que viria a mudar radicalmente a indústria de automotores. Petróleo que viria a revolucionar a história da humanidade.
As novidades introduzidas pelo Professor Clark foram tão importantes para a economia de Hokkaido, que em sua homenagem há várias estátuas suas espalhadas pela Província, demonstrando assim a gratidão do povo japonês. Para nunca mais esquecê-lo, por ter salvo a cultura agrícola, pastoril e pesqueira de Hokkaido.
A antiga Escola Agrícola hoje é a famosa e mui conceituada Universidade de Hokkaido, que além dos Cursos voltados à Agronomia, Pecuária, Pesca, Meio Ambiente, Veterinária e Zoologia, ainda oferece outros na área de Medicina e Saúde, Arquitetura, Informática e Direito.
Os ensinamentos e a postura do Professor foram tão marcantes, que mesmo sem querer mudariam a vida de muitos jovens alunos seus. Alguns, impressionados pela retidão de seu comportamento adotaram a religião cristã que ele seguia, além de abolir hábitos nocivos à saúde como o consumo do álcool. Muitos o elegeram como um exemplo a seguir em suas vidas.
Quando seu tempo se esgotou, o Professor Clark voltou para a América. E essa despedida foi marcada por dois fatos interessantes. Todos os seus alunos montados em cavalos acompanharam-no solenemente até o local da despedida final. Então ao se despedir dos alunos, o Professor proferiu a derradeira frase: “Boys, be ambitious!” ou seja, “Jovens, sejam ambiciosos!
“Boys, be ambitious!”
Não era um chamado para a ganância, para a ambição desmedida de acumular bens materiais. Era no sentido de perseguir um sonho, e realizar algo em benefício da humanidade. Foi assim que os alunos interpretaram essa mensagem. E a frase ficou célebre e conhecida em todo o Japão. E muitas   vidas se transformaram graças a essa pequena frase, conduzindo estudantes para os mais nobres objetivos. Muito se escreveu sobre essa frase, e muita gente saiu da inércia graças a esse chamado, mudando totalmente sua forma de encarar os desafios da vida.
Jovens, sejam ambiciosos!
Infelizmente, hoje muitos jovens estão totalmente perdidos na flor da idade. Nada fazem e só pensam em beber, andar de carros importados, levar vantagem em tudo. Sem contar com os mortos vivos dos becos de fumo...
O que aconteceu com a humanidade?
Por que jovens promissores estão cada vez mais se drogando, como se a anfetamina fosse a substituição de todos os sonhos, de todas as ilusões, de todas as ambições? E o terrível de tudo isso é que meninos muito inteligentes, que se julgam poderosos e invencíveis é que estão se perdendo cada vez mais para as drogas.  Exemplos tristes e lastimáveis foram o Fred Mercury, Raul Seixas, Cazuza e tantos outros... E crianças tão pequenas e inocentes estão sendo levadas para esses caminhos de perdição.
E é um caminho sem volta. A droga atua no cérebro da criatura e lhe rouba toda a força de vontade, transformando-a num robô ávido de mais veneno. E conforme vai se drogando, vai aniquilando sua saúde física, suas forças, deu alento. No final, acaba virando um saco vazio de tudo, um morto/vivo.
É desolador pensar que, passados menos de dois séculos da passagem do Professor Clark por Hokkaido, o mundo tenha se transformado assim. E não é só no Brasil. A desgraça de jovens perdidos ocorre no mundo todo, no Japão, na Índia, na China, no Oriente Médio, nos Estados Unidos, na América Latina...
No início dos tempos, a humanidade usou a religião para impor respeito e medo aos jovens. A Religião foi usada até a exaustão, com promessas de castigos inenarráveis punindo os transgressores, e premiando os crentes conformados. Mas, o tempo passou, os jovens evoluíram e não viram nada acontecer para os maus, para os que vivem à margem da lei. E muitas vezes assistiram a cidadãos honestos, cumpridores das leis, tementes a Deus serem punidos com tragédias dolorosas e inexplicáveis.
Então, aconteceu uma revolução no modo de pensar da juventude. Cada jovem passou a querer usufruir do bom e do melhor, levando vantagens em tudo, chegando ao topo da escala social, para ficar inatingível.
E a Religião ficou totalmente desacreditada.
É que a Religião promete prêmios e castigos para o futuro. E os jovens são extremamente imediatistas. É o AQUI e AGORA que lhes interessa. Fora disso nada tem significado para os impacientes, ávidos de prazer e realização plena.
Entretanto, no afã de perseguir seus desejos imediatos, eles cruzaram com muitas porcarias inventadas por seus antecessores, como cigarro, narguilé, álcool, anfetaminas, cocaína e todas as suas variáveis. E esses jovens que nada temem, que se acham donos de seus destinos, se julgam invencíveis e são descrentes de DEUS, se perderam para sempre ao provarem de substâncias tão poderosas, que são ofertadas em todas as esquinas desse mundo.
E foi assim que a juventude se perdeu.
Irremediavelmente...
O que o Professor Clark diria aos jovens de hoje?
Be ambitious?
Seria pregar no deserto...
Entretanto, há ainda esperança no mundo.
Lá em Hokkaido, há uma Universidade que direciona os jovens para seus destinos através da pesquisa, do trabalho, da peleja diária em benefício da Humanidade.
E o lema dessa famosa Escola é
    “Boys, be ambitious!”
    Que desperte também mais jovens no mundo inteiro para a graça e a felicidade de viver.

    
      Be ambitious!

     Mirandópolis, janeiro de 2016.
kimie oku in



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

      Uma viagem surreal
        
        A noite passada tive um sonho estranho.
      Sonhei que viajava de ônibus pela estrada de terra para Tabajara, bairro distante do município de Lavínia. Meu destino era o sítio onde cresci e morei até minha adolescência, a uns quatro quilômetros antes de Tabajara.
        No ônibus havia apenas quatro passageiros, Noboru Sato um amigo de infância falecido há muito, uma mulher preta, um homem branco e eu, além do motorista que nem cheguei a vislumbrar.
     O sonho começa comigo dentro do ônibus (ou jardineira?) já chegando ao destino, numa das curvas do caminho. A estrada era de terra, então era cenário da minha infância, porque hoje a mesma está asfaltada. O Noboru que não consegui definir como era, estava se preparando para apear, numa curva antes de onde eu desceria. Acho que lhe pedi (não tenho certeza) para avisar ao motorista onde eu apearia, ou seja na curva seguinte... E comentamos que sobrariam apenas dois passageiros para prosseguir viagem.
E o sonho foi só isso.
Mas fiquei impressionada.
Não vi o ônibus parando, nem o amigo descendo, nem a minha figura chegando ao destino. Nem o ônibus seguindo adiante.
E o estranho é como explicar essa viagem para um lugar que não mais faz parte de minha vida. O sítio que antigamente tinha cafezais, terreiro para secar café, horta no brejo, um carreador estreito que fazia divisa com o sítio do Baiano, um cavalo branco chamado Brinco, algumas vacas no pasto perto de casa, um poço com água saborosa e uma casa simples e branca com janelas azuis, foi transformada num imenso pasto, reino do gado nelore de outras gentes. E quase nada mais resta daqueles tempos, nem o poço...
Lá só restaram o imenso bambuzal, que papai plantou há mais de setenta anos, o pé de guaivira, que nos forneceu tantos cabos retos de machado e enxadas... E algumas paredes da antiga casa, que virou pousada de gado... E de morcegos...
Nem sinal das duas seringueiras falsas de folhas redondas logo na entrada, do pé de limão galego, com que fizemos jarras e jarras de suco, dos pés de abacate, de manga Bourbon, espada, coração de boi, cujos frutos nos adoçaram a infância; dos pés de tangerina, mexerica, de laranja baiana tão sumarenta e doce! Do pé de amora junto à vasca de lavar roupa... E das fileiras de galpões de telha vermelha, onde gritavam sem parar, as brancas galinhas poedeiras...
Não entendi o meu sonho. O que me motivou para retornar ao passado, como se estivesse vivendo naquela época e viajando de jardineira, e descendo na reta, para caminhar a pé mais de um quilômetro de carreador para chegar até a casa? Para uma casa que nem era mais nossa? E o Noboru que só conheci moleque, porque depois eles se mudaram da vizinhança, e mais tarde acabou falecendo... Nunca mais o vi. E no sonho não consegui definir se éramos crianças, adolescentes ou adultos... Mas acho que éramos crianças, pois só o conheci nessa fase de sua vida.
Mas nada disso importa. O sonho foi um flash de vida vivida quando jovem. Aconteceu porque deve haver em mim, um desejo enrustido de voltar a viver tudo aquilo que vivi lá. Importa pensar que tenho um anelo, como a maioria das pessoas deve ter. O sonho de retornar à infância, de rever os lugares onde fomos felizes, onde reinamos com toda a inocência dos verdes anos... O sonho de resgatar um passado, onde tudo começou. Por isso, as imagens não eram nítidas e parecia uma imagem surreal...
Mas, retornar lá não tem mais sentido. O cenário é outro. Papai e mamãe já partiram para a morada definitiva, assim como um dos irmãos que tanto labutou naquelas terras. Os demais partiram para outras paragens e, levam uma vida completamente diversa, sem pensar em retornar ao passado, como eu.
Mas, eu tenho saudades... saudades.
Saudades das conversas ao pé do fogão de lenha sempre aceso, onde costumávamos assar  batata doce e espigas de milho verde... Da panela de ferro de onde retirávamos o arroz quentinho, do feijão cremoso no caldeirão vermelho de esmalte... Dos ovos fritos com fartura, porque tínhamos granja, dos queijos colocados ali perto para apurar, das linguiças de porco penduradas para defumar... Da bela e imensa mesa de madeira de pés torneados, que não levava toalha porque éramos tão pobres, onde se assentavam  todos(em bancos compridos) para as refeições... Do papai que ficava desenhando os ideogramas japoneses com as gotas de água,  que caiam das tampas (ai, como dói essa saudade!). Dos irmãos que comiam apressados para escaparem da mesa... Para irem chupar mexericas e tangerinas no pomar... Saudades das galinhas e dos pintainhos que ciscavam no quintal... Dos porcos famintos que gritavam pedindo milho... Dos cachorros que latiam anunciando visitas... Saudades das vozes, dos alaridos, da vida...
Saudades da lida na roça, onde nós crianças derriçávamos café maduro dos cafezais, que não acabavam nunca... Ou do terreiro, onde ficávamos rastelando pra lá, pra cá o café colhido para secar... Ou indo ao brejo com papai na Semana Santa para plantar alho, dente por dente... E plantávamos ervilhas... Que davam tantas vagens depois da florada de mimosas flores roxas, entre as folhas verde esbranquiçadas. Ervilha é uma planta elegante, frágil e muito linda. Sempre que consumo ervilhas em vagem, meu coração estremece de saudades do papai...
Saudades das colheitas de arroz. Mamãe comandava o trabalho. Havia uma espécie de jirau feito de ripas grossas, onde os feixes de arroz eram batidos para soltar os grãos dourados, que caiam sobre um encerado no chão. O arroz era plantado e colhido só para o consumo da família. Nunca faltou arroz em nossa mesa.
 Tudo era produzido pela família. Até frangos, ovos, leite e carne de porco. Era uma vida dura, feita só de trabalho e mais trabalho, mas a maioria das famílias era autossuficiente. Apenas o arroz e o café eram beneficiados nas máquinas da cidade. Beneficiar era retirar as cascas. O café era torrado e moído em casa, e o sabor era bem melhor. Torrar café não era brincadeira, uma quentura só! Ficar por horas rodando a torradeira preta, junto do fogão de tijolos improvisado no chão, debaixo das mangueiras... Fiz isso algumas vezes...
Não comprávamos legumes e verduras. Tudo era cultivado em casa. Lembro que o repolho era plantado no meio do cafezal e dava cada repolho imenso! Quiabo e tomate também eram plantados entre os pés de café. Lembro que consumíamos muita acelga fresquinha, que colhíamos ali no quintal. E alface repolhuda, de que comíamos só as folhas brancas... Tal era a fartura. E tomatinhos miúdos que eram usados para fazer molho, salada e tempero... E havia muita berinjela, vagem, cenoura, maxixe, jiló, mandioca, abobrinha, batata doce, batata inglesa e milho verde...
Éramos tão pobres em dinheiro, em roupa e em conforto, mas éramos ricos pela fartura de legumes, frutas e verduras, porque cultivávamos de tudo e trabalhávamos muito. Nem aos domingos descansávamos, porque era necessário retirar o leite das vacas para o consumo da família e, alimentar as galinhas da granja e recolher os ovos, e tratar dos porcos e das galinhas caipiras...
E tirar água do poço, porque era tudo assim rústico, bruto e no muque... E tínhamos que rodar o sarilho dezenas de vezes ao dia, para puxar a água do poço para a cozinha, para a lavagem de roupas e para os banhos... Ninguém desperdiçava água, porque não estava disponível em torneiras como hoje... E recolhíamos água de chuva das bicas dos telhados para lavar roupa. Era mais fácil que tirar do poço...A água de chuva é ótima para lavar os cabelos.
E as roupas eram lavadas sobre uma tábua, onde eram esfregadas com o sabão de soda, feito em casa com as vísceras dos porcos, que matávamos periodicamente, para o consumo de carne. O porco era castrado e colocado para engordar, para produzir a banha que era usada para cozinhar tudo. Não existia óleo vegetal ainda. E o dia da matança de porco era uma festa. Todos participavam com alegria, pois teríamos carne fresca e saborosa logo no almoço. E teríamos muita linguiça, que seria defumada junto ao fogão de lenha. E teríamos por uns dois meses, carne frita conservada em latas de dezoito litros dentro da banha de porco, que era o único jeito de conservá-la, porque ainda não existiam refrigeradores...
Rememorando o passado, percebo que nunca passamos fome nem sede. A comida sempre foi farta, embora fosse frugal, porque se constituía de muitos legumes e verduras. Mamãe fazia conservas de pepinos, de acelgas, nabos e mesmo que a horta estivesse sem produção, nós tínhamos legumes para consumir. Quando faltavam verduras, comíamos cambuquira refogada ou flores de abóbora feito tempurá. Cambuquira é broto novo de abóbora.  E comíamos muita mandioca cozida e frita. Ah! E consumimos muito broto de bambu, isto ocorria mais no final do ano, quando nasciam em profusão, por causa das chuvas.
E quando matávamos porco, levávamos um pedaço de carne especial para a vizinha dona Regina Pascoal, que retribuía da mesma forma quando matava seus porcos. Essa senhora pôs o apelido de Aurora na mamãe Torá, que ficou depois conhecida como dona Aurora... Os vizinhos eram uns italianos alegres e trabalhadores, que acabaram se mudando para o Estado do Paraná, e nunca mais soubemos deles... Um dia, alguém de casa foi até a casa deles e pediu o “salvador” emprestado. E eles ficaram confusos, porque o filho mais velho deles se chamava Salvador. Papai queria emprestado um fole, que jogava inseticida nos buracos dos formigueiros, que devastavam as nossas roças. E os japoneses apelidaram o fole de “salvador” porque realmente salvava as plantações...
Desses tempos duros, a melhor lembrança que tenho eram as idas à escola. Iniciei meus estudos numa escolinha rural, localizada na Fazenda Santa Emília do senhor João de Paula, que ficava distante uns quatro quilômetros de casa. Éramos minha irmã Neide e eu, tão pequenas e indefesas... Atravessávamos uma matinha perto de casa, com o coração suspenso de medo, porque às seis horas da manhã, a mata estava envolta em bruma e mal víamos o carreador...Qualquer barulhinho deixava nossos cabelos em pé... Depois, passávamos na casa do Aristeu, um colega que também ia à escola. Eles tinham uma olaria, que fabricava tijolos...Um animal atrelado a uma roldana, ficava girando em volta de uma caçamba, onde era colocado o barro para ser amassado... Então, era colocado em caixas de madeira, de onde saiam os tijolos depois de secos... Era uma fabriquinha de quintal, mas deve ter sido um sucesso, pois os tijolos eram muito procurados ... Acho que o privilégio deles era o fato de morarem perto de um riacho, onde existia argila, matéria prima para o fabrico de tijolos.
Nossa! Relendo o que anotei até aqui, percebo que fiz uma viagem através do tempo, e revivi partes de minha vida. O sonho permitiu que eu retornasse ao passado, e matasse as imensas saudades que moram em meu coração.
Na realidade já estive lá duas vezes com alguns familiares. Apesar da desolação do cenário, cada canto despertou fatos ali vividos e, chegou a doer por tudo ter passado.
Na última visita que fizemos há uns sete ou oito anos, fomos até o bambuzal que papai plantou há mais de setenta anos. E lá na sombra benfazeja, nos demos as mãos formando um círculo e, oramos por todos que lá moraram e acabaram partindo...
Foi um momento mágico, de comunhão com o passado.
E gratidão por termos sido tão bem acolhidos por aquele chão, onde deixamos para sempre as nossas pegadas...

Mirandópolis, novembro de 2015.
kimie oku in
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