sexta-feira, 7 de setembro de 2012



5. História de Mirandópolis
dos anos 40/50

Relato de Elídio Ramires

  CAPÍTULO V – Por que tenho saudades de Mirandópolis

 No início deste relato, afirmei que tenho muita saudade de Mirandópolis, porque foi onde vivi parte de minha infância e minha adolescência, e onde moldei meu caráter de adulto, convivendo com amigos fiéis e confiáveis e um povo trabalhador e solidário.
Apesar dos tempos difíceis vividos pela minha família na década de 40, os últimos dez ou doze anos  em que vivi em Mirandópolis, foram de uma juventude feliz e produtiva. E quando  você se sente bem  numa cidade , você sente por ela amor e desejo de retribuir-lhe a hospitalidade, inserindo-se no contexto social de seus habitantes que lutam pelo seu progresso, pela melhoria e crescimento de sua cidade, que representa seu próprio crescimento.
 Dentro desse conceito, estive sempre presente na cidade durante os 18 anos que nela vivi, participando de eventos e iniciativas sociais e institucionais e com ela cresci.
Tudo começou logo que terminei o curso primário, e fui trabalhar por arranjo de meu pai, como “ofice boy” no escritório de contabilidade do Sr. João Borges de Almeida, nosso vizinho, que fazia a escrita da Padaria, onde fiquei dois anos, sem deixar de ajudar, na medida do possível, os serviços da padaria. Lá aprendi a escrever à máquina, a fazer a escrita fiscal, a lidar com a papelada de abertura e  fechamento de firmas e até mesmo, os princípios básicos de contabilidade.
Com apenas treze anos de idade viajava sozinho, freqüentemente, para Valparaíso, a serviço do escritório, uma vez que não sendo Mirandópolis, ainda município, lá ficavam as repartições necessárias a legalização e cumprimento das obrigações fiscais das firmas do distrito: Prefeitura, Coletorias Estadual e Federal, Cartórios, etc. Viajava para Valparaíso no trem das 9 horas da manhã almoçava em restaurante, fazia o serviço programado junto às repartições e, voltava no trem das 9 hs. da noite. Ganhava 20 cruzeiros por mês.
Após desligar-me do escritório, no início de 1945,  com apenas 14 anos de idade , tive a ousadia de trabalhar por conta própria, fazendo a legalização de abertura e a escrita fiscal de duas pequenas firmas de pessoas amigas e da própria padaria.
Para  mais aprender sobre o assunto comprei pelo serviço de reembolso postal, livros sobre contabilidade e l leis fiscais e os códigos em vigor no país, bem como livros de direito e didáticos escolares: português, geografia, história geral, ciências, etc.,  que sempre me fascinaram. Meu sonho era ser um dia, advogado.
Na época já lia o Diário de São Paulo, que o meu irmão assinava e, que chegava à cidade no dia seguinte à  circulação. Acompanhei por ele notícias da 2ª guerra mundial  até o  seu final em19 45 e a deposição de Getúlio  Vargas em outubro do mesmo ano. Lia também, as revistas “O Cruzeiro”, a “Manchete” e a “Careta”, que comprava na banca de jornal que existia dentro dos trens que vinham de São Paulo.
Em julho de 1946, com apenas 15 anos, fui convidado por Noryoshi Mizikami, conhecido pelo nome de Jonas, para trabalharcomo auxiliar de escritório das indústrias de sua família, firma estava registrada em nome de seu irmão Nobuo Mizikami, por ser brasileiro e estudante de engenharia em S. Paulo. Indústrias, porque abrigava nos mesmos pavilhões, fábrica de carroças, esquadrias,  e móveis e oficina de ferragens. Meu salário inicial era de 150 cruzeiros.
Fiz um curso de contador por correspondência ministrado pelo Instituto Universal Brasileiro, e fui brindado com  um vistoso diploma de “contador” aos 16 anos, que infelizmente, não tinha qualquer  valor jurídico. Valeu, porém, pelo aprendizado.
Foi nesse  período que lá trabalhei que, evoluindo  na idade  e nos serviços que desenpenhava fui paralelamente, me inserindo no campo intelectual, como autodidata, comprando livros de todo tipo e, inicialmente, escrevendo crônicas e poesias, influenciado pelos mais famosos poetas brasileiros:  Castro Alves, Casemiro de Abreu, Olavo Bilac, Alvarez de Azevedo, Fagundes Varela e outros cujos livros comprei, inclusive o “Tratado de Versificação” e o Dicionário de Rimas, que guardo até hoje.
À medida que progredia no meu desempenho no trabalho de escritório, assumindo a responsabilidade de toda a escrita, fiscal e contábil, inclusive fechando balanços anuais, para efeito do Imposto de Renda, que eram assinados pelo Contador Ossamu Wada, amigo da família Mizikami, uma vez que só me formei Técnico em Contabilidade, com registro no CRC em 1956.
Cuidava também da parte trabalhista da empresa que contava na época, com quase 50 empregados, tendo como auxiliar apenas Suguetiro,  irmão do seu Jonas. Nas horas vagas, ainda conseguia escrever crônicas e versos que publicava na revista “Cadência” de Araçatuba, no Jornal “O Valparaíso”, “O Araçatuba” e em jornais de S. Paulo, que  mantinham seção literária. Minhas crônicas eram lidas também por Décio Quírico as 6  horas, no serviço de alto-falantes Marajá.
Quando surgiu o jornal “O Mirandópolis”  escrevi em 1948, um esboço sobre a história da cidade, intitulado “Mirandópolis, sua origem e evolução”, que foi publicado em capítulos pelo jornal. Embora meio surrealista, pois não dispunha de elementos concisos sobre os fatos narrados, foi em parte, muito útil em alguns detalhes, tanto que aproveitei no presente Relato.

Da fundação do jornal “A CIDADE”

 Ainda trabalhava como chefe do escritório das Indústrias Mizikami quando, logo após a cessação de atividades de “O Mirandópolis”, fui convidado por  José de Fátima Lopes e Idanir Momesso que haviam adquirido  a Gráfica Paulista de Antonio Depieri, para a fundação do jornal “A CIDADE”, na função de Redator-Secretário. O primeiro número do semanário veio à lume no  natal de 1949. Havia acabado de completar 19 anos.


O cargo assumido não afetou meu trabalho como chefe do escritório das Indústrias Mizikami. Paralelamente à minha função no emprego, desempenhei  sem maiores problemas ao compromisso assumido, escrevendo semanalmente, notícias, entrevistas, artigos e crônicas para o jornal, além de ajudar os seus proprietários a angariar  publicidade, o que fazia sem nenhum retorno financeiro, inclusive na função de redator. Minha grande compensação, foi obter junto à Delegacia Regional do Trabalho em São Paulo, carteira de jornalista profissional, o que me permitiu entrar para a Associação Paulista de Imprensa, além de vantagens de 50% de desconto em passagens aéreas e passe grátis na Estrada de Ferro Noroeste, fornecida pelo  seu Diretor-Geral de Bauru na ocasião, Gal. Marinho Lutz.  A profissão de jornalista não era regulamentada ainda, e seu exercício era regulado pela  concessão pelo Ministério do Trabalho, de carteira profissional após comprovação de, no mínimo, 2 anos de trabalho na área.


 Como nasceu o cognome “CIDADE LABOR”

Com a chegada da energia elétrica da Usina de Itapura em 1951, a cidade de Mirandópolis praticamente renasceu no seu progresso, vivendo uma fase de grandes realizações e melhoramentos em todos os setores, fruto de confiança do seu povo laborioso no futuro da cidade. Foi em face dessa onda positiva de luta pelo progresso, às custas de um trabalho constante, que resolvemos também colaborar com o desenvolvimento da cidade, coroando a situação com um convite  sugestivo  para as pessoas que não a conheciam, passando a publicar em todas as edições do jornal o convite: “VISITE MIRANDÓPOLIS, A CIDADE LABOR”, por mim sugerido e aprovado pelo idanir e José de Fátima.
Achei o cognome coerente com o ritmo de trabalho e progresso que vivia a cidade, levando em consideração que, cognome (ou apelido) significa lexiologicamente, epíteto   fundado na qualidade mais notável de pessoa ou coisa, que era o caso de Mirandópolis,cujo aspecto mais notável era o seu desenvolvimento às custas do trabalho e da solidariedade de seu povo.
O apelido pegou e mais tarde foi inserido em latim nas palavras “Mirandópolis Urb laboris” no brasão do município, aprovado por lei, em desenho elaborado pelo professor Walter Víctor Sperandio, aprovado pela Comissão de Heráldica, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e está presente também  no Hino de Mirandópolis, escrito pelo Doutor Alcides Falleiros com música de  Henrique Pavesi louvando a “Cidade Labor”, também adotado por lei municipal. (continua na próxima semana)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012


La cucaracha

Quando henfil, 1944/1988, famoso cartunista brasileiro foi aos Estados Unidos se tratar de Aids, adquirida por transfusão de sangue, pois era hemofílico, descobriu que os yankees usavam o termo “cucaracha” para se referirem aos latino-americanos, incluindo os brasileiros.
Quando perguntou a alguém a razão disso, disseram que era porque os latinos se reproduziam como baratas.
Cucaracha em espanhol significa barata, esse inseto desagradável, que vive nos bueiros e é louco para invadir nossas cozinhas, à procura de alimentos.
         Ao ler sobre isso, senti uma aversão e repulsa imediata pelos gordos e desbotados americanos, que se arrogavam ser os melhores e mais poderosos do mundo. Por muitos anos, cultivei essa aversão pelo povo americano, mesmo assistindo a seus famosos filmes, que muito nos encantaram nos cinemas.
Mas, com o passar dos tempos, a gente vai amadurecendo e, devagarzinho vai tomando consciência da realidade que nos cerca. Descobri então, que aquilo não era a opinião geral do povo americano. Era sim, a postura discriminatória de alguns pobres cidadãos, que se arrogavam o direito de julgar pessoas de outras nacionalidades.
Na verdade, eu os igualo aos nazistas que tanto mal causaram à humanidade. Uns e outros cultivaram a prepotência de desprezar pessoas, que nasceram em outros territórios, ou em outros sistemas de culturas.
Mas, nada é mais fascinante que conhecer outras culturas, outras religiões, outros costumes sociais.
Na África de hoje, existem tribos desconhecidas pelos ocidentais, que vivem confinadas no oco da floresta. Possuem hábitos inacreditáveis, devido ao ambiente em que vivem e ao próprio isolacionismo. E respeitam a floresta como um dos presentes mais preciosos, que o Criador lhes concedeu.
Na China e na Índia, que ocupa um quarto do território do planeta, existem civilizações tão diversificadas; pessoas de cor branca e olhos claros e também grupos de negros, cada qual com sua linguagem própria, sua religião e seus costumes herdados dos ancestrais. Mesmo na Austrália, onde predominam os loiros, há grupos de gente tão negra como os africanos, de cabelo pixaim. E todos esses grupos são naturais da região, não foram importados.
No Japão medieval, havia os “ainos”, ou gente silvícola que vivia em comunhão com a natureza, sem nenhum indício de civilização. Viviam da caça e da pesca, comiam carne crua dos animais abatidos em suas caçadas. E praticavam rituais de reverência às vidas que consumiam, para que perdoassem os humanos que, para continuarem vivendo sacrificavam os irmãos-animais, que viviam na mesma floresta. Eram os equivalentes aos nossos indígenas, donos absolutos desta América. Reverência aos animais...
O mundo todo é uma extensão de terras habitadas por gente tão diferenciada, que não dá para entender por qual razão, os brancos se convenceram que eram melhores e superiores aos demais.
E de repente, no Face-book vi a denúncia de que, pastores evangélicos estão demonizando e incendiando templos sagrados dos guaranis, em Mato Grosso do Sul, logo ali a um passo da gente.
De que adianta pregar que o Dia 19 de abril é Dia do Índio, que devemos respeitar os primeiros habitantes de nossas selvas, que eram os donos verdadeiros de tudo isso que lhes tomamos?
A mente de alguns continua tão retrógrada como na Idade Média, em que os diferentes eram queimados vivos. Quanta gente inocente morreu na fogueira, só porque pensava diferente dos demais, ou porque teve visões que não pediu a Deus?
Já era para a humanidade ter aprendido que somos iguais às formiguinhas, que andam em carreira em busca de alimento pelo chão. Ninguém é mais que ninguém!
Todos os dias, a gente vê amigos de todas as classes sociais partindo, uns só com a veste do corpo, outros deixando um imenso legado em bens materiais, que só provocará discórdia na hora da partilha.
Um dia, ouvi de um cidadão bem simples, o seguinte: “Fulano morreu tão rico, com tantas fazendas e gado e mais gado. Não se importou com os familiares que estão pelejando, e sofrendo... E agora, vai só com a roupa do corpo. Na hora de partir, todo mundo se iguala!”
Tudo isso é lição de vida para a gente aprender. Deus coloca essas verdades diante de nós, todos os dias. E a humanidade continua cega e surda como nos tempos medievais.
 Pior que tudo isso é gente que , em nome de Deus pratica essas barbáries, que usa a religião como argumento para humilhar pessoas de outras culturas. Foi assim que os jesuítas fizeram, com seus programas de evangelização e acabaram com a cultura de nossos irmãos tupi-guaranis.
Por que Deus permitiria a existência de nossos irmãos nas selvas americanas, com seus hábitos e seus costumes seculares? Porque era assim que tinha que ser. Cada qual cultuando um Deus próprio, que resolvia seus problemas do cotidiano.
Porque Deus é um só. E todos os caminhos conduzem a Ele, desde que se tenha fé. Então, pra quê impor outra idéia, outra crença, outra religião?
Formigas, cucarachas, pastores, crentes, brancos, negros, amarelos, azuis, deficientes ou padronizados, todos nós somos apenas pobres criaturas de Deus.
Criaturas que só querem um pouco de respeito.
Mirandópolis, 30 de agosto de 2012
kimieoku in cronicasdekimie.blogspot.com

                                  

domingo, 2 de setembro de 2012


Uma Tarde Muito quente


           Passava um pouco das quatorze horas.
 O sol mal havia iniciado sua ida para o ocaso, ainda estava muito quente, a Rua São João estava deserta e silenciosa.
 O silêncio só era quebrado pela música: “Criança feliz, feliz a cantar, alegre a embalar, seu sonho infantil...” cantada por Francisco Alves, e vinha do alto falante do Nelson Vital, lá na rua Rafael Pereira.
        Nós três, Natalino, Canário e eu, sentados na calçada em frente à minha casa, nos espremíamos de encontro ao muro para aproveitar a pequena sombra que ele formava. Fumávamos cigarros feitos de talos secos de bucha. A fumaça descia queimando até aos pulmões. 
Natalino, depois apelidado Rosa Branca pelo Carlão de Sylos, contava que tinha ido à Zona e o que tinha feito.  Canário, o mais novo só ouvia, de olhos arregalados, acreditando em tudo. Eles não sabiam que eu me encontrava com a japonesa Tioê , na casa vizinha que estava vazia. Não iria contar: primeiro porque  ainda não tínhamos conseguido descobrir como se fazia e, segundo, porque tinha medo que o irmão dela, o Tiokazu ficasse sabendo.
         Vindo da Rua Aguapeí e subindo a São João, surgiram dois meninos: eram o Laurentino e o Nenê. Eles moravam naquela rua, num terreno onde agora é o Centro Odontológico Conrado, em duas casas, que faziam fundos com a minha.
Laurentino, apelidado de Lolo era alto, sempre estava vestido com camisa, calças compridas e sapatos sem meias, morava na casa da frente com a mãe lavadeira.
         O Nenê estava vestido como nós, sem camisa, descalço e usando calças curtas. Ele morava na casa do fundo, com a mãe e o irmão Tonho. A casa era nova, de madeira, tinha sido construída recentemente, atrás da outra, para não ficar muito à vista, pois quem sempre ia lá e os mantinha era um funcionário da NOB.
          Eles chegaram até nós e o Laurentino, que tinha a língua presa, falou: “- O neto da dona Maria  Sinueira chegou hoje cedo de São Paulo. Ele ganhou uma bola do amante da mãe e quer que a gente vá jogar com ele.”
          Dona Maria morava na Rua Senador Rodolfo Miranda,  onde é hoje a Oficina do Zé Grassi ,em frente à chácara do seu Vicente. O terreno era enorme, pertencia ao seu Nino Veronese e tinha várias casas, de madeira, que ele alugava para famílias muito pobres e também para cidadãos da sociedade mirandopolense, que usavam para moradia de suas amantes. Quando eles iam de tardezinha, “visitá-las”, eu ia escondido, espiar pelas frestas da parede, o que acontecia. Afinal eu precisava aprender...
         Dona Maria era uma espécie de cafetina, ela arrumava os encontros e muitas vezes cedia a casa para que eles acontecessem ali.
         Aceitamos o convite do Nenê do Lolo e descemos para encontrar o outro garoto. O jogo seria em frente à casa da avó e os times eram: eu, Canário e Rosa Branca contra o garoto da bola, Lolo e Nenê. Estava fácil demais, em pouco tempo ganhávamos de goleada. O garoto não gostou, disse que ia embora e pediu a bola.
          Estávamos acostumados com aquilo, o Zé Antonio e o Dedé, também donos da bola, sempre faziam assim quando estavam perdendo, mas daquela vez resolvemos não dar a bola. Quando o garoto foi pegar a bola, Rosa Branca chutou para o Canário. Canário chutou para mim e quando eu devolvi para o Rosa Branca o garoto tirou uma cinta e deu-me uma cintada.
        Nós também jogávamos “bétia” e o Silvio, o Cido e eu éramos os melhores jogadores de bétia da rua e tínhamos nossa “bétia” particular, que levávamos para todo lugar. A minha era um cabo de vassoura, até personalizado. Feito a canivete tinha o nome “Demá”.
         Falei para o garoto: -- Vamos ver quem pode mais, você com a cinta e eu com o cabo de vassoura?  O garoto topou na hora e já me deu outra cintada. Eu estava preparado, desviei e plantei o cabo de vassoura no seu peito. Caiu de costas, esperneando, chorando e gritando.
A mãe, a avó, e mais umas três ou quatro “moças” saíram para ver o que acontecia e levaram o garoto para dentro. Laurentino e Nenê se mandaram. Nós três ficamos do outro lado da rua, sentados na sarjeta. Na nossa cabeça e na justiça da rua eu tinha razão, não havia o que temer.
       Passado um tempo, dona Maria saiu à porta e perguntou quem tinha feito aquilo. Levantei-me e disse que tinha sido eu. Ela quis saber o que havia usado e mostrei-lhe o cabo de vassoura. Pediu para ver o cabo de vassoura e levei-o até ela. Apanhou o cabo de vassoura e deu-me uma cacetada, mas graças à minha destreza, desviei e o cabo pegou no chão e quebrou-se em dois. Saímos correndo, os três.
      Ficamos na esquina, em frente à casa do Assad Abud. Já tínhamos esquecido o episódio quando vimos, subindo em direção à minha casa, a avó, a mãe  e mais “aquelas moças”, tendo à frente o garoto. Quando minha mãe saiu ao portão falei para o Canário e o Rosa Branca: “- Vou lá explicar.”
          Quando cheguei, não sei o que falaram para minha mãe, só deu para ver o vergão no peito do garoto e cheio de sal, pois minha mãe mandou que eu entrasse. Elas foram embora e minha mãe falou: “- Por sua causa tive de conversar com este tipo de mulheres... entra, senta naquela cadeira e espere seu pai chegar.”
          A cadeira ficava de frente para a rua, dava para ver o Canário e o Rosa Branca do outro lado fazendo micagens para mim, eu respondia rindo, mas com um medão danado do meu pai.
         Quando meu pai abriu o portão eu comecei a chorar. Ele perguntou o que estava acontecendo e minha mãe contou tudo.
          Ele se aproximou de mim e eu fui me encolhendo todo. Rosa Branca e  o Canário estavam no portão, tinham se aproximado, não sei se solidários a mim ou para ver a surra que ia levar. Tenho minhas dúvidas.
          “- Por quê você bateu no menino?”
          “- Porque ele deu-me uma cintada.”
          “-  Da próxima vez...bata mais forte, vá brincar.”
     Sai correndo, chorando e rindo. Encontrei com os dois no portão e descemos a rua como loucos, gritando e correndo em zigue zague.
                       
        
Ademar Bispo

terça-feira, 28 de agosto de 2012




4. História de Mirandópolis
dos anos 40/50
 Relato de Elídio Ramires

CAPÍTULO IV – Com a força de seu povo a cidade se reconstrói

Felizmente, tudo passou e a cidade continuou progredindo. Além do Bradesco, outros Bancos já haviam se instalado, como o Banco América do Sul, Banco Noroeste e o Banco Bandeirantes. O comércio se desenvolvia com lojas mais modernas como o Bazar Kosmos, a Casa Ombo e a Casa Motomia, onde se encontravam os produtos mais variáveis. Surgiram também novas alfaiatarias, posto que na época, não se encontrava ternos prontos. Era necessário fazer sob medida, e a preferência era por ternos de linho e de casemira tropical.
O fato mais importante, no final da década de 40,  entretanto foi a primeira eleição para prefeito e vereadores do município em 1947.
Com a destituição de Getúlio em 1945, e a elaboração da Constituição de 1946 pelo Congresso eleito democraticamente, chegou a vez da eleição dos governadores do Estado, prefeitos e vereadores, o que ocorreu no ano seguinte.
 O primeiro Prefeito eleito no município, após a volta da democracia, foi Delmiro Luiz Rigolon, juntamente com a Câmara Municipal composta de 13 vereadores, entre os quais o meu irmão José, que foi reeleito para um segundo mandato em 1951 e em 1954 foi eleito pelos seus pares vice-presidente da Casa.
 No final da década, ou seja, em 1949, o único acontecimento relevante que me lembro, posto que participei da reunião de sua criação,foi a fundação do Clube Atlético Mirandópolis , entidade sócio-esportiva, que funcionou inicialmente junto à Praça Manoel Alves  Athaíde,  posteriormente  transferida para a Rua Floresta, em prédio de dois pavimentos, exclusivamente construído  para esse fim,  por Antonio Ferreira dos Santos e alugado para a entidade. O CAM contou também, de início, com um campo de futebol próprio, chegando a formar um esquadrão de jogadores profissionais, para disputar campeonatos regionais. Acumulando dívidas em razão do ousado voo, foi obrigado a vender o estádio para a Prefeitura, mantendo a partir de então, somente com a  parte social semi-esportiva com a construção , mais tarde, da sede atual, em campanha encabeçada pelo então gerente do Banco Brasileiro de Descontos, Widelson de Faria Lacerda. 
 
     A fase de maior progresso

  Acredito, todavia, que a fase mais expressiva do progresso de Mirandópolis ocorreu na década de 1950. Foi nessa década que aconteceram na cidade os fatos mais relevantes, como a  inauguração da construção da sede  sócio-esportiva do CAM,  da inauguração finalmente, da Igreja- Matriz, após quatro  de construção, e onde passou a ser incrementada anualmente, em setembro, nos sábados e domingos daquele mês, a animada Festa da Primavera, que já vinha sendo realizada sob a direção do Padre Epifânio  Ibanez,com a realização de  leilões em barracas montadas para esse fim, com venda de bebidas, de prendas oferecidas pelas famílias católicas  da cidade, escaladas pelo próprio sacerdote, em Programa impresso distribuído com antecedência à população.
Nessa festas, a diversão dos jovens era circular em volta das barracas, “paquerando” e mandando “correio elegante”, às pretensas namoradas e namorados, ou oferecendo músicas através do serviço de alto–falantes, aos seus pretendidos. Era também a oportunidade  de mandar bilhetes com propostas safadas para garotas  namoradeiras, para um encontro a sós nos cantinhos escuros atrás da igreja.
Enfim, resumindo, e sem entrar em maiores detalhes, vamos relacionar, sem uma certeza abrangente, os acontecimentos relevantes ocorridos na década de 50, destacando, sobretudo, a chegada em 1951, da energia elétrica provinda de usina construída com aproveitamento de queda d’agua do Salto de Itapura pelo industrial Eloy Chaves, substituída poucos anos depois pela energia fornecida Cia. Paulista de Força e Luz, que estava parada em Aguapeí, e que por razões desconhecidas não se interessou em avançar até Mirandópolis e outras cidades à frente.
Talvez impulsionada pela chegada da energia elétrica, foi na década de 50 que Mirandópolis conquistou as mais importantes obras coroando seu progresso com, praticamente, todos os melhoramentos  necessários para uma vida confortável nos setores mais importantes para a convivência humana, como: saúde, educação, assistência social, independência política, judiciária e administrativa, associações de classe e esportivas, imprensa,  urbanização, saneamento básico etc.
No plano da saúde, por exemplo, passou a contar com o Hospital Regional do Estado,com a aquisição pelo Serviço de Medicina Social da Secretaria de Saúde, da Casa de Saúde do Dr. Macoto Ono, além da Casa de Saúde  e Maternidade S.  José,  construída pelo  Dr. Aldo Genovez Giberti, posteriormente vendida  à família Brandi Faria e  Dr.  Jorge Maluly Neto.
A cidade passou a contar também, na década, com vários médicos e dentistas e com um Posto de Saúde do  Estado, inaugurado sob a direção do Dr. Edgar Raimundo da Costa, acontecimento, aliás, que jamais esquecerei, uma vez que estive presente e o Dr. Edgar me brindou com a expedição da carteira de saúde nº 1.
No plano educacional, foram inaugurados nos anos 50 o Ginásio Estadual, a Escola Normal Municipal e a Escola Técnica de Comércio, que representaram grande impulso na formação escolar da juventude mirandopolense, até então, desamparada totalmente de cursos médios, que para famílias de maior poder econômico, eram feitos em outras cidade.
No plano de independência política, judiciária e Administrativa, destaca-se, sobretudo, a elevação de Mirandópolis à categoria de Comarca em 1953, e a solenidade de sua instalação  e posse do primeiro juiz de direito, Dr. Aguinaldo dos Santos e primeiro promotor público, Dr. João José Ramaciotti, com a presença do governador Lucas Nogueira Garcez, e  do Secretário de Justiça, Prof. José  Lourenço Júnior, vários deputados estaduais e federais, além de autoridades locais e pessoas da sociedade.
O fórum nos primeiros anos, funcionou no mesmo prédio em que funcionava a Câmara Municipal até a construção, do prédio da Prefeitura em conjunto com Câmara Municipal e mais tarde, a construção pelo Estado, do atual prédio exclusivo do judiciário.
Além dos clubes esportivos, surgiram também, na época, Associações de Classe como o Rotary Clube, o Lions Clube, a Associação Comercial, o grêmio teatral GATAM, o Clube dos 21, criado pelo professor Júlio Herculano Mazzei, congregando apenas professores, e a imprensa, primeiramente, em fins dos anos 40, com o semanário “O Mirandópolis”, com duração efêmera e posteriormente com a “A Cidade”, do qual fui cofundador e redator-secretário.
Foi na década de 50que se urbanizou também a faixa de terreno situada entre a estação ferroviária e a av. Rafael Pereira. Foi concluída a urbanização do jardim da cidade, brindado mais tarde pela construção do moderno cinema em dois pavimentos, com apartamentos para hotel na parte superior, pelo Jorge Nars, ex-sócio de Assad Abud da Casa S. Jorge.
Apesar de inaugurado no inicio de 1960, foi também nos últimos anos de 1950, que foi implantado na cidade, o mais desejado melhoramento esperado pela população, após a energia elétrica, o serviço de água e esgoto.

Ainda no final dos anos 50, há que destacar-se, em termos de transporte e locomoção, a melhoria das estradas municipais e a construção pelo governo do Estado, embora sem asfaltamento, da rodovia Mal. Rondon, a partir de Bauru, beneficiando todas as cidades da Alta Noroeste até a barranca do Rio Paraná.
Tudo que relatei até aqui, foi o que vivi e vi acontecer em Mirandópolis, em sua evolução, até o ano de 1960. Os demais melhoramentos, inclusive o asfaltamento vieram depois, quando já não morava mais na cidade. (continua na próxima semana)

sábado, 18 de agosto de 2012



3 História de Mirandópolis
dos anos 40/50
 
Relato de Elídio Ramires

      CAPÍTULO III - Nossa vida em Mirandópolis

      Os primeiros anos de vida da minha família em Mirandópolis foram os mais difíceis. Logo que assumiu o funcionamento da Padaria, que se resumia a um pequeno salão, meu pai alugou um salão anexo ampliando o local com a montagem também de um bar. O grande problema logo no inicio, foi a falta de energia para mover o equipamento para fabricar o pão.  Tanto a “masseira” como o “cilindro” tinham que ser movidos manualmente, o que tornava o trabalho cansativo, e o pior, sobrava para meus irmãos mais velhos e até para mim, que apesar de garoto franzino, também ajudava na panificação. Lembro-me que levantava às 4 hs da manhã, para ajudar  para que o pão estivesse pronto às 6 hs, uma vez que era costume, na época, que o pão quente estivesse na casa da freguesia a partir desse horário.
Outro problema no início foi o fraco movimento de venda dos pães. Apesar da padaria desmanchar, no começo da atividade, apenas duas sacas de farinha de trigo, sobrava muito pão, o que obrigava o meu pai a sair a cavalo com dois pequenos balaios, vendendo o pão na zona rural enquanto isso, meu mano mais velho, José, saía, as 4 horas da manhã, com um ajudante, em um carrinho de padeiro,  vendendo o pão nas ruas  e entregando nas casas dos fregueses mensalistas, que geralmente era colocado na janela do domicílio e pago no final do mês.
        No domicílio, a iluminação era feita com pequenos lampiões à querosene, velas ou lanternas a pilhas, que também eram muito utilizadas pela população, para circulação à noite pelas ruas da cidade. Rádio, somente à bateria e com registro na Agência dos Correios, em função da guerra e do regime ditatorial então vigente, que exigia também, o "salvo-conduto" expedido pela polícia para se empreender qualquer  viagem fora da cidade.
 
    A água para utilização da Padaria e no domicílio, como sóe acontecer até hoje em pequenas cidades, que não possuem o Serviço de água encanada, era sacada do poço, através de sarilhos manuais, inclusive para banhos em banheiros improvisados construídos pelos moradores no fundo do quintal, onde eram construídas geralmente pequenas casinhas de madeira em cima de fossa destinadas às necessidades sanitárias. Os moradores de mais posses instalavam  sobre o poço bomba  acionada por motor a gasolina e através de caixa d'água elevada e  encanamentos levavam a água ao domicílio.
     Os anos de 43 e 44, até o fim da 2ª guerra mundial em 1945 também foi um período difícil para a padaria, devido ao racionamento da farinha de trigo e outros produtos de consumo básico, imposto pelo governo Vargas e submetido a cotas, obrigando a padaria, na fabricação de pão, utilizar uma porcentagem de fubá. elaborando, então, o chamado pão mixto, de pouca aceitação pelos consumidores, o que reduziu o faturamento da panificadora. 
     Felizmente, a guerra acabou e a coisa foi melhorando com o tempo e pudemos comprar também  um motor para mover o maquinário. A iluminação continuou a ser, entretanto de lampião de gaz mesmo, o famoso “Petromax”, que era utilizado à noite no salão de vendas da Padaria. É certo  que existia na cidade um gerador de energia instalado pelo seu fundador Manoel Alves de Athaíde, movido por caldeira,  com queima de lenha, mais atendia muito mal, apenas parte da cidade, não chegando até a região da padaria e que deixou de funcionar em 1946. 
       Os negócios da família, apesar de todas as deficiências próprias da pequena cidade nos primeiros anos de seu nascimento, estavam indo bem, quando infelizmente, em 1944, novas dificuldades sobrevieram com o falecimento de meu pai, vítima de um surto de paratifo, doença  infecciosa, que causou a morte de 8 pessoas da cidade, tragédia que sempre  debitei à falta de saneamento urbano, e evidentemente, à assistência precária médica, embora acabasse de ser inaugurada na cidade, uma Casa de Saúde de propriedade do Dr. Macoto Ono, (hoje o Hospital Regional do Estado) onde meu pai esteve  internado, porém sem sucesso.
   Além da perda dolorosa  e sentimental do patriarca da família, com apenas 43 anos de idade, a situação da família economicamente, também se agravou   pelo fato de ter sido , em face do inventário pela existência de herdeiros menores, bloqueada na agência do Banco  Brasileiro de Descontos, então recentemente inaugurada na cidade, a única economia que meu pai possuía, para movimentação dos negócios da Padaria, no valor de dez mil cruzeiros, causando à minha mãe e ao meu irmão mais velho José, com  apenas 20 anos de idade, muitas dificuldades financeiras para tocar o negócio. 
 Mas, os dias passaram, as coisas melhoraram e Mirandópolis progredia rapidamente. Em novembro de 1944, foi    elevado à categoria de Município, se desmembrando de Valparaíso e como vigia a ditadura de Getúlio Vargas, teve como 1º Prefeito, nomeado pelo Interventor do Estado, o senhor João Batista do Amaral, que tomou posse em 1º  de janeiro de 1945, e que não conheci pessoalmente, cujo governo durou apenas 1o meses,  sendo substituído em 7 de novembro de 1945, por Manoel Flausino Correa, também nomeado pelo Interventor da ocasião, que não me lembro se era Fernando Costa ou Adhemar de Barros. Sei apenas que, o Prefeito que sucedeu provisoriamente o senhor Flausino Correa, de 23.04.47a a 31.12.47, Benedito Julindo Abakerlli, era Presidente local do Partido Social Progressista, fundado por Adhemar  e participou da campanha de Adhemar a governador naquele período, sendo sucedido por Delmiro Luiz Rigolon em 01.011948, eleito pelo partido juntamente com Adhemar.
 
           A explosão de 1946 - uma tragédia para a nossa família
 
  Tudo ia muito bem até que, infelizmente, pouco mais de dois anos depois, nova tragédia atingiu  duramente a família. Desta vez não só a família, como toda a cidade de Mirandópolis. 
 
 Foi a grande tragédia, certamente do conhecimento mesmo da atual população de Mirandópolis, da explosão de um vagão  de inflamáveis, (tubos de oxigênio, bananas de dinamite, formicida à base de sulfureto de carbono) por ocasião do  descarregamento, ocorrida no dia 14 de dezembro de 1946, que  destruiu parcialmente a cidade. 
Tal tragédia que vitimou fatalmente um garoto, filho de um funcionário da Estação, e deixou dezenas de feridos, muitos em estado grave, atingidos por destroços do vagão e de sua carga, está muito bem descrito em detalhes no livro “Mirandópolis- sua Evolução no século XX” , escrito por Dr. Alcides Falleiros.
 
Mais uma vez, por obra do destino, economicamente, a maior vítima foi  minha família. A explosão que ocorreu no desvio ferroviário, a cem metros da padaria destruiu totalmente o prédio fronteiriço e a área residencial. Só não ocorreu uma  tragédia maior, com a morte de minha mãe e meus irmãos, porque  a parte residencial era de madeira e em um dos quartos encontravam-se dormindo apenas  meus dois irmãos, ainda crianças, Adelino e Helio, que por milagre, não foram atingidos pala parede de taboas que vergou , em parte, sobre a cama. 
    Eram 21 horas de um sábado. Minha mãe e  meus outros irmãos que ainda moravam na casa, haviam saído. Eu tinha 16 anos e encontrava-me no cinema novo, construído naquele ano pelo sr. João Ferratone, onde a explosão foi sentida como um abalo, rompendo a projeção do filme e assustando os expectadores, que saíram pânico, reunindo atônitos em frente do cinema, se perguntando do que se tratava.
Quando a notícia de que tinha  havido uma  explosão de um vagão da estrada de ferro, saí correndo para minha casa, encontrando pelo caminho muitas pessoas feridas, e fiquei aterrorizado quando constatei que ela estava totalmente destruída e ao mesmo tempo alegre por ter encontrado minha mãe viva e meus irmãos sem nenhum ferimento. Apenas o cavalo que puxava o carrinho de entrega de pão e  que pastava em terreno baldio próximo ao evento, não resistiu aos ferimento recebidos.
 As casas comerciais localizadas na área mais próxima do local onde ocorreu a  explosão ficaram parcialmente destruídas, porém a única casa totalmente  destruída foi a casa da  padaria e a nossa residência nos fundos. Praticamente todas as casas da cidade foram de certa forma danificadas.
Aquela noite, com exceção de meus dois  irmãos menores, que foram dormir na casa de minha irmã Aparecida, em local pouco atingido, passamos desabrigados  cuidando dos pertences que ficaram expostos pela explosão. No dia seguinte, conseguimos alugar uma pequena casa de taboas nas proximidades do CAM, onde moramos por quatro meses, até reconstruir o prédio destruído.
A tragédia foi focalizada por todos os jornais da Capital. Lembro-me que três dias depois da tragédia, quando a cidade ainda exalava o cheiro  forte dos resíduos do material  espalhado pela explosão, acompanhei um repórter do Diário de São Paulo, levando-o aos locais mais atingidos pelo evento e fornecendo-lhe informações, que dispunha e que certamente foram ampliadas também por outras pessoas. 
A reportagem feita pelo jornalista foi  publicada no dia 19, estampando a seguinte manchete: “DESTRUÍDA PARCIALMENTE A CIDADE DE MIRANDÓPOLIS EM CONSEQUÊNCIA DA EXPLOSÃO DE UM VAGÃO DE INFLAMÁVEIS”, descrevendo a  seguir, a tragédia, acompanhada de várias fotografias da destruição, reportagem que guardo até hoje em meu arquivo.
O que mais  me causa indignação até hoje, entretanto, é o fato de saber que a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, responsável por lei pela ocorrência de  tamanha catástrofe, não indenizou nenhum dos proprietários dos imóveis atingidos, pelos prejuízos causados, e tampouco  pelos danos morais  e econômicos dos que foram feridos, bem como dos lucros cessantes cabíveis aos comerciantes, que tiveram seu comércio paralisado, durante a reforma  ou  construção de novo prédio, como foi o caso da Padaria de minha família. 
Apesar da postulação dos prejudicados,  limitou-se a Diretoria da NOB por interferência  pessoal do Engenheiro Dr. Almeida de seu  Departamento Administrativo de Araçatuba, a ceder alguns pedreiros e carpinteiros, para auxiliar nos reparos de alguns imóveis de necessidade mais urgente e a doar a alguns prejudicados, telhas para reparos de telhados.
No caso do prédio de nossa propriedade que foi totalmente destruído, que me lembro, foram doadas penas algumas centenas de telhas de telhas. Nada mais.
Como Mirandópolis ainda  não era Comarca e não contava com nenhum advogado, e como, segundo consta, os advogados de Valparaíso não se interessaram pela questão, tudo   acabou ficando  por isso mesmo. Cada um cuidando de reparar seus  próprios bens e  arcando com os seus  prejuízos, contando apenas com a ajuda da população da cidade, que mais  do que nunca demonstrou o espírito de mútua solidariedade, companheirismo e amizade, unindo-se espontaneamente numa luta laboriosa, para recolocar a cidade em ordem. (continua na próxima semana)