terça-feira, 20 de setembro de 2022

 

A chuva choveu!

 

Fazia tanto tempo que não ouvíamos as gotas de chuva caindo do céu.

E ontem à noite choveu

Choveu como se Deus aspergisse uma chuvarada mansa e contínua  aqui no pedaço. Como um jardineiro  regando canteiros de flor.

E o ar seco e pesado deu lugar para uma suave refrescância.

E a madrugada foi aconchegante.

Quando chove, tudo muda.

As árvores festejam balançando os galhos e salpicando gotas nas calçadas. Os passarinhos ficam agitados conversando entre si. Festejando? A terra ávida pela água engole aos borbotões. Os bichos procuram abrigos cobertos. E as pessoas correm. Correm como se fugissem de um perigo... Parece que os adultos não gostam de se molhar. Mas, as crianças adoram tomar banho de chuva,. Hoje em dia, talvez não, Mas quando eu era criança adorava enfiar os pés descalços no barro frio e macio.

Os campos estavam secos e tristes. As pastagens tinham perdido todo o seu verdor e o capim estava no toco. O gado olhava triste para  todos os lados, procurando algo verde para comer. Os açudes destituídos de água  se  transformaram em covas fundas sem um ser vivente. Para onde foram os peixes? O que aconteceu com o manancial de onde jorrava água límpida?

E essa noite foi de bênção, com uma chuva contínua e mansa

Amanhã as pastagens já estarão exibindo os primeiros brotos verdes. E devagarinho, tudo voltará a ter vida.

Essa primavera promete.

Chuva é uma bênção, é uma alegria.

Esse ar fresco, limpo e cheio de oxigênio não tem preço!

Mirandópolis, 20 de setembro de 2022. 

kimie oku in

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terça-feira, 16 de agosto de 2022

 

            Globalização

    Uns trinta anos atrás, não havia essa tal de globalização.

      Cada povo vivia em seu território, pelejando pela comida, por um emprego, por um lugar ao sol. Nas ilhas distantes e isoladas, viviam ilhéus inocentes dos inventos da civilização. E todos eram felizes de alguma forma, na sua pureza, nas suas tradições, na sua inocência...

      Mas o ser humano ambicionou pelo conforto, por locomoção sem usar pernas, pela faxina sem fazer força, pela água e comida na mesa sem pelejar. E tanto fez e buscou que hoje a comida já vem pronta, a roupa lavada pela máquina, a água filtrada em garrafinhas...

E tudo ficou fácil com a lei do menor esforço...

Entretanto, junto com a facilidade e o conforto veio a tal da globalização. Acho que isso foi uma desgraça para a humanidade. Globalizar significa aproximar, deixar tudo próximo, tudo atual. Hoje sabemos graças à transmissão por satélite, tudo que acontece no mundo em tempo real. Parecia interessante saber como viviam os povos que viviam nos confins do mundo...

Então, os povos se intercambiaram, indo de um lugar para outro, espiando vidas alheias... E nem as ilhas perdidas no fim do mundo foram poupadas... E a globalização levou a modernidade, as máquinas que facilitam a vida do homem. Bicicletas, carros, aviões, trens... E levou junto a ânsia de querer mais coisas, mais máquinas modernas... E de repente, todos tinham perdido a inocência. Todos ficaram ambiciosos, mesmo os que nem sabiam ler e escrever... Money era tudo, o deus da modernidade.

Só que há um detalhe doloroso nessa globalização.

Os vírus mais terríveis escondidos nos confins foram cutucados e espalhados por todos os cantos. E a doença se tornou um lugar comum no mundo inteiro. Ninguém mais está protegido de nada no mundo de hoje. Graças à globalização.

Mirandópolis, agosto de 2022.

kimie oku in

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sexta-feira, 5 de agosto de 2022

 

            Mortais

    A morte de Jô Soares nos faz refletir sobre a mortalidade de todos os seres. Ninguém é imortal. Só Deus, o Supremo.

      A humanidade inventou essa de imortalidade em se referindo aos famosos, mas é sobre o que concerne às lembranças, aos feitos e às grandes realizações. Não é sobre o corpo físico do indivíduo.

O homem morre definitivamente, e não tem volta.

      Por mais famoso, por mais grandioso, por mais santo, por mais cruel e por mais sábio que seja, todos morrem. Chegam ao ponto final e depois não tem vírgula, nem dois pontos para resgatá-los...

Morreu, acabou, parou no porto do ocaso, cést fini...

A morte é uma condição intrínseca dos seres vivos. Até as árvores, que parecem eternas morrem. Podem viver mil anos, dez mil anos, mas morrem. A morte nos espera todos os dias.

Então, vivamos serenamente. Como o Criador determinou. Cuidando de tudo, como um passarinho que todos os dias cumpre seu dever de fazer o ninho, de criar os filhotes, de soltá-los para o mundo, de usufruir o momento, a natureza, sem esperar nada em troca. Porque a luta diária, as pequenas obrigações do dia a dia é que são as recompensas.

Porque a vida é a recompensa.

Felizes os que foram agraciados com a vida.

E puderam vivê-la plenamente.

kimie  oku in

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segunda-feira, 1 de agosto de 2022

 

             Um quilo de carne

      Todos os dias aparece alguém pedindo comida.

      Em outros tempos, havia pedintes, mas não tanto assim.

      Realmente estamos vivendo tempos difíceis. Consequência do vírus que arrasou com a economia do mundo e, da recente guerra na Ucrânia, que fez o preço dos combustíveis chegar à estratosfera.

Gente pedindo uma ajuda para comprar comida, gente pedindo uma refeição, gente meio desesperada pedindo ajuda para comprar um lanche para o filho pequeno... E percebe-se que não é mentira, que a fome bateu nas portas de muitas famílias. Por outro lado, constatei que o número de coletores de recicláveis se multiplicou. Antes, havia uma dúzia de cidadãos conhecidos catando papelões e latinhas. Hoje há tanta gente, que a gente não conhece. Provavelmente, são  trabalhadores que perderam emprego por conta da recessão, ocasionada pela pandemia. Gente honrada, que não fica esperando ajuda dos céus. Que vai à luta para garantir o leite, o feijão e o arroz. Realmente está muito difícil para muita gente.

Eu pessoalmente estou fazendo o que posso para ajudar duas famílias, ofertando-lhes um quilo e meio de carne por semana. Sei que é pouco, mas essa porção já minimiza a necessidade de proteínas dessas famílias. Porque a carne nunca esteve tão ausente da mesa dos pobres... E estou escrevendo isso só para meus amigos também adotarem essa forma de ajuda. É gratificante ir ao mercado ou açougue e comprar carne de porco, linguiça ou frango para contribuir com as cozinheiras, que não sabem o que servir aos filhos... Elas estão só servindo ovos todas as semanas. Quando podem! E três quilos de carne não vão empobrecer nenhum amigo meu, com certeza.

Acho que Campanha da Fraternidade deve ser assim: estender a mão e o coração para os que estão passando dificuldades.

E há tanta gente assim.

E há muita gente que pode ajudar.

Vamos todos fazer uma ciranda de ajuda fraterna. Ajudando duas famílias por semana. Não precisa ser um quilo e meio. Pode ser um quilo ou meio quilo. Mas que seja semanalmente, para aliviar a  necessidade dessas famílias.

Os trabalhadores estão precisando de ajuda.

Vãos salvá-los!

Mirandópolis, agosto de 2022.

kimie oku in

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sábado, 30 de julho de 2022

 

                Simplicidade

       E falando em bucha, me dei conta que a vida era tão simples.

       Vivíamos no campo, em contato direto com a terra, a água e o ar.

       A terra era generosa, não precisava de implementos para produzir o arroz, o feijão, as frutas e as verduras. Só tínhamos que plantar e pedir a Deus que nos mandasse chuva. E as colheitas eram fartas. Não tínhamos que ir a lugar algum para comer. Tudo era retirado da terra. Ninguém precisava ir ao mercado para comprar um litro de leite. E tudo era saudável. Eu me lembro que colhíamos tomates tão grandes e saborosos. E os quiabeiros eram plantados entre as fileiras do cafezal. Lembro com saudades das manhãs de sexta feira santa, em que papai e eu íamos plantar alho no brejo. Por quê na sexta feira santa, nunca entendi. E aproveitávamos para plantar também ervilhas, essas ervilhas tão caras nas feiras. Não eram orelhas de padre, eram ervilhas mesmo, macias e deliciosas.

       Lembro que todos os vizinhos também tinham pomares como nós. Mangas, laranjas, limões e bananas que consumíamos o ano todo. Lembro especialmente de um pé de limão galego, que produzia limões amarelinhos e cheirosos. Era difícil catar as frutas, porque os galhos eram cheios de espinhos. Nunca parou de produzir...

Lembro também da tuia, onde guardávamos pendurados os cachos de banana maçã. Eram tantas bananas tão amarelinhas, que não dávamos conta de consumi-las. Muitas eram dadas aos porcos...

Lembro com gratidão do poço, de onde retirei centenas e centenas de baldes de água límpida e saborosa. O balde era amarrado na ponta de uma corda, e a gente puxava para cima através de um sarilho. Todas as crianças maiores tinham a obrigação de puxar água do poço. Água para a cozinha, para lavar roupa, para os banhos. Era um dever de todos e ninguém reclamava. E a água era usada com mais parcimônia, porque era duro  “puxar água”.

Usávamos fogão a lenha, e linguiças de porco ficavam dependuradas sobre o fogão para defumar. E queijo havia com fartura, que mamãe fazia bolinhas fritas de queijo ralado... Deliciosas.

A vida era rústica, no chão mesmo. Andávamos descalços, e era uma delícia tomar banho de chuva... O cheiro da terra molhada depois de um longo estio... Não havia luxo, duas ou três mudas de roupa, um par de sapatos, que eram passados dos meninos mais velhos para os menores.

Puxa! A vida era boa! Não era complicada como hoje.

E éramos felizes sendo completamente caipiras.

Uma semente de bucha me trouxe essas maravilhosas lembranças. Lembranças que infelizmente as novas gerações nunca experimentarão.

Mirandópolis, julho de 2022.

kimie oku in

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sexta-feira, 29 de julho de 2022

 

            Bucha

      Meu irmão mora num sobrado em São Paulo.

E ele gosta de plantas, flores, verduras.

Um dia, caiu em suas mãos uma semente de bucha. Dessa mesma bucha que usávamos para lavar louça, para tomar banho.

Como cresceu no sítio e fora lavrador quando jovem, desejou ver a planta nascer e frutificar. Plantou a semente e a regou até atingir um bom tamanho. E de repente, viu que não podia deixar a plantinha ali, no sobrado. Porque ela é trepadeira, e não haveria apoio para ela se enroscar...

Então, levou a mudinha para um amigo, que tem espaço no quintal para a bucha se desenvolver naturalmente. Só estabeleceu uma condição: que o amigo lhe dê uma bucha, quando estiver na época da colheita.

Depois de um tempo, ele viu uma longa bucha amadurecendo.

E agora está na expectativa de receber uma bucha vegetal para usar no banho.

Sei que é uma história prosaica, mas estou publicando porque ela me tocou bastante. Um cidadão de São Paulo, mecânico aposentado de 79 anos, que mora sozinho, se interessar por uma bucha! Era apenas uma semente preta, sem graça, que existe de montão no meu sítio.

E eu vivo cortando as ramas de bucha que teimam em subir nas bananeiras e no abacateiro.

Bucha é mato lá.

Mirandópolis, julho de 2022.

kimie oku in

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domingo, 3 de julho de 2022

 

                                                               Vilma

          Ontem fizemos o seu funeral.

      Foi um misto de saudades e boas lembranças que tomou o coração de todos nós. Presentes todos os filhos, netos e esposo. E outros familiares que a amaram durante sua permanência entre nós.

Vilma Haruyo Amikura foi uma menina simples que andou por essas ruas de Mirandópolis, passeou pela Praça, aprendeu os ensinamentos de Jesus na bela Matriz São João Batista e frequentou o Kaikan. Estudou no Edgar e se formou Professora pelo Noêmia Dias Perotti.

Um dia, seu caminho se cruzou com o de Hideo Osaki, com quem formou uma bela família em São Paulo. Enquanto cuidava dos filhos, lecionou em Escolas do Estado e do Município. Sua vida foi permeada de dificuldades, porque o esposo tinha a seu cargo dar assistência a quatro irmãos, que pelejavam para descobrir o seu caminho. Muito sacrifício, perdas e atritos... Mas, de um jeito ou outro, venceram os maiores obstáculos...  

Quando tudo parecia entrar nos eixos, ela foi acometida de um violento acidente vascular que a deixou cadeirante para sempre. E foi aí que o amor dos filhos e do esposo se revelou em cuidados diários, com banhos, massagens, fraldas, alimentação cuidadosamente preparada... E ela nunca foi deixada de lado como uma inválida. O pessoal ia para a praia? A Vilma ia também, mesmo que fosse só para respirar o ar marinho e ver a paisagem... Compras? Ela ia também na cadeira conduzida pelo Hideo nos Mercados e nos Shoppings... Eventos sociais na família? Ela vinha também, vencendo a longa viagem de mais de seiscentos quilômetros...

Era difícil? Sim! Mas o desvelo da família era uma coisa boa de se ver. Ela participando de tudo. Uma lição para todos os familiares...

E assim, cercada de extremo carinho, ela sobreviveu ao AVC por dezessete anos. E acredito que foi muito feliz. Mesmo paralisada, mesmo limitada, mesmo cadeirante. Porque foi amada incondicionalmente.

E ontem depositamos suas cinzas na tumba da família, junto de seus pais e irmãos. E foi uma cena bonita, porque não faltou ninguém.

E na bênção, o Padre Orlando nos lembrou que todos somos pó... E que ao pó voltaremos...

Enquanto não retornarmos ao pó, toda uma vida floresce. E o que fazemos nesse intervalo é que faz a diferença.

E a diferença da Vilma foi a presença de tanta gente que veio de longe assistir ao último ato de sua vida.

Vilma Haruyo Osaki, nós te amamos.

Mirandópolis, julho de 2022.

kimie oku in

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