quarta-feira, 14 de novembro de 2012


Um Domingo Em Mirandópolis
          Sete horas da manhã. Os sinos repicam chamando para a missa. Os garotos se divertem na torre da igreja, pois as cordas presas aos sinos os elevam e abaixam. As famílias saem de suas casas, vestidas com suas melhores roupas. É um acontecimento  mais social que religioso.
 A igreja fica lotada, Mirandópolis em peso está presente. O burburinho dos cumprimentos vai cessando. O padre já está à frente do altar: Padre Epifânio Ibãnez, espanhol, bravo, verdadeiro sargentão.  Tenho certeza que o Diabo sempre passou longe daquela paróquia. Sidnei e Milton Crevelaro coroinhas, imaginem só. Se uma criança chora, Padre Epifânio interrompe a missa e, sem nenhuma sutileza, com aquele sotaque forte do espanhol,  pede para que a mãe saia e vá embalar a criança lá fora.  Se percebe alguma mulher com uma blusa sem manga, manda-a para casa, se vestir, pois a Igreja não aceita pessoas nuas.   Missa demorada, sermão longo... E a gente querendo sair logo para o futebol na rua São João.
          Hora do almoço, a cidade fica deserta. Ouve-se o bater das louças, o tilintar dos copos, as conversas, os risos. As famílias estão  reunidas em casa, para a tradicional macarronada. Nada de comer em restaurante... Nem existia, só pensão para os viajantes. Nada de comida por quilo, churrasco então, só nos casamentos. Em uma ou  outra casa um radinho ligado, o latido dos cães, um irmão xingando o outro porque pegou seu bife.
          Duas horas da tarde, hora da matinê, no cine São Jorge, de propriedade do Jorge Nametala Nars e depois de João Ferratone. Onde trabalhei como varredor, espanador das 930 cadeiras, lavador dos banheiros e carregador das placas que ficavam nas esquinas das ruas com o nome dos filmes do dia, isto quando também não tinha de ir buscar os rolos de filmes que vinham de trem. O gerente era Pedro Romero, filho do senhor Romero do carroção de lixo, outro espanhol, casca grossa... Gente, será que... Bom deixa prá lá... O Kaká foi bem recebido. Ele ia pelos corredores, passando os dedos nas cadeiras para ver se tinham sido espanadas. Mal sabia que eu só espanava as cadeiras dos corredores...
          Enquanto não se iniciava a sessão do cinema, tocando a música que falava: como os pobres de Paris, que era o que chamávamos de prefixo, os meninos, na porta do cinema, trocavam gibis: Zorro, Tarzan, Mandrake, Pato Donald,  capitão Marvel, Super Homem, Capitão América, Fantasma.... Um Almanaque valia quatro gibis simples. Também jogavam “bafo” e trocavam figurinhas de futebol. As carimbadas eram:  Baltazar, Luizinho, Leônidas, Oberdã, Gilmar, Canhoteiro... E  valiam três ou quatro das outras.
Como havia engraxates... Também pudera, só  se usava  “kedis” para fazer Educação Física. Hoje se usa tênis até de terno. Além do sapato calçavam-se botinões e botas de cano longo, os mais pobres usavam alpargatas Rodas, o popular “pé de cachorro”.   Às vezes surgia uma briga aqui, outra acolá que não eram apartadas, eram incentivadas pelos outros meninos. Xingar de FDP podia, mas chamar de Xibungo era comprar briga na certa. E agora, eles têm até passeata na Paulista... Vai entender.
          Os filmes da matinê eram quase sempre de índios ou comédias com Jerry Lewis. Quando a cavalaria ou o “mocinho” aparecia, o cinema virava um pandemônio, eram gritos, palmas e uma bateção de pés no chão que se ouvia lá de fora, na rua.   Após o filme tinha o seriado, que era apresentado em capítulos, todo domingo. Os seriados  mais famosos foram os do Zorro, do Tarzan e do Fu-Manchu. Terminada a matinê, eu tinha de varrer rapidamente o cinema, porque no domingo tinha sessão dupla à noite, principalmente se era filme do Mazzaropi. O Silvio  Tavares e o Alcides Espirito Santo me ajudavam.
          Já adolescente, jogando no time do Paulistinha, ficava sentado na grama do jardim, em frente ao cinema e ao bar Kibon, juntamente com outros jogadores, vendo esta movimentação da qual já tinha participado, e esperando a hora de descermos para o estádio. 
 Num determinado domingo, estávamos lá, “moscando”, como se costumava dizer:  eu, Moacir Inforzato, Pim, Nata, Josué Bucheiro, Bisteca, Zé Martins, Didier, Cabinho, Paraguaizinho, Gambá, Xepa, Toco, entre outros, quando vimos o Vardo Cascudo e o Zé Antonio virarem a esquina, vindos da Rua São João e se dirigirem para o cinema. A sessão já havia sido iniciada. Eles passaram direto pela frente do cinema, e foram para um terreno vazio, que ficava entre o bar Kibon e a lateral do cinema, os banheiros. Sabíamos o que ia acontecer, já tínhamos presenciado muitos garotos entrarem pelos vitrôs dos banheiros para assistirem aos filmes. Éramos cúmplices, nunca falamos nada.

          O Vardo Cascudo foi o primeiro, passou e pulou para dentro. O Zé Antonio passou as pernas, o corpo, e a cabeça ficou presa. Nem pra frente, nem pra trás. O Vardo puxava, e nada.  Não agüentamos... Começamos a rir, a gritar, a vaiar, a fazer a maior algazarra. Pessoas dos outros cantos da praça vieram ver o motivo da bagunça. E o Zé Antonio esperneando, o Vardo voltou, puxava agora pela cabeça e, nada. E nós de cúmplices passamos a delatores, pois o senhor João Ferratone, ao ouvir aquele barulho todo, saiu para ver o que acontecia. Foi até ao vitrô, ele era grande, forte, puxou e “desenroscou” a cabeça do Zé. Tirou-o, deu-lhe um cascudo e,  tanto o Vardo quanto o Zé saíram correndo debaixo de vaias e gargalhadas. 
          Descemos para o estádio, rindo, comentando, tínhamos ganho o Domingo. À noite, voltaríamos ao cinema para assistir “Casinha Pequenina”, com Mazzaropi.
         Ademar Bispo

Finados



Nós, os vivos, temos o hábito de cultuar os mortos da família, desde os primórdios dos tempos.
É um costume que vem de gerações e gerações, e tem a ver com o lado espiritual dos humanos. Porque os animais não têm esse costume.
Ao longo da História, a humanidade construiu templos, sinagogas, pagodes para realizar esses cultos de forma mais organizada e contínua.
Mesmo as tribos que vivem no oco das florestas têm esse hábito. De alguma forma, elas reverenciam os antepassados, às vezes em forma de totens, de máscaras, de cerimônias e rituais religiosos, que compreendem danças e cânticos...
No mundo atual, nós comparecemos ao cemitério, levando flores, velas e incensos. E acho que esse costume não desaparecerá, mesmo com todo o avanço da civilização. É que a morte é um enigma difícil de entender e desvendar, e mexe com a nossa inteligência e com a nossa alma.
A celebração para os mortos, que mais se evidencia no mundo de hoje, acho que é El Dia de Los Muertos do México, um festival de origem indígena, considerado Obra Maestra do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade, pela Unesco.
O que mais se destaca nessa celebração é o sentido dado aos mortos, que são tratados como vivos, e é uma festa alegre, com peças teatrais e canções populares, para saudar a todos os finados. As lojas são enfeitadas com manequins de caveiras vestidas e ornamentadas, doces são fabricados em formas de crânios e colocados sobre as lápides, onde repousam os mortos. A crença popular é que nesse dia, os mortos têm autorização para visitar os familiares que deixaram na Terra. Por isso são recebidos com muita festa, muita alegria que se manifesta em danças, cânticos, mesa farta, doces e enfeites nas casas.

Muitos desses costumes foram copiados e adotados por povos de diversas partes do mundo, especialmente na Europa.
No Japão, o Bom Odori (dança para os mortos) que no Brasil virou sinônimo de festa, é uma manifestação popular de origem budista, para dar as boas vindas aos espíritos dos mortos, que têm três dias ao ano para revisitar os vivos.
  No Obon, é tradição nas cidades do Japão, as famílias irem ao cemitério, limpar os túmulos e fazer oferendas de flores, frutas e bolinhos de arroz, além de orações, velas e incensos. Monges realizam cerimônias especiais nos templos, em memória dos mortos.
 Este costume está bem arraigado nas famílias, que passam parte do tempo preparando as cerimônias para os antepassados, em dias que antecedem a data.  Durante esse período, que é um dos grandes feriados no país inteiro, as pessoas retornam aos seus vilarejos, para fazerem essa visita aos túmulos de seus ancestrais, e aproveitam para rever os parentes que ficaram no lugar. 
E na ultima noite, existe uma cerimônia muito bonita com danças alegres, “odori”, que ocorre nas ruas. As músicas tradicionais mais conhecidas são cantadas ao som do “taikô” ou tambor e de flautas de bambu, ou “shakuhachi”. Tudo é muito festivo, porque é uma homenagem às pessoas que já partiram desse mundo, que já cumpriram o seu destino, a sua missão.
E para finalizar as cerimônias, há uma sessão de orações, e o lançamento de velas em barquinhas de papel nas águas dos rios, para iluminar os caminhos dos visitantes, em sua volta para o mundo dos mortos.
Muitas dessas tradições foram trazidas pelos imigrantes japoneses ao Brasil. O que mais intrigou os brasileiros é a oferenda de comida (frutas, doces, arroz cozido e água) que os japoneses faziam sobre os túmulos de seus mortos. Esse costume remonta aos primórdios dos tempos, quando o país passou por terríveis crises, e incontáveis nipônicos morreram de fome. De fome mesmo, por falta de arroz, literalmente.
Se os brasileiros estranharam essa tradição japonesa, mais deve se estranhar o que ocorre à porta dos cemitérios, hoje em dia. O espaço diante dos portões, que conduzem ao campo santo, foi totalmente ocupado por uma feira a céu aberto.
 Ali são vendidas além de flores e velas, que são apropriadas para o momento, sorvetes, refrigerantes, talhadas de melancias, e outros que tais. Toda vez que vejo essa cena de ambulantes à porta dos campos santos, me vem à lembrança a cena de Jesus expulsando os vendilhões do Templo.
Lembro também que, o local já foi usado por candidatos políticos para  suas campanhas, oferecendo água aos romeiros. Se não era campanha política, por que não continuaram ofertando água de graça aos visitantes, nos anos subseqüentes?
E olhem que fez um calor danado nesse Finados, e uma água  mineral geladinha ia calhar bem...
Mas, não houve 2º Turno dessa vez...

Mirandópolis, novembro de 2012.
kimie oku in “cronicasdekimie.blogspot.com”




terça-feira, 13 de novembro de 2012


Gente de fibra - Takeshi Kido



Takeshi Kido é um popular Cirurgião Dentista, que durante décadas cuidou dos dentes da comunidade mirandopolense.
É de origem nipônica, mas é brasileiro. Nasceu em 1937, no Bairro Km 50 que foi o berço da cidade de Mirandópolis.
Naquela época, o Bairro do Km 50 era uma pequena cidade no meio da floresta, fundada pelo Senador Rodolfo Miranda, que pretendia instalar uma metrópole na região, para concorrer com a cidade de Araçatuba. Embora pequena, era uma cidade com serrarias, hotéis, farmácias, restaurantes, bares,  máquinas de beneficiar arroz e café, escolas, igrejas, armazéns de secos e molhados... e crescia a olhos vistos.
O sonho do Senador não se concretizou, porque a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil que veio ligar Bauru ao Estado de Mato Grosso, não passou pelo Km 50  e instalou a Estação Ferroviária aqui  onde está até hoje, com o nome de Mirandópolis.
O Senador havia nomeado a nova cidade do Km 50 de Mirandópolis, mas o nome não pegou, pois todos a chamavam de Km 50. E com os trens passando aqui em Mirandópolis, transportando de forma rápida e prática  além de pessoas, até animais, cereais e maquinários, a população de lá acabou se transferindo para cá, mudando de vez a sede da cidade.
A família de Takeshi Kido, que possuía uma Selaria e Sapataria no Km 50, também para cá se mudou, juntamente com todos os imigrantes japoneses, que lá moravam. Seu pai continuou no mesmo ramo de Selaria e Sapataria, para criar os sete filhos, dos quais uma era japonesa, pois nascera no Japão.
Naquela época, os nipônicos que vieram do Japão se organizavam em associações, para não perderem o contato uns com outros. Assim, formaram-se grupos de senhoras, “Fujin-kai”; dos jovens “Seinen-kai”; dos representantes das famílias, os “Nihonjin-kai”. E essas associações cuidavam dos estudos das crianças e jovens, com o objetivo fundamental de conservarem as tradições lá da pátria distante, ensinando-lhes a língua japonesa, os costumes, os cultos e a parte recreativa. No que concerne aos esportes, o forte era o beisebol, que era praticado com muito entusiasmo pelos jovens e adultos de todas as aglomerações de japoneses no Brasil. Assim, havia competições de grupos de cidades vizinhas, de regiões, de Estado e até campeonato brasileiro.
Nessa época, aqui estavam estabelecidas as famílias japonesas dos Amikura, dos Anze, dos Hombo, dos Ijichi, dos Kawasaki, dos Kawata, dos  Koike, dos Kojima, dos Miike, dos Mizukami, dos Mochida, dos Motomiya, dos Nagata, dos Sadano, dos Sato, dos Suguisaka, dos Tanaka, dos Tanikawa, dos Takayanagui, dos Tonossu, dos Yanagui e outras dezenas de agricultores como os Ariki, os Nakano, os Miguita, os Inoue, os Sumita, os Fujikawa, os Miyamaru, os Sassaki, os Shiota ... Grande parte delas se instalou com suas casas comerciais na Avenida Internacional , hoje  Avenida Rafael Pereira.
Anos mais tarde, a maioria dessas famílias acabou deixando a cidade, em busca de trabalho e escolas para estudar seus filhos. Aqui restaram alguns remanescentes desses primeiros japoneses, que acabaram se miscigenando com os brasileiros.
Como não podia deixar de ser, Takeshi também foi educado nos  moldes do sistema japonês, que ensinava a postura correta diante da sociedade e o amor ao trabalho. Assim, frequentou a escolinha japonesa, jogou muitas partidas de beisebol e pertenceu às associações da época. Entretanto, como sua vida era dividida entre Sorocaba e Mirandópolis, nunca assumiu a Direção do Clube Nipo, no que foi cobrado muitas vezes pelos companheiros.
Takeshi fez os estudos iniciais aqui e foi da primeira turma de formandos do Ginásio Estadual, em 1953.  Foi aluno dentre outros renomados mestres, que marcaram época na História de Mirandópolis, do Professor Júlio Mazzei, de Educação Física, que se tornaria famoso como  Preparador Físico do Palmeiras e do Santos; e que levaria o Pelé para o Cosmos de Nova Iorque, que congregou os jogadores mais famosos do mundo. Dessa fase, Takeshi se lembra que o Prof. Mazzei gostava de beisebol e participava de algumas partidas com os jovens alunos, no campo do antigo Clube Nipo.
Seus colegas de Ginásio foram o Natsumeda, o Kamada, o Kazuo Kawamoto, o Toshio Suguisaka, Keitaro Mizukami, Shinzo Amino, Kunitaka Shimoda, Aiko Morita, Akiko Kanazawa, Naoko Suguisaka e Miyuki Mochida.
Como não havia Colégio no local, Takeshi foi enviado a Sorocaba, onde concluiria o Curso Científico em 1956. Em 1957, ingressou na Faculdade de Farmácia e Odontologia de Araraquara. Ao concluir a Faculdade, fez Estágio de Cirurgia Hospitalar na Santa Casa de São Paulo, no Departamento de Odontologia, com o Professor de Cirurgia Bucal, Doutor Mário Grazziani. Com esse Professor, o jovem Kido aprendeu muito sobre os procedimentos cirúrgicos, que viriam ajudá-lo no exercício de sua profissão.
Após a formatura, Kido abriu o seu consultório em 1961, à Rua Armando Sales de Oliveira, numa sala alugada no prédio pertencente ao senhor Mário Koike.
Naquela época, os dentistas estabelecidos na praça eram: Dr. Alcides Falleiros, Dr. Rubens Conrado, Dr. Elzio Bizarri, primo dos Ramires, e Dr. Lago. Havia trabalho para todos, porque a cidade estava em pleno desenvolvimento.
Os pais de Takeshi também se instalaram na Avenida Internacional, que era a principal rua do comércio. Em 1962, Takeshi casou-se com a senhorita Haiko Miura, que nasceu em Paraguaçu Paulista. Eles se conheceram quando estudavam em Sorocaba. Dessa união, tiveram uma filha, que seguiu a carreira do pai, tornando-se Ortodontista também.
Como o Dr. Kido era especializado em Cirurgia Bucal, os demais profissionais lhe encaminhavam todos os casos, que requeriam maiores cuidados. E assim, o seu trabalho se desenvolveu rapidamente. Teve clientes famosos como o Dr. Osvaldo Brandi Faria, os Godoy, Dr. Yoshito Kanzawa.
Seu sucesso foi rápido e em 1964, construiu a atual clínica que possui, mas que está desativada, em virtude de recente aposentadoria.
Como o Dr. Kido pretendia se especializar em Correção Dentária, com a anuência da esposa Haiko, fez o Curso de Especialização em Lins durante dois anos e meio. O curso de Técnica BEGG de Correção Dentária era aos sábados, e para estimulá-lo, a esposa e a filha o acompanhavam. Enquanto ele estudava, elas ficavam no hotel. Foram anos de muito sacrifício, de cansaço, porque a Marechal Rondon era de pista única e as viagens eram demoradas.
Quando concluiu o Curso em Lins, ele frequentou  por mais dois anos e meio,  o Curso de Correção Dentária da Técnica Edwise, ministrado por um Professor australiano, em Bauru. Já nessa altura, ele ia sozinho, mas era muito cansativo, porque trabalhava a semana inteira, e muitas vezes fazia serão até de madrugada, sempre com a ajuda inestimável da companheira Haiko.
Com o passar dos tempos, Dr. Kido percebeu a importância da incrustação fundida, que era mais segura e duradoura. Esse tipo de restauração dentária era feito nos dentes posteriores, quando havia muito desgaste, fraturas e ou grandes cáries. Incrustação dentária era uma restauração do dente lesionado, embutindo-se peças confeccionadas com ligas de  prata ou ouro, para recompor a parte que faltava. Essas peças eram cimentadas no dente, e tinham vida mais longa que as restaurações por amálgama. Atualmente, essas incrustações podem ser feitas com resina e porcelana.
Como os laboratórios demoravam na entrega dessas incrustações, Dr. Kido resolveu ele mesmo, confeccioná-las. Para isso, comprou o material, aprendeu a técnica e produziu as peças que eram colocadas nos dentes dos clientes. Chegou a fazer mais de trezentas incrustações por ano, que era um número espantoso. E isso por mais de dez anos seguidos, trabalhando além do expediente, sempre com a competente colaboração da esposa Haiko. A dificuldade do trabalho se concentrava nos diferentes tamanhos  e formas das peças, devido às características dos dentes de cada cliente.
Além de tudo isso, Dr. Kido foi convidado a dar aulas no Ginásio, porque era necessário um corpo docente habilitado para se instalar o Curso Científico e o Clássico. Atendendo a um pedido do Dr. Neif Mustafa, então Secretário do Colégio Noêmia Dias Perotti, deu aulas de Biologia por uns dois anos. Diz que foram anos duros, porque trabalhava o tempo todo e à noite ainda tinha o compromisso de ministrar aulas aos jovens do Colégio. Até nisso, a esposa Haiko foi a secretária perfeita, anotando os tópicos dos assuntos, que deveriam ser abordados pelo Professor Kido nas aulas...
Além disso, ainda se envolveu com a política local, tornando-se Vereador por uma legislatura, na gestão do então Prefeito Dr. Jorge Maluly Neto, de 1963 a 1966.
E tudo isso, trabalhando de oito a dez horas por dia para atender à clientela. Durante mais de trinta anos, deu assistência à Comunidade Yuba, que pagava os serviços mais em espécie, porque as dificuldades financeiras eram muito grandes. A Comunidade agradecida lhe envia até hoje, frutas e verduras  quase semanalmente. Essa prática se chama "ongaeshi" em japonês, que é um agradecimento  para sempre.
Durante 25 anos, Dr. Kido viajou de Mirandópolis a Sorocaba e vice-versa, porque sua agenda de atendimento era de duas semanas ao mês em Mirandópolis, e duas semanas em Sorocaba.
Em 1987, aposentou-se pelo INSS.
Continuou trabalhando para atender a clientela de longa data, mas problemas de saúde o forçaram a parar. Aos poucos, foi reduzindo o ritmo de trabalho e em 2011, deixou de vez a Clínica. Tem saudades, porém, do serviço de dentista...
Hoje só cuida do gado, que possui numa fazendinha. Faz Inseminação Artificial de Tempo Fixo, sendo o Dr. Kido e o senhor Itio Nakano, os pioneiros dessa técnica em Mirandópolis.
A Inseminação Artificial por Tempo Fixo tem como ponto fundamental a padronização do cio e do parto, e é possível obter sucesso em 55% dos casos inseminados. Em conseqüência, padronizam-se os lotes de gado de corte.  Há sete anos, Dr. Kido está praticando essa modalidade de inseminação, que requer observação, muito treinamento e trabalho. Ele aplica em animais da qualidade “Aberdeen-Angus”, que é um gado escocês e nas fêmeas Mestiças Angus, fertilizando-as com o sêmen do gado “Wagyu”, de raça japonesa.
O gado Wagyu é conhecido internacionalmente como o produtor de carne mais macia e suculenta. E pelos cuidados e tratamento dispensados a esse gado no Japão, produz-se o Kobe beef, que é considerada a carne mais cara do mundo, pela excelência do sabor e da qualidade.
Dr. Takeshi Kido que foi um verdadeiro artesão, e passou horas intermináveis no seu mini-laboratório, construindo pequenas peças que devolveriam a saúde bucal e o sorriso de seus clientes, passa agora a cuidar de produzir gado, que forneça carne de qualidade superior aos consumidores.
Dr. Takeshi Kido, que sempre procurou a perfeição em tudo que realizou em sua vida, seja na profissão, seja nos estudos e em outras jornadas, é sem dúvida alguma, Gente de Fibra!

Mirandópolis, novembro de 2012.
Kimie oku in “cronicasdekimie.blogspot.com”

Legenda das fotos:


1.     Dr. Takeshi  Kido em seu gabinete
2.     Bairro Km 50 em 1936
3.     Avenida Rafael Pereira em 1947
4.     Formatura do Ginásio e amigos
5.     Certificado da Faculdade de Odontologia de Araraquara
6.     Time de beisebol dos Old Boys e torcida
7.     Família Kido (pais, irmãos, cunhados e sobrinhos)
8.     Espadas japonesas
9.     Takeshi e Haiko (meio século juntos!)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012


Uma história de grilagem  (conto)


             Ainda é noite alta, pode-se ouvir o cri-cri dos grilos e o coaxar dos sapos, mas Acácio não consegue dormir. Levanta-se e vai para fora, para o terreno em frente ao rancho de pau-a-pique. Está cheio de tocos, dos coqueiros, cortados para a construção da moradia. As folhas formaram a cobertura.
 Ele está com um mau pressentimento, de vez em quando tem visões ou sonhos que se transformam em realidade.  Com um dos pés sobre um toco, o cachorro Tarzan ao seu lado, ele pica o fumo para o cigarro de palha. Estavam ali para proteger aquela “posse”. Eram terras ocupadas por quem chegasse primeiro, geralmente terras sem donos ou sem documentos. O posseiro, quase sempre um fazendeiro, pagava para que as defendessem dos grileiros.   
            Os grileiros, usando capangas, invadiam estas terras e advogados inescrupulosos falsificavam escrituras que colocavam em caixas com grilos, para que eles comessem alguns pedaços do documento e suas fezes as deixassem amarelecidas com aparência de antigas. Daí a origem do nome grileiros. Acácio conhecia esta técnica, era usada muito no seu estado de origem, no sul da Bahia, nas terras do cacau. Lá os coronéis do cacau, contratavam advogados e compravam os donos dos cartórios, para fazerem o famoso “caxixe”, e ficarem com as terras dos pequenos proprietários.
             Acácio não era do sul da Bahia, nasceu em Juazeiro, lá no alto, divisa com Petrolina. Já com o fumo picado passa a palha nos lábios para umedecer e enrolar o cigarro. Junto com a primeira tragada vêm as lembranças de sua infância, vendendo cocada na orla de Juazeiro. Lembra do dia que Zé Bexiga, moleque mau, tomou-lhe os doces, mas seu irmão, Aurindo, mais velho, mais forte, viu e pegou Zé Bexiga.
 Aurindo segurou o moleque e ele encheu-lhe a boca de areia e tapou-lhe o nariz. Tinha de comer a areia senão morria afogado. Eram oito irmãos, cinco homens e três mulheres, a mãe não tinha condições de criar todos e deu alguns para os parentes.  Foi morar com tio Chico, no sítio, na beira do rio, ajudava o tio a levar os bodes para vender na feira. O tio ensinou-o a nadar... amarrava uma corda na sua cintura e jogava-o no rio, quando estava bebendo água puxava. Na terceira vez saiu nadando.
            Com dezessete anos, no dia do Natal, ele, seu primo Emílio e um amigo apanharam o vapor em Juazeiro. Dormindo em redes e comendo paçoca de carne seca com rapadura foram até Pirapora, em Minas Gerais. Ali se separaram e Acácio fez o percurso a pé até o interior de São Paulo, parando em várias fazendas, trabalhando uns tempos e seguindo seu caminho quando já tinha um dinheirinho.
               Um estalar de galho o faz voltar à realidade. Observa, está escuro, tenta ouvir mais algum barulho... nada. Deve ter sido alguma paca ou outro animal, Tarzan nem se mexeu, permanece deitado ao seu lado, com a cabeça sobre as patas dianteiras. Ouve é o ronco de Mané Vitor dentro da cabana. Todos dormem. São seis, com ele, mas conhecer mesmo só Mané Vitor, que é vizinho na cidade. É um amigo, boa pessoa, mas muito medroso. Tem o paraguaio Solano, sisudo, quieto, de pouca conversa, passa o tempo todo azeitando a carabina e amolando as duas facas que traz na cintura. Ribeiro vive rindo, ri de tudo, é maldoso, ri das maldades que faz. Gosta de judiar dos animais. Um dia disse que ia cortar o rabo de Tarzan. Acácio meteu-lhe o parabellum no nariz e disse-lhe que estourava-lhe os miolos... saiu rindo.
             Todos gostam de Joaquim, rapaz novo, dezoito anos. Educado, respeitador, é sim siô pra cá... é sim, siô pra lá, muito obediente. Tem namorada na cidade. Quer juntar um dinheiro para casarem, não participa do jogo de pif - paf, economiza cada tostão.  É o melhor atirador de todos. Joaquim não sabe ler nem escrever, Acácio também não, mas diz que o filho vai estudar, vai ser doutor, se não for, um neto ou uma neta será.
            O outro do grupo é Crescêncio, negro enorme, forte feito um touro, negro dos lábios finos, mas com um nariz achatado do tamanho de um jerimum. Feio que só a peste, com uma cicatriz que vai do lóbulo da orelha direita até ao queixo. Na venda de Lurdinha, um caixeiro viajante disse que foi uma mulher, na zona de Uberaba, que fez a cicatriz.  Crescêncio comeu a mulher e disse que não ia pagar.  Não se sabe de onde que surgiu uma navalha com um elástico na mão da rapariga, ela lançou a navalha para cortar-lhe a garganta. Ele conseguiu desviar, mas não o suficiente. Deu-lhe um soco, no meio da cara, verdadeiro coice de mula e ela caiu morta com a face afundada.  Fugiu, amasiou-se com uma velha que cuidou dele até ficar bom. Não se sabia mais nada dele, e nem o que aconteceu com a velha.
              Agora o barulho não é de animal, seu ouvido treinado consegue distinguir o pisado de gente do de animal. Tarzan ergue-se, as orelhas em pé. Ele também pressentiu a movimentação. Acácio vai retrocedendo para o rancho, segurando Tarzan pela coleira, não quer que ele rosne ou dê um latido.  Estava certo quanto ao seu pressentimento. Tinha chegado a hora, não sentia medo, não tinha medo de nada. Só um dia sentiu medo. Foi numa ocasião que sonhou que o filho estava muito doente. Naquela ocasião levantou-se de madrugada, calçou a bota, pegou o revólver, chamou Solano e disse para ele tomar conta do pessoal porque ia para a cidade. Ao chegar numa encruzilhada viu um vulto esconder-se atrás de uma árvore. Pensou numa tocaia, tirou o revólver e gritou: -- saia daí que já o vi.
              A pessoa saiu gritando: -- seu Acácio, não atire, é Expedito, vim atrás do senhor e graças a Deus o encontro aqui, porque não sabia que caminho seguir mais.
              --- O que vem fazer aqui?
              --- Sua mulher, dona Flora, pediu para vir avisá-lo que seu filho está muito mal, precisa levá-lo para outra cidade.
                Respondeu: - Isto eu já sabia.
               --- Sabia como?
               --- Sabia, sabia, vamos logo senão perdemos a jardineira.
              Quando os médicos os chamaram na sala e disseram: -  Voltem para sua cidade, levem o menino para morrer em casa porque não podemos fazer mais nada, ele sentiu medo, muito medo, as pernas amoleceram, as mãos começaram a tremer.  Ficou mudo, não sabia o que dizer... o que fazer... No trem, olhava fixo para o nada, seus olhos estavam secos, o choro da mulher estava irritando-o. Não sabia rezar, no seu modo grosseiro pediu a Deus que salvasse o menino.  Foi Deus que colocou seu Cassiano no seu caminho. Com três ramos de arruda o bom velhinho tirou o catarro do peito do menino e mandou a febre para o inferno.
     Entrou no rancho, acordou os homens, em silêncio.
                --- Os grileiros estão ai, queriam nos pegar dormindo, vamos tomar posição e fazer-lhes uma surpresa.
                Ribeiro olhou por uma fresta e falou, rindo: - São nove ou dez, mas burros, porque estão vindo todos pela frente.
                Crescêncio falou: - Melhor assim, é mais fácil para acertar, nem precisa fazer pontaria.
                Os grileiros se aproximavam, certos que pegariam todos desprevenidos. Um deles trazia uma tocha acesa, provavelmente iriam colocar fogo no teto e esperar que saíssem um por um pela porta, para fugirem do fogo.
               Acácio olhou e falou: - Filho de uma égua, olha quem os está chefiando. É o zóio torto.  Vejam, aquele que até pagou uma pinga pra nós no boteco da Lurdinha. Passou a dar as ordens:
          -- Joaquim, o cabra da tocha é seu. Solano pega o primeiro da esquerda e Crescêncio o primeiro da direita, eu acerto o zarolho e Ribeiro atire nos do meio.
                Mané Vitor acordou, esbaforido, assustado. --- O que está acontecendo? O que foi?
                Alguém falou: -  Os homens chegaram, acorda cabra.
                 Mané Vitor começou a gritar: - Tô com dor de barriga, tô com dor de barriga. E queria plantar bananeira no meio do barraco.
                Acácio falou para Joaquim escolher a hora que devia atirar, ele daria o primeiro tiro, depois os outros iriam atirar.
                O tirombaço de Joaquim pegou no peito do cabra, que rodopiou e caiu de lado com a tocha acessa em cima.
                 Todos começaram a atirar. Foi um tiroteio que até Lurdinha, que morava a cinco léguas de distância, acordou com o barulho.
                 Solano gritou: - As balas estão acabando, não vou morrer aqui dentro, não. Vou lambê-los com minha faca. O paraguaio abriu a porta e pulou para detrás dos tocos de coqueiro, pulava feito macaco de um para o outro, com uma faca na mão e o revólver na outra. Acácio também saiu, o parabellum numa mão e o punhal na outra. Mas foi Crescêncio que fez os homens correrem. Quando viram aquele negro enorme, correr para cima deles, de peito aberto, atirando feito um louco e dizendo: -  Tenho o corpo fechado, Padim Padre Cícero me benzeu.... eles debandaram.
                O cabra da tocha ficou, o zarolho também e Solano também cumpriu sua missão, deu um tiro de misericórdia no cabra que ainda agonizava.
                O barulho do tiroteio deu lugar a um silêncio mortal, os pássaros estavam quietos, os besouros não zumbiam, uma ou outra folha das árvores caia fazendo acrobacias. A fumaça ainda permanecia no ar. Os homens se olhavam, só Ribeiro sorria. 
                No barraco, o silêncio era quebrado pelo choramingo de Mané Vitor, com a bunda  para cima, todo cagado.

                 Pseudônimo:- James Dean                             
          Nota: Este conto teve Menção honrosa no Concurso de Contos Cidade de Araçatuba, e foi publicado  em Contos Selecionados 2012, pela Secretaria Municipal da Cultura de Araçatuba.                        

Literatura – Carlos Drummond de Andrade
"Vai, Carlos, ser gauche na vida!"

 
Quando eu nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida.

      Gauche (lê-se goxi) em francês significa esquerdo, como “rive gauche” significa o lado esquerdo, a margem esquerda...
“O poema de sete faces” de Carlos Drummond de Andrade popularizou esse termo gauche entre nós.
O que ele pretendia passar para seus leitores?
Ora, sabemos que Drummond era um homem tímido, reservado, meio avesso às coisas do mundo, cheio de indagações sem respostas.
E por ter vivido numa época em que todos deviam seguir um modelo pré-estabelecido pela Moral, pela Religião, pela Polícia, pelo Estado, ele deve ter sofrido muito, justamente por ser um indivíduo gauche, meio fechado, contrário aos costumes e aos sentimentos de então.
Daí, o desejo confesso no verso: “Vai, Carlos, ser gauche na vida!”
Esse “gauche” soa como livre, independente, feliz, solto como um passarinho. Acho que era o seu mais profundo desejo... Comportar-se no mundo como gauche que era de fato, e não como os outros mandavam.
       Hoje, são poucas as pessoas que conseguem ser gauches, oprimidas que são com regras religiosas, familiares, de escola, de grupos de trabalho, de amigos do bairro, do quarteirão, do face-book... de associações. E sem contar com as regras determinadas pela novela das 21 horas, pelo Jornal Nacional, pelo big brother, pelas lojas da moda, pelos cabeleireiros mais visitados...
         Detesto quando as emissoras de tevê descobrem um talento em qualquer área, e a título de ajudar o cidadão, acabam transformando-o num pavão, maquiando, vestindo-o, tirando toda a sua naturalidade e impondo posturas que não são próprias dele. E o estrago que fazem com crianças... é abominável.
E assim, o ser humano vai perdendo a naturalidade, transformando-se num robozinho sem graça, como aquelas famosas atrizes da tevê que fazem plástica e ficam todas com a mesma cara, a mesma boca, os mesmos olhos e o mesmo nariz repuxado... perdendo as características mais pessoais.
Essa característica gauche  de Drummond fica revelada também no poema “No meio do caminho”:

No meio do caminho tinha uma pedra.
Tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra.
No meio do caminho tinha uma pedra.

É a insegurança natural de um homem diante dos obstáculos, que considera irremovíveis. A falta de confiança, a timidez, o medo do mundo...
Visualizo o homem se encolhendo diante dos problemas. Saltasse a pedra, chutasse, a contornasse, se não tinha força para removê-la. Mas, não ficasse só olhando a pedra e repetindo o refrão havia uma pedra no caminho, no caminho havia uma pedra; pois isso em nada ajudaria a retirá-la...
A tristeza está presente nos poemas de Drummond.
Tristeza de um homem não realizado, reduzido à melancolia de não ter sido o que queria ser. Isso foi claramente revelado em “E agora, José?”

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
E agora, José?
E agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, que protesta?
E agora, José?

O ser humano realmente é um grande enigma.
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta completo, deixou uma antologia poética incomparável, foi premiado, festejado por todos os círculos literários, amado por seus leitores, conhecido no Brasil e no mundo...
Mas não era feliz.
Há uma tristeza infinita em seus poemas. Poemas escritos por um homem reservado, triste e solitário.  Nos seus 85 anos de vida, de 1902 a 1987, viu o mundo sendo destruído por duas guerras, e viveu tempos duros de costumes rígidos, em que tudo era proibido e condenável. Por instância da mãe formou-se em Farmácia, para nunca exercer tal profissão. Trabalhou em repartições públicas, mas o que gostava de fazer mesmo era escrever. Ficou dividido entre aspirações comunistas e o serviço no Ministério da Educação  durante a Ditadura de Vargas... Sempre a incerteza, a indefinição.
Todo o seu repertório demonstra uma insatisfação, uma falta de entusiasmo pela vida. E não deve ter sido feliz no casamento, porque no fim da vida foi revelado que mantivera uma relação amorosa com outra mulher durante longos anos. E continuara casado.
Aquele homem que produziu tantos poemas lindos carregava uma dor, uma tristeza e um desalento inenarráveis.
Será porque não o deixaram ser gauche na vida?

Mirandópolis, outubro de 2012.
kimieoku in “cronicasdekimie.blogspot.com”


sexta-feira, 2 de novembro de 2012




A chuva choveu!

Ultimamente a temperatura tem subido tanto, que parecia que qualquer hora começaria um incêndio no próprio asfalto da rua.
O calor estava insuportável, que, a gente fugia para as páginas do facebook, pra ver se via algo refrescante, mas eram só queixas do calor, da falta de chuva, do sol ardente, da temperatura nas alturas, que nada nos fazia esquecer esse incômodo que é o corpo fervendo.
De manhã ao se levantar, todo mundo olhava o céu à procura de alguma abençoada nuvem, mas o sol estava lá firme e forte, todo risonho, mandando temperaturas que variavam de 40 graus centígrados pra cima. E isso na sombra, que lá fora acho que os termômetros estourariam, derramando o mercúrio.
Saindo para buscar umas frutas para aliviar o calor, onde quer que fosse, todo mundo já transpirando às nove da manhã e reclamando do calor. Nunca constatei tanta unanimidade em desejar a chuva. Todos pedindo chuva ao Pedrão lá em cima.
 Mas, nada.
Quando passava das quinze horas, formava-se um barrado lá pros lados do Sul e do Oeste, escurecendo todo o céu, e todos ficavam esperançosos de que descesse uma boa chuveirada para aliviar o ar. Escurecia, ventava forte, trazendo terra e folhas secas, sujando o interior das casas, que ninguém conseguia fechar por causa do calor. E de repente, sem mais nem menos, vinha um vento fresco, provando que havia chovido nas redondezas.
E aqui, nada. Aí, alguém dizia: “É falta de oração!” “É o Padre Epifânio, cobrando a injustiça que fizeram com ele, tomando-lhe a Igreja que ele construiu!”
E o povo suado, azedo, irritado, porque nada irrita mais do que andar ao sol quente, trabalhando pesado com a camisa encharcada de suor. Todo mundo se sente sujo, malcheiroso, com desodorante que não dá conta do recado, por melhor e mais caro que seja...
E à noite para dormir, ventilador jogando ar quente, condicionador não dando conta de refrescar o cubículo do quarto, porque as pessoas que lá dormiam pareciam tochas acesas de tão ferventes...
Noites mal dormidas, dias pesados de calor intenso, trabalho feito com mau humor, sempre resmungando, comendo mal, porque o bucho estava sempre lotado de água... quem agüenta isso?
E os dias passavam. O sol sempre firme e forte no seu posto, como se tivesse o propósito de cozinhar a carreira de formiguinhas que somos nós...
E a previsão meteorológica anunciando chuva pra todo lado, menos aqui. Aliás, preconizava apenas: “Pancadas esparsas de chuva na região”. Mas nada acontecia, porque acho que a nuvem esparsa passava correndo pela região e não dava tempo de cair uma gota de água.
E essa enganação do Instituto de Meteorologia já durou uns dois meses. E o povo se consolando e dizendo uns pros outros: “No Norte está pior, o gado morrendo por falta de água e de pasto. E morrendo de batelada!” “E os Estados Unidos com o furacão devastando tudo?”
Mas nada disso consola ninguém, que desgraça dos outros não serve de consolo em momento algum. Cada um quer é resolver o seu problema.
E o problema era o calor insuportável e a falta de chuva.
E hoje, choveu!
E caiu uma chuva mansa, fresca, sem ventania, sem estragos. Foi pouca, mas abençoada.
Que conforto pensar que Deus se lembrou de nós. Que o Padre Epifânio nos perdoou e intercedeu lá com o Manda Chuva.
É uma sensação boa constatar que a natureza tarda, mas não falha. A chuva chovendo era um maná do céu para todos. Acho que nunca, tanta gente ficou tão feliz com a chuva de hoje.
Depois da chuva, o quintal ficou sujo de folhas e de pétalas de flores, mas não importa. As plantas foram regadas por Deus através de um aspersor celestial que revitaliza tudo. Até o ar ficou diferente, perfumado, sem poeira, fumaça ou fuligem.
E é uma sensação boa ver a água escorrendo do telhado em tiras pesadas e correndo no chão curando a quentura da Terra.
Esta noite, todo mundo dormirá melhor e descansará feliz. Ventiladores, condicionadores e umidificadores descansarão hoje. Amanhã será um novo dia. Todos estarão bem humorados, o serviço será realizado com mais calma e gentileza.
E vamos continuar na torcida que Deus nos mande mais chuva, porque a chuvarada de hoje foi só um aperitivo.

Mirandópolis, 1º de novembro de 2012.
Kimie oku in “cronicasdekimie.blogspot.com”