segunda-feira, 9 de março de 2015

    Viver, a grande arte
    A cada dia que passa, ouço anúncios de falecimentos de pessoas conhecidas e amigas. Às vezes, a gente se assusta, porque tem morrido muita gente jovem, e alguns foram mortos...
Aqui em Mirandópolis virou moda matar gente. Como matam jovens! Sempre envolvidos com drogas. Penso que a maioria não aproveitou nada da vida, se perdeu para essas porcarias, não realizou um sonho sequer, não viveu confortavelmente e por causa de alguns reais, suas vidas foram interrompidas. É lamentável, porque poderiam ter sido felizes, se não tivessem cruzado o caminho das drogas. Poderiam ter tido uma vida organizada, e como cidadãos honrados, cuidado de  sua prole com um trabalho digno. Mas, alguém lhes ofereceu algo que  dá uma sensação incrível... que leva à morte.
        O que é a vida?
        É uma dádiva recebida do Criador, não sei se por mérito ou castigo... Porque conheço tanta gente que leva ou levou uma vida de penúria, sem um gosto sequer por ter passado nessa terra. A maioria porém, leva uma vida mais ou menos tranquila, sem maiores aborrecimentos.
        Hoje é muito difícil viver. Os costumes são outros.  Não há mais distinção entre o que é correto e o que não é. As pessoas agem conforme o humor do dia, não respeitam os outros e gritam seus direitos, como se fossem reis para serem bem servidos. A maioria arroga direitos e se esquece dos deveres. E os exemplos vão criando uma leva de criaturas desrespeitosas, que se apossam das coisas alheias, como se fosse uma coisa normal... Que não sabem o valor e o custo das coisas, que a gente conseguiu com tanto esforço e economia...

Todos os dias a verdade podre da sociedade é revelada: Funcionários que aparentam ser cidadãos honestos falham no atendimento ao público, amealhando os rendimentos e escapando do Posto de trabalho, para praticar serviços particulares. Gente que finge trabalhar. Pode uma coisa dessas? E falam de Brasília... A podridão está tanto lá como cá, diante de nossos olhos...
        Quem foi educado na retidão, que aprendeu a cumprir seus deveres jamais fará uma maracutaia dessas.
        Viver significa trabalhar, não há outra alternativa. Quem pensa que a vida pode ser levada na moleza e no desfrute está totalmente enganado. Se observarmos as criaturas menores que andam pelo chão, percebemos que todas elas estão pelejando todos os dias, para levar comida à prole. As formigas, os passarinhos, as borboletas, os gatos, os cães não param. Estão sempre à procura de comida e mais comida. Cada um cumprindo sua missão.
        Mas, o homem que se julga tão esperto pensa que, pode dar um drible e fazer de conta que está trabalhando. Isso acontece quando ele consegue uma função ou cargo público. É muito estranho. O indivíduo estuda, presta concursos e quando é lotado num cargo de relevância, com bons rendimentos, passa a querer usufruir só das benesses e se esquece de seus deveres. E acha que ninguém percebe que está enganando... Mas, um comentário aqui, outro lá, e mais lá vai se acumulando e, a ficha suja do indivíduo de repente fica pública.
 Sei de médicos que atendem no Hospital Público e, cobram descaradamente do paciente, pelos serviços já pagos pelo Estado. Que cobram pelas receitas de remédios, que ele é obrigado a fornecer ao dar alta ao paciente. E o paciente, com medo de precisar novamente desse profissional, acaba pagando e se cala mesmo com o coração cheio de revolta.
Estive pensando, se nas Escolas os professores fizessem o mesmo? Cobrar pelas aulas de Escolas públicas? Sair durante o expediente para cuidar de interesses particulares, e deixar os alunos ao Deus dará? Seria um caos. As mães gritariam, os meninos poriam fogo na escola, os demais funcionários denunciariam os professores irresponsáveis, que seriam demitidos a bem do serviço público. Felizmente, isso não acontece, porque professores são forjados na têmpera do dever e da responsabilidade, e eles devem primar pelo exemplo para serem aceitos como aqueles que ensinam, que orientam. A classe de professores é a menos valorizada, mas os mestres têm um brio e um orgulho que os diferencia de muitos outros profissionais. Por isso, são Professores e merecem respeito.
Já está mais que provado que, trambiques, maracutaias e desserviços acabam sempre se tornando públicas. Mesmo assim, ainda há gente que, pensa que a sociedade é burra e cega. Mal sabem eles que, a boca é o alto falante que denuncia aos quatro ventos, tanto os atos heroicos dos cidadãos, assim como os conluios, as safadezas e os deslizes nojentos de certos indivíduos.
Na cidade há profissionais na área da Saúde, da Educação e outras que primam pelos bons serviços que prestam ano após ano, com dedicação, com zelo, com gentileza, com competência...  Mas, alguns novos que estão aparecendo desconhecem a ética e o profissionalismo. Só querem Money, Money, Money. Desventurados prestadores de serviços, não sabem que o nome e a honra são mais, mas muito mais valiosos que o dim dim?
Há um ditado muito sábio que diz “Deus às vezes castiga o homem, tornando-o rico” Quando o dinheiro passa a ser a meta do cidadão, ele estará perdido para sempre. Irá querer mais e mais e sua ganância não terá fim. Deixará de viver, de usufruir a companhia da família, os momentos de paz e alegria, para correr atrás da mina que forneça mais ouro. E quando der fé, já a vida terá passado, estará velho e não poderá usufruir tudo que acumulou... Desventurado!
Então viver tem que ser um ato simples.
Trabalhar como profissionais competentes, e servir aos que precisam de assistência, para resolver suas dúvidas e seus problemas. É para isso que as atividades estão bem diversificadas. Cada um se especializando numa área para bem servir ao público. É assim que a sociedade funciona. É para isso que existem Escolas especializadas, e é para isso que os jovens prestam vestibulares, entram em faculdades e se especializam numa determinada área. Para trabalhar. E não para dizer que tem uma formação disso ou daquilo e, pleitear cargos importantes para dormir em berço esplêndido.
A vida é para ser vivida apenas uma vez. Somente uma vez. E tem gente que desperdiça essa oportunidade só cometendo enganos. Como o brasileiro traficante de drogas, que foi executado na Indonésia. E outro que está também no corredor da morte pela mesma razão.
O indivíduo nasce como um bebê inocente, que enche de esperanças aos genitores, recebe educação, é preparado para enfrentar a vida sozinho... E aí, começa a praticar pequenos deslizes, que fatalmente o levarão à perdição total. E acaba fuzilado... a bem da sociedade. Isso é muito devastador.
E tudo isso por que?
Por ganância pura e simples.
Ganância de dinheiro, de bens materiais, de poder para dominar os que o cercam...
Quando morre, nada disso o salvará, nem irá prolongar sua vida... e nem evitará a morte!
Para que viveu, então?
Viver bem é uma grande Arte!

Mirandópolis, fevereiro de 2015.
kimie oku in
http://cronicasdekimie.blogspot. Com.br/

      


segunda-feira, 2 de março de 2015

             
                  Cirandando outra vez...

        
        Sexta-feira passada aconteceu mais uma cirandada. Foi na Chácara do seu Albertino Prando.
O dia estava muito quente e achei que não ia ser legal. Muitas pessoas não puderam ir, por motivos vários, principalmente por problemas de saúde, visita a hospitais... É que a maioria é gente idosa e requer cuidados constantes.
Mesmo assim, foi possível reunir uma boa turma que conversou, riu, cantou e dançou bastante.
Seu Albertino e o Agnaldo se encarregaram de animar a festa, com o acordeom e o pandeiro. E os cantores de plantão soltaram a voz. Como apresentação especial, a Vina cantou Chão de Estrelas, que sempre encanta a todos.
Seu Orlandinho declamou seus poemas e a Vina leu um lindo texto sobre as relações em família, para reflexão.

E o Professor Gabriel relatou o golpe do “Oi, Tia!” que está ocorrendo com frequência na cidade. Consiste num telefonema, que algum bandido liga dizendo “Oi, tia!” A pessoa que atende fica confusa e pergunta : “É você, fulano?”  (nome de algum sobrinho).  E aí, o bandido confirma, e conta uma história falsa de um acidente, fingindo ser o tal sobrinho. E pede para depositar certo valor numa determinada conta (do bandido, é claro!). Gabriel disse que alguém havia caído nesse conto, e alertou o pessoal para não dizer nome nenhum. E exigir que o interlocutor se identifique, ou cortar a ligação para não cair no conto.
 A Kimie relatou a história de outro cidadão que, viu um pacote de jornal caído no chão, com uma cédula de vinte reais aparecendo... Ele catou o pacote e foi entregar a dois indivíduos, que agradeceram dizendo que ali havia sessenta mil reais. E aí contaram uma história mirabolante, e conseguiram tomar todo o décimo terceiro do cidadão, que havia retirado do Banco. E no pacote de jornal que lhe deram, só havia a nota de vinte reais...
Os idosos são pessoas muito ingênuas e caem nesses contos, facilmente. São muito crédulas, por isso os bandidos ficam de olho neles. E é muito decepcionante constatar que, perdem todo o dinheiro da aposentadoria por causa de sua inocência... E aí, passam apertados o mês todo sem o dinheiro, que é a sua aposentadoria...
Na medida do possível, nós da Ciranda procuramos alertar os amigos sobres essas tristes ocorrências, prevenindo-os para não serem mais outras vítimas...
E com essas conversas e outros contos, a tarde passou e todos voltaram contentes para casa.
Até o próximo encontro, cirandeiros!
Mirandópolis, março de 2015.
kimie oku in



                                Cultivar a terra
     Quando era jovem e tinha que ajudar na roça a derriçar café, apanhar algodão, carpir os matos, achava que era uma tortura ... trabalhar ao sol, transpirando o tempo todo e não vendo nada diferente, era muito, mas muito monótono e desgastante.
   E vivia sonhando com o dia, em que me libertasse desse desconforto da vida na roça, para viver uma vida mais leve, mais agradável.
      E os estudos me levaram a ser professora. Uma professorinha como tantas outras, para ensinar o be a bá às crianças. E isso também me levou para o mato, para as escolinhas rurais. Sim, porque os professores recém formados começavam na profissão, dando aulas nas escolas isoladas, que ficavam distantes dez a cinquenta quilômetros da cidade. E tinham que morar lá, porque não havia meios de transporte. E viver a vida do campo junto com os alunos...
       Com o acúmulo de pontos e a efetivação no cargo por concurso, acabei vindo morar na cidade, onde era a minha sede de serviço. Isso só depois de anos na roça... E aqui acabei me aposentando, como gente que mora na cidade. Cidade pequena mas cidade. 
      E após anos de aposentada, senti sem querer o apelo da terra, que me convidava a plantar... Plantar flores, árvores frutíferas, ervas medicinais, legumes e verduras. Talvez como dizem alguns amigos, esse gosto pela terra venha de minha origem, pois japonês gosta mesmo de cultivar a terra...
A propósito, li uma linda biografia de um jovem da Província de Iwate, Japão, que se dedicou a cultivar a terra com todo empenho, porque os conterrâneos passavam muita fome no Inverno... Kenji Miyazawa era de família rica, mas tinha imensa compaixão dos coleguinhas de escola, que não levavam marmita quando acabava a comida da despensa... E se condoía com o sofrimento de todos os lavradores da região, que era uma das mais pobres do Japão. Em Iwate ken, chovia sem parar e nevava o Inverno todo, impossibilitando o arroz de cachear. Vendo todo esse sofrimento, ele resolveu ser Técnico Agrícola, para descobrir meios de melhorar a colheita, e diminuir a fome. Saiu do conforto de casa, onde nada faltava, e foi morar num casebre para ficar junto dos agricultores, para orientá-los no preparo da terra, na adubação, na escolha das sementes... Tornou-se um guia de todos que cultivavam a terra. Enfrentou nevascas, e tempestades, indo socorrer os mais desamparados. E com isso, ficou doente dos pulmões e acabou perdendo a vida, com apenas 38 anos de idade... Nesses trinta e oito anos, trabalhou com desespero, dando aulas na Escola Agrícola, e fazendo reuniões com os trabalhadores rurais, para orientá-los em técnicas de melhor produção. Além disso, foi Poeta também. Seus poemas procuram sempre animar o trabalhador para não desistir. O mais famoso deles é o que fala em não perder para a chuva, não perder para a neve, não perder para o vento, não perder para o sol inclemente... que todas as crianças do Curso Primário do Japão conhecem de cor.
Quando li essa história verdadeira, fiquei bastante emocionada. Parecia que estava lendo a história de Madre Teresa da roça. Ele só se dedicou a defender os lavradores, viveu só, não se casou e nas poucas horas vagas, escreveu centenas de poemas para animar os trabalhadores.
E tudo isso me levou a cultivar a terra também. Se bem que, conto sempre com a inestimável ajuda do meu companheiro, que faz a parte mais pesada. E assim, já fizemos milhares de mudas de árvores madeira de lei como cabreúva, aroeira, cedro, pau brasil, jacarandá mimoso, ipês de todas as cores, seringueira e outras mais, que andamos distribuindo para quem as quisesse plantar. Tenho amigos que as têm formado em suas chácaras, florindo e dando boas sombras.
Mas, agora, estamos na horta, cultivando legumes para o consumo. São as beterrabas, os quiabos, as abóboras, os espinafres, os brócolis, as cenouras, os tomatinhos, as berinjelas...
É fácil cultivar uma horta? Não, não é!  Requer muita dedicação e olho atento, para combater as pragas em forma de formigas, pulgões e lagartas... como as lagartas são vorazes! Elas devoram as folhas de um dia para o outro. E os pulgões são terríveis, quando atacam os brócolis, não há solução. Além disso, ainda temos o problema do sol quente demais que chega a sapecar as folhas como uma fogueira, e da chuva que nunca vem quando precisamos. E ultimamente, temos sentido muito a sua falta. Felizmente temos um poço, que nos fornece água boa em profusão.
E quando os dias estão quentes demais, os passarinhos vêm disputar o chuveirinho dos esguichos de água, com que molhamos os canteiros. Outros vêm se banhar nas poças, que se formam no chão. De qualquer forma, acho que nossas incursões na horta, são providenciais também para outros seres vivos.
         Por que será que a gente se põe a cutucar a terra, se é tão fácil comprar os legumes na feira e na mercearia? Eu mesma não sei explicar. É um gosto, um prazer que a gente sente ao preparar o solo, semear e ver os brotinhos despontando da terra fofa, crescendo dia a dia e se frutificando. E a alegria da colheita? Nada se compara a esse prazer, pois é fruto do próprio esforço e dedicação.
     E agora, estamos colhendo tantas berinjelas, que preciso dividir com os vizinhos e outros agregados...
         Tenho um amigo, o Jorge Chain que sempre diz: “Reforma Agrária no Brasil só dará certo se, o Governo der um japonês para cada família que receber a terra.”
         Às vezes, acho que ele tem razão.
         E vamos plantar, que o Brasil é imenso e a fome do mundo é maior ainda!
        
         Mirandópolis, fevereiro de 2015.
         kimie oku in


        Legenda de fotos:
   
       1.  Pé de mexerica, que morreu com a última seca
       2.  Pés de pau brasil, plantadas  pelo Nori
       3.  Legumes que cultivamos em nossa horta




terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

                Ave Maria cheia de graça
   
   Depois que a gente passa por muitas dificuldades na vida, mesmo que a fé seja pouca, começa a orar para Deus ajudar todos os dias.
   Como sou uma simples mortal, também passei a rezar sempre, para Deus abrir os caminhos de meus filhos, e abençoar suas ações.
       Quando era mais jovem, vivia atropelada e só lembrava de Deus nas horas de agonia, de aflição. Hoje não. Desde que desperto, penso no Criador e agradeço por ainda estar viva... E com isso, relembrei as orações aprendidas na adolescência e passei a desfiá-las. Porque nada consola mais que uma oração.
       Nos momentos de grande angústia, de incerteza, de desespero, a única coisa que sei fazer é orar, Muitas vezes nem rezo as orações de praxe, falo diretamente com Deus, pedindo a sua orientação. Às vezes rezo baixinho, murmurando as palavras, outras peço em voz alta mesmo se estou sozinha... E Deus sempre ouve. Demora, mas ouve. Também, quantos milhões de pedidos deve ouvir a todo instante, e deve ser difícil atender a todos de imediato. E o estranho é que a gente sempre tem o que pedir. É hoje, agora, daqui a pouco, à noite, amanhã, depois... Sempre há um pedido novo... Porque nós somos insuficientes e incapazes, para solucionar tudo que a vida nos apresenta todos os dias...
       Acho que a vida seria impossível sem a oração. Como acalmar os anseios do coração, se não houvesse esse meio de diálogo com Deus?    
       A oração universal que o próprio Pai ensinou à humanidade é o “Pai nosso, que estais nos céus, Santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade assim na Terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém.”
       Analisando o conteúdo dessa oração, percebe-se claramente que Deus deve ter ensinado a primeira parte. A segunda parte que é uma súplica, deve ter sido acrescentada pelos humanos... Porque é um pedido de sobrevivência e um pedido de perdão...
       Essa oração foi aceita por todas as religiões e conforta os seguidores de todos os credos, sem tirar o mérito de Igreja alguma.  Eu me lembro que mamãe a rezava, e ela era da Religião Messiânica... É uma oração que liga as pessoas numa mesma saudação e num mesmo pedido de perdão, por isso não provoca conflitos.
       Mas, a oração que gosto de desfiar sempre é a Ave Maria. Ensina a religião que, essa oração foi uma saudação do Anjo Gabriel à Virgem Maria anunciando a chegada do Filho de Deus através de Maria. Também tem o acréscimo feito pelos humanos, na segunda parte.  As palavras do Anjo Gabriel seriam essas: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, Bendita sois Vós entre as mulheres,Bendito é o Fruto de Vosso ventre, Jesus.”  E a segunda parte creio que foi feita pelos homens, porque também contém um pedido: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.”  O Anjo não teria dito essas palavras, suponho, na minha limitada interpretação.
       Essa oração é tão bela que, artistas famosos de todas as épocas acabaram musicando-a. Existe a Ave Maria de Gounot, conhecida no mundo inteiro, que sempre emociona nos momentos de felicidade suprema, ou de infinita dor... Há a Ave Maria de Schubert que é tão doce e delicada... Cantadas por tenores e por sopranos famosos, não há como não se emocionar de ouvi-las...
       E parece que ela fica mais autêntica se cantada em latim, que era a língua oficial da Igreja de Roma: “Ave Maria, gratia plena. Dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus. Et benedictus fructus ventris , Jesus. Ave Maria, Mater Dei, ora pro nobis pecatoribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amém.“
      Cantada por Luciano Pavarotti, por Plácido Domingo, por Andrea Bocelli, por Charles Aznavour, por Celine Dion, por Montserrat Caballe, por  Maria Callas e até por Roberto Carlos fica belíssima .    D izem que uma oração cantada vale por duas rezas. Acho que é porque ela emociona e toca os corações de todos que rezam e de todos que ouvem.
       A oração tem uma força que nada se lhe compara.
       Em certo velório de um amigo meu, cada pessoa da família estava chorando em diferentes lugares da sala, onde o falecido estava sendo velado. Era muito silencioso, e só se ouviam os gemidos e soluços dos familiares... Parecia não haver consolo para aquela dor individualizada... Nisso, chegou um amigo e resolveu rezar um terço. Começou a rezar timidamente... E os familiares foram chegando perto, e se abraçaram formando um grande círculo em volta do finado. E todos repetiam as orações, cada vez mais firmemente e os soluços foram se apagando. Quando as orações chegaram ao fim, toda a família estava abraçada e fortalecida, e as lágrimas tinham se apagado... Foi a força da oração, que sempre consola e conforta.
       Mas, voltando à Ave Maria. Ave significa Salve! Viva!  É uma saudação delicada de um Anjo para uma Santa. Então, Ave Maria seria o mesmo que dizer Salve, Viva Maria, Tu és bendita entre as mulheres porque serás a Mãe do Salvador. Linda mensagem, que só Ela teve o privilégio de receber.
       E por que cheia de Graça? Porque era pura, inocente e simples e fora escolhida por esses méritos. Também privilégio que só a Ela coube.
      E por que o Senhor é convosco? Porque Deus a abençoara para ocupar essa posição tão sagrada, entre todas as mulheres do mundo.
       E Bendito é o Fruto do Vosso ventre, Jesus. Bendito, porque benzido, bem amado, bem querido Filho de Deus.
       A segunda parte é uma súplica da criatura à Mãe do Criador, mostrando a fraqueza humana de pecadores que precisam de orações sempre e na hora da morte também.
       Gosto desta oração por ser muito bela. Nela existem palavras doces e suaves ditas com o máximo de reverência: Ave Maria cheia de graça. O Senhor está em Vós. És bendita entre todas as mulheres. Bendito é o Fruto de Vosso Ventre.
       E nunca é demais repetir essa oração para a mais pura das mulheres, para que interceda junto de Deus por todos nós.
       Então, vamos rezar outra vez?
       Ave Maria, cheia de graça...
        Mirandópolis, fevereiro de 2015.
       kimie oku in




quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

                                 No fim do arco-íris

    De acordo com uma lenda japonesa, nos dias em que há sol e chuva, no meio da floresta ocorre o casamento das raposas. Elas se vestem como humanos, e realizam a cerimônia com pompa e gala, como convém a um enlace matrimonial. Entretanto, os humanos não devem assistir a essa festa, que é das raposas, bichos ladinos e cheios de artimanhas...
Certo garoto japonês ouviu de sua tutora que, nunca se deve adentrar na floresta em dias de sol e chuva, porque as raposas estariam se casando e era proibido vê-las...  Bastou essa advertência, para despertar a curiosidade do menino.
        Num certo dia bem ensolarado, de repente começou a chover... E o garoto correu para a floresta, para conferir a história da ama. E realmente, ocorria o fato. Raposas vestidas com luxo e andando como humanos sobre duas patas desfilavam no meio da mata, onde chovia mansamente... Havia um acompanhamento musical, com flautas e tambores que marcavam o compasso dos noivos e convidados. O menino intruso, pasmo de ver a beleza da cena, ficou espiando atrás de uma árvore. Mas, o cortejo vinha em sua direção, e ele com medo resolveu fugir... Correu, correu e chegou em casa sem graça, por ter feito algo que lhe fora proibido... O portão da casa estava fechado, e ele chamou pela tutora várias vezes para abri-lo. E ela veio furiosa dizendo que, as raposas estavam muito iradas, por causa da sua intromissão na cerimônia de casamento. E lhe entregou um punhal para praticar o “haraquiri” ou suicídio cortando a barriga...  O menino sem outra alternativa, foi ao local da cerimônia de casamento e, pedindo perdão às raposas praticou o haraquiri... E no mesmo instante, ele se viu transportado para um vale todo florido, emoldurado por um belo arco-íris... Mundo de sonhos...

        Esta é uma lenda japonesa que sempre me encantou, e tive a oportunidade de assistir no filme Sonhos de Akira Kurosawa. Belíssimo.
 Existem mais lendas tão bonitas de outros países, como da Irlanda, cujos duendes vêm periodicamente, buscar as moedas que os aldeões colocam num sapato velho na janela. Esses duendes ouLeprechauns colecionam as moedas num balde, que enterram no fim do arco-íris. Daí , a lenda do pote de ouro no fim do arco-íris, que todo mundo já ouviu falar...
        O arco-íris é um dos fenômenos mais belos da natureza, que sempre me deixou encucada. Há uma explicação científica para sua formação, mas vê-lo surgir de repente num dia qualquer sempre me faz pensar... Como as sete cores vão parar lá no céu?  São palpáveis? Como é feita a graduação das cores, para uma não apagar a outra? Como é possível uma curvatura tão perfeita? E por que, quase sempre aparece um segundo arco, como se fosse a sombra do primeiro?  Perguntas sem respostas... Já li que, tem a ver com o reflexo da luz solar sobre as águas dos rios e mares... Mas, mesmo sendo uma explicação verdadeira, deixa a cabeça da gente cheia de indagações...
        E não há quem não se encante de vê-lo surgir de repente no céu. Muita gente diz que quando ele aparece, os desejos e sonhos das pessoas se realizarão... Quem dera fosse verdade! Cada um interpreta conforme suas aspirações...Já vi arco-íris se formando sobre quedas d’água, sobre cascatas... E fica mais bonito sobre a água branca que vai jorrando do alto. Está realmente comprovado que ele se forma junto às águas. Nunca ouvi falar de arco-íris em desertos... Também já disseram que as cores não existem de per si. Elas se manifestam com a claridade do sol. Se não houvesse a luz do sol, cores não existiriam... Seria um mundo muito triste sem cores...
        De qualquer forma há fatos nesse mundo que são difíceis de explicar. E como disse Shakespeare; “Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que supõe a nossa vã filosofia”
       

       
         Mirandópolis, fevereiro de 2015.
        kimie oku in

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

                                Música caipira

“Nestes versos tão singelos, minha bela, meu amor...
       Pra você quero contar o meu sofrer, a minha dor...”
Antigamente, por puro preconceito não gostava de música caipira. É que os peões ou camaradas do nosso sítio cantavam essas modas, e cantavam muito mal. Com voz fina e estridente. E ainda achava-a pobre, e cheia de erros de ortografia e de gramática. Era uma época cheia de preconceitos, e eu nunca havia pensado que poderia estar enganada, seguindo a corrente comum ou a moda, que rejeitava a música caipira.
    O tempo passou, e tudo mudou. A música caipira recebeu o cognome de “sertaneja”, que virou moda para todo mundo. E foi cantada e embalada nas festas de peão, de rodeio e outras barbáries que maltratam os animais para a diversão dos homens. E depois mais recentemente, virou “sertaneja universitária”, com a intenção sub reptícia, de lhe dar uma conotação cultural... Mas, a moda caipira pegou, pegou de vez. E os defensores de música caipira de verdade introduziram a expressão “música caipira de raiz”, querendo com isso resgatar a verdadeira música, como era nos primeiros tempos. Música mais simples que canta as belezas da natureza, a vida na roça e o trabalho no campo.
De qualquer forma, com a Ciranda e com as cantorias dos amigos, enfim descobri a beleza da música caipira. Ela pode ter erros gramaticais e de ortografia, mas a mensagem que passa é uma coisa linda, que não pode ser ignorada. Mesmo Adoniram Barbosa, poeta e sambista de São Paulo fez canções lindas escritas na linguagem coloquial do dia a dia, sem rebuscamentos e correções. Assim, ele cantava: “Arnesto nos convidou para um samba, ele mora no Brás/ Nóis fumo e não encontremo ninguém.../ Nos voltemo com uma baita de uma reiva...” E foi um tremendo sucesso. Todo mundo entendeu o seu recado.
Na música caipira tem muito disso, ou seja escreve-se a letra conforme o caboclo pronuncia as palavras, para dar autenticidade à história contada.
Recentemente, conheci “A mudança” de autoria de Caetano, Elba e Chico Amado. A dupla Chico Amado e Xodó é que canta entre outras coisas: “... catei um punhado de cinza e carvão/ lembranças que eu levo derradeiras/ da antiga fogueira do meu São João...” A dupla Gerval e Jovanini a tem cantado na Ciranda, e sempre os cirandeiros fazem um tour ao passado, ouvindo essa linda canção, que narra a história de mudança da roça para a cidade...
E de Lourenço e Lourival, também A mudança, sempre cantada com muita tristeza: “... Com certeza eu voltava pra lá/ e a primeira coisa que ia fazer/ Cair de joelhos e beijar o chão/ Arrancar a saudade do meu coração/ E de lá sair só quando eu morrer...”
E falando em passado e fazendas, nada mais belo que O Rancho fundo de Ary Barroso e Lamartine Babo: “No rancho fundo, bem pra lá do fim do mundo/ onde a dor e a saudade/ contam coisas da cidade... No rancho fundo de olhar triste e profundo/ um moreno canta as mágoas/ tendo os olhos rasos d’água...”
E vida na roça tinha carroças e cavalos... Cavalo preto de Anacleto Rosa Jr.: “... Tenho um cavalo preto por nome de Ventania/ Um laço de doze braças de couro de uma novilha/ Tenho um cachorro bragado que é pra minha companhia/ Sou um caboclo folgado, ai eu não tenho família...”
E o cidadão que perdeu a liberdade vai medindo o tempo, com o crescimento de um Ipê florido de José Fortuna e Paraíso: “... Meu ipê florido, junto a minha cela/ Hoje tem altura de minha janela/ Só há uma diferença entre nós agora/ Aqui dentro as noites não têm aurora/ Quanta claridade tem você lá fora! ... “
E do Pantanal mato-grossense tem a belíssima Chalana de Mário Zan: “...Oh! Chalana sem querer/ Tu aumentas minha dor/ Nessas águas tão serenas/ Vai levando meu amor...”
Sempre contando dramas vividos por caboclos por esse Brasil afora, a música caipira se esmerou no drama de Chico Mineiro de Tonico (da dupla Tonico e Tinoco) e Francisco Ribeiro: “... Larguei de comprar boiada/ Mataram meu companheiro/ Acabou-se o som da viola/ Acabou-se o Chico Mineiro...”
Mais dolorido que isso, porque o caboclo gosta de contar histórias muito tristes, é sem dúvida nenhuma, a história de O menino da porteira de Teddy Vieira e Luisinho: “... Lá pra banda de Ouro Fino levando gado selvagem/ Quando passo na porteira até vejo sua imagem/ O seu rangido tão triste mais parece uma mensagem/ Daquele rosto trigueiro desejando-me boa viagem...”
E assim, aprendi a amar a cultura de nosso caboclo, que canta a passagem do tempo, as mudanças no estilo de vida, as saudades de um passado que não volta mais, e as lembranças que alimentam nossa alma...
“... Nesta viola, canto e gemo de verdade/
 Cada toada representa uma saudade...”
Mas, vou ficando por aqui, porque há muito que contar e cantar, mas... “... É tarde, eu já vou indo... Preciso ir-me embora. Té manhã! Té manhã! Té manhãããããã....

       Mirandópolis, fevereiro de 2015.
 kimie oku in




sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

                 O calor dos passarinhos
   Venho observando já há algum tempo que, na cidade há muitos pardais. Há também muitas maitacas, rolinhas e pombas. Todo dia quando tomo meu café da manhã, tenho que repartir o pão com os pardais, que baixam no quintal, e gritam pedindo sua ração diária. O interessante é que eles não comem frutas. Já experimentei dar mamão, banana, maçã, melão, mas eles rejeitam, Só comem pão e arroz cozido e outras massas. Eu achava que todos os pássaros comiam frutas e sementes, mas os pardais não comem.
     Ultimamente, as gralhas também resolveram migrar para a cidade. Essas são as gralhas de campo, que têm o peito e a ponta da cauda brancos e o resto do corpo é azul. Eles constroem seus ninhos nos lugares altos dos prédios e torres. E fazem uma alarido com seus assobios prolongados como se fossem chamadas. As gralhas são bem ariscas, não chegam perto da gente. E elas são muito belas. É da família das gralhas azuis, que têm a fama de reflorestar o Estado do Paraná, com as sementes do pinheiro da Araucária. Quando eu era criança e morava perto de Tabajara em Lavínia, as gralhas azuis vinham muito ao quintal de casa para visitar galinheiros... Eu as achava belas, mas mamãe não gostava delas, porque rapinavam os preciosos ovos... Eram totalmente azuis, de um azul bem escuro. Comiam todos os ovos que achavam...
Lá no sítio, aparecem pássaros mui diversos. Os mais numerosos são as maitacas, barulhentas e escandalosas, que fazem seus ninhos no forro das casas, e comem toda a fiação da eletricidade... Mas, tem também em profusão os canários da terra e os tico-ticos, que cantam bonito nos galhos das laranjeiras, as pombas “fogo apagou”, os joões-de-barro e sua cantoria em cascata. As gralhas também estão morando lá, no alto das mangueiras.
 Quando jogo água nos canteiros da horta com o esguicho, aparecem beija -flores para tomar uma chuveirada no ar. Percebe-se que estão desesperados de calor e querem se refrescar. Gostaria de fotografá-los se banhando, mas nunca consigo, pois são muito ariscos. E aparecem outros pássaros, como sanhaços para banhar nas poças de água. De vez em quando aparece um bem-te-vi ou um sabiá.
     Essa população alada está sempre lá, faça frio, faça calor. Nos pastos reinam os quero-quero, que em época de procriação ficam ferozes, e dão voos rasantes sobre as cabeças dos que se aproximam. Eles fazem seus ninhos nas touceiras de capim no chão, e defendem ferozmente a ninhada... São agressivos e parecem aviões de guerra em combate, quando defendem a sua prole. E fazem um barulho assustador. Eu nem chego perto!
     De vez em quando, umas araras atravessam o céu conversando entre si, mas não descem, pois estão de passagem. Às vezes, aparece um bando de tucanos nos pés de abacate. Fazem um barulho estranho, como se estivessem serrando madeira. Gostam também dos frutinhos da árvore de Santa Bárbara.
     Os tuins ou periquitos miúdos costumam encher o pé de carambola com seu bando, e comendo vorazmente os frutos. O interessante é que se ouve o barulho da passarada na árvore, mas não se vê nenhum, porque a sua cor se confunde com o verde da ramagem. E fazem uma algazarra como crianças em festa.
     Ainda, junto aos açudes é comum aparecerem garças brancas, marrons, patos e gansos d’água. Estão sempre lá atentos aos peixinhos que aparecem na superfície, e que servem de alimento deles. Também se alimentam de caramujos, que abundam em lugares úmidos.
     E falando em caramujo, ainda não descobri algum predador dos caramujos pretos imensos, que infestam nossos jardins. Esses bichos horríveis comem minhas orquídeas, e outras plantas mais mimosas. Vivo combatendo-os, mas logo que chove, eles aparecem do nada, e destroem minhas plantinhas. Acho que nem os sapos os comem... O único meio de enfrentá-los é esparramar um veneninho em forma de bolinhas azuis, que eles comem e acabam se dissolvendo. Mas, dá uma raiva imensa, quando vejo minhas orquídeas dilaceradas pela voracidade desses bichos tão nojentos. E pensar que, alguém os trouxe de terras estranhas, pensando que eram escargots... e que poderiam ser consumidos... Aff!
     Mas, o propósito dessa crônica era abordar sobre o calor que maltrata as penadas nessa época do ano. Deve ser horrível usar a cobertura de penas o ano todo, faça frio ou faça calor. Li em algum romance, talvez de Gabriel Garcia Marquez, sobre um personagem que só dormia com cobertas recheadas de penas de aves. Me dá arrepios ao pensar na cena, porque aquilo devia esquentar muito, muito! E as aves com essas penas devem passar um calor, que dá pena. Os colibris e outros passarinhos vêm invariavelmente, tomar banho nos esguichos de água da minha horta.  Tenho pena das penadas. É da natureza, mas o calor está insuportável.
     Ontem vi uma galinha se banhando na areia, acho que para se refrescar, porque a tarde estava quente demais. Ela se enfiou num buraco no chão e, se rebolava toda para passar a terra em seu corpo. Devia ser refrescante...
     Concluindo: Deus fez o Éden ou Paraíso, para o homem reinar junto da vegetação e de outros animais. Era para todos serem felizes e viverem em harmonia, apesar da cadeia alimentar, que faz o mais forte comer o mais fraco... Mas, essa harmonia foi quebrada pela “suma sapiência do homem”, que destruiu já a metade desse planeta.
     O homem poluiu os rios, enterrou os veios d’água, derrubou as matas, encheu os rios e os mares com toda a sorte de dejetos, formou desertos onde eram campos verdes... E tornou impossível a vida para muitos animais. Os passarinhos estão sentindo as consequências desse estrago, promovido pelo ser racional e pensante que é o homem.
     Se nada for feito, se o homem continuar nesse afã de destruir o planeta, os primeiros que desaparecerão da Terra serão os passarinhos...
     E chegará a vez do homem, com certeza.

     Mirandópolis, janeiro de 2015.
kimie oku in
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