quarta-feira, 12 de abril de 2017

               Álbum de família   
        
           De repente, recebemos como um presente, o livro que relata a história da família Imoto, que inclui a minha finada sogra Senhora Suguiko Oku.
        Os filhos de Takeo Imoto, que era irmão de minha sogra organizaram o relato a partir dos bisavós Buiti e Miyo Imoto. O início dessa história remonta a mais de dois séculos, em 1800 no pequeno vilarejo de Fukuyama, na Província de Hiroshima, Japão.
        O relato foi feito através de fotografias primorosas e, nos deixou muito emocionados pelas imagens até então desconhecidas da minha sogra, mãe de meu esposo Noriyoshi. Imagens da infância, da juventude, de outros tempos... Ela era muito bonita!
       A história do senhor Ichiuemon, que vale dizer foi o esteio da Família Imoto começa em Hiroshima Japão, passa por Kauai, no Hawaí, Getulina e São Roque no Brasil. Ichiuemon era o pai de minha sogra e do senhor Takeo. Sempre preocupado em proporcionar conforto à família e vencer na vida aventurou-se no mundo.
        Minha sogra nasceu lá em Hawaí e frequentou as escolas de lá, onde aprendeu a falar e escrever em inglês, que não esqueceu nunca. Ela também lia, escrevia e falava fluentemente o japonês.Um dia, ela me contou que naqueles tempos a base das refeições no Hawaí, era o inhame no lugar do arroz. Disse que era o costume da época. O inhame era socado no pilão e posto para secar... Depois... eu não me lembro. Deveria ter perguntado mais, mas preocupada com meus filhos pequenos acabei me distraindo, e nunca soube como era a vida dela naquela ilha remota e tão famosa hoje. Lamento tanto não ter  perguntado mais sobre a sua infância e sua juventude...Mais tarde ela foi para Hiroshima, com o pai Ichiuemon e seu irmão Takeo.
     E a história brasileira começa na fazenda Saltinho, em Getulina, município de   Lins, em 1928.
        Não conheci o meu sogro, pois ele falecera de apendicite aguda em Guararapes, quando meu esposo tinha apenas dois anos de idade. Hoje ele tem 77 anos.
        Com certeza, a senhora Suguiko sofreu muito para criar seus sete filhos. Após a viuvez ela foi morar em Getulina com a família de seu irmão Takeo. E ela e os filhos pelejaram muito na roça, para que os menores pudessem estudar. Dos sete filhos, apenas três tiveram a chance de estudar e procurar um meio de vida menos duro que a lavoura. Mesmo assim, ela foi grata ao irmão que lhe deu apoio nos anos difíceis, que teve que enfrentar.
        Após a morte do senhor Ichiuemon, a família foi comandada pelo patriarca Takeo e sua esposa Ayako. Todos trabalharam muito e de alguma forma venceram as dificuldades da época, e cada filho partiu para realizar seus sonhos. E aconteceu a viagem para o Japão, a fim de rever familiares que lá deixaram. Mas, o que mais comoveu a minha sogra foi o reencontro com seu irmão Massaichi, que ficara no Hawaí, onde se aposentara da função de Professor universitário. Seria o primeiro e o último encontro com esse irmão... Voltar para a sua terra natal, após mais de meio século deve ter sido muito doloroso e comovente... Mais ainda para rever uma pessoa querida.
        Há outros relatos de vida na roça, de festas da família, mas em resumo é só isso. Há muitas fotos desde os antepassados até os últimos descendentes da família do senhor Takeo e dona Ayako. Há o desenho dessa árvore genealógica...
        Ao folhear, porém esse álbum, imaginei a vida dura enfrentada pelos imigrantes que aqui aportaram, sem conhecer a língua e os costumes da nova pátria, diante de florestas e florestas virgens que havia em todas as direções. E as acomodações que foram acontecendo, para poderem sobreviver. Minha sogra, uma mocinha linda ferindo suas mãos nos cabos de enxada, derriçando café, socando arroz no pilão, criando porcos e galinhas e cultivando hortas para garantir refeições salutares para a prole... E as incertezas da vida, sem um marido que lhe servisse de esteio... Foi um tempo de bravura, de heroísmo silencioso e nunca revelado. Para criar os filhos e lhes dar um destino melhor... Posso afirmar isso porque foi o que minha mãe e meu pai também passaram... Imigrantes.
        Entretanto perpassam por essas folhas também, as vozes de crianças brincando nos campos verdes, nadando em riachos, caminhando longos caminhos para a escola, correndo à sombra das laranjeiras, dos caquizeiros e das mangueiras. A interação com as crianças brasileiras, a língua portuguesa falada por todos, o linguajar japonês falado pelos adultos ao comentarem fatos mais graves...
        Depois, o rumo que cada um tomou na vida, voando alto e encontrando os parceiros para dividir a vida...
         Sempre me pergunto: Para onde foi aquela criança feliz que um dia existiu e fez a alegria de todo mundo? Tornou-se um adulto sério. Sério demais...
        Um álbum é apenas umas folhas com as fotos de diversas pessoas... Lembranças de um tempo que passou e não volta mais. Apenas papel, que o tempo gastará e um dia será esquecido num canto qualquer...
        Mas... essas folhas guardam tantas batalhas vencidas, tantas dores sentidas, tantas lágrimas vertidas, tantas saudades suportadas, tantas alegrias vividas... Ao folhear esse álbum, é possível fazer uma viagem de volta no tempo e recuperar tantas emoções...
        Nós, japoneses ou de origem japonesa temos a tradição de cultuar os antepassados, porque sem eles não existiríamos... E reconheço a importância de tudo que o senhor Ichiuemon Imoto aventurou na vida, para terminar seus dias no Brasil. Sem essa aventura, não conheceria seu neto Noriyoshi, que é pai de meus filhos César Noriyoshi, Sandra Kimie e Ricardo Minoru, além da neta Ana Carolina Tanaka.
        E sou grata de todo o coração ao Hideo Imoto e a Kiyoko Harakava, pela edição primorosa deste álbum, que me abriu um espaço (um sukimá) na família Imoto.
         E em nome de Noriyoshi, agradeço a gentileza desse precioso presente, que o fez chorar de emoção ao relembrar fatos de sua infância e da juventude...
         Domo arigatou gozaimashita!
 Gokigenyou!
Mirandópolis, abril de 2017.
kimie oku in

http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/

sexta-feira, 31 de março de 2017

Beleza é fundamental?

Quando se é jovem, sentimos intensa vontade de ser diferente. Acredito que todo mundo passou por isso.
Eu não nego. Tinha imensa frustração por ser baixinha, com um pouco mais de um metro e meio, gordinha e sem graça nenhuma.
Percebi como eu era fora de padrão quando na adolescência, uma colega nossa que era bela e tinha um corpo maravilhoso, começou a apontar os defeitos das outras meninas. Comentou sobre batatas de pernas gordas (como as minhas ai, ai!) e sobre gente baixinha...
E a partir daí desejei crescer mais, ficar longilínea e ter pernas longas e bonitas... Mas a natureza é implacável, não nega o DNA. Eu tinha que ser baixinha e gorducha... E além dessas frustrações aconteceu o inimaginável! Apareceu uma mecha de cabelos brancos bem no meio do meu cocoruto, e não havia meio de disfarçá-los... E aí, as colegas diziam: “Tá ficando velha! Olha os cabelos brancos dela!”
Fui ficando reservada, quieta e queria me esconder, porque não queria ser humilhada. Bem nessa época, havia um jovem de origem japonesa, que estava umas séries mais adiantado. Era das Alianças e tinha cabelos brancos na cabeça toda, com alguns fiapos escuros. E os meninos implacáveis o apelidaram de vovô. Eu tinha muita pena dele e me imaginava no seu lugar, sendo magoado gratuitamente por algo de que não era culpado...
Mas, a Escola é o melhor remédio. Descobri o prazer da leitura e me refugiava na Biblioteca, onde lia de tudo: Contos da Carochinha, Júlio Verne, Freud, Dostoiévski, Tolstoi, Malba Tahan, José de Alencar, Machado de Assis, Érico Veríssimo... Em vez de me preocupar com os cabelos brancos e a aparência, tratei de rechear a cabeça com conhecimentos, que me deixavam cada vez mais encantada.
O tempo passou, venci essas frustrações e de repente descobri que era moda ter mechas de cabelos de cor diferente no penteado. Eu tinha e nem precisava ir à cabeleireira para tingir!
Mesmo assim, ainda achava que eu não me bastava. Era muito pequena, gorda e sem graça nenhuma. Sempre fui assim. E me olhava no espelho e suspirava: “Ah! Se fosse dez centímetros mais alta!”
E assim, passei a vida inteira olhando com inveja as belas pernas das mulheres famosas, o talhe elegante de certas pessoas... Eu continuava gorda, pesadona...
Mas, Deus que tudo vê e provê me deu uma dura lição.
Um dia, senti dores no joelho esquerdo! Não conseguia descer da calçada para o leito do asfalto, sem gemer... Descer escadas nem pensar!  Aí tive que procurar os especialistas de plantão para tirar essas dores. E graças a Deus, achei alguém que resolveu meu problema. É bem verdade que à custa de uma aplicação e ingestão de colágenos e ômega três. Há mais de quatro anos que não sinto dores e caminho mais ou menos bem.  Mas, faço exercícios e caminhadas todos os dias. E colágeno e ômega três fazem parte do meu cotidiano. Até aprendi a consumir pés de frango, que muita gente refuga. Melhor consumi-los que ficar travada de vez.
Porque o homem é um ser caminhante. Quando parar de caminhar, estará morto. Não poder se locomover e ir para onde quiser? Não há destino mais triste! Nem posso imaginar!
         Ultimamente, tenho visto tanta gente capengando por essas ruas. Muitos usam bengalas, se apoiam em outros parceiros, e os mais renitentes andam arrastando uma perna, com dificuldade para subir degraus, para entrar no carro, para atravessar a rua... De cada dez pessoas, três estão com problemas graves nas pernas. E não são tão idosos assim. Muitos têm menos de setenta, menos de sessenta anos...
Estou com mais de setenta anos e ainda consigo ir ao Banco, à Farmácia, ao Mercado, à cabeleireira, à mercearia... Andando... Devagar, mas andando com as próprias pernas.
E sou grata a essas mesmas pernas que não gostava por serem gordas, curtas e feias... Sou muito grata porque elas me levam para   onde quero ir, sem depender de ninguém.
Vinicius de Moraes disse um dia “As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental!”  E foi muito aplaudido. E assim se instalou o culto à beleza, à perfeição.
O poeta estava totalmente equivocado. Beleza não é fundamental. Fundamental é a Saúde. Saúde do corpo, da mente, do coração. Tantos atores e atrizes famosos, perfeitos de corpo sucumbiram aos anos e, se tornaram farrapos do que foram no passado. De que lhes vale a beleza agora?
As flores também quando se abrem para a luz são belíssimas. Mas, quando as horas passam, elas murcham, escurecem e caem. Assim é a vida de todos nós. Um dia, as pernas perderão a elasticidade e as articulações irão travar. Mesmo sendo belas e longilíneas.
 Então é preciso cuidar para que isso não aconteça muito cedo.  Mais que cuidar da beleza é preciso cuidar da saúde.  Caminhando sempre, todos os dias um pouco para exercitar os nervos, para que não se travem. Cuidar das pernas não é só fazer pedicuro... Esmaltes vermelhos ou azuis não te levarão a lugar nenhum...
Hoje, entendo porque Deus fez as pessoas diferentes. Para que cada um descubra a força que existe dentro de si, e vencer as dificuldades. Nascer torto ou aleijado não é castigo. É apenas um desafio, que o homem acaba vencendo de algum jeito. E se não aprender, viverá a vida inteira em completo sofrimento.
Hoje, contradizendo Vinícius afirmo: “Fundamental é a saúde e não a beleza”. Porque sou feliz com a minhas limitações.

Mirandópolis, março de 2017.
kimie oku in



segunda-feira, 27 de março de 2017

            Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar!
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar!
      E na sexta feira última fizemos a ciranda do mês. Estava um dia quentíssimo e parecia que muita gente faltaria.
      Mas, não! A maioria compareceu. Especialmente os músicos, que vão sempre animar nossos encontros.
      Fazia tempo que não brincávamos de ciranda, e desta vez fizemos a grande roda e cirandamos. Os homens participaram cantando e declamando. Os poemas dos homens eram todos cômicos e provocaram muita risada de todos.  A Vina cantou, assim como a Rachel. E até a Dimar sempre quietinha, declamou. Fiquei tão emocionada com a sua   participação voluntária, que nem consegui ouvir os versos, que falavam de Estrelinhas...  O ponto alto foi a homenagem que a Jan
e fez para sua mãe Fermina que perdeu uma irmã no mês passado. Foi muito emocionante, porque todos conheceram a dona Nair, sempre contente da vida, declamando e cantando. Homenagem mista de saudades e boas lembranças. Foi cirandar no céu.
      Atendendo a pedido, falei pro seu Agenor Garcia organizar um coral de música sertaneja com os cantores do grupo. Todos acharam a ideia muito boa. Seu Agenor é uma pessoa disposta. Acabou de reorganizar nossas pastas de música, plastificando as folhas. Ficaram excelentes.
      E entre cantorias, roda de ciranda e declamações, a tarde transcorreu animada e feliz.
      E a dona Fermina agradeceu o carinho do pessoal por ocasião da passagem de dona Nair. E recebeu abraços de todos os cirandeiros.
E assim foi a nossa Ciranda do mês, pautada de saudades, alegria e muita risada.
Em abril tem mais!
Mirandópolis, março de 2017.
kimie oku in


sábado, 18 de março de 2017

          
       Felicidade         

O que é a felicidade?
É encontrar o parceiro da vida para viver um conto de amor?
Então, por que tantas separações?
É ter filhos e pelejar por eles? Mas alguns filhos matam os pais...
É vencer na carreira e chegar ao topo? Tem tanta gente que despencou feio depois...
É ficar multimilionário? Há tantos multimilionários hoje na cadeia...
É ter um físico maravilhoso e tornar-se um atleta insuperável? Pelé foi o atleta do século e está tão infeliz...
É ter uma saúde de ferro que dispense remédios e hospitais?
Ninguém é de ferro. Uma hora, o organismo começa a deteriorar-se...        
É ser amado e admirado por uma multidão pedindo autógrafo? A glória é passageira. Tanta gente famosa já foi esquecida.
É ter poder para mandar e desmandar e não precisar prestar contas a ninguém? A queda de dois Presidentes do Brasil provaram que poder nada é.
É ter uma família perfeita, que cause inveja às outras famílias? Todas as famílias têm estrangulamentos, que só elas sabem...
É viajar pelo mundo, conhecer lugares exóticos e costumes nunca imaginados? Mas, não dá pra trazer esse mundo para casa.
É ter um castelo, cujo domínio vá até os confins da Terra? Os sem terra irão acampar e tomar pouco a pouco os lotes, na marra.
É ser superinteligente, e nunca ser enganado? Mesmo os super, super erram. Einstein separou as partículas do átomo... E daí surgiu a bomba atômica...
É ser tão belo que chame a atenção da mídia? A beleza acaba um dia e a mídia perde o interesse...
É ter uma roda de amigos fiéis até a morte? Amigos fiéis são raríssimos...
É ter uma fortuna inesgotável? Mesmo que seja inesgotável, quando a morte chega, ela será de outros...
....................................................................
?????????????????????????????????????????????? 
     Cada questão acima pode representar a meta de alguém para ser feliz, mas o que é mesmo a felicidade?
É possível buscar e alcançar a felicidade nos 60, 80 anos destinados a cada um aqui na terra?
     Porque todo mundo tem esperança e peleja todos os dias para alcançar a felicidade.
Mas... a felicidade não será apenas uma utopia? Uma promessa inalcançável? Uma ilusão prometida para mobilizar a humanidade?
     Se a humanidade não tivesse esperanças, não moveria uma palha no dia a dia... Pra quê? Afinal, todos irão findar um dia... E tudo não passará de um sonho mal sonhado...
     Estive neste domingo matutando sobre tudo isso, enquanto varria as folhas e flores da calçada de minha casa. Pois é melhor manter a cidade limpa, para o bem de todos.
    Como já estou no limiar da vida, com mais de sete décadas de existência, tenho as minhas dificuldades resultantes de má postura, de pisar inadequado, de articulações gastas... E apesar de não ter dores, percebo que a cada dia fica mais difícil movimentar o corpo... Perdi a leveza de movimentos, que hoje são bem lerdos... Não reclamo e faço o que posso para manter as pernas mais ou menos articuladas, para ir onde precise. Por enquanto estou conseguindo.
    Ainda consigo ir Banco fazer as operações necessárias para pagar as contas. Consigo ir à farmácia e garantir o estoque de remédios do mês... À quitanda buscar uma fruta, um legume qualquer.  Ao Conservatório dedilhar meus dedos antes que a arteriosclerose... Já ao Mercado preciso usar o carro porque é mais distante. E mesmo com algumas barbeirices, consigo estacionar o carro nas vagas disponíveis... Aliás, deveriam reservar mais lugares para os idosos, pois só destinam uma ou duas num estacionamento de quinze a vinte vagas. E os idosos são um terço da população hoje.
     E quando volto sã e salva, agradeço a Deus...
    Percebo, porém que já não consigo carregar pesos acima de três quilos por mais de uma quadra!!!   E sou tão grata às lojas que fazem entrega em domicílios. Não imaginam como salvam os idosos cansados. Por que será que a gente perde as forças? Já fui tão forte e suportava pesos de até quinze quilos. Hoje não aguento mais...
   E por tudo isso, fiquei pensando o que seria a verdadeira felicidade. E descobri! Eureca!
    Felicidade pode ser tudo aquilo que indaguei no começo dessa crônica. Isso para os jovens, ambiciosos e autoconfiantes no próprio sucesso. Mas, com o passar dos anos, com as experiências sofridas, o nosso modo de pensar e de encarar a vida acaba mudando.
Felicidade é ter saúde para usufruir cada momento da vida. Poder comer um pouco de tudo sem estufar como um balão. Poder andar de per si até ao Banco, à farmácia, à mercearia, ao bazar e poder escolher as frutas, as linhas para o bordado e comprar os remédios necessários. Poder andar pelas calçadas e parar para apreciar algo bonito na vitrine, para receber um abraço de um amigo e papear um pouco... É poder administrar o próprio pagamento mesmo sendo tão reduzido, e controlar os gastos sem a interferência de outros...     Felicidade é ainda ouvir mais ou menos o que se fala ao redor, embora muita coisa mereça ser ignorada. É enxergar as pessoas queridas, poder ler as mensagens de amigos e escrever o que se passa na mente. É sentir ainda a dor do outro, para poder consolar e oferecer ajuda. É entender as pessoas que nos cercam e interagem em nossas vidas. Mesmo sendo difíceis e ranzinzas... É acima de tudo, saber tolerar e perdoar...
     Felicidade é poder decidir por si mesmo como vai desfrutar do dia, da semana, das horas de folga, dos fins de semana, sem ser teleguiado... Felicidade é ter liberdade de cutucar o jardim quando der na telha, tocar um pouco as sonatas ao piano, ler um livro na madrugada... É saber agradecer todos os dias a companhia do parceiro, mesmo que às vezes a relação entre em convulsão. Melhor isso que a solidão. Sozinho não haverá com quem desabafar, com quem rir, com quem discutir e nem com quem brigar... Solidão é foda.
     Felicidade é ter a coragem de recusar um convite, mesmo que seja para uma cerimônia maravilhosa e exclusiva... (Não suporto certas cerimônias!)
     Felicidade é poder ignorar certas pessoas que nos irritam com sua arrogância, com sua voz estridente, com seu desejo inconfundível de querer alçar voo na escala social, aproveitando os ombros de outrem...
     Felicidade é ter o suficiente, não mais que isso para ter uma vida mais ou menos confortável. Ter demais só desperta a ganância dos ladrões... Quando se tem demais não haverá mais ambição, mais desejo nem sonhos... E necessário aprender a controlar tudo com parcimônia.
     Poder, dinheiro, beleza física, fama, inteligência, um milhão de amigos, um castelo encantado.. Nada disso é sinônimo de felicidade. Se isso fosse felicidade, os políticos corruptos seriam muito felizes assim como os multimilionários, os famosos que aparecem na mídia todos os dias. Mas... quanta tragédia na vida deles.
     Para mim no momento, felicidade é ainda poder andar, varrer e recolher as folhas das árvores, que sombreiam a frente de minha casa. É poder caminhar e fazer exercícios de alongamento. É ver o pé de maracujá que plantei, preparando as frutas que se transformarão em deliciosos sucos... É conseguir preparar uma boa refeição de domingo para mim e para o meu esposo. É crochetar uns guardanapos para pessoas queridas. É poder visitar pessoas alquebradas pela idade, que querem conversar um pouco e tomar um cafezinho junto. É trocar ideias pelo facebook e arejar a mente.
     E escrever essas crônicas.
     Felicidade é só isso.
     Para mim é o bastante.

    Mirandópolis, fevereiro de 2017.
    kimie oku in



quarta-feira, 1 de março de 2017

      Cirandando no céu...

Na última sexta feira realizamos o segundo encontro do ano. Era um dia chuvoso, e parecia impossível ir até a Chácara Prando.
     Mas, como sempre acontece, a chuva passou e abriu um sol lindo abençoando a nossa tarde. Faltaram muitos cirandeiros, por problemas de saúde e por causa do tempo. Mesmo assim, os que compareceram aproveitaram a tarde para botar o papo em dia.
     O Milton Lima compareceu, mesmo morando na Ilha solteira. Ele não consegue ficar longe da Ciranda, onde tem tantos amigos...
      Depois de um lanche, melancia e sorvete, os músicos encheram o espaço com o som maravilhoso de sanfonas e violões. E a cantoria começou. E durou a tarde toda...
      E entre os que só conversavam, a preocupação era a saúde de dona Nair, irmã de dona Fermina, que teve AVC. Dona Nair sempre foi uma cirandeira alegre, que fazia todos rirem com suas graças, seus poemas cômicos e suas tiradas engraçadas... Estava no Hospital, lutando para sobreviver...
   
   As horas passaram com muita cantoria regada a cafezinho de dona Cleusa. Mas, no final, a preocupação voltou e por sugestão do sanfoneiro Gerval fizemos umas orações para a dona Nair, para que Deus aliviasse o sofrimento dela. E também rezamos pela Vera, filha do seu Orlandinho, nosso declamador de poemas. Ela também está muito doente. Aproveitamos a oportunidade e pedimos pro seu Orlandinho declamar seus poemas, porque ele anda muito triste...
      E assim, entre poemas, orações e cantorias, nossa tarde de prazer acabou. Voltamos contentes por termos proporcionado umas horas de lazer aos amigos.
      Entretanto, daí dois dias a nossa querida Nair partiu. Foi cirandar no céu. A artista do grupo havia deixado a nossa Ciranda...
      E eu desolada, procurei nos álbuns de fotos as imagens que ficaram... Nair cantando... Nair conversando... Nair abraçando... Nair rindo... Nair declamando... Nair dançando... só imagens positivas de quem soube aproveitar as horas passadas na Ciranda com amigos.
      Mas, essa mulher de 79 anos tão pequenina, tão doce e positiva, foi uma batalhadora que, ao se ver abandonada pelo marido com uma filha criança ainda, teve que pelejar muito para sobreviver e cumprir seu destino. Por anos e anos trabalhou no Mercado Estrela, onde foi uma funcionária exemplar, cativando os proprietários com sua dedicação. Um dia me contou que, era extremamente grata à senhora dona Elsa Franco Terensi e à dona Lucília Scatena Franco, que a socorreram nos momentos mais difíceis de sua vida. Ambas também já cumpriram sua missão aqui na terra. Saudosas professoras Elsa Terensi e Lucília Franco...
      Há mais ou menos seis anos, a dona Nair instada pela irmã Fermina passou a frequentar a Ciranda, onde se realizou cantando, dançando e falando seus poemas. Era uma mulher muito alegre e todos a queriam muito bem.
      Agora ela partiu...
      E deixou saudades.
Mas, acredito que ela não deve estar triste. Deve ter reencontrado a dona Onofra, a dona Palmira, o seu Jorge Cury, o Toninho do Pandeiro, a dona Lourdinha Codonho, o seu Walther Sperandio, o seu Aristides Florindo, a dona Maria Menegatti, o seu Lupércio Salvá, o seu Egídio Vicente... E deve estar comandando uma Ciranda lá no céu. Deve estar girando a roda da Ciranda, cirandinha com muito entusiasmo e alegria. E declamando "O guarda chuva".
Enquanto isso, nós aqui na terra vamos cirandando também, em gratidão à vida que Deus nos concedeu.
Dona Nair, um dia todos nós iremos cirandar aí no céu com a senhora. Espere por nós.

Mirandópolis, fevereiro de 2017.
kimie oku in


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

                               Até que alguém nos separe!

         Outro dia, papeando entre amigos percebemos que a nossa geração de 60, 70, 80 anos é a que manteve os casamentos indissolúveis, sem trocar de parceiros.


Ultimamente, as separações ocorrem diuturnamente, e fica difícil perguntar do parceiro ou da parceira a amigos que não se vê há um bocado de tempo...  Os casais estão trocando os pares logo após o casamento, mesmo tendo jurado se amarem até que a morte os separasse...
Conheço casamentos que duraram quatro meses apenas, apesar da cerimônia ter sido uma coisa de sonhos, com a noiva vivendo o papel de uma princesa que encontrara um príncipe encantado... Outros casamentos que se dissolveram após trinta anos de vida em comum também aconteceram...
Antigamente, o casamento era para sempre. O juramento dizia: “Ser fiel ao outro até que a morte nos separe!”
Essa jura de amor perdeu o sentido e deveria ser substituído com ...  “Até que alguém nos separe!” Porque é isso que acontece amiúde.
Com essa onda de separações, há famílias com filhos de três uniões diferentes e o convívio nunca é fácil. Principalmente na adolescência. Em nossas famílias ainda prevalecem só filhos de uma única união. Se bem que isso não garanta a harmonia total.
Acredito que a nossa geração será para a história da humanidade a última geração de casamentos únicos. Depois de nós, muitos casais trocaram de parceiros uma ou duas vezes.
Não deve ser nada fácil acertar os ponteiros com dois, três parceiros diferentes sobre a saúde e a educação dos filhos. O desentendimento é a tônica nesses diálogos. E os filhos ficam sendo jogados como bolinhas de pingue pongue, pra lá, pra cá. E como ficam os seus sentimentos, já que não pediram para nascer?
Vendo novelas japonesas e coreanas, percebi que essas separações ocorrem também nesses países onde a educação é mais rígida. E em países de regime totalitário também ocorrem... E a religião não faz diferença. Católicos, evangélicos, budistas, muçulmanos, todos têm histórico de dissolução de casamentos...
Quando eu era jovem e solteira, uma amiga de infância voltou para casa após uns meses de casamento. Ora, na época não se  admitia uma coisa dessas. O noivo trouxe a moça e devolveu aos pais. Foi um bochicho escandaloso, mas ninguém soube a razão verdadeira do fato. A moça era educada e boazinha. Talvez fosse inocente demais, quem sabe? Acho que a família que era de origem japonesa achou isso o maior desaforo que um genro poderia aprontar. Mas aconteceu, e isso foi nos anos cinquenta...
Daí pra cá tudo ficou mais aceitável. E as separações ocorrem muitas vezes na mesma velocidade em que se casam... Até o divórcio ser aprovado no Brasil, as separações eram mais raras. Mas, hoje... Além disso, os casamentos formais estão praticamente extintos. Os jovens dizem “Vamos juntar os trapos” e vão morar juntos, mesmo sem o consentimento dos pais e demais familiares. Antigamente, o casamento tinha que ser sacramentado e abençoado pelo Padre e comprovado pelo Juiz de Paz e testemunhas.  E mais importante que tudo isso era a bênção dos pais e amigos... Os jovens modernos dispensaram tudo isso.
E as viúvas procuram parceiros, com quem nem se dão ao trabalho de casar... São os Namoridos, já aceitos como membros da família.
Como ficou a sociedade com essa troca troca de pares?  Para quem está vivendo esses dramas é tudo normal e aceitável. Mas, para os avós fica um pouquinho complicado, porque há netos consanguíneos e outros que não são. Mas, passam a ser netos desde que se tornem meio irmãos dos verdadeiros netos... E também há o risco de casamentos entre irmãos consanguíneos, uma vez que há tantos lares desfeitos e filhos esquecidos no mundo, que não sabem quem são seus verdadeiros pais.
Conheci um jovem que estava a fim de descobrir o verdadeiro pai... E juntou um dinheiro para viajar e encarar a fera... Mas, um amigo lhe disse: “Rapaz, se ele te abandonou quando nasceu e nunca se deu ao trabalho de vir te conhecer, pra que você quer vê-lo? Será que ele te acolherá com amor? Ou será uma outra decepção?”  E aí, ele desistiu da ideia.
E assim, há tanta gente neste mundo que foi jogada pelo pai, e vive ao Deus dará. Quando há uma mãe que assume e cuida, ainda poderá ser salvo. O mais estranho de tudo isso é que os bichos não jogam suas crias, mas o homem ser racional é capaz disso.
Eu não sei como será o futuro da humanidade com essa avalanche de filhos de pais diversos... Acredito que irão ocorrer  fatos estranhos, como a união de irmãos consanguíneos, que os cientistas não recomendam. Gens iguais se cruzando podem gerar filhos com anomalias ... E isso ninguém quer.
Por enquanto, enquanto os casais não permanecerem fiéis um ao outro, os padres deverão mudar o juramento.
“Até que alguém os separe!”
Mirandópolis, fevereiro de 2017.
kimie oku in


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

             Queijos...


Ultimamente, tenho visto tantas postagens de comida no face book, que despertam a gula. As imagens são fantásticas e mostram queijos derretendo, do jeitinho que a gente gosta de comer. Apetecem só de se ver...
E percebi que todos os pratos postados, de alguma forma têm como ingrediente o queijo. Queijo em pedaços, queijo sobre pizzas, sobre tortas, nos hambúrgeres, no arroz de forno, nos pães, e até nas carnes...
O queijo parece ter sido a mina de ouro para os gastrônomos, em tempos recentes. Quem consegue resistir a uma pizza de presunto com queijo se dissolvendo em cima?
E como é fácil agradar a todos no lanchinho à tarde, com torradas e fatias de mussarella escorrendo... Queijo, solução para todos os paladares.
Mas, existem queijos e queijos...
No dia a dia consumimos mais a mussarella, tanto é que os mercados já preparam antecipadamente uma montanha desse queijo fatiado para atender rapidamente aos consumidores, que formam filas para comprar junto com o presunto... A dupla famosa incrementa qualquer prato salgado que se possa imaginar. Só que os mercados orientam os funcionários a fazer fatias grossas, para pesar mais... Eu particularmente gosto de fatias finas para não pesar no estômago.
Em se tratando de queijo, os americanos gostam de comer torradas com queijo, bacon e ovo frito... É delicioso, mas há excesso de calorias... Por isso, os americanos são imensos e pesam mais de cem quilos, o que não é muito saudável. O consumo diário os transforma em gente gigantesca...
Os salgadinhos geralmente vêm recheados de catupiry, que é leve e macio.  Bordas de pizza recheadas de catupiry, que se dissolve na boca... Ou Cheddar, que é mais forte.
Para aperitivos existe o queijo prato mais duro, o provolone, que é bem substancial e sustenta. Quadradinhos de provolone junto com azeitona verde são apetitosos, para se consumir com um bom vinho ou com cerveja bem gelada. E tem também os nozinhos de queijo mussarella, que caem bem.

Para o café da manhã, o queijo branco e fresco é muito recomendado. O Estado de Minas já foi campeão no fornecimento desse queijo, a ponto de nós o chamarmos de Queijo de Minas. Mas, agora, o queijo branco não é exclusividade de Minas. No café da manhã gosto de consumir  o queijo Cottage, que é mais molhado e tem um sabor meio ácido.
Antigamente, as mulheres dos lavradores é que fabricavam o queijo. Reservava-se um bocado de coalho numa garrafa e misturava-se ao leite cru fresco, que talhava... Daí um tempo, coava-se essa massa que se transformava em queijo. Depois de escorrer o excesso de água, colocava-se o produto pronto em prateleiras de madeira para secar. Como quase todo mundo produzia queijo, não havia pra quem vender... E a família é que acabava consumindo a maior parte. Em casa, a nossa mãe inventava recursos para colocá-lo no cardápio, para que todos comessem o queijo que sempre sobrava. Lembro com saudades do queijo cortado em pedaços e frito na frigideira, cheios de bolhas estourando... Dos bolinhos fritos de queijo puro ralado... Naquela época não conhecíamos pizzas e tortas cobertas de queijo.  E macarronada era comida de italianos. Nós tínhamos o costume japonês, de muito shoyu, missô, tofu e legumes curtidos. Queijo era comida ainda praticamente sem muita serventia... Não conhecíamos seu potencial.
Mais tarde aprendemos a comer o parmesão ralado na macarronada, nas tortas junto com molho de tomate, que faz uma combinação perfeita.
Até os cachorros quentes que eram só à base de salsicha e molho vermelho, hoje contêm fatias de mussarella. E muitas batatas fritas e alface. Tudo mais incrementado. Tudo mais calórico. Que pesa no estômago... E engordam.
O queijo mais caro que existe hoje é o de alce, que custa mil dólares o quilo, seguido de búfala, a 500 euros...
Existem infinitas variedades de queijo. Queijo de vaca, de cabra, de ovelha, além de búfalas e de alce... e conforme a consistência e o sabor muda o nome também. Assim, além dos mais comuns que conhecemos, existem o Camembert, o Roquefort e o Brié da França. Da Itália, conhecemos a Mussarella ou Mozzarela, o Provolone, a Ricota de poucas calorias, o Gorgonzola e o conhecidíssimo Parmesão. Da Suiça, temos o Emmenthal e o Gruyère. E do Brasil o queijo Prato, que foi inventado em 1920, no Sul de Minas, e o de Estepe, queijo duro cheio de buracos... Yes, temos dois tipos de queijos nacionais, o Prato e o Estepe.
Os queijos variam de formato, de sabor e de aparência, conforme o processo de fermentação do leite. Há queijos com mofo azul, com mofo branco, queijos duros, semiduros, cremosos, adocicados, ácidos, picantes.... E atendem aos mais diversos paladares no mundo todo.
Como surgiu o queijo?

De acordo com seu histórico, foi acidentalmente. Um pastor guardou a sobra de leite numa bolsa feita com o estômago de um animal. Depois de um certo tempo, o leite estava coalhado e formado uma massa consistente. A quimosina, espécie de coalho que há no estômago do animal havia azedado o leite e o coagulado em massa... E os comerciantes árabes estocavam o leite dessa forma.
Assim começou o queijo, alimento muito consumido no mundo inteiro. Que tem alto teor nutritivo e contém gordura, proteína, cálcio e fósforo.
Entretanto, o excessivo consumo pode provocar males irreversíveis. Um pãozinho de queijo que parece tão inofensivo contém gordura trans e muito sal. Ora, sabemos que o sal em grande quantidade provoca hipertensão e outros males. E geralmente os pãezinhos são bem salgados... E o consumo exagerado de queijo pode causar câncer nos rins. E conforme a pesquisa, a combinação de muito queijo com muita carne é tão prejudicial quanto fumar.   Parece que atualmente os consumidores estão se excedendo nesses dois itens, muito fortes para o organismo. Que têm o poder de acabar com a saúde, se consumidos em exagero.
O queijo é saboroso?
Sim, com certeza! 
Mas ainda vale aquela dica: Tudo em excesso faz mal.
Então, comer um lanche ou uma pizza com moderação.
Para continuar com saúde.
E usufruir das coisas boas desta vida!            
Mirandópolis, fevereiro de 2017.
         
         kimie oku in