sábado, 21 de janeiro de 2012


                                SAGRADO

       Certa mãe foi ao mercado fazer compras, com o filho único de cinco anos de idade,
       Enquanto a mãe pagava a conta, o menino escapuliu e, foi pegar um canudinho de plástico no bar, e escondeu-o no bolso.
       Ao chegar em casa, escondido da mãe, ele foi tomar suco usando o canudinho, e  depois foi soltar bolhas de sabão, no quintal.
       Sempre que ia ao mercado, o garoto pegava um canudo e, para a mãe não descobrir,  após usá-lo, jogava-o na máquina de lavar roupa, no meio da água de sabão.
       Quinze dias depois, a mãe estranhou a máquina que não esgotava a água. E soltou a mangueira. Nisso, junto com a água suja, saíram uns trinta canudos de plástico.
       Indignada, a mãe chamou o garoto e o pressionou: “Nesta casa, só você pode ter feito isso!”
       Mas o filho negou categoricamente.
       À noite, quando o marido voltou do trabalho, ela contou o fato a ele. E ele deu risada. “Puxa, o menino não imaginava que ia entupir a máquina!”
       A mãe porém,  “Isso  não é brincadeira! Que tipo de educação estamos dando ao nosso filho?”
       E  ele:....”Sabe, quando eu tinha uns dez anos, queria comprar um canivete, desses que dobram, porque o meu era velho e usado. O desejo  era tanto que,  peguei  o dinheiro da mamãe, comprei o canivete e o escondi atrás dos livros...  No dia seguinte, mamãe me falou: “ Ajoelhe-se diante do altar e vamos orar” e  durante a oração, a mamãe  falou : “Sabe, ontem à noite tive um sonho. Deus me avisou que, havia um objeto perigoso atrás dos seus livros. Hoje cedo fui ver e, achei isto!”  Não tive como negar, e chorando acabei confessando e prometendo não fazer mais...
“Vamos orar de novo!” E ela pediu a Deus que me abençoasse, porque não faria mais isso. E declarou que mesmo que os pais não estejam vendo, Deus está sempre vendo tudo que a gente faz... e esta frase de certa forma, serviu de freio para eu não praticar atos desonestos,
 até hoje...
        Mesmo papai, que era um homem muito  respeitado, abaixava a cabeça diante do altar, e eu ficava imaginando que devia existir alguém mais poderoso, que ele 
temia e respeitava.”
E a esposa: “Eu também me lembro da mamãe acendendo incenso e, de mãos postas orando diante do altar. Nas missas pelos mortos da família,
 todos se  ajoelhavam e rezavam.
 Hoje ninguém mais faz isso, 
e não há  sequer altares nas casas. 
Todo mundo acha que isso é moda ultrapassada. 
Mas, pensando bem, acho que aquele costume de  fazer oferendas, acender velas e orar,
 de alguma forma protegeu e manteve  unidas as famílias, até agora.  
Hoje as famílias estão se desagregando,
 porque não há mais elos – cada um pensa e age por si. E tudo virou uma busca contínua de bens materiais
 – um carro novo, uma tevê nova,
 mais conforto material... 
todos se esqueceram da origem, 
dos antepassados, de Deus...
Mas, ainda é tempo! Vamos pegar as fotos de nossos avós e organizar um cantinho na casa para
 cultuar Deus e os antepassados. 
De alguma forma , o nosso filho também acabará desenvolvendo o lado espiritual.”
No outro dia: 
“Filho, a partir de hoje, vamos fazer oferendas a Deus, e aos antepassados da família. Você pode nos ajudar?”
“Sim, mamãe!”
Nobuyuki Kaji, emérito Professor de Osaka, do Japão, sugere que todos nós tenhamos em casa, 
um lugar sagrado,
onde possamos cultuar Deus e os ancestrais.
 Diz ele que não é necessário um belo altar,
 bastando uma imagem, uma cruz, 
as fotos dos antepassados, 
ou mesmo apenas os nomes deles.
Diz ainda que, quando alguém faz oferendas, reverências e orações nesse lugar,
 uma energia poderosa estabelecerá a ligação
entre essa pessoa e Deus. 
E algo muito positivo acabará fluindo na casa. 
Mesmo que a oferenda seja mínima, um incenso, uma flor, um punhado de arroz;
 mesmo que a oração seja pequena e desajeitada, essa espiritualidade se estabelecerá.
 E de alguma forma, acabará fortalecendo os laços de família.
Finalizando: “Meus amigos, vamos fazer um cantinho sagrado em casa?”
 
Post scriptum: Extraído da Revista japonesa New Morals 457 – tradução e síntese por kimie oku.

       Mirandópolis, 11 de novembro de 2009.
                              kimie oku
                 (kimieoku@hotmail.com)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012


                TARDES   DE   DOMINGO

      Há em nossa cidade muitos artistas anônimos, que tocam uma viola, um teclado, um acordeon, um saxe.
        São pessoas que gostam de música e, aprenderam sozinhos a tirar um som, porque não puderam freqüentar conservatórios musicais, por falta de recursos.
      Nas sessões do Sarau Cultural Biblioteca, que vem ocorrendo há mais de dois anos, sob a batuta do Fred, muitos desses artistas têm se apresentado, e mostrado seus talentos.
      A música é um presente maravilhoso. E acredito que não haja no mundo, uma única pessoa que não goste de música. Música caipira,  folclórica, erudita, gospel, gregoriana, funk, balada,  rock, new wave... há música para todos os gostos.
        Fico imaginando como os primeiros viventes descobriram o som. Alguém deve ter tropeçado  acidentalmente numa cabaça, que fez um som estranho..... depois, ao lançar pedras nos rios para caçar seus alimentos, deve ter ficado maravilhado com o sibilar das mesmas..... e ainda ao ouvir o canto dos pássaros, começou a imitá-los para atrair e, fazer deles uma refeição.....
     E o som do vento nas árvores, o som da chuva tamborilando... da água  caindo nas cascatas.....tudo isso deve ter sido uma descoberta fantástica.
        Acho que começaram a tirar os primeiros sons de canudos de bambu, brincando... soprando, soprando...
    E assim, pouco a pouco, surgiu a música produzida pelos homens, que tanto nos encanta.
     Há uma flauta antiga de bambu, que produz sons inimitáveis. Sons belos e tristes que fazem doer a alma. Sons de “shakuhachis”, hoje muito em moda no  Japão. 
    É um pedaço de bambu, cujos sons imitam os barulhos da natureza – o canto dos pássaros, o canto das ondas do mar, o canto do vento, o canto das tempestades de areia. Quando ouço um shakuhachi, me vem a certeza de que, a  música se originou do sopro de um pedaço de bambu. Não consigo  atinar com outra origem.
        Daí pra cá, quanta evolução!
      Surgiram os poderosos berrantes para conduzir boiadas, as flautas doces, as  gaitas, os saxofones, todos movidos a sopro.
      A música pode também  ser produzida por percussão. Os tan-tans  de antigas tribos deram origem aos tambores, pandeiros e atabaques. Nasceram da necessidade de comunicação à distância, entre os habitantes de imensas florestas.
   Berimbaus, kotôs, violinos, shamisens e harpas produzem música fina, pela vibração das cordas. Existem orquestras só de cordas, que se compõem de violinos, violas e violoncelos. Produzem  sons maravilhosos.
    E ainda, a música pode ser produzida apenas apertando-se  teclas de acordeon, órgão e pianos, cujo mecanismo sonoro é o mesmo dos instrumentos de corda.
     Hoje a tecnologia já produz sons com instrumentos elétricos, como teclados,  guitarras e pianos. Não têm a pureza de um instrumento manual, porque vibram mais.
       Mesmo assim, música é música. E é sempre bem vinda.
       E como possuímos uns talentos esquecidos, já sugeri a alguns que  se unam e formem grupos de violeiros, sanfoneiros, pandeiristas e flautistas.
   E sugeri também a algumas autoridades locais, que  aproveitem esses  artistas, para animar as tardes de domingo na avenida. Já imaginaram? Todas as tardes de domingo com encontros musicais na avenida... Música a céu aberto, enchendo os ares com o som das sanfonas, das violas e dos pandeiros.
    Tenho a certeza absoluta que, uma multidão compareceria,  pelo prazer de ouvir e cantar junto, velhas canções. Atrairia jovens, crianças e idosos, porque o gosto pela arte não tem idade. E quem sabe, encheria a alma e a cabeça de jovens, que  não têm ocupação....  e quem sabe, quantos talentos não revelaria?
   A música abre um mundo de possibilidades. Ela poderá transformar a nossa pequena cidade, num centro de encontros musicais. Imagino jovens daqui dedilhando guitarras e encantando a multidão.
   Imagino as violas resgatando velhas canções, do nosso cancioneiro. Imagino os atabaques  e os berimbaus trazendo os sons da África,  da Bahia, do Nordeste...
    Imagino as tardes de domingos, repletas de música na avenida. Movimentando a cidade em torno da arte musical. E o povo curtindo, gratuitamente...   Seria uma festa!
      Seria fantástico!
      Quem adotaria essa ideia?
                    
                      Mirandópolis, julho de 2011.
                                           Kimie oku
                                    (kimieoku@hotmail.com)

domingo, 15 de janeiro de 2012



  O PARAÍSO  RESTAURADO

            E de repente,   
 a vida se foi.
         Num sopro a vida humana
 se apagou. 
Como se alguém tivesse 
desligado o interruptor 
da vida, a humanidade 
se evaporou. 
Foi assim pá!
         E todos os seres humanos sumiram. Esvaíram-se como éter. Apagaram-se, sem deixar rastros. Nenhum corpo, nenhum resto. Nada que provasse ter existido vida humana na Terra.
         No instante em que ocorreu, houve quedas de aviões, carros e trens que se colidiram. Mas nenhuma vítima. Não havia pilotos, motoristas nem passageiros. Tinham se evaporado todos.
         Comprovando a passagem do homem, sobraram as obras –  as ferrovias, as rodovias, os carros, as máquinas, as torres, os  imensos prédios, as igrejas, os shoppings. Mas ninguém circulando. Tudo deserto.
         No começo havia luzes e sons ligados. Máquinas automáticas trabalhando, luminosos pisca-piscando, semáforos alternando o verde, o amarelo, o vermelho, inutilmente... não havia carros circulando.
         Aos poucos, tudo foi parando.
         Não havia gente, para lidar com os geradores de força e luz. Celulares se calaram. Havia combustível nas bombas, mas sem  serventia.  Ninguém precisava dele.
         Nas estradas e nos estacionamentos, filas de carros ao Deus dará, todos parados. Nos aeroportos, aviões se deteriorando no tempo. Nas ferrovias, os trens-bala, os subways vazios e aposentados para sempre. E nos portos, os imensos transatlânticos, e os barquinhos. Estranhos brinquedos num mesmo abandono, sem nenhuma utilidade, ao sabor das ondas.
         Casas e   prédios totalmente vazios de gente, sem luz, geladeiras lotadas de comida se deteriorando,  elevadores parados....
         Nas ruas, de viventes só circulavam cães e  gatos fuçando nas lixeiras, procurando algo para saciar a fome.  Logo ficariam desnutridos e morreriam.
         Nos campos, tanto trigo dourado, secando ao sol,  grãos de milho amarelinho caindo das espigas... banquete de pássaros... Nas hortas, verduras e legumes servindo de pasto aos besouros e lagartas. Nos pomares as frutas maduras caiam aos borbotões... os bichos aproveitavam. Nunca os animais tiveram tanta fartura.
         Nos quintais, sobreviveram só as galinhas caipiras. Sabiam procurar o alimento, nos lugares mais recônditos do jardim. Gatos domésticos foram morrendo de inanição, não sabiam nem caçar lagartixas. Nas gaiolas das belas vivendas, pássaros  exóticos morreram de pernas pro ar, e bico aberto, implorando água.
         Nas granjas, galinhas poedeiras  e frangos de corte morreram de batelada, com o papo vazio e o bico seco. Corvos e urubus se fartavam.
         Nas pastagens verdes, o gado levava vida normal, os bezerros não davam conta de tanto leite. Mas, nos confinamentos...toneladas de carne morta. Também banquete dos urubus.
       Os dias se sucederam. Vieram os meses, os anos, as décadas, os séculos. E tudo foi mudando, devagarinho, por  conta das leis da natureza, que  nunca tem pressa.
       As chuvas voltaram a chover regularmente, enchendo as fontes, os mares. Mansamente. Aspergindo a terra com chuveiradas, que mais pareciam bênçãos .
        Os rios corriam  com leveza. Não recebiam mais dejetos produzidos pelos humanos;  nem lixo de hospitais;  nem esgoto das casas e, nem venenos tóxicos das roças e das indústrias.  Pouco a pouco, perderam a cor pardacenta, a viscosidade gelatinosa e o cheiro de fezes. Os peixes respiravam aliviados.
        As árvores  jogavam frutos e sementes ao chão. Logo, outras plantinhas começaram a nascer; no início timidamente, depois vigorosamente, sem medo das máquinas  ceifadoras e dos jardineiros contumazes.
        E o tempo que dá um jeito em tudo, deu um jeito nas carcaças de  animais mortos. Tudo secou e virou pó. E foi absorvido pela  terra, fertilizando-a generosamente.
        Então, a Terra ficou  perfumada.
        Aromas  encheram o ar. Aromas  que exalavam dos jardins floridos, das florestas resinosas, das fontes termais de águas límpidas.  O  clima ficou ameno, a aragem soprava mansamente, ondulando os lençóis de campos verdes, e das árvores choviam flores perfumadas.
        As florestas foram crescendo,  substituindo definitivamente  os canaviais, e ocupando espaços vazios. Animais  selvagens voltaram ao seu habitat, enlouquecidos pela liberdade,  enfim reconquistada.
        Pássaros cruzavam os ares, numa algazarra sem fim. Filhotes pipilavam satisfeitos, seguros em seus ninhos.
        Cães e gatos sobreviventes voltaram às origens, vivendo nas matas, caçando seus alimentos e bebendo  nos  ribeirões.
        Tudo perfeito.
        O Éden.
        E na harmonia silenciosa   do Paraíso Terrestre, 
ouviu-se o vagido 
de um bebê.
               
     Mirandópolis, 16 de dezembro de 2010.
       Kimie Oku (kimieoku@hotmail.com)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

ORDEM TERCEIRA DO CARMO


 CEM ANOS DE LOUVOR A MARIA


“...Deus não nos chama a fazer coisas grandiosas, mas, sim, fazer grandiosamente as coisas comuns do dia a dia”
(declaração do Beato carmelita Tito Brandsma, morto no campo de concentração de Dachau, em 1942)        
É com esse belo ensinamento,
de um carmelita executado na  2ª Guerra,
que a competente pesquisadora e historiadora,
 Maria Nívea Pinto, iniciou o livro sobre
 os Cem anos da Ordem Terceira do Carmo
de Campinas.
Quando ela me disse o nome do livro que estava a escrever, fiquei com muita pena. Puxa, que assunto chato, ela pegou prá destrinchar!  Sobre carmelitas, sobre eremitas, sobre fatos ocorridos há trocentos anos...  Achei sinceramente que, era desperdício de inteligência da amiga. E ainda, pesquisar coisas do século passado, em velhos  alfarrábios e arquivos, que ninguém consulta, há sécula seculorum...
Depois, quando a entrevistei  na Biblioteca  Municipal Profª Silvina Viana Falaschi, de Mirandópolis, e soube que havia trabalhado um ano inteiro pesquisando, para elaborar o livro  e o fizera graciosamente, achei que ela estava  irremediavelmente pinel...
E há uns quinze dias,  me deu um exemplar do livro, autografado. Olhei aquela obra séria e pensei: “Nunca  vou ler isso!” e o larguei por aí, fora do alcance da mão.
Mas a consideração que tenho pela amiga, e a curiosidade, me levaram a folheá-lo. Comecei lendo a declaração acima do Beato,
 que me cativou de vez,
e não consegui mais parar de ler.
Realmente, o assunto não é dos mais atraentes nos dias de hoje, em que a gente descarta tudo, que se torna enfadonho,
 já nas primeiras frases. 
 Mas, a historiadora deixou de lado a sisudez de coisas arcaicas e, narrou a história dos carmelitas,
de forma leve e agradável.
Ela fez uma viagem de volta no tempo, lá pelo século doze e passeou pelo mar Mediterrâneo, indo até a Terra Santa,
 onde começou a Era Cristã.
 E desenhou o cenário da época, com o monte Carmelo ao fundo, onde os ascetas passaram a viver nas grutas e cavernas,
 para  suas meditações.
 Esse lugar,  é considerado  sagrado  pelos cristãos, por ter sido a região, por onde  Jesus andou e pregou .
 E levantou a questão das disputas seculares, entre cristãos e muçulmanos,  sobre Jerusalém.
Também para os muçulmanos,
 Jerusalém é terra sagrada.
(Se o lugar é sagrado e, todos são unânimes em reconhecê-lo, por que não há um acordo, para todas as partes usufruírem,  sem que ninguém queira dele se apossar?...)
Falou das Cruzadas, organizadas pelos Papas para recuperar a terra santa, em nome da Igreja de Roma.
Levantou a questão da perdição de  religiosos, que usavam as vestes sacerdotais, para alcançar
seus mais vis objetivos. Desejos de poder, de riqueza,
 de domínio, de autoridade.
Também escreveu sobre  gente, que contestava essa imoralidade, por ser um desvio do caminho pregado por  Jesus.
Era o  surgimento dos eremitas, que fizeram votos de  castidade e pobreza absoluta e que,
saíram  a pregar pelo mundo,
como mendicantes.
Toda essa ação de contestação é que deu origem aos grupos de leigos que, passaram a viver em prol dos necessitados, doando-se,
 como Jesus ensinara..
Foi assim que surgiram os carmelitas, que passaram a viver, conforme os ensinamentos de Jesus, e devotando-se a Maria.
E como consta no livro, estes  deram origem a grupos  de leigos  (os terceiros) que, mesmo não sendo religiosos, formados em conventos e monastérios, devem ter a sua regra aprovada pelo 
Santo Padre, o Papa.
E a Ordem Terceira do Carmo de Campinas , com seus piedosos carmelitas, completou  em 2009, cem anos de atividades devotadas a Maria.  Os carmelitas  se ocupam em orar  e  em servir ao próximo,
sempre em nome de Maria.
Na verdade, o que me encantou é saber que, mesmo que, a Santa Igreja Católica  como instituição se desvie do verdadeiro caminho,
 a humanidade jamais se perderá, porque o homem é sábio e tem consciência  do que é certo e do que é errado.
A Ordem Terceira do Carmo
 me devolveu a fé no homem.
E não é preciso ter sido togado pelo Papa, nem é preciso carregar  uma cruz no peito, para se praticar o bem e, servir ao próximo. Percebi que, se existem grupos como a Ordem Terceira do Carmo, os ensinamentos e  o sacrifício de Jesus
não foram em vão.
E por fim, concluí que, a Nívea tem mesmo que estar orgulhosa, por ter  realizado essa tarefa, porque ela narrou a história de um grupo, que pode revolucionar o mundo e 
salvar a humanidade, pela oração.
 Assim como,  os  cidadãos  de hoje estão  deixando as metrópoles e buscando a vida simples no campo, as pessoas inteligentes estão descobrindo que, só  o amor salvará o mundo, como pregou 
Madre Tereza de Calcutá.
 E esse amor será mais eficiente se,  abençoado pela proteção de Maria, mãe de Jesus.
Acho que pinel estava eu, no julgamento precipitado 
da ação de Nívea.
E como um dever de consciência, acabei fazendo essa crônica,
para me aliviar do remorso  de fazer pouco, 
da grandiosa  arte da  amiga.
Parabéns aos carmelitas e, a todas as pessoas devotas de Maria,
 que realizam obras  no anonimato de suas vidas, 
para salvar a humanidade.
Parabéns, Nívea, seu livro me encheu de orgulho!
Grande Nívea!

Mirandópolis, 08 de janeiro de 2012.
kimie oku  
(kimieoku@hotmail.com)



domingo, 8 de janeiro de 2012

GENTE DE FIBRA - JORGE CURY



Jorge Cury
           Filho de libaneses, o sr. Jorge Cury nasceu  há 88 anos em Goiânia, Goiás.
                          Seus pais eram comerciantes.  E tinham um armazém de secos e molhados, isto é vendiam de tudo, que os fregueses precisavam no seu dia a dia, lá em Goiânia.
           Quando  o menino Jorge tinha apenas dois anos de idade, seu pai faleceu repentinamente. Diante do ocorrido, sua mãe sem condições de administrar a loja, e cuidar de Jorge e sua irmã, vendeu tudo e veio de mudança para  Vitorino, em Mato Grosso do Sul, onde  moravam  seus pais, que  trabalhavam na lavoura.
           Mais tarde, sua mãe se casou em segundas núpcias  com o senhor José Haddad, que era um  mascate libanês. Com o casamento, eles se mudaram  para Rio Branco, também em Mato Grosso do Sul,  onde  o sr. Haddad abriu um Armazém de secos e molhados, deixando a vida de vendedor ambulante. Alguns anos depois, mudaram-se para Três Lagoas.
           Em 1936, saíram de Três Lagoas e vieram para Mirandópolis. O sr Haddad abriu A Casa Glória que  também vendia  toda variedade de mercadorias, inclusive tecidos. Ao vendê-la para o sr. Assad Abud, essa loja se tornaria a  Casa Santa Glória , que marcaria época por muito tempo, no comércio local e da região.
          Ao lado da loja havia  uma pensão, onde se hospedou um médico baiano, que viera da Bahia. Era o doutor Edgar Raimundo da  Costa,  que acabaria se casando com a  senhorita Dirce,  irmã de Jorge.
           Dr. Edgar Raimundo da Costa seria  uma das pessoas mais importantes da época, não só no atendimento aos doentes,  como na vida social e política da cidade.
          Após vender o armazém, a família de Jorge instalaria  o Bar e Restaurante Pingüim, na esquina da Rafael Pereira com a Domingues de Souza.
           Jorge estudou até o Curso Colegial,  em Lins.
           E de 1941 a 1945 ficou á disposição do Exército Nacional.  Normalmente, teria que prestar um ano de serviço militar, mas  como  o mundo estava em plena guerra, não foi dispensado. Continuou servindo o Exército como radiotelegrafista. Chegou a ser convocado para ir aos campos de batalha, na Europa, mas sua convocação terminou no Rio de Janeiro, onde  foi dispensado como 2º Tenente da Reserva. Rafael Pereira, outro jovem de Mirandópolis foi 
à guerra e acabou perdendo a vida,
 lá nos campos da Itália.
           Após dar baixa no  Exército, Jorge trabalhou nas Casas Pernambucanas, instaladas na  Rua Rafael Pereira .
 Naquela época, era uma construção de tábua, localizada onde hoje  é o escritório Santo Antônio.  Só vendia tecidos  em metros. 
 A moda da roupa pronta  ainda não existia, e todas as vestimentas eram confeccionadas por costureiras e alfaiates. As Pernambucanas não vendiam eletrodomésticos.
  Jorge trabalhou  nessa loja de  1945  a 1946 e chegou a ocupar o cargo de Gerente, temporariamente.    
    Em 1946, casou-se com a senhorinha Luiza Arruda Leite, costureira, que viera de Matão. O casamento ocorreu numa  Igreja de tábua, e foi celebrada pelo padre Epifânio, que mais tarde seria
 Monsenhor Epifânio Ibanez. 
Dona Luizinha costurou muita roupa para as senhoras da sociedade.
           Em 1950,  Dr. Edgar  era uma das pessoas de maior destaque do município  e foi  nomeado Presidente Regional do partido político P.S.P.  ou Partido Social Progressista, cujo representante maior era o sr. Ademar de Barros, então Governador do Estado. 
           Contando com o total apoio do Governador, o cunhado Dr. Edgar conseguiu muitos benefícios para a cidade, dentre os quais a construção do prédio do Ginásio Estadual, que mais tarde seria denominado
 Colégio Estadual Noêmia Dias Perotti. 
O diretor era o professor Pedro Perotti Neto e como Secretário foi nomeado  o  Dr. Neif  Mustafa.  
Jorge Cury foi nomeado Inspetor de alunos, cuja tarefa era controlar a entrada e a saída dos alunos. Essa função permitiria que conhecesse centenas de jovens, que estudaram no Colégio, onde trabalhou por décadas.
           Dr. Edgar  conseguiu também a instalação do Posto de Saúde, onde foi o 1º médico e  atuaria por anos cuidando dos doentes  da localidade. Nessa época, não havia nenhum hospital na cidade e nas proximidades, então o Posto de Saúde foi  uma grande conquista.
           Em 1956, Jorge Cury foi  eleito Vereador,  mandato  que  exerceu  até  1959,  na gestão do Prefeito Alcino Nogueira de Sylos. Nesse período, a cidade foi beneficiada com a construção do C.A.M,  Clube Atlético de Mirandópolis;   do  Estádio Municipal, que mais tarde receberia o nome de Alcino Nogueira de Sylos;  e da Estação de Tratamento de Água, que ainda não existia  na cidade.     
           Dona Luizinha, esposa do sr. Jorge Cury comandou a cantina da nova escola por três anos, passando-a depois para a família do sr. Orlando Bordoni, que foi o Diretor a partir de 1974. 
 Dona Luizinha já explorava a cantina do C.A.M . servindo boa comida para os funcionários das empresas, que  vieram se instalar na cidade. Ali ela trabalhou durante quinze anos, com a ajuda do marido Jorge.
    O casal Cury  teve quatro filhos, e nessa época , o  sr. Jorge  achou  melhor  mudar-se  para   São   Paulo, para que os filhos  adolescentes pudessem estudar. 
Transferiu-se como Inspetor de Alunos  para o Colégio Macedo Soares, que ficava nos Campos Elíseos. Era um colégio grande que atendia a mais de 2500 alunos. Aí, ele chegou a trabalhar também de Assistente de   Diretor. Aposentou-se em 1982.
           Para não ficar ocioso, seu Jorge  assumiu outra empreitada : junto com  o amigo Antonio Braga,  começou a construir casas entre Guarujá e Bertioga. Enquanto isso, os filhos foram conseguindo concluir seus estudos.
 O mais velho se formou como Especialista  em Ponta de Estrada, as duas moças se tornaram professoras e o mais novo se especializou em Turismo.
    Com os filhos já encaminhados e  se casando, seu Jorge e dona Luizinha resolveram voltar para Mirandópolis, para curtir a aposentadoria junto de amigos, que haviam deixado aqui.  
Em 1994, vieram de mudança para cá.  Infelizmente, dona  Luizinha  partiu recentemente deixando seu Jorge muito só, após 64 anos de vida conjugal.
    Hoje , o seu Jorge vive só, mas sempre as filhas, que moram em Guarujá, e o filho que mora nas proximidades vêm vê-lo,  e não descuidam dele, preocupados com sua saúde, uma vez que está com 88 anos de idade. 
 Mas, seu  Jorge é um homem forte, simples e bem animado.  Viaja para São Paulo, para Tocantins, para Guarujá e para Andradina sempre, para ver os familiares. E vai sozinho. Tem  uma memória admirável. É muito bem humorado e diz que quer viver 
até os cem anos.
    Jorge Cury, que trabalhou quase a vida toda entre estudantes, foi soldado em tempos de guerra, foi vereador, foi construtor, foi comerciante.
        Jorge Cury, homem que experimentou de tudo nessa vida,  é um homem feliz, 
é sobretudo,  gente de fibra 
                                                                                                                Mirandópolis, novembro/2011
                               KimieOku (kimieoku@hotmail.com)           
          

            

sábado, 7 de janeiro de 2012

GENTE DE FIBRA - PALMIRA MARTINS DA SILVA

Gente de fibra 
Palmira Martins da Silva

   

          Hoje vou contar a trajetória de uma doce e  gentil senhorinha.
       É a senhora Palmira Martins da Silva, que nasceu há 75 anos em Mococa, SP.
        Com sete anos de idade, veio de mudança para a Fazenda Buenópolis, em Lavínia, onde por oito anos ajudou a família na lida do café.
        Com apenas 15 anos, casou-se com Laurindo Aprígio da Silva, e mudaram-se para Aguapeí, em Valparaíso, onde trabalharam muito  na roça, como boias frias. Tiveram oito filhos, dos quais um faleceu, ainda criança.
        Dona Palmira teve que dar duro na vida, para sustentar a família, porque infelizmente, o marido se entregou ao vício da bebida. Ela não podia contar com ele, para alimentar os filhos.
        Houve uma época em que conseguiram comprar um sítio em Rio Negro, Mato Grosso. Mas, o esposo vendeu o sítio e toda a safra e, vieram de mudança para Araçatuba. Desse patrimônio todo, rendeu apenas uma charrete e um animal. Restou também uma máquina de costura, que é hoje a preciosidade de dona Palmira. Havia também duas casas herdadas do sogro, que o esposo vendeu. Até hoje, ela lamenta a perda dessas casas.
        Com sete crianças para sustentar e, não podendo contar com a ajuda do marido, dona Palmira trabalhou dobrado. Desde  pequeninos, os filhos foram encaminhados aos trabalhos duros na roça.
        Quando a sua peleja estava insuportável, com o marido doente, sua sogra condoeu-se da nora e levou o filho Laurindo para cuidar. Ele veio a falecer um ano depois. O filho mais velho era apenas um jovem de 17 anos e o menor só tinha 4 anos .  Os filhos foram crescendo e trabalhando muito. Ajudaram a mãe Palmira a cuidar de todos.
        Desses tempos tão difíceis, lembra que não tinha dinheiro para comprar café, que ela tanto  queria tomar. E aí, ela colhia sementes de fedegoso, que é um arbusto que cresce nas pastagens. Colhia, torrava e socava no pilão para fazer café. Diz ela que não era gostoso, mas dava para enganar.
        E isso ocorreu no Brasil, onde a renda principal do povo era baseada na cultura do café....Naqueles tempos duros, muita gente apelou para o fedegoso em substituição ao café. Tempos heroicos, feitos de trabalho, trabalho, trabalho e muita canseira.
        Dona Palmira não teve chance de estudar. Foi apenas 15 dias  à escola, de onde foi retirada para carpir os cafezais...
        Tem na família o seu tesouro. Ela diz que os filhos são muito bons. Entre eles, há um pedreiro, motorista  de caminhão, funcionários da Usina, trabalhadores rurais e uma dona de casa. Todos trabalhadores e honestos.
        Há um tempo atrás, dona Palmira levou um tombo e quebrou um fêmur. Ficou acamada por um ano , e nesse tempo todo, foi cuidada com desvelo por uma nora, a quem é muito, muito grata. Diz que essa nora cuidou dela, como se fosse uma filha.
        Dona Palmira não trabalha mais, mesmo porque anda com a ajuda de uma bengala e tem o coração fraco.   
       Entretanto, mora sozinha numa casa pequenina, como uma casa de bonecas. E passa os dias confeccionando tapetes de retalhos coloridos, para engordar um pouco a sua renda de aposentada. Parece uma menina brincando de bonecas.
       Dona Palmira, mulher pequenina e valente, que criou e encaminhou sete filhos, uma heroína, é gente de fibra!

            Mirandópolis setembro de 2011.
                         kimie oku  in "cronicasdekimie.blogspot.com" 


    Observação: dona Palmira faleceu em 2015.
   

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012



CIRANDANDO  COM  A  MORTE

   A única certeza que herdamos ao nascer, é a certeza absoluta e inevitável da morte.
   Mas, ninguém gosta de pensar nela, considerando-a uma inimiga, sempre à espreita, querendo roubar o único bem, 
que herdamos de Deus.
   Entretanto,  ela virá um dia, uma hora, em algum momento, porque cada um de nós tem um tempo predeterminado, cuja duração ninguém sabe.
Gosto de pensar em “shukumei”, ou predestinação, ou missão, que nós temos que cumprir. 
E não adianta tentar esquivar-se, fugir dele, mudar o rumo 
da vida, 
que o shukumei
nos alcançará, e fará que se cumpra o que foi determinado.
   À primeira vista, parece desalentador pensar assim,  porque  faz-nos sentir como robôs teleguiados, por uma força poderosa, que não respeita a nossa  vontade e rouba de nós, 
livre arbítrio.
Mas isso faz aceitar o destino, de algumas pessoas queridas, que de repente partem, sem mais nem menos. Porque, nunca é fácil o contato com a morte.
Por mais realista que a pessoa seja, a morte é um choque, que nos faz pensar numa força poderosa,  fora de nosso alcance, de nosso poder, até de 
nossa inteligência... 
Faz-nos pensar em criaturas celestes, que pairam sobre nossas cabeças, elegendo quem deve partir desse planeta. Faz-nos pensar em Buda, Kamissamá, Tupã, 
 Jeová, Alá, Jesus , 
Deus... aquele Ser Supremo,
 que tem o poder 
de vida e morte sobre
 todas as criaturas. 
Poder absoluto.
E não adianta implorar para prorrogar o tempo a  nós destinado, nem solicitar a chegada  imediata da inexorável visita, porque  o que está determinado 
se cumprirá, 
no devido momento.
Ultimamente, temos perdido amigos tão repentinamente, que deixaram incrédulos todos, que tomaram ciência dos  fatos. 
E assustados.
Tenho um amigo que, nessas horas costuma dizer : “Olha, o companheiro que estava bem à minha frente na fila, 
se foi...”
É apenas uma frase, um chiste, mas contém uma verdade, que não dá para ignorar.  “Alguém partiu, eu fiquei, 
o próximo poderá 
ser eu...”
Quando perdemos o cirandeiro Egídio Vicente, um amigo me ligou perguntando, que homenagem a Ciranda lhe prestaria       
 no seu funeral. 
Homenagem? Para alguém que partiu? Que não pode mais se comunicar com 
a gente que restou?
Fiquei pensando no assunto e  concluí que, nós devemos prestar todas as homenagens,
 em vida.
 Que essa de levar coroas maravilhosas, para enfeitar salas de velórios e túmulos, nada  significam. 
Talvez sirvam de consolo para quem 
as oferece. 
Talvez  tenham um significado para a sociedade...  “O cidadão era muito benquisto e respeitado, porque havia 
 trocentas coroas...”  
Mas, um bilhão de coroas de flores não devolverão a vida de quem se foi... Então,
 para que servem?
Aí, percebi que nós da Ciranda, vamos ter que lidar com a morte, constantemente. 
É que todos nós, já passamos de sessenta anos e estamos na descida da ladeira, com alguns amigos que, já viveram 
 mais de oitenta anos.
 E pela ordem natural das coisas, os mais idosos irão primeiro, salvo algumas exceções. Então, que homenagens lhes prestaremos?
As homenagens da Ciranda são os 
encontros mensais, 
as rodas de amigos cantando velhas canções, brincando , orando, declamando, brincando de ciranda mesmo.
Existe homenagem melhor e 
mais bela?
Mesmo o nosso querido 
Egídio Vicente  era contrário a homenagens pós-morte. 
Dizia que, queria tudo que merecia receber, em vida. 
E de alguma forma, lhe proporcionamos momentos de lazer, com nossos encontros, em que ele cantou, riu muito, discursou, brincou e só não dançou
 porque a perna mecânica 
não lhe permitiu... 
E temos absoluta certeza, que foi muito feliz, nesse último
 ano de sua vida, 
na Ciranda.
E tudo isso, me fez pensar como é importante a Ciranda,
 porque os encontros mensais proporcionam momentos de felicidade, 
às pessoas solitárias.
 E quando chega o momento de partir, a pessoa que viveu bem, foi feliz, irá contente  por ter curtido tudo que 
tinha direito.
Então, é preciso viver o momento, que Deus está nos concedendo ainda, 
aproveitar o tempo, 
“carpe diem” 
como dizia Horácio, 
na Roma  antiga.
   E a Ciranda vai continuar com as tardes de lazer, para que  os cirandeiros aproveitem o tempo, que lhes resta,
 brincando e cantando. 
Celebrando a própria vida.
   Existe homenagem 
mais bela?
   Homenagem em vida.

Mirandópolis, 06 de janeiro de 2012.
                        kimieoku@hotmail.com)
(cronicasdekimie.blogspot.