Gente de fibra –
Iracy e Domingos Caldatto
Como
é agradável passar uma tarde num sítio, curtindo o ar puro em companhia de
amigos. E tomando um cafezinho junto.


Pois é, passei uma tarde tão
interessante ouvindo o relato da vida desse casal Caldatto, que todo mundo
conhece, mas não sabe das passagens de sua vida.
Iracy Artuzi Caldatto nasceu em
Paraíso, perto de Catanduva, há 66 anos e veio de mudança para Guaraçaí.
Domingos Geraldo Caldatto veio de Novo
Horizonte também perto de Catanduva, e veio morar no Bairro Barreirão, em
Lavínia.
Ambas as famílias vieram cultivar café,
que era a base da economia da época, há quase seis décadas.
Os caminhos desse casal já estavam
traçados, mesmo antes de se conhecerem. Seu Domingos confessou que sonhara com
ela antes de conhecê-la. Dona Iracy queria ser freira e estava preparando o enxoval
para ir ao Convento, quando conheceu o jovem. Predestinação? Estranhos são os
caminhos do Senhor.
Dois anos depois, eles estavam casados.
E dona Iracy veio morar aqui em Mirandópolis, na Chácara dos Caldatto, bem ali
na curva do caminho para o Córrego do Boi.
A labuta era com café e criação de gado.
Dona Iracy morou com os sogros e
cunhados na Chácara, onde teve três filhos: o varão é hoje um carreteiro e mora
em Mato Grosso, uma filha que mora também na Chácara é comerciante e a mais
nova é artesã e mora em São Paulo. Além deles têm quatro netos, dois genros e uma nora.
Seu Domingos tem boas lembranças de quando era mais jovem. Lembra que seus vizinhos eram todos de origem japonesa, e cada família possuía um pequeno lote de terras, como os Mike, os Nakamura, os Hassuyuki, os Yamazaki e os Maeda. A maioria foi embora e, agora as pastagens dominam os sítios que eram de cafezais. O senhor Paulo Mike era seu vizinho e, construiu uma bela casa na propriedade que hoje pertence aos Sasaki.
Lembra também que o senhor Mike foi
quem abriu a Máquina de beneficiar café, que mais tarde seria do Lourencinho e
de seu Abelardo. Na época, havia a Máquina dos Ohara, dos Parra Sanches e mais
tarde dos Minari, que beneficiavam arroz, cuja produção era farta na região. Havia
também a Comercial Perez, que beneficiava café, exatamente no local hoje
ocupado por um Supermercado.
Uma das boas lembranças que tem é sobre
o Senhor Antenor Nepomuceno, um fazendeiro local a quem deu carona com seu jipe
até a Fazenda, porque os carros de táxi não conseguiam atravessar a lamaceira
que se formava nas ruas da cidade,
quando chovia muito. Lembra que o levou até a Fazenda e teve que buscá-lo no
dia seguinte, por conta da chuva.
Dentre as pessoas que conheceu, o padre
Epifânio Ibanez se destaca como um religioso bravo, mas muito correto, que
batizou seus filhos. Conheceu o Dr. Neif, que era um homem muito direito, o
Senhor Geraldo Braga e o senhor Alcino Nogueira de Sylos, que foram Prefeitos
locais. Mas, a lembrança melhor que o casal tem é do Doutor Alcides Falleiros e
de dona Dovina, que coordenavam os Encontros de casais do Cursilho. Têm
lembranças muito bonitas dessa época. Lembram também com saudades do Padre
Vicente e do Padre Messias.
A vida desse casal teria uma direção
única e predeterminada, que seria curtir a aposentadoria na solidão da Chácara,
como ocorre com a maioria dos lavradores. Mas, não foi assim.
Certo dia, a dona Iracy estava vendo um
Programa de Variedades na tevê, onde apareceu um artesão nordestino que fazia
trabalhos manuais com palmas de coqueiro. Como na Chácara havia três pés de babaçu
com muitas folhas, dona Iracy gravou o programa. Depois, com certa dificuldade
conseguiu fazer uma cestinha, seguindo as instruções do vídeo gravado.

No primeiro dia, dona Iracy ficou
incomodada porque as parceiras de mesa usavam toda a sua palha, deixando-a na mão. No dia seguinte,
levou a cestinha de palma de coqueiro, que ela havia feito tempos atrás, e
colocou a sua palha dentro dela. Enquanto pelejava com a palha de milho, uma
senhora se aproximou e perguntou sobre a cestinha. Quando soube que era de sua
autoria, a senhora lhe pediu para ensinar outras pessoas a trabalhar com palmas
de coqueiro. Dona Iracy recusou o convite, mesmo porque era uma pessoa simples
e nunca havia dado aulas em sua vida. E estava bastante insegura também.
Dona Iracy soube então que ela era a
Supervisora dos Cursos promovidos pelo SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem
Rural), dona Laurinda Morales, de Osvaldo Cruz.
Diante de muita insistência, dona Iracy
acabou cedendo e deu sua primeira aula em Osvaldo Cruz, para mais de vinte
alunos. Isso foi há mais de onze anos, e foi o começo de uma grande aventura.
Nesses onze anos de transmissão de
conhecimentos, dona Iracy saiu do casulo, conheceu cidades, costumes
diferentes, aprendeu muito, fez amizades, conheceu regiões diferentes do Estado
e, sobretudo fez amigos. E ela é muito grata à senhora Laurinda Morales que
acreditou nela, e a encaminhou para uma vida cheia de aventuras, Porque a vida
de artesão é muito interessante.
Mas, o que mais gosta de fazer é dar
aulas e ver os alunos se realizando ao confeccionar suas cestas, seus chapéus,
seus bonecos. Ela tem notícias de alunos seus que, estão produzindo artesanato e
ajudando no orçamento da família. Hoje acredita que, Deus lhe mostrou o caminho
de artesã, para que ela possa ensinar as pessoas a aproveitarem os recursos
naturais, e tornar suas vidas mais interessantes. Seu esposo, o seu Domingos
sempre a leva às cidades onde acontecem os cursos, e ela é grata por sua
atenção.
Mirandópolis, agosto de 2013.
Sem palavras para agradecer o carinho com texto da memoria viva de meus queridos Pais,
ResponderExcluirDona Iracy fez a diferença, né Ana? Cada pessoa tem um caminho a seguir. E o que ela faz nessa caminhada é que torna interessante a vida dela. E interessante é que ela é feliz fazendo do artesanato a sua ocupação, o hobby, o lazer, o trabalho, a sua criação.
ResponderExcluirAdivinhe o que estamos revendo hoje....
ResponderExcluirtexto maravilhoso
abraços