Impressões que ficam
Há um bocado de tempo atrás, eu
não sabia nada da língua japonesa. Queria entender o que as pessoas falavam e
não conseguia. Eu me sentia completamente idiota, por não saber a língua de
meus pais e ancestrais.
Aí, um Professor que viera do
Japão, resolveu ministrar aulas noturnas aos adultos, que estivessem
interessados. E lá fui eu, mais que interessada. A princípio, porém, me sentia
totalmente perdida, porque não captava nada do que ele dizia.
E passei a assistir aos programas do canal
japonês NHK, para ver se absorvia alguma coisa. Mas, esse canal é mais ou menos
parecido com a Tevê Cultura do Brasil, e a linguagem é mais culta e refinada
que a linguagem do dia a dia, e eu conseguia apenas entender uns vinte por
cento do noticiário. E olhem que tinha fotos e outras imagens...

Eu era a pessoa mais ignorante do
grupo de pessoas que iam à escola noturna. E vivia fazendo perguntas às
colegas, que traçavam a língua com certa facilidade, e conseguiam manter um
diálogo com o Professor. Achei normal perguntar a uma delas o significado de “hio
tenka”. Não sei o que houvera com a colega, que me tratou com a maior frieza e,
disse que “hio tenka” significa frio, abaixo de zero, nível de congelamento.
Era como se me dissesse: “Você é tão ignorante que nem isso sabe?”
Nunca mais esqueci o significado,
porque à frieza da expressão se juntou a frieza da colega, que também foi
abaixo de zero. E toda vez que penso nela sinto essa frieza de gelar.
Foi a impressão que ficou.
Impressão muito desagradável.
E passei a notar que algumas
impressões marcam e ficam para sempre em nossa memória. Várias vezes fui
apresentada a pessoas simpáticas e atenciosas, e eu acabei amando-as de
verdade. E a outras que, me esnobaram como se fossem celebridades, e constatei
mais tarde que, eram mais ocas e vazias que cabaças.

Os convites para essa Conferência
que ocorreu no Anhembi eram limitados, e sabia que eu tivera o privilégio de
estar lá. A expectativa era grande.
Todos esperavam ver uma estrela, pois era famosa em toda a América Latina,
apesar de a maioria não acreditar em suas pregações.
Havia cerca de 500 participantes
e era um zum zum sem fim. Quando anunciaram a palestrante foi uma decepção. A
mulher era enorme como uma matrona, de
cabelos longos, lisos e vestia uma simples bata. Perto de mim alguém
disse: “Essa coisa é a Emília
Ferreiro?!!!”
Mas, quando ela começou a falar
sobre as crianças foi de arrasar. Falava em castelhano, mas falava devagar para
todos entenderem. Durante toda a palestra, que durou seguramente quase duas horas não se ouviu uma tosse
sequer. Ela nos deixou fascinados. Disse que, os processos de alfabetização
usados em toda a América Latina não respeitavam a criança, como um ser
inteligente, que vê, que escuta, que observa e tira conclusões. Disse que toda
criança normal é capaz de construir o seu conhecimento, a partir de
experiências vivenciadas no dia a dia. Basta o Professor direcionar as
atividades para tal fim.
Então, ficou em minha mente a
figura de uma mulher corajosa, inteligente que se opunha violentamente às
lições decoradas, que transformam crianças em robôs teleguiados, incapazes de
pensar. A impressão que ela deixou em mim foi muito forte e percebi o quanto a
gente vinha errando, tratando crianças como seres cegos, surdos e mudos, que
não percebem o que existe ao seu redor. (Estávamos alfabetizando com a Cartilha
Caminho Suave, que não levava em consideração os interesses das crianças!)
E então, foi aquela loucura de
levar revistas e jornais para a sala de aulas, e deixar as crianças recortarem
letras conhecidas. Algumas logo acabaram montando o próprio nome com os
recortes. Era a construção do Conhecimento, dirigida pela própria criança! E
tudo parecia uma brincadeira! E elas caminhavam a passos rápidos, reconhecendo
letras e palavras vistas no cotidiano, em suas casas, e no caminho da escola.
Aprender passou a ser uma atividade prazerosa, pois todos tinham algo a
acrescentar às descobertas do dia.
Foi uma pena que, só tive contato
com o Construtivismo já no final da minha carreira. Poderia ter ajudado mais os
colegas professores na alfabetização.
Hoje já existem materiais mais
modernos, coloridos que atraem as crianças para as brincadeiras de formar
palavras, e tudo se tornou mais fácil. E espero que os professores
alfabetizadores tenham entendido e absorvido o Construtivismo. E estejam
aplicando-o nas suas ações pedagógicas.
Mas, já sou aposentada e não devo
tentar passar lições para ninguém, mesmo porque meu tempo já era.
Apenas quis passar esses dois
momentos de minha vida, cujas lembranças ficaram para sempre gravadas em minha
memória. Um momento que deixou uma lembrança gelada, e outro que me deixou mais
apaixonada pela educação.
Mirandópolis, março de 2013.
kimie oku
in cronicasdekimie.blogspot.com
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