Dentre os filmes
brasileiros que ficaram famosos no mundo da arte, sem dúvida nenhuma, podemos
eleger o Pagador de Promessas.
Foi escrito por Dias
Gomes e dirigido por Anselmo Duarte em 1962, isto é há exatamente 51 anos.
O tema central é o Sincretismo
Religioso, que é comum entre os brasileiros. Os nossos crentes seguem duas a
três crenças religiosas, sem nenhum conflito. É estranho, mas há lógica para
isso.
Isso remonta à época
do descobrimento com a população nativa adorando os deuses da Natureza: Tupã,
deus do Trovão a quem temiam mais que tudo, Coaraci, o deus Sol, Jaci, a deusa
Lua, Amanaci, a deusa da Chuva.
Os colonizadores
europeus trouxeram suas crenças, seus temores num Deus único, representado por
Cristo da Igreja de Roma.
E vieram os africanos, com seu Candomblé, seus
orixás, babalaôs, Iansã, Exu, Oxalá...
E os orientais com a
filosofia budista e alguns ensinamentos zens.
Tudo isso virou uma
cultura confusa, cheia de nós, que cada qual passou a adotar livremente. Mas, o
mais comum entre a gente simples é a veneração a Nossa Senhora da Aparecida,
Padroeira do Brasil, enquanto seguem outras seitas. Há quem cultive a Religião
católica, frequentando missa e outras cerimônias e também participando de
sessões de Centros Espíritas. Outros são católicos de carteirinha e frequentam
terreiros de Candomblé.
Mesmo os japoneses, que vieram do Japão, trouxeram já como
tradição venerar o Deus do Xintoísmo, voltado mais para a Natureza, e o próprio
Buda, Deus da Benevolência. E era costume possuir dois altares para esses
deuses, que ainda são cultuados entre alguns remanescentes de imigrantes. Isto
é sincretismo religioso oficializado e comumente aceito.
Tenho amigas que
veneram os santos orientais, e ao mesmo tempo acendem velas para a Senhora
Aparecida, a quem dirigem suas preces e seus pedidos mais urgentes.
Mas, voltando ao filme
que ganhou Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962, o enredo gira em torno
de uma promessa. Zé do Burro prometeu a Santa Bárbara/Iansã, que carregaria uma
cruz de madeira até a Igreja de Santa Bárbara, se curasse seu burro doente.
Burro curado, Zé fez a
cruz pesada de madeira e junto com Rosinha sua mulher andou sete léguas para
pagar a promessa.
Ao chegar a Salvador,
diante da Igreja, ele se confronta com o padre da Igreja que não lhe permite
pagar uma promessa feita em terreiro de Candomblé. E a peleja dura dias, com o
Zé querendo entrar na igreja com a cruz e o padre obstinado, ameaçando de
excomunhão o pobre diabo, que na sua simplicidade, não entende a intransigência
do religioso.

Se o padre tivesse um
tico de tolerância, teria deixado o herói da história cumprir a promessa e tudo
teria terminado sem incidentes. Mas... O padre era duro na queda e
intransigente, convicto de estar defendendo a “sua” igreja. E o Zé não queria faltar à promessa, então a
peleja parece não ter fim.
O filme foi muito bem
elaborado, com o ator Leonardo Villar e a atriz Glória Menezes nos papéis de Zé
e de Rosinha. Dionísio de Azevedo fez o padre. Era em preto e branco, mas o
tema é tão atual, apesar de ser uma história contada há meio século. Há muita
gente hoje que ainda age como o padre do filme.
Às vezes, vislumbro
alguns meninos no face book colocando mensagens discriminatórias contra outras
religiões, contra homossexuais, contra os diferentes. Não entendo como essa
gente moderna, que já leu de tudo, que conhece tantas filosofias e tantas
teorias, consegue ficar confinado em suas crenças, sem nenhuma abertura para
outras. Se Deus não aceitasse os homos, não os criaria. É como renegar um
deficiente. Quem tem direito de fazê-lo?
Eles têm culpa de serem assim?

Assim como Deus povoou
a Terra com criaturas diferentes, humanos de cores diversas, é natural que cada
povo tenha descoberto seus caminhos de fé, de esperança, de libertação.
E se todos aprendessem
a respeitar as opções alheias, não haveria conflitos, brigas, discriminações e
nem guerras.
José Saramago me
escreveu certa vez que, não acreditava na existência de Deus, mas que
respeitava os que assim acreditavam.
Mirandópolis, julho de
2013.
kimie oku
in http://cronicasdekimie.blogspot.com
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