Velhas Casas Velhas
Apenas postei as fotos porque bateu uma
tristeza ao ver aquelas imagens, e quis compartilhar com os amigos. Acredito
sinceramente que, deve haver uma razão muito forte para esse abandono, porque a
Associação Nipo de Mirandópolis é muito ativa e não abandonaria o velho casarão,
se não houvesse motivos fortes para tal.
Certa vez, escrevi sobre uma casa que está há muito tempo fechada e desmoronando. O que me incomodava eram os pés de carrapicho que se multiplicavam na calçada, atrapalhando a circulação dos pedestres... Pois, alguém não gostou e, me disse os maiores impropérios que se possa imaginar... Deixar a calçada dos pedestres virar um carrapichal? Ninguém merece!
Sei que deve haver mil razões para se
abandonar uma casa velha. Questões de herança, de partilha, de acordos
desacordados, de Justiça, de recursos pendentes, de impostos não pagos... Mas, um dia, tem que ser solucionado...
Toda vez que, passo diante de uma velha
casa abandonada, fico imaginando quem teria morado nela, se houve risos de
crianças, mães cuidadosas estendendo roupas no varal, avós ninando netos,
irmãos se digladiando, meninas brincando de bonecas, pais chegando cansados do
trabalho... Se alguém ouvia músicas no pequeno radinho, se alguém cantava
quando estava feliz, se houve choros, desavenças, reconciliações, abraços,
alegria, festas...
As casas abrigam além das famílias, seus
sonhos, suas esperanças, seus conflitos, seus combates, suas pelejas de uma
vida toda. E enquanto as pessoas lá moram, as paredes ficam firmes, os telhados
se mantêm, os vidros não racham, os soalhos se conservam, o portão funciona.
Mas, quando as famílias as deixam e
ninguém vem ocupar seu lugar, as casas vão morrendo aos poucos, não sei por que
razão. Toda casa desocupada pouco a pouco vai desmoronando. Parece que elas se
mantêm com a força da vitalidade das pessoas, que ocupam o espaço.
Eu e minha família moramos num sítio, lá
perto de Tabajara por aproximadamente trinta e sete anos. Inicialmente, era uma
casa de tábuas, que foi substituída por
outra de tijolos. Esse lugar, que tinha amoreiras, jabuticabeiras,
mangueiras, abacateiros, cajueiros, laranjeiras, bananeiras e três imensos
bambuzais era a minha pátria, meu refúgio, para onde ia mesmo depois de casada,
porque ali eu sonhara os meus melhores sonhos de adolescente. Depois que o
lugar deixou de ser da família, fiquei durante anos sem visitá-lo. Anos mais
tarde, movidos pelas saudades, junto com alguns familiares fomos rever o lugar.
Desolação total... O lugar se transformara em pastagem de gado nelore. O velho
poço que nos fornecera água fresca e saborosa durante décadas, fora enterrado.
Os barracões foram demolidos, e a casa
se transformara em abrigo de animais. E morada de morcegos... Não era mais uma
residência. Era um curral.
Para doer menos, fomos ao quintal para
ver as árvores frutíferas, que meus pais haviam plantado. Não havia mais limão
galego, nem tangerina, nem mexerica, nem laranja baiana, nem bananeiras, nem
abacateiros, e nem jabuticabeiras. Muito triste. Restaram o velho pé de manga coração de boi,
um bambuzal apenas, e o velhíssimo pé de guaivira, que fornecera tantos cabos
de enxada e machado para as lidas da roça.
Sempre achei que a casa que nos acolheu
em nossa infância seria sagrada para todos. Mas, nem todos pensam assim.
Desfazem-se de suas casas, como se trocassem de roupas... Outros tempos, outros
sentimentos.
As casas guardam lembranças, momentos
vividos que nunca mais se repetirão, guardam os risos, os choros, as alegrias
de festas de aniversários, os cheiros de comida gostosa que as mães fizeram no
capricho.
Guardam as lembranças de festas, de
visitas interessantes, de momentos de paz vivenciados com a família comendo um
bolo e, tomando um cafezinho. Guardam as
vozes de todos que por lá passaram, dos vizinhos, do leiteiro, do sorveteiro
com seu apito, do guarda noturno, do carteiro... E acima de tudo, a voz dos pais...
Como um lugar desses pode ser esquecido?
Mirandópolis, fevereiro de 2014.
Nenhum comentário:
Postar um comentário