terça-feira, 13 de agosto de 2013



                Gente de fibra –
      Iracy e Domingos Caldatto


         Como é agradável passar uma tarde num sítio, curtindo o ar puro em companhia de amigos.  E tomando um cafezinho junto.

         Pois é, passei uma tarde tão interessante ouvindo o relato da vida desse casal Caldatto, que todo mundo conhece, mas não sabe das passagens de sua vida.

     Iracy Artuzi Caldatto nasceu em Paraíso, perto de Catanduva, há 66 anos e veio de mudança para Guaraçaí.
         Domingos Geraldo Caldatto veio de Novo Horizonte também perto de Catanduva, e veio morar no Bairro Barreirão, em Lavínia.
         Ambas as famílias vieram cultivar café, que era a base da economia da época, há quase seis décadas.
         Os caminhos desse casal já estavam traçados, mesmo antes de se conhecerem. Seu Domingos confessou que sonhara com ela antes de conhecê-la. Dona Iracy queria ser freira e estava preparando o enxoval para ir ao Convento, quando conheceu o jovem. Predestinação? Estranhos são os caminhos do Senhor.
         Dois anos depois, eles estavam casados. E dona Iracy veio morar aqui em Mirandópolis, na Chácara dos Caldatto, bem ali na curva do caminho para o Córrego do Boi.  A labuta era com café e criação de gado.
         Dona Iracy morou com os sogros e cunhados na Chácara, onde teve três filhos: o varão é hoje um carreteiro e mora em Mato Grosso, uma filha que mora também na Chácara é comerciante e a mais nova é artesã e mora em São Paulo. Além deles têm quatro netos, dois genros e uma nora.
        
Seu Domingos tem boas lembranças de quando era mais jovem. Lembra que seus vizinhos eram todos de origem japonesa, e cada família possuía um pequeno lote de terras, como os Mike, os Nakamura, os Hassuyuki, os Yamazaki e os Maeda. A maioria foi embora e, agora as pastagens dominam os sítios que eram de cafezais. O senhor Paulo Mike era seu vizinho e, construiu uma bela casa na propriedade que hoje pertence aos Sasaki. 
         Lembra também que o senhor Mike foi quem abriu a Máquina de beneficiar café, que mais tarde seria do Lourencinho e de seu Abelardo. Na época, havia a Máquina dos Ohara, dos Parra Sanches e mais tarde dos Minari, que beneficiavam arroz, cuja produção era farta na região. Havia também a Comercial Perez, que beneficiava café, exatamente no local hoje ocupado por um Supermercado.
         Lembra também do asfaltamento da Rua Gentil Moreira, inicialmente denominada Rua Araçatuba, em homenagem à cidade de Araçatuba que era bem asfaltada. Nessa rua, existia um Bazar do senhor Kondo, cuja esposa dona Kátia ensinou bordados para as moças e senhoras da cidade. E lembra ainda que nessa rua havia a Livraria de dona Dinorah, esposa do seu Ênio Pucci.
         Uma das boas lembranças que tem é sobre o Senhor Antenor Nepomuceno, um fazendeiro local a quem deu carona com seu jipe até a Fazenda, porque os carros de táxi não conseguiam atravessar a lamaceira que  se formava nas ruas da cidade, quando chovia muito. Lembra que o levou até a Fazenda e teve que buscá-lo no dia seguinte, por conta da chuva.
         Dentre as pessoas que conheceu, o padre Epifânio Ibanez se destaca como um religioso bravo, mas muito correto, que batizou seus filhos. Conheceu o Dr. Neif, que era um homem muito direito, o Senhor Geraldo Braga e o senhor Alcino Nogueira de Sylos, que foram Prefeitos locais. Mas, a lembrança melhor que o casal tem é do Doutor Alcides Falleiros e de dona Dovina, que coordenavam os Encontros de casais do Cursilho. Têm lembranças muito bonitas dessa época. Lembram também com saudades do Padre Vicente e do Padre Messias.
         A vida desse casal teria uma direção única e predeterminada, que seria curtir a aposentadoria na solidão da Chácara, como ocorre com a maioria dos lavradores. Mas, não foi assim.
         Certo dia, a dona Iracy estava vendo um Programa de Variedades na tevê, onde apareceu um artesão nordestino que fazia trabalhos manuais com palmas de coqueiro. Como na Chácara havia três pés de babaçu com muitas folhas, dona Iracy gravou o programa. Depois, com certa dificuldade conseguiu fazer uma cestinha, seguindo as instruções do vídeo gravado.
         Como gostava de inventar e criar artesanato com suas mãos, um dia foi aprender a trabalhar com palha de milho, num curso promovido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural.
         No primeiro dia, dona Iracy ficou incomodada porque as parceiras de mesa usavam toda a  sua palha, deixando-a na mão. No dia seguinte, levou a cestinha de palma de coqueiro, que ela havia feito tempos atrás, e colocou a sua palha dentro dela. Enquanto pelejava com a palha de milho, uma senhora se aproximou e perguntou sobre a cestinha. Quando soube que era de sua autoria, a senhora lhe pediu para ensinar outras pessoas a trabalhar com palmas de coqueiro. Dona Iracy recusou o convite, mesmo porque era uma pessoa simples e nunca havia dado aulas em sua vida. E estava bastante insegura também.
         Dona Iracy soube então que ela era a Supervisora dos Cursos promovidos pelo SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), dona Laurinda Morales, de Osvaldo Cruz.
         Diante de muita insistência, dona Iracy acabou cedendo e deu sua primeira aula em Osvaldo Cruz, para mais de vinte alunos. Isso foi há mais de onze anos, e foi o começo de uma grande aventura.
         Após essa estreia como Professora de Artesanato, dona Iracy acumulou experiência, aprendeu a fazer outros trabalhos sempre aproveitando os recursos naturais, como palha de milho, cabaças, sementes, caules de bananeiras... E participou de cursos promovidos pelo SENAR. De lá pra cá, percorreu mais de sessenta cidades, dando cursos nesses onze anos, como Professora de Artesanato. Houve épocas em que deu dois cursos por mês, e está sempre pronta para atender aos pedidos.
         Com fibra de bananeira ou pseudocaules faz bolsas, flores, caixinhas, encapa garrafas.  Com palha de milho faz flores, bolsas, bandejas e cestinhas. Com palmas de coqueiro, especialmente do coco da Bahia, que possui folhas mais maleáveis faz cestas, cachepos, chapéus, fruteiras, arranjos em forma de peixes, esteiras. Ainda trabalha com buchas, fazendo bonecos. E com sementes confecciona bijuterias.
         Nesses onze anos de transmissão de conhecimentos, dona Iracy saiu do casulo, conheceu cidades, costumes diferentes, aprendeu muito, fez amizades, conheceu regiões diferentes do Estado e, sobretudo fez amigos. E ela é muito grata à senhora Laurinda Morales que acreditou nela, e a encaminhou para uma vida cheia de aventuras, Porque a vida de artesão é muito interessante.
         Mas, o que mais gosta de fazer é dar aulas e ver os alunos se realizando ao confeccionar suas cestas, seus chapéus, seus bonecos. Ela tem notícias de alunos seus que, estão produzindo artesanato e ajudando no orçamento da família. Hoje acredita que, Deus lhe mostrou o caminho de artesã, para que ela possa ensinar as pessoas a aproveitarem os recursos naturais, e tornar suas vidas mais interessantes. Seu esposo, o seu Domingos sempre a leva às cidades onde acontecem os cursos, e ela é grata por sua atenção.
         Domingos e Iracy Caldatto, gente que pelejou na roça, criou e encaminhou os filhos não cruzaram os braços, mesmo depois de aposentados. Levam uma vida itinerante para divulgar os conhecimentos, que a dona Iracy foi adquirindo ao longo dos anos, em contato com a natureza. São, sem dúvida nenhuma, gente de fibra!

         Mirandópolis, agosto de 2013.
         Kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com



                    A Escrita das Palavras



     Interessante é o que tem ocorrido ultimamente com os amigos, que me alertam sobre a forma correta de se escrever as palavras.
Sei e tenho certeza que, muitos dos meus textos contêm erros crassos de gramática e de ortografia, que fariam os literatos ficarem escandalizados e de cabelos em pé.
       Mas, eu não me importo. Sei que nunca chegarei a escrever certinho, com concordância nominal e gramatical perfeitas. Sabem por que não me importo? É que com os meus 71 anos de idade e as mudanças de nossa Ortografia, nunca irei absorver tudo que mudou e que é considerado correto hoje. E também não quero passar os anos que me restam, brigando com a gramática e a ortografia portuguesas, que são muito complicadas. Sei o que sei, porque estudei com alguns Professores muito bons e sou grata por isso. Os leitores que me perdoem as falhas, tudo é culpa da minha incompetência.
     Mesmo assim, escrevo ciente de que nunca serei um Manuel Bandeira, um Drummond, uma Cecília Meireles, um Josué Montello; que esses sim, escreveram muito bem e corretamente, e os reverencio de corpo e alma.                Costumo justificar aos amigos que, não me importo muito com a forma. O que eu quero na verdade é a difusão de ideias. Se a mensagem chegar ao leitor, tenho como concluída minha missão. Então, não fico muito preocupada em escrever “laviniense” ao invés de lavinense, que dizem ser a forma correta; em escrever “Presidenta” ao invés de Presidente que deve ser usado tanto para o feminino como para o masculino. Alegam que, como não se diz adolescenta, contenta, prudenta, efervescenta, também não se escreve presidenta. Mas, se escrevo Presidenta, com “a” no final alguém duvidará que estou me referindo à senhora Dilma, que esteve tanto em destaque ultimamente? No meu Dicionário Delta Larousse ainda consta “Presidenta – mulher que exerce a função de Presidente”.   Agora escrever “lavinense” para quem é de Lavínia pra mim fica esquisito demais. Então, seria “paulinense” para quem nasceu em Paulínia? Então, por que se diz “mariliense” para quem é de Marília? E “selviriense” para quem nasce em Selvíria? Dois pesos, duas medidas, pois Lavínia, Paulínia, Marília e Selvíria terminam todas em “ia”. Muito estranho para mim.
       Dizia Drummond de Andrade que “escrever é brigar com as palavras”. Mas, se eu decidir ficar brigando com as palavras, a minha inspiração vai embora e a crônica não sai. Então, com erros ou não, vou produzindo meus textos. E não me importa que as pessoas critiquem meu jeito de escrever. Cada um tem o seu livre arbítrio. Isso me faz lembrar o provérbio que diz: “Quando o sábio aponta as estrelas, o idiota olha o dedo”. Não sou o sábio, mas...
      Já vi gente que assistiu a filmes fantásticos, com enredos maravilhosos dizer ao final, que não gostou porque o ator principal era muito feio, ou a roupa da moça era sem graça... Um dia, alguém me disse para não assistir “O último Imperador” de Bernardo Bertollucci porque era muito chato! Ao ver essa obra fantástica do cinema, deu para avaliar a cabeça oca da pessoa que me dera o conselho. Gente desventurada, que nunca vai perceber o que vale a pena absorver. Não consegue nem vislumbrar as estrelas, só repara no dedo...               Quero ainda, esclarecer que nunca fiz uma faculdade de letras, e que realmente gostaria de ter feito, mais ainda, ter aprendido a Língua Francesa e o Espanhol que aprecio muito. Andei fazendo cursos dessas línguas em fitas cassetes, mas desisti logo nas primeiras aulas.
      Agora, a Língua japonesa estudo há mais de vinte anos. E domino o equivalente ao conteúdo do Curso Primário do Japão. É que estudo a leitura, a fala e a escrita, e é muito difícil. Basta dizer que na língua portuguesa há 26 caracteres (alfabeto) para se formar as palavras. Na língua japonesa há aproximadamente seis mil caracteres. Não é brincadeira. Cada traço do ideograma tem um significado, e a ordem do traçado tem um padrão difícil de assimilar. Ela é complicada porque teve como origem a língua chinesa, que possui mais de 10.000 caracteres. Dizem que os sábios chineses estudam a vida inteira, e não dão conta de tudo, mesmo chegando à idade centenária...
    Mas, os ideogramas japoneses, chineses e coreanos, que tiveram a mesma origem são muito bonitos quando traçados com pinceis. E a caligrafia deles é cultivada como uma arte nos países orientais. É chamada Shodô, e há concursos para quem sabe traçá-los. Também pratico essa caligrafia, porque tem a ver com a minha origem, com os meus ancestrais, de quem me orgulho muito.
     Mas, voltando às crônicas, gostaria que os leitores percebessem apenas que, escrevo porque quero partilhar as ideias. E, escrevo tudo que me incomoda, que me comove, que me entristece, que me enche a alma e eu preciso extravasar.
     O meu amigo Lupércio Nery Palhares lembrou-me que, o famoso cronista Ignácio de Loyola Brandão escreveu um dia que: “fazer crônicas é como estar numa praça, ou num boteco conversando com amigos, e contar pequenos casos, coisas e acontecimentos do cotidiano, para reflexão e motivação de quem fala e de quem ouve.”
   Concordo inteiramente com Brandão, pois ele soube definir exatamente o sentimento que me impulsiona a escrever. Mesmo estando sozinha diante do monitor, e digitando esses pequenos textos, sinto a presença de amigos, que na cumplicidade de sentimentos concordariam com os meus dizeres.
     E quero ainda, aproveitar para dizer que tenho leitores em todas as camadas da nossa sociedade, desde advogados, professores, gente de muita cultura até simples cidadãos do povo, que mal e mal frequentaram escolas. Outro dia, um senhor me disse que, quando lê os meus textos, conversa com os filhos sobre a mensagem que passei, e aí eles também os leem. Achei isso fantástico, mas me deu apreensão sobre a escolha dos temas... É preciso ser responsável, para não desvirtuar a educação dos jovens.
      E assim, de leitor em leitor, minhas crônicas estão se espalhando como folhas ao vento. E tenho a ventura de comunicar aqui agora que, no sábado próximo passado, dia 20 de julho, as cronicasdekimie.blogspot.com atingiram a marca de 20.000 (vinte mil) visualizações ou leituras, no meu blog. E isso foi no espaço de apenas vinte meses, ou seja um ano e oito meses.
      E no site do Diário de Mirandópolis que publica as crônicas, também há muitas visualizações.
      O que dizer mais?
      Que sou muito feliz e agradeço aos leitores, porque sem eles, não há escritor.
     
          Legenda dos ideogramas:
  1.   Kokoro - Coração ( sentimento)
  2.   Ai - Amor

         Mirandópolis, julho de 2013.
          kimie oku

        

quarta-feira, 31 de julho de 2013




         O peregrino da paz
    Tanto auê para um Papa tão simples deve tê-lo incomodado bastante. Não deve ser nada fácil ser o Chefe maior da Igreja Católica.
         Mas, a humanidade precisa desses anjos para amenizar o sofrimento de tanta gente, que não encontra consolo em nada. Com o mundo tomado por computadores, as pessoas ficaram individualistas, autossuficientes, mais distantes e frias.
         Em razão da violência que impera no dia a dia, nas ruas e até nas casas, as pessoas camuflam seus sentimentos e se tornam distantes, procurando não se envolver com os desconhecidos que até precisam de ajuda. Num dia desses, vi uma jovem pegando carona na estrada e comentei com meu filho: “Que coragem pegar carona!” E ele me respondeu prontamente: “Coragem é do motorista que lhe deu carona! Sabe lá do que é capaz uma mulher a quem se dá carona!”
         É. O mundo se tornou cruel, desumano, porque ninguém confia em ninguém.
        Mas, no meu tempo de mocidade não era assim. Desconfiança, medo, discriminação eram sentimentos desconhecidos. Ninguém sequestrava crianças nem jovens. As pessoas não portavam armas de fogo. E não existia a maldita da droga, que essa sim, pôs o mundo a se perder de vez. A gente pegava carona, e batia um papo com o motorista e sempre era muito edificante. Quando professora, peguei carona até em caminhão boiadeiro. Nunca ninguém foi atrevido ou agressivo.  Havia uma coisa que se chama confiança mútua, e era a mais valiosa moeda de troca.
         Era uma época boa. Todo mundo confiava em todo mundo. E ninguém tentava passar a perna no outro. Havia respeito.
         Mas, as coisas mudaram, os costumes são outros. As pessoas só pensam no lucro, no proveito. “Dar carona pra quê, se não traz nenhuma vantagem?” E pensamos também na segurança própria:  “E se esse caronista estiver mal intencionado?”  “Vale a pena arriscar?”
       E com essas desculpas, a gente foi ficando cada vez mais desumana, fria, sem solidariedade, sem sentimentos. Ficamos racionais demais.
       E é por isso tudo que, o mundo se espanta de ver a simplicidade do Papa Francisco, que aparentemente não foi atingido ainda por essa frieza, essa indiferença, que é o mal desses tempos.
         Eu pessoalmente não sou fanática pela Igreja nem pelos Papas, pois conheço muitas barbaridades cometidas em nome de Deus, que nem Deus aprovaria. Como dizia José Saramago, Deus está inocente desses crimes cometidos em seu nome. E ele não acreditava na existência de Deus.
         No entanto, o Papa Francisco tem um carisma diferente dos pop stars. Ele não veio para acontecer, aparecer e ser idolatrado pelas multidões. Veio para dar seu testemunho de fé em Deus e na bondade humana. Veio para despertar os bons sentimentos dos brasileiros, que estavam esquecidos, porque os nossos corações estavam tomados pela indignação, pela revolta, pelo ressentimento contra os governantes.
         Já chegou dizendo que não tem ouro nem prata, mas Cristo no coração. Que essas palavras tenham atingido os corações dos nossos gananciosos políticos, que se fingindo de cordeirinhos fizeram tantos salamaleques ao santo homem.
         Não distribuiu bolsas disso e daquilo, mas atraiu multidões que só queriam um olhar, uma palavra, um aperto de mão, como se o simples toque dele curasse todas as mágoas.
         A fala dele que mais me tocou foi sobre os homossexuais. “Se um homossexual procura Deus, quem sou eu para condená-lo?” Isso é sabedoria e humildade. Não agiu como Juiz, mas como uma simples criatura de Deus, não se antepondo a Deus, mesmo sendo considerado representante dele. Que a Igreja do Brasil leve a sério essa frase, porque tenho percebido quantos católicos fervorosos condenam os homossexuais, que nasceram diferentes e nem culpa têm disso. Gostaria de saber, como um pai ou uma mãe que tanto criticam os homos, agiriam se tivessem um filho ou neto assim. Ninguém está isento. Não está na hora de aprender a respeitar os diferentes?
         Mas, o que me deixou feliz é ouvi-lo dizer que quer os padres, os religiosos nas ruas , trabalhando, cuidando dos pobres de Deus. Isso me fez lembrar de Madre Tereza de Calcutá, que essa sim praticou a caridade enquanto viveu. Ela ia às ruas, socorria os feridos de guerra, os mendigos que estavam esfomeados nas calçadas, os aidéticos abandonados. E era uma senhorinha pequena,   magrinha,  mas de uma fortaleza sem igual. Essa foi a religiosa na essência da palavra e deixou exemplos que jamais serão esquecidos.
         Em oposição a tudo isso, não vemos mais os padres e outros religiosos nas ruas. Estão em suas moradias, fechados com seus computadores, usufruindo do conforto e das benesses que sua posição na sociedade proporciona. Mas, padre não está a serviço de Deus? Não é para estar junto do povo que precisa de seus conselhos, de sua orientação?
         Com palavras suaves e doces, o Papa Francisco deu um puxão de orelhas nos padres, cobrando ação, atitudes, trabalho em benefício dos necessitados. Não sei de padres que visitam casas de pobres e necessitados, levando-lhes consolo e bênção como fez o Papa. Será que é tão difícil para os nossos pastores visitar um bairro por semana e conhecer a realidade de suas ovelhas? Uma visita, uma palavra de ânimo seria uma bênção para tanta gente, que leva uma vida dura, sem esperanças...
         Ou será que a missão do padre é só pregar do alto do púlpito e condenar os pecadores? O Papa Francisco deu outra visão da missão de um Apóstolo de Cristo.
         Acho que é preciso repensar tudo isso.

         Mirandópolis, julho de 2013.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com

terça-feira, 30 de julho de 2013



          Sapatos e calçados
     Dentre as vestimentas que a humanidade adotou, os sapatos têm seu  lugar de destaque. Eles protegem as extremidades do corpo humano, que suportam todo o peso nas suas locomoções.

         No princípio dos tempos, o homem e a mulher foram lançados ao Paraíso “in natura”, isto é apenas com a pele de seu corpo e os pelos que cobrem algumas partes. Exatamente como os cães e gatos que não usam roupas. Diz a lenda que Adão e Eva, ao cometerem o pecado original, tomaram consciência de sua nudez e foram se cobrir.
         E assim, nasceu a roupa, o abrigo, o agasalho. E com eles, todos os demais complementos: chapéus, sapatos, luvas, lenços, gravatas...
         No começo, folhas de plantas foram usadas mas era necessário algo mais confortável e quente para vencer o frio das cavernas. E aí, alguém teve a ideia de aproveitar a pele dos animais que caçavam para comer, para envolver seu corpo. Durante muitos milênios, o homem se cobriu de peles, por falta de opção. Depois, alguém descobriu a fiação. Aproveitando pelos de animais, surgiram os primeiros tecidos rústicos, que foram sendo aperfeiçoados ao longo dos tempos. Quando descobriram fibras de plantas, a indústria manufatureira deu um salto na produção de tecidos em larga escala.
         E se o corpo carecia de proteção, os pés necessitavam mais ainda, para suportar o peso do corpo, e protegê-los de bichos rastejantes, dos impactos do solo, da quentura da terra, dos espinhos e das pedras dos caminhos.
          E assim, surgiram os sapatos, ou calçados. E por falar em pés, acho que Deus os fez desproporcionais ao corpo do homem. Eles são pequenos demais, para suportarem todo o peso do corpo. Isso fica evidenciado hoje com o número de pessoas que andam desajeitadamente, que arrastam uma ou ambas as pernas, que usam bengalas, cadeiras de rodas e outros aparelhos, porque sentem muitas dores.
         Mas, voltando aos sapatos ou calçados, sua história remonta a mais de 10.000 anos antes de Cristo, no Período Paleolítico, pois foram descobertas evidências de calçados usados nas tumbas dessa época.

         Os primeiros sapatos ou calçados eram de palhas, papiro, fibras vegetais, e eram usados só pela classe dominante, que os enfeitava com ouro. Aos escravos era proibido usar, e isso os incomodava muito, a ponto de se estabelecer um costume entre eles. Quando alforriados, os escravos agora livres compravam um par de sapatos e, como não conseguiam usá-los por falta de costume, os carregavam nos ombros para exibir sua nova condição social. Isso ocorreu até no Brasil.
         Das fibras vegetais ao couro de animais foi um salto, que deu mil possibilidades tanto no conforto, como na confecção e proteção dos pés. Logo surgiram as botas e botinas, cujos saltos foram elevados. Geralmente, os saltos indicavam a posição social superior de seu usuário. Mesmo nas tumbas dos faraós, foram descobertos calçados de saltos.
         Sobre saltos, há umas curiosidades que valem a pena mencionar. As cortesãs japonesas usavam saltos altos, como recurso de sedução. Catarina de Médici no século XVI usava sapatos de saltos para compensar sua altura. E Luís XV também os usou pela mesma razão. E o Imperador Hiroito do Japão foi coroado em 1926, com uma plataforma de 30 centímetros de altura.
         Na China houve um costume bárbaro que não permitia o crescimento dos pés das bailarinas da Corte Imperial. Seus pés eram amarrados para que coubessem nos “sapatos de lótus”, que mediam menos de oito centímetros de comprimento.  As classes altas também adotaram esse costume,  como rito de passagem, que fez muitas  mulheres ficarem com os pés totalmente deformados. Recentemente, assisti a um documentário, em que uma chinesa centenária contou o sofrimento, que era caminhar com os pés metidos nesses pés de lótus. E ela disse que se libertou deles, ao fugir de um ataque a sua aldeia natal por tropas inimigas, durante a última Guerra. E disse do alívio que sentiu, mas os pés da infeliz estavam disformes para sempre, formando uma elipse. Costumes bárbaros, que o homem inventa para subjugar o seu semelhante.
         O costume de padronizar os calçados com números foi adotado em 1642, pela indústria calçadista da Inglaterra. E os números são padronizados atualmente em cada país, de acordo com suas tabelas de tamanhos dos pés. Assim, os números dos calçados brasileiros são diferentes dos americanos, japoneses.

         Sobre a mania de colecionar sapatos é preciso citar a ex-Primeira Dama das Filipinas, Imelda Marcos, que possuiu 3000 pares sandálias e sapatos. E todos de marcas famosas, que custaram seu peso em ouro. Quando esse fato foi descoberto, provocou um frisson no mundo político, pois os filipinos estavam passando fome, vivendo em miséria total, com seus governantes frequentando as altas rodas do Mundo. Ferdinando Marcos foi Ditador durante 21 anos e faleceu aos 72 anos de idade. Imelda, porém faz o povo  filipino cultuar o corpo embalsamado dele ainda hoje como herói nacional. Ela passou por um julgamento acusada de corrupção, mas foi liberada. Seus filhos são políticos atuantes nas Filipinas, atualmente.
         Durante muito tempo, os calçados foram fabricados com couros de animais, especialmente, couro de vaca.  Hoje, porém há sapatos feitos com peles de cobras, de jacarés, de peixes, de avestruzes e até de elefantes e hipopótamos.
          Durante muito tempo, os calçados usados na prática de esportes e para caminhadas eram muito pesados e desconfortáveis. Mas, isso tudo mudou com a vulcanização da borracha. Vulcanizar significa preservar para durar mais. Inicialmente, isso foi feito para melhorar os pneus de automotores. Mas, logo a indústria calçadista passou a fazer solados de borracha vulcanizada, e os  tênis passaram a ser confortáveis e leves. Hoje existem tênis para todos os gostos, e as partes de cima que cobrem os pés passaram a ser feitos de tecidos, que protegem como uma segunda pele.
         Roupas e calçados hoje são indispensáveis no dia a dia da sociedade. Nem sempre foi assim. E a indústria de confecções de roupas e sapatos funciona a todo vapor, servindo a humanidade com suas últimas criações e com os empregos que geram.
         E analisando toda a história da evolução dos costumes e dos calçados, podemos afirmar categoricamente que, somos uma geração privilegiada, que tem à disposição, calçados muito confortáveis ao gosto de cada um.
         E viva o progresso!
         Cadê os meus chinelos?

         Mirandópolis, julho de 2013.
         Kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com


     


Mais uma da Ciranda
    Sexta-feira, dia 26 próximo passado, realizamos mais uma cirandada.
         Como de costume, foi na Chácara do senhor Albertino Prando.
         Como o dia estava frio, o seu Albertino fez uma fogueira, que aqueceu o ambiente.
         Apesar do frio, havia um sol maravilhoso e todos procuravam se aquecer ao sol. Faltaram muitos cirandeiros, por conta do frio. Mas, por outro lado, o frio fez os participantes se movimentarem, brincando de cirandar, e foi muito animado.

         Havia chá de gengibre, chocolate quente e um cafezinho da hora além de diversos salgados e bolos, para aquecer a alma de todos. A alegria era geral.
         Foi aberto um espaço para a Coordenadora do Procon local, Fátima Teixeira de Amorim passar umas orientações aos presentes. O tema versou sobre a defesa dos idosos diante de propostas de empréstimos, que as entidades financeiras oferecem com muita insistência.

         A senhora Fátima falou ainda sobre os direitos dos consumidores, e procurou esclarecer as dúvidas que surgiram. Distribuiu o Código de Proteção e Defesa do Consumidor a todos os presentes. E prometeu ainda enviar mais tarde, a Cartilha do Consumidor.
         A palestra foi muito interessante, com os presentes relatando casos ocorridos, em que as vítimas eram sempre os idosos.
         Após a palestra, foi servido o lanche, além da batata doce assada no braseiro. E todos brincaram de roda, com o seu Albertino tocando músicas do famoso Dominguinhos, que falecera na semana.

         No final, o seu Orlandinho declamou seus poemas e foi muito aplaudido.
         E assim aconteceu mais uma brincadeira da Ciranda, que faz a alegria dos idosos solitários da cidade.

         Mirandópolis, julho de 2013.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com




quarta-feira, 17 de julho de 2013

O pagador de promessas



          O Pagador de promessas
        
         Dentre os filmes brasileiros que ficaram famosos no mundo da arte, sem dúvida nenhuma, podemos eleger o Pagador de Promessas.
         Foi escrito por Dias Gomes e dirigido por Anselmo Duarte em 1962, isto é há exatamente 51 anos.

         O tema central é o Sincretismo Religioso, que é comum entre os brasileiros. Os nossos crentes seguem duas a três crenças religiosas, sem nenhum conflito. É estranho, mas há lógica para isso.
         Isso remonta à época do descobrimento com a população nativa adorando os deuses da Natureza: Tupã, deus do Trovão a quem temiam mais que tudo, Coaraci, o deus Sol, Jaci, a deusa Lua, Amanaci, a deusa da Chuva.  
         Os colonizadores europeus trouxeram suas crenças, seus temores num Deus único, representado por Cristo da Igreja de Roma.
          E vieram os africanos, com seu Candomblé, seus orixás, babalaôs, Iansã, Exu, Oxalá...
         E os orientais com a filosofia budista e alguns ensinamentos zens.
         Tudo isso virou uma cultura confusa, cheia de nós, que cada qual passou a adotar livremente. Mas, o mais comum entre a gente simples é a veneração a Nossa Senhora da Aparecida, Padroeira do Brasil, enquanto seguem outras seitas. Há quem cultive a Religião católica, frequentando missa e outras cerimônias e também participando de sessões de Centros Espíritas. Outros são católicos de carteirinha e frequentam terreiros de Candomblé.
         Mesmo os japoneses, que vieram do Japão, trouxeram já como tradição venerar o Deus do Xintoísmo, voltado mais para a Natureza, e o próprio Buda, Deus da Benevolência. E era costume possuir dois altares para esses deuses, que ainda são cultuados entre alguns remanescentes de imigrantes. Isto é sincretismo religioso oficializado e comumente aceito.
         Então, não é de se estranhar que, com tantas variações religiosas, o povo brasileiro acabasse misturando tudo e aceitando o sincretismo, absorvendo apenas as partes ou crenças que o deixassem confortável, em paz.
         Tenho amigas que veneram os santos orientais, e ao mesmo tempo acendem velas para a Senhora Aparecida, a quem dirigem suas preces e seus pedidos mais urgentes.
         Mas, voltando ao filme que ganhou Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962, o enredo gira em torno de uma promessa. Zé do Burro prometeu a Santa Bárbara/Iansã, que carregaria uma cruz de madeira até a Igreja de Santa Bárbara, se curasse seu burro doente.
         Burro curado, Zé fez a cruz pesada de madeira e junto com Rosinha sua mulher andou sete léguas para pagar a promessa.
         Ao chegar a Salvador, diante da Igreja, ele se confronta com o padre da Igreja que não lhe permite pagar uma promessa feita em terreiro de Candomblé. E a peleja dura dias, com o Zé querendo entrar na igreja com a cruz e o padre obstinado, ameaçando de excomunhão o pobre diabo, que na sua simplicidade, não entende a intransigência do religioso.

         Os dias passam, a multidão curiosa começa a se avolumar nos arredores, chegam jornalistas, a polícia, os Superiores da Igreja para resolver a questão. E chega o dia da Lavagem da Escadaria da Igreja, que após a procissão de Santa Bárbara é feita à moda dos rituais africanos, com as mães de santos vestidas de branco, e jogando água perfumada nos degraus. (Por que então a Igreja/Padre permite isso, que não é um ritual cristão?)
         Se o padre tivesse um tico de tolerância, teria deixado o herói da história cumprir a promessa e tudo teria terminado sem incidentes. Mas... O padre era duro na queda e intransigente, convicto de estar defendendo a “sua” igreja.  E o Zé não queria faltar à promessa, então a peleja parece não ter fim.
         Após a procissão, com a Santa já dentro da Igreja, o Zé tenta acompanhar a multidão, mas é barrado e leva um tiro fatal. Então, os capoeiristas colocam o Zé morto sobre a cruz e ao som dos berimbaus, rompem as grossas portas da igreja e o levam para o interior dela.
         O filme foi muito bem elaborado, com o ator Leonardo Villar e a atriz Glória Menezes nos papéis de Zé e de Rosinha. Dionísio de Azevedo fez o padre. Era em preto e branco, mas o tema é tão atual, apesar de ser uma história contada há meio século. Há muita gente hoje que ainda age como o padre do filme.
         Às vezes, vislumbro alguns meninos no face book colocando mensagens discriminatórias contra outras religiões, contra homossexuais, contra os diferentes. Não entendo como essa gente moderna, que já leu de tudo, que conhece tantas filosofias e tantas teorias, consegue ficar confinado em suas crenças, sem nenhuma abertura para outras. Se Deus não aceitasse os homos, não os criaria. É como renegar um deficiente. Quem tem direito de fazê-lo?  Eles têm culpa de serem assim?

         Acredito de todo o coração que Deus é um só. Que todas as crenças voltadas para algo superior chegam até ele. E nenhuma religião é maior nem mais verdadeira que outras. Quem estabeleceu que esta é a mais verdadeira, que aquela não é de Deus foram os homens, pobres criaturas ignorantes, completamente falíveis.
         Assim como Deus povoou a Terra com criaturas diferentes, humanos de cores diversas, é natural que cada povo tenha descoberto seus caminhos de fé, de esperança, de libertação.
         E se todos aprendessem a respeitar as opções alheias, não haveria conflitos, brigas, discriminações e nem guerras.
         José Saramago me escreveu certa vez que, não acreditava na existência de Deus, mas que respeitava os que assim acreditavam.
        
         Mirandópolis, julho de 2013.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com



quinta-feira, 11 de julho de 2013

Pauta de negociação




Pauta de negociação

         Logo, logo, as consequências irão aparecer. Desabastecimento, paralisação das Indústrias por falta de matéria prima, alimentos se estragando no meio do caminho.
          É a Greve dos caminhoneiros.
         É bom lembrar que o Presidente Salvador Allende perdeu o controle do governo, com a Greve dos Caminhoneiros no Chile. E Allende caiu. Lá, a Greve foi orquestrada pelo Nixon, que queria explorar o bem mais precioso do Chile, o cobre. Allende caiu porque nacionalizou o cobre. Morreu defendendo sua Pátria. Aqui, a meta é outra.
         A Greve aqui está paralisando o país.
         E isso é ruim? Sim! É péssimo!
         Mas, é um mal necessário!
     Para se por um fim a todas as manifestações e à greve dos caminhoneiros, que estão travando o país, é necessário que haja um acordo. Acordo sério e objetivo, que não permita recuos do Governo. Então, há que se estabelecer prioridades!
     É que há tanto que exigir e o momento é este, não depois. Se perderem a chance, vai ser difícil aglutinar tanta gente de tantos lugares, de novo. Então é necessário estabelecer as prioridades.
         Num apanhado geral e rápido, tudo passa pela punição aos envolvidos no Mensalão, incluindo o chefe da quadrilha, pelo cancelamento de Bolsas disso e daquilo, pela perda de mandato de políticos, que comprovadamente desviaram verbas da União. (Que faxina seria, hein?) E, sobretudo pela construção e equipamento de Hospitais, e por um Plano de Educação que realmente melhore a cultura do país.
         Mas é preciso estabelecer prioridades.
         E qual seria a primeira prioridade?
         A Educação.
    O povo não escolarizado será eternamente refém de governantes como essa que aí está. “Sem ela não há bolsa, sem bolsa não dá pra comer” esse é o triste e patético slogan de gente que, vive pendurada nos benefícios, a troco de nada. E assim, vão idolatrando a mulher, que os humilha toda vez que recebem essas migalhas, a que NÃO fizeram jus para receberem.
         Esses benefícios, que o Partido dos Trabalhadores passou a distribuir à mão cheia não são benefícios. É mais adequado chamá-los de Malefícios. Por quê? Porque tiram a dignidade do homem, reduzindo-o a um “João ninguém” que nada produz, a caminho da mendicância oficializada.
        Eles ferem o que de mais precioso tem qualquer cidadão, isto é o seu brio, a sua honra, a sua vergonha, alcunhando-o de incapaz, improdutivo e marginal.
         Tá certo, existe muita gente que precisa de ajuda, porque as circunstâncias da vida a tornaram incapaz e sobreviver é preciso. A essas pessoas é indispensável a Bolsa-ajuda. Hoje, há tanta gente recebendo bolsas indevidamente. Dê uma conferida entre os conhecidos e você ficará pasmo. Bolsa para o jovem ficar jogando bola ao invés de ajudar o pai, que precisa de ajuda na roça... entre outras  dezenas de bolsas.
       Há cinquenta anos, havia uma ajuda do Estado para famílias sem arrimos, e eram destinadas às crianças pequenas. Eu me lembro que, quem fazia a triagem e a distribuição desses pequenos recursos aqui em Mirandópolis era a Doutora Julieta Antonieta Simioni, que era a Cartorária local. Seus beneficiados eram gente muito necessitada, em extrema pobreza.
        Lembro-me também que, famílias de alunos meus, que eram mais pobres que os pobres de hoje, receberam essa ajuda. Mas era uma ajuda irrisória. Dava pra comprar quando muito, o arroz e o feijão de duas semanas para uma família de cinco pessoas. E não existia ainda a tal da cesta básica. Era só essa ajuda. E mais nada.    
      Sei também que, as crianças beneficiadas com esses recursos se tornaram cidadãos de bem, trabalhando e pelejando pela vida, quando se tornaram adolescentes. E trabalharam na roça, capinando, derriçando café, catando algodão. Naquela época não era proibido adolescente trabalhar. Trabalhar era preciso, porque comer era preciso. Os jovens aprendiam a dar conta de si a partir de dez, doze anos de idade. E ninguém morreu por isso.
         Aquela pequena ajuda permitiu encaminhar meninos para profissões honestas, com que passaram a ganhar o seu sustento: tem gente que trabalha no Fórum local, outros se tornaram frentistas, merendeiras, agentes penitenciários, professores e comerciantes. Todos são cidadãos comuns, mas honrados. E não receberam cesta básica, renda-cidadã, bolsa-escola, bolsa-presídio, bolsa- universitária. O valor que receberam foi apenas para mantê-los vivos, que o resto eles fizeram. Estudaram e venceram. Porque não foram feridos em sua dignidade.
          Falando na Doutora Julieta tenho que divulgar uma história linda, que alguém me contou. Ela me disse que todas as manhãs, a Doutora recebia em sua casa, uma porção de crianças pobres para lhes servir o café da manhã. Disse que eram dezenas de crianças, a quem ela tratava com carinho, amenizando sua fome.
         A pessoa que me contou isso já é uma senhora, e trabalha no comércio local e disse que foi umas das beneficiadas. E ela é tão grata à atenção da Doutora Julieta, que me pediu pra contar a história dela em Gente de Fibra. Infelizmente, não tenho referências para pesquisar sobre a vida dessa nobre senhora, que passou por Mirandópolis.
         Por que a Educação é necessária?
       Porque quem estuda é capaz de analisar e entender que o pagamento do Mensalão foi um grande roubo contra a Nação. Que colocou num mesmo caldeirão todos os corruptos do país, os corruptores e os corrompidos. E que todos devem ser punidos.
         Por que a Educação é prioritária?
       Porque quem lê jornais, e ouve os noticiários pode entender que, se há tanta verba revertida em “Bolsas compra votos”, é possível redirecionar essa mesma verba para abrir Frentes de Trabalho, para gerar empregos e tirar os cidadãos desempregados das ruas. Que qualquer cidadão honrado prefere receber um salário, a que fez jus trabalhando, e não recebendo esmolas do Estado.
       Porque quem estuda, lê e analisa os noticiários, pode perceber a situação calamitosa em que mergulhou o país recentemente, com  a violência e a criminalidade crescendo de forma assustadora. Nunca a violência foi tão predominante em nossos noticiários, como nos filmes americanos. Nesses, a violência é imaginária, aqui é dolorosamente real.
         A Educação é prioritária, até para se formar políticos de qualidade, que pensem no bem comum, para a grandeza da Nação. No momento, há mais políticos pensando só em seu beneficio, roubando a própria Pátria, porque não têm sentimentos de patriotismo e muito menos de solidariedade para com os compatriotas.
         A Educação tem que ser prioritária, para formar eleitores conscientes, que saibam distinguir o joio do trigo, e varrer do Congresso a quadrilha que lá se instalou para usufruir de benefícios, a que fizeram partícipes, legislando em causa própria.
         A Educação tem que ser prioritária, para que os eleitores percebam que, votação por maquininhas manipuladas só elegem os bandidos, que fazem parte do esquema da quadrilha que manda no país. Uma perguntinha boba: “Por que nos países desenvolvidos do 1º Mundo, as eleições ainda são feitas na forma tradicional, isto é por escrito, individualmente?”       
         E não me venham dizer que esse partido político é melhor que outro! Todos se tornaram lixos institucionais, desde que começaram com os conchavos, os acordos lá nos bastidores. Querem ver? Façam uma análise dos maiores partidos políticos da atualidade. Todos sem exceção estão mancomunados com o Partido dos Trabalhadores.  É por isso que não cassam os envolvidos no Mensalão.
         Se tivéssemos gente séria em Brasília, gente estudada, educada e bem intencionada, já estaria no maior agito procurando meios de corrigir os estrangulamentos, que estão ocorrendo em relação à Educação, com escolas de péssima qualidade, com professores mal formados, com salários miseráveis e indignos de quem procura formar as futuras gerações.
         Se tivéssemos gente séria em Brasília, veria que é urgentíssimo prover os nossos Hospitais, com o mínimo necessário para continuarem atendendo à população, que lotam os corredores e acabam morrendo sem atendimento, por falta de recursos humanos e materiais.

   Se tivéssemos gente séria em Brasília, veria que os noticiários são a prova viva da realidade brasileira: uma Terra de ninguém, sem lei, sem moral, sem segurança.
       É. Tudo passa pela Educação.
     Enquanto os doutos de Brasília não perceberem isso, o Brasil vai continuar sendo palco dessa terrível tragédia grega...

        Mirandópolis, junho de 2013.          kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com