Memórias
de dona Severina
Severina é
uma menina que nasceu em 1921 em Jacobina na Bahia, filha de pais
pernambucanos. Sua mãe chamava-se dona Ernestina Barbosa de Luna e seu pai
Misael Leandro Alves, cujo nome ficou eternizado numa das ruas da cidade de Mirandópolis. Seu Misael
foi o primeiro barbeiro daqui.

Em Bodocó,
Severina estudou um pouco com a Professora dona Videlina, com quem iniciou a
alfabetização.
Quando
Severina tinha onze anos, a família se emigrou para o Estado de São Paulo,
vindo a fixar-se na Fazenda Pio Prado, na região de Araçatuba. Ali foram
colonos de café, e Severina aprendeu a derriçar e abanar os grãos dos cafezais.
Tarefa difícil demais, mais ainda para uma menina adolescente.
Dez meses
depois, mudaram-se para a Fazenda Santa Helena, em Aguapeí, município de
Valparaíso, também para se dedicar à lavoura de café. Em Aguapeí, estudou um
pouco mais com a professora Nicácia. Nessa época, o pai Misael cortava os
cabelos de todos os membros da família e, ensinava a leitura para quem quisesse
aprender. Mas, para a Severina, escola foi só até aí, com a professora Nicácia.
E ela aprendeu a ler e a escrever.
Em 1935,
vieram para Mirandópolis.
Aqui era
tudo mata fechada, sem ruas e com pouquíssimas casas.
Havia um pedaço de clareira desmatada por
Manoel Alves de Ataíde, o fundador da cidade, e lotes à venda. Em volta da
clareira era tudo floresta virgem, cheia de imensas árvores e tabocas, e havia
bichos como onças rondando. Para espantá-los, o senhor Ataíde fazia uma imensa
fogueira e estourava bombas.
Seu pai e
seu tio compraram duas datas de Manoel Alves de Ataíde, na Rua do Comércio, atual
Nove de julho, onde hoje estão instaladas a Loja de Marcos Calçados e a
Tipografia Alves do nosso amigo Paulinho. Construíram no local, casas de barro,
e mais tarde transformaram-nas em casas de tijolos.
Misael
Leandro Alves trabalhou um tempo na Serraria de Belmiro Jesus, ali nas
proximidades do Nilton Supermercados, na Rafael Pereira. Ao construir sua casa,
porém, instalou num anexo o seu Salão de Barbearia, e começou o ofício de barbeiro.
E a dona Ernestina sua esposa fazia rendas de bilro, que havia aprendido lá no
Norte.

Dona
Severina se encantou com o Benedito, que ficou conhecido como Ditão na praça.
Era um homem negro, alto, vaidoso e muito elegante em seus ternos de linho
branco, que ela passava com esmero, usando ferro de brasa.
Quando se
casaram, dona Severina e o senhor Benedito foram morar numa casa de tábuas, na
esquina da Rua Nove de julho com a Domingues de Souza, onde hoje está o Bar do
Rosalem. Para ajudar no orçamento familiar, dona Severina lavava e engomava
ternos, que eram roupas de uso do cotidiano na época. Ela tinha clientela fixa,
porque o marido confeccionava ternos e ela zelava deles.
Com o casamento vieram os filhos: Ana Edite,
cujo parto foi realizado pelo Dr. Frederico Freires em casa mesmo, porque não
havia hospital; a Valdeíte Inês, que também nasceu em casa sob os cuidados da
famosa Parteira dona Júlia Cabrini; e o Vanderley que nasceu na Maternidade
Santa Terezinha, sob a assistência de Dr. Macoto Ono. Ana Edite viria a falecer
alguns anos depois.
No dia sete
de março de 1950, foi instalado o Ginásio Estadual de Mirandópolis, que teve
início como Escola Normal Municipal de Mirandópolis, lá atrás da linha, na
Avenida Dr. Raul da Cunha Bueno.
O senhor
Savero Tramonte, que era Vereador na época, e cliente de dona Severina na
lavagem de ternos, indicou-a para trabalhar no Ginásio como faxineira. Também
começou na mesma função o senhor Sílvio Marchi.
A dona Terezinha e o senhor Jorge Cury foram designados Inspetores de
Alunos.
O Diretor provisório
era o senhor Neif Mustafa, até a chegada do Diretor efetivo, Pedro Perotti
Neto, que veio de São José dos Campos. Então, o senhor Neif assumiu o cargo de
Secretário da Escola, tendo como Escriturários Auxiliares, o senhor Benedito
Paschoal e Wilson Monteiro.

Dessa
época, dona Severina se lembra dos professores: Júlio Mazzei de Educação
Física, Dalva Monteiro Colaferro de Geografia, Francisco de Assis Neves de
Latim, Maria Ernestina Barbosa de História, Dirce Jodas Gardel de Português,
dona Florinda de Francês, Carlos Roberto de Pádua de Desenho, dona Sílvia
Ferraz de Abreu de Trabalhos Manuais e de dona Rhada, que fez uma belíssima
demonstração de Ginástica Rítmica com as alunas da escola, no antigo campo de
beisebol do Clube Nipo.
Lembra
também de alguns alunos como: Carlos de Sylos, Edna Galvani, Nilton Orsi,
Angélica Giometti e Juracy Carvalho, ambos de Lavínia, Zenaide e Zenilde Eid,
Junichi da Aliança, João e Seimi Sadano, Neusinha Leite e Silvina Viana. Sobre
esta, ela se lembra que a mãe foi pedir ajuda para o Diretor Perotti, para que ela
pudesse estudar, pois não tinha condições de mantê-la na escola. Seu Perotti
autorizou as irmãs Silvina e Rachel a prestarem os exames de Admissão ao
Ginásio, e a Silvina passou em primeiro lugar.
Com a assistência
da Caixa Escolar elas puderam estudar. A Silvina seria uma competente Professora
de Português, justificando o investimento
e atuando na Escola em que estudou.
Dona
Severina se lembra do dia que a dona Noêmia chegou para dar aulas no CENE. Ao
ser apresentada ao Diretor Pedro Perotti, ficou muito impressionada pela beleza
e finesse do Perotti. Acabou terminando um noivado anterior, para se casar com
o Diretor da escola.
Em 1961, o
Ginásio se transferiu para o novo prédio, onde está o CENE até os dias de hoje.
Havia oito salas de aulas, e passou a funcionar em três períodos: manhã, tarde
e noite. Também foram nomeados mais faxineiros: seu Zezé e Cruz Martins, além
do Inspetor de Alunos Valter e o Secretário passou a ser Abílio Candil.

Como o
funcionamento abrangia o período noturno, dona Severina também teve que
trabalhar à noite. Lembra que tinha que deixar as salas limpas, para as aulas
do dia seguinte. E até deixar tudo em ordem passava da meia noite, mas o seu
marido Benedito ia buscá-la, e muitas vezes ele acabava ajudando-a.
Dessa
época, dona Severina se lembra dos professores: Antonio Sanvito, Kazuo
Kawamoto, Toshio Suguisaka, dona Helga, dona Irene Jacobs, Valter Teixeira, Walter
Victor Sperandio, dona Celina, Lucy e Odair Dornellas, Joaquim Pompílio,
Gabriel Tarcizzo Carbello e Jorge Chain Rezeke.
De alunos
tem uma lembrança engraçada do Zapata. Ele lhe pedia para deixá-lo na sala de
aula durante o recreio: “Pelo amor de Deus, dona Severina me deixa ficar aqui,
para ver se a desgraça da Matemática entra na minha cabeça!” Naqueles tempos,
os alunos eram muito preocupados com o rendimento escolar. Mas pelas normas da
Escola, não podiam permanecer na sala de aulas durante o Recreio. E o Perotti era inflexível.
Lembra
também do Antonelli Antonio Secanho, que era muito estudioso e mais tarde seria
Promotor Público. Dona Severina diz que os alunos eram muito educados e atenciosos
e nunca teve problemas com eles, durante os trinta e dois anos que varreu e
limpou as dependências da escola, para que o ensino ocorresse confortavelmente
para todos.
Além da
função de Servente, dona Severina administrou também a Cantina do CENE, durante
um certo tempo.
Nas
comemorações do Dia das Mães havia festa na escola toda, comandada sempre com
muito entusiasmo pela dona Noêmia. E no Dia dos Professores, os alunos sabiam
homenagear os professores, com muita festa.
Era um
tempo bom, pois havia muito respeito e cordialidade.
Quanto à
família, diz que ficou bastante orgulhosa quando a filha Valdeíte se formou Professora,
e ficou muito feliz quando nasceram os netos e bisnetos. Só lamenta que o filho
Vanderley não tenha estudado, pois desde cedo optou pela carreira de jogador de
futebol.
A partir
dos dezesseis anos, o filho passou a ser jogador, e como tal jogou em times
famosos como: Comercial de Ribeirão Preto, Bangu do Rio de Janeiro, Atlético de
Curitiba, XV de Jaú, XV de Piracicaba, Juventus, Misto de Cuiabá, Penapolense,
Ipiranga da Bahia, Sergipe Esporte Clube, Corinthians Esporte Clube, Portuguesa
de Desportos. Quando jogava no Juventus esteve no Japão e na Europa. Esteve
também no Japão como Técnico do XV de Jaú.
Toda vez que ele jogava, dona Severina ficava
em casa torcendo por ele. Após parar de jogar, Vanderley trabalhou um tempo
como Técnico, e atualmente está aposentado, mas sempre envolvido com o futebol
à cata de talentos.
Seu Ditão
faleceu em 1993, com 77 anos de idade. Nessa época já não era alfaiate, porque
apareceram as roupas prontas nas lojas, e a moda era outra. Passou a fazer
Corretagem de carros, fazendas e casas. Fez muitas transações com gente de posses da
cidade. Para dona Severina foi um bom companheiro.
Do seu
tempo de juventude ela lembra que dançou muito e, seus parceiros foram Alcino
Nogueira de Sylos, Elias Alagoano e José Silvino, de quem foi muito apaixonada antes de conhecer o seu
marido.
Lembra
também que seu pai ajudou a desmatar a redondeza para construir o Estádio Municipal,
a Estação Ferroviária e o Cemitério local. Lembra que o primeiro enterro foi do
menino Raimundo de oito anos, filho de Fortunato Vieira.
A amiga mais querida foi a senhora Floripes,
que era costureira, mãe do nosso amigo Ademar Bispo. Também foi amiga de Anésia
do Edézio. Lembra com saudades das festas de São João, promovidas pelo fundador
Manoel Ataíde, que fazia uma imensa fogueira e todo mundo participava.
Ainda tem
uma comovente lembrança do seu Manoel Alves de Ataíde. Quando o fundador morava
sozinho, perto da Escola Dr. Edgar, dona Severina levava o almoço de Natal para
ele. Ele já estava velho, pobre e sozinho, ele que fora o fundador de nossa
cidade, a que inicialmente chamou de São João da Saudade.
Conheceu
Dr. Massayuki Otsuki, Dr. Edgar Raimundo da Costa, suas esposas e muita gente mais.
Agora
aposentada, passa um tempo com a filha Valdeíte e o genro Lupércio (filho do
saudoso Professor Durval Nery Palhares) em São Paulo , e outro tempo com a nora Vera e o
filho Vanderley, em Mirandópolis.
Sua nora
Vera Lúcia Rodrigues (a popular Verona) natural de Ribeirão Preto está
aposentada como funcionária da Prefeitura, onde trabalhou na área da Saúde.
Devido aos
longos anos varrendo as salas de aula, dona Severina adquiriu bursite e
problemas na coluna, que dificultam seus movimentos, e por causa da idade não
sai mais sozinha. Mas, leva a vida numa boa, de bem com todos e relembrando o
passado com saudades. A maior alegria de dona Severina agora é estar perto dos
netos e bisnetos.
Dona
Severina, peregrina do Nordeste brasileiro, veio menina e acampou em Mirandópolis. Aqui
pelejou e construiu sua vida e sua história, participando da vida de milhares
de jovens, que passaram pela Escola Noêmia Dias Perotti.
Hoje com
noventa e dois anos se tornou memória viva da cidade. Memória fabulosa!
Mirandópolis,
27 de novembro de 2012.
Kimie oku in “cronicasdekimie.blogspot.com”
Legenda de fotos:
1.
Severina fantasiada para o Carnaval,
2.
O povoado de Mirandópolis em 1939,
3. Casamento de Severina com o Benedito Santos em 1940,
4. O antigo Ginásio com professores e alunos,
5. Professores do antigo Ginásio, dentre os quais se destaca o
Diretor Pedro Perotti Neto, o Secretário Neif Mustafa, o Professor Júlio Mazzei
e o Inspetor de Alunos Jorge Cury,
6.
Ginástica Rítmica pela Profª Rhada,
7.
Professores e Funcionários do CENE, dentre os quais, o prof. Valter Teixeira, Walter Sperandio, Zezé Franco, dona Terezinha, Izaura, Sílvio Marchi, Joaquim Pompílio, Romualdo Galvani, Tokiko Yamamoto, Marly Queiroz, Irene Jacobs, Jorge Chain Rezeke, seu Zezé e no centro a própria dona Severina,
8.
Com a nora Vera Lúcia,
9.
Severina Alves dos Santos.
Fui aluno no CENE, e convivi com essa ilustre cidadã e parabens pela história maravilhosa. Abraços.
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