Sua sina é cantar até
morrer
Descobri
recentemente que as galinhas foram os primeiros bichos domesticados pelo homem.
É que são mansas e só atacam quando em perigo.
E desde os primórdios dos tempos, elas
têm servido ao homem, fornecendo-lhe a proteína leve, de origem animal que é
necessária à sua alimentação.
E todos os dias, a
humanidade consome os seus derivados, em
forma de frango a galeto, frangos recheados com farofa, canjas de galinhas que
caem bem nas noites frias de inverno, frango xadrez com pimentão e amendoim,
frango com gengibre e shoyu... E os ovos? Sem eles, seria impossível as
confeitarias produzirem grande parte de guloseimas... Sem contar com as penas,
que são bem aproveitadas para encher travesseiros e almofadas, além de serem
aproveitadas em decoração.
Quando se fala em galinha, sempre retorno à minha infância nos
anos cinquenta, quando todas as famílias tinham criação de cabras, porcos e
galinhas. E a gente morava longe da cidade, onde havia alguns açougues, mas que
vendia só carne bovina e suína.
Lembro que costumávamos ter umas trinta cabeças dessas aves,
incluindo os galos e os pintinhos. Eram criadas soltas no quintal, e comiam
todos os insetos daninhos... As galinhas punham ovos periodicamente, e eu
adorava fazer a coleta deles. Os ninhos eram feitos em balaios velhos que
ficavam nos galhos das laranjeiras, para se evitar que os lagartos-teiús
viessem roubar os ovos, e os pintinhos que iam nascendo. Logo que a galinha
cantava o cocoricócó, anunciando que
acabara de botar, lá ia eu buscar o ovo quentinho. (Diz-se que o primeiro
publicitário foi a galinha, que logo após botar o ovo, anuncia o seu feito
cantando para todo mundo saber).
Certo dia, vi um pintinho bicando o casulo, querendo sair e
saltar para a vida. Notei que ele fazia um esforço enorme, e condoída de suas
tentativas, tirei-lhe toda a casca, feliz por ter ajudado. Mas, que desolação! O pintinho viveu
um minuto e morreu na minha mão. Fiquei tão arrasada de minha ignorância, que
nunca contei essa arte para minha mãe, e eu tinha uns oito anos apenas. Foi quando
descobri que a gente não deve interferir na Natureza.
A gente criava galinhas para o nosso consumo, que só acontecia
aos domingos.
No sábado à tarde, jogava-se milho no quintal e chamava as
bichinhas: pi, pi, pi, pipiiiii... e elas vinham felizes, beliscar os grãos amarelinhos.
Mamãe escolhia o frango maior e mais gordo e lhe agarrava o pescoço. Quando o
bicho era arisco, apelava-se à ajuda do cachorro, que resolvia a parada em
instantes. O pescoço era torcido, e a ave era deixada alguns minutos de cabeça
para baixo, para esgotar todo o sangue. Enquanto isso fervia-se um tacho de água,
onde mergulhava o
frango para amolecer a pele para depená-lo. Essa tarefa competia a nós
crianças, mas era horrível, porque o bicho fedia. Esquartejar era tarefa de
mamãe. (Anos mais tarde, quando tive que fazer isso também, descobri que era a
pior parte. Cortar os membros, tudo bem, mas enfiar a mão lá dentro do corpo
para se retirar as vísceras, dava uma terrível sensação, porque estavam quentes
e parecia que o animal ainda estava vivo).
O frango depenado, lavado e esquartejado era temperado com
limão, sal, alho e pimenta do reino e só seria preparado para o almoço de domingo. A
cada membro competia apenas um pedaço, porque a família era grande e muito
pobre. Mas, era delicioso, e o tempero de mãe é uma coisa que a gente nunca
esquece...
Recentemente, conheci as galinhas garnizé, ou galinzé, que é uma
espécie de galinhas e galos nanicos, mas que são da mesma família dos
galináceos. Têm pernas curtas e acho que, servem apenas como enfeites, porque são
muitos pequenos e não produzem muita carne. A característica principal do
garnizé é o seu interminável cantar. Desde que amanhece, ele abre o bico e
canta, e canta e canta de cinco em cinco segundos, por horas sem parar. Acho
que só descansa na hora de comer, beber água, acasalar-se e dormir. Ainda bem
que, de dia tira umas cochiladas para descansar. Mas, ele tem uma voz potente, e deve com certeza ter bofes fortes e uma garganta poderosa. Seu cantar se ouve de longe, e tem gente que se incomoda com isso... Se há gente que se incomoda com esse cantar
do galinho, imagine a sua parceira que, tem que aguentar todos os dias, toda a
vida o seu cocoricó sem fim.
Deve ser enjoativo para as aves que convivem com ele, e também
para ele próprio, que nasceu com essa sina.

E tudo que é demais cansa.
Ops, será que também não estarei cansando o leitor?
Vou ficar por aqui.
Mas, curtam o canto do galinzé, enquanto puderem escutar, porque
é melhor ouvir isso todos os dias, do que ser surdo, né?
Mirandópolis, janeiro de 2013.
kimie oku in
cronicasdekimie,blogspot.com
Kimie: Gosto de animais domésticos. Não os tenho por não poder tratá-los. Devemos respeitá-los, pois muitos existem para a nossa sobrevivência. Só não gosto dos cães que não me deixam dormir a noite. Falo com eles durante o dia para respeitarem meu sono, mas eles esquecem e a noite tornam a ladrar.
ResponderExcluirAtá a próxima Ciranda. João da Mariinha.
João, os cães dormem de dia para ficarem de vigilância à noite. Esta é a sua sina, como a do galinho que é de cantar. Talvez, até entendam a sua recomendação, mas eles não podem escapar da sina a que foram destinados. Daí, os desencontros. Mas achei bonito você falar com eles. Um abraço.
ResponderExcluir