Gente de fibra – Lió
Lió e
o apelido do baiano Leopoldo José Santana. Nasceu lá nas terras do cacau num lugarzinho chamado Xapuri, perto de Canavieiras, Bahia em 24 de abril de 1934 tendo, pois 79 anos de idade. Este cidadão administra um famoso Restaurante de comida caseira no Bairro de Amandaba,em Mirandópolis.
Quando
lhe pedi uma entrevista, seu Lió resistiu dizendo que a sua história é muito triste
e não valia a pena contá-la. Depois de alguma insistência, concordou.
Lió
nasceu numa família de posses, seu pai havia sido polícia em Canavieiras, que fica perto do mar e possuía uma fazenda de cacau, manga e gado.
Como havia vinte e dois filhos, todos tinham que trabalhar muito desde
crianças. E colhiam o cacau, que era colocado nos caçuás para levar até a
baica, que era uma espécie de terreirão. Depois
de colhido, o fruto era partido para se retirar as amêndoas. Estas ficavam
empilhadas na baica para esgotar o vinagre que contêm. Esse vinagre também tinha sua utilidade. Só
então eram espalhadas na baica para a secagem. À noite, eram colocadas dentro
de um galpão coberto, de onde eram retiradas no dia seguinte até a secagem
final. Quando estavam prontas, as amêndoas eram ensacadas e despachadas para o
porto, para serem exportadas. Havia
muito trabalho, mas a família vivia bem porque todos pelejavam, e tinham uma
vida mais ou menos confortável.
Mas, aconteceu um fato que arrasou com o destino da família. Perto da fazenda, havia um grupo de índios e bugres que criavam porcos. Estes não eram alimentados e, movidos pela fome vinham até a fazenda de seu Ceciliano José Santana, pai do Lió e comiam toda a mandioca que era para o consumo da família. Certo dia, seu Ceciliano perdeu as estribeiras e matou todos os porcos. Os índios deram parte e o pai foi preso. A mãe desesperada com isso, juntou todo o dinheiro até as últimas moedas, e conseguiu que um advogado o liberasse. Quando os índios souberam de sua soltura, vieram todos armados de arco e flecha para matar o seu Ceciliano. Este, que era um homem forte estava armado de um clavinote, que era uma arma poderosa de fogo da época, e enfrentou os vizinhos. E disse que mataria a todos, se não saíssem de sua propriedade. Com medo da arma, os índios recuaram, mas o chefe deles rogou uma praga: “Você está livre dessa, mas vai perder tudo e vai passar necessidade nesse mundo”
A
praga pegou, o homem ficou doente, o gado foi morrendo, o cacau não deu mais e
por fim, perderam a fazenda. Sem ter a quem recorrer, a família atravessou o
sertão e foi parar num lugar chamado Bonito. Com o pai doente, os filhos
enfrentaram a vida trabalhando onde houvesse quem os contratasse. Não havia
escola no lugar, e a vida de todos era só trabalhar. Passaram muita fome. Lió e
os irmãos iam pelas fazendas próximas moer cana, conduzir boiada para vender
por léguas e léguas, às vezes demorando mais de um mês para voltar. Não tinham
onde dormir, e a roupa era só a que tinham no corpo. Quando voltou de uma
dessas duras viagens, o pai havia falecido.
Desgostoso
com tanto sofrimento, despediu-se da mãe e veio para o Estado de São Paulo,
prometendo ganhar dinheiro para lhe enviar. Veio parar em Machado de Mello em
1949. Tinha apenas 14 anos de idade, mas já havia sofrido muito. Anos mais
tarde, Lió foi ver a mãe lá na Bahia.
Ninguém
queria contratá-lo por ser menor de idade... Aí, foi trabalhar para o senhor
Wada que tinha um sítio de cafezal perto do bairro, e uma Máquina de beneficiar café em
Mirandópolis. Perto do pontilhão existia a Serraria do senhor Matias. E lá
trabalhava o carreiro Borges, que buscava toras para a Serraria. Esse
Borges morava num rancho, perto do Grupo Escolar de Amandaba, e o Lió foi morar
com ele. Cada vez que chegava das viagens, o seu Borges trazia mudas de
árvores, que o Lió foi plantando em volta da casinha. Hoje é aquela matinha que existe perto da Escola, com
dezenas de árvores.
O tempo passou e o Lió já mais forte e mais
maduro foi contratado para fazer derrubadas de matas, para os fazendeiros da
região. Trabalhou na Fazenda Tingoré em Andradina. Derrubou matas até a beira
do Rio Feio, para formar cafezais na Fazenda São Caetano do senhor Milton
Gottardi. Trabalhou também montando as enormes torres de energia elétrica e atuou em
Marília, Vitória do Espírito Santo, Rio de Janeiro. E na Ilha Solteira furou
muitos buracos para fixar as bases das torres. Torres essas, que cruzam todo o
espaço brasileiro levando energia para os diversos lugares.
Conheceu a moça que
seria sua esposa, a dona Duzolina, quando ela derriçava café para os Gottardi.
Com ela, tiveram sete filhos, dos quais dois são falecidos. Dentre os filhos há
um encarregado de uma firma para a qual trabalha, o outro tem Mercearia, e uma
das filhas é Enfermeira. Todos os filhos são casados e colaboram nos trabalhos
do Restaurante, e mesmo os que trabalham fora ajudam nos finais de semana,
quando o movimento é maior. Além dos cinco filhos, genros e noras, há catorze
netos e onze bisnetos.
Mas,
não havia espaço suficiente para servir a clientela. Seu Lió plantou centenas
de árvores na esplanada da velha Estação ferroviária abandonada, e instalou
mesas sob o arvoredo. E assim está usufruindo de um espaço que estava perdido e
cheio de mato. Sua obrigação é manter o local limpo e seguro. Há dezenas de
mesas rústicas ao ar livre, que ainda são insuficientes em certos dias de
domingo e feriados.
O
Restaurante só começa a atender a partir das dez horas da manhã, e fornece
marmita para quem não pode ir até lá. Só
fornece comida durante o dia, à noite não. Normalmente, fornece de 200 a 300 refeições
por semana. E quem as prepara são a sua esposa dona Duzolina, seu filho
Valdete, as noras Jo, Shirlei e a
ajudante Maria. Todos os membros da família ajudam atendendo às mesas,
preparando e entregando marmitas e na faxina final. Toda a família come no
restaurante.
Seu
Lió não nega um prato de comida a andarilhos que passam por lá. É que ele já
passou muita fome com a família, e sabe como é duro para um pai ,não ter um pão
para saciar a fome de um filho. E toda vez que ele se lembra desse pedaço de
sua vida não consegue segurar as lágrimas. Chora de verdade...
E aí
bate umas saudades dos antigos moradores de Amandaba... Seu Adelar Junqueira,
seu Paulo, seu Nelson, Zezão açougueiro, Seu Nelson Yurasseck... que tinha uma
farmácia bem ali do lado do Restaurante, quando o seu Paulo Kanamaru tinha o Bar e Sorveteria.
Hoje
ele possui algumas casas no bairro e uma chácara, que está ajeitando
devagarinho. Seu maior sonho é ajeitar o Restaurante, com uma cozinha bem
equipada, para dar conforto aos que lá labutam.
Já
beirando os oitenta anos de muito trabalho e sofrimento demais, seu Lió ainda é
uma potência de coragem e disposição, mas quando se toca no seu passado de
jovem, ele chora sem poder exprimir tudo que sofreu nessa vida.
Leopoldo
José Santana, o famoso Lió de Amandaba, baiano arretado de bom e muito querido
por todos os seus amigos e clientes, por tudo que já passou e venceu é um homem de
fibra!
Mirandópolis,
novembro de 2013.
kimieoku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/
Parabéns pela lembrança do Sr Lió, figura simpática e bondosa. Mereceu sua atenção Kimie, e bela história de sua vida de muita luta. Abraços do amigo Dinho.
ResponderExcluirlio me da sua camiseta
ResponderExcluirlio vc e parca do celio pede pra ele vim buscar o pessoal de busao junto com o sandrao
ResponderExcluirfala pro lio q qualquer dia desse vou la roubar o bar do lio prefiro o bar do brito
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