quinta-feira, 28 de novembro de 2013


                        Gente de fibra
                Hayao Kojima

     Às vezes, Deus estabelece desde cedo o destino de seus filhos. E nem sempre atentamos para isso.  O nosso entrevistado de hoje, Hayao Kojima teve seu caminho traçado desde jovem. 
         Hayao Kojima, o farmacêutico mais antigo da cidade nasceu na Segunda Aliança em 1936, tendo, pois 77 anos de idade dedicados à vida de medicamentos e curativos. Sua família era numerosa, composta de sete irmãos. Sua mãe tinha bronquite asmática e sofria muito com as crises, que a deixavam sem ar. Toda vez que isso acontecia, ela precisava tomar uma injeção para aliviá-la. Vendo seu sofrimento, o jovem Hayao adolescente , aprendeu e passou a aplicar as injeções para debelar as crises. E assim, bem jovem ainda, resolveu ser farmacêutico, para cuidar dos que precisavam de assistência, como a sua mãe.
         Seus pais eram japoneses oriundos de Nagoya, da província de Aichi ken. Como imigrantes vieram parar em nosso município, mais precisamente na Segunda Aliança. Lá nas Alianças, seu pai trabalhou na BRATAC, que era uma Cooperativa fundada pelos japoneses imigrantes, que comprava os casulos de seda, produzidos pelos agricultores da região. Esses casulos eram encaminhados para a Indústria de fiação de seda, e foi muito importante para economia do país.      
         Quando se mudaram para Mirandópolis em 1948, os pais abriram a Sorveteria Meia a Meia. Era um Bar, Sorveteria e vendia Udon, prato típico japonês à base de macarrão, que o próprio pai preparava. Esse estabelecimento ficava no local onde hoje é a Farmácia São Paulo, de Sérgio Zuin na Rafael Pereira.
         Hayao nem concluiu o Curso Ginasial, pois precisava trabalhar para ajudar a família. Assim, ainda garoto foi trabalhar na Farmácia do senhor Moribe, que mais tarde seria do Senhor Yanagui. Essa Farmácia era a União, na esquina da Rafael Pereira com a João Domingues de Souza.  A conclusão de estudos não foi possível também, porque foi convocado para servir ao Exército Brasileiro. Foi servir em Corumbá, Mato Grosso.
         Nessa época, década de 50, na Avenida Rafael Pereira havia muitos japoneses com seus armazéns e outras lojas. Lembra que havia a família Motomiya, que tinha um Armazém de Secos e Molhados, a Sapataria dos Kido, o Bazar dos Mochida, que hoje é da Noriko e Mineo Nakano, o Bar do Ponto que era dos Yamada. Havia ainda, os Takayanagui, os Tanaka, os Nakamura, os Suguisaka, os Ijichi. Naquela época, não havia quase carros e as carroças, charretes e cavalos enchiam as ruas nos dias de compras.  Enquanto a família fazia as compras, os animais eram amarrados numa cerca de arame farpado do outro lado da rua, voltados para o pátio da Estação Ferroviária. Eram dias agitados, porque todo o povo da roça vinha para a cidade e, as ruas e lojas ficavam bem movimentadas.
      Quando foi liberado do Quartel, Hayao foi para São Paulo, mais precisamente ao Bairro Santo Amaro, onde aprendeu os ossos do ofício, com o senhor Yoshinobu Ito da Farmácia Nossa Senhora Aparecida. Lá ficou por três anos. Em seguida, fez o Curso Oficial de Farmácia em São Paulo, equivalente a uma Faculdade de Farmácia, que nem existia ainda.  O Curso era muito puxado, os Professores eram bem exigentes. E a prova final era realizada no próprio Centro de Fiscalização. Hayao se lembra até que, na parte prática do seu exame final, teve que preparar manualmente um supositório.

  
   Naquela época, havia muitas Farmácias na cidade. Havia a São Luiz de Delfino Silveira Pinto, a Nossa Senhora Aparecida do Mário Koike, a do Delmiro Luiz Rigolon, que trouxe sua Farmácia de Machado de Mello, a Farmácia São Paulo de João Zuin, a Farmácia Central dos Irmãos João e Carlos Fujita e Alcides Galvani, a Farmácia de Machado e Yanasi, que mais tarde seria do senhor Silvino, lá onde é hoje a Auto Escola do Vítor Nakamura, e a Farmácia do Senhor Nelson Yurasseck, que também iniciara no ramo em Amandaba.
         Quando voltou de São Paulo, após concluir o Curso, seu irmão Carlos e o senhor Takatomo Ijichi haviam adquirido a Farmácia São José, que era do senhor Baricordi, localizada exatamente no lugar onde está a Farmácia Tietê hoje, na esquina da Rafael Pereira com a Rua Dr. Edgar Raimundo da Costa.
          Anteriormente, a Farmácia havia sido da senhora Valdemuza de Mello e sua irmã. Elas a venderam para o senhor Silvino do Espírito Santo, que por sua vez vendeu para o senhor Baricordi. O senhor Takatomo Ijichi e o irmão Carlos Kojima, que também era um farmacêutico a compraram do senhor Baricordi, batizando-a de Farmácia Tietê, porque o senhor Ijichi era de Pereira Barreto, cidade localizada às margens do Rio Tietê.
         Em 1963, os Irmãos Kojima adquiriram a parte do senhor Ijichi, e em 1972, Hayao comprou a parte de seu irmão, que se transferira para São Paulo, onde foi se dedicar ao comércio de roupas.

         E há mais de cinquenta anos, Hayao está cuidando da população mirandopolense, com o fornecimento de medicamentos. Lembra que houve época em que, era necessário ir às casas dos doentes para aplicar penicilina, de quatro em quatro horas. Isso demandava muito tempo. Teve que trabalhar muito. E o difícil é que grande parte das contas só eram pagas na safra. E a safra do café e do algodão só ocorria uma vez por ano. E quando a safra não era boa, o comerciante sofria também, porque a dívida ficaria para ser saldada só no ano seguinte. A maioria das enfermidades eram a gripe, diarreias e curativos de machucados.
         O que mudou hoje, em relação ao comércio de medicamentos é que o governo está tentando controlar a venda dos antibióticos, para diminuir a automedicação. Mas, isso é uma questão de cultura, e vai demorar para o povo tomar consciência de que, sempre é necessária a orientação médica, para usar os remédios corretos. O farmacêutico concorda com a medida do governo. Se o paciente não segue as orientações médicas, e se automedica de forma equivocada, poderá com o tempo desenvolver resistência a antibióticos, que dificultarão seu tratamento. E a doença, que seria vencida com sete dias de antibióticos certos, poderá se tornar incurável.
         A Farmácia Tietê faz parte da Franquia Multidrogas.  Hayao Kojima é um dos sócios fundadores dessa franquia. Essas franquias foram surgindo para unir e fortalecer as Farmácias. Em grupo, têm condições de adquirir mais medicamentos e com preços mais acessíveis, facilitando na revenda.
         Hayao se diz muito satisfeito de ter sido farmacêutico. Durante mais de meio século se dedicou a essa missão de servir à comunidade, e acha que foi útil e valeu a pena. Conseguiu formar uma bonita família com a dona Marina Fukuda, que era uma Cabeleireira Profissional bem competente. Após o casamento, dona Marina ficou ainda um tempo trabalhando como Cabeleireira, em seu Salão, para adquirir uma casa para sua mãe viúva e para uma irmã deficiente. Depois, passou a ajudar na Farmácia, onde atendia sempre com muita atenção e um bonito sorriso.
    Dona Marina foi uma batalhadora, pois além de cuidar da casa e dos três filhos, ainda se dedicou por anos e anos à Farmácia e ao Clube Nipo local, participando de campanhas, de comemorações e outros eventos culturais. Hayao foi Presidente do Grupo Old Boys e do Clube Nipo, mas nunca pode se dedicar muito, porque o seu trabalho na Farmácia não lhe permitia ausentar-se. Então, a esposa Marina fez a sua parte, com muita dedicação. Ele mesmo se espanta de constatar como ela conseguiu dar conta de tudo. Infelizmente, a dona Marina já partiu há quatro anos, deixando além do esposo, mais três filhos, sendo dois homens e uma mulher,  um genro, duas noras e duas netas. Os filhos já estabelecidos estão bem, a filha e um filho também se dedicam à área da Saúde. Provavelmente o caçula seguirá as pegadas do pai, continuando com a Farmácia, pois já há um tempo está junto, trabalhando como Farmacêutico.
    
          Como ficou sozinho sem a Marina, a filha dá toda atenção ao pai, almoçando em sua companhia sempre que pode, e ele se sente grato por isso. Os amigos Itio Nakano, Takeshi Kido, Haruo Nakano periodicamente se reúnem com ele para conversar, e preservar a velha amizade. E recentemente, a convite de seu filho primogênito fez uma turnê lá pelo Japão, especialmente na Ilha de Okinawa, onde moram os parentes de sua nora. Disse que foi uma viagem maravilhosa, que Okinawa realmente é indescritível de tão bela. Diz que ficou estarrecido de ver o tamanho das instalações da Base Militar Americana nessa ilha.
         Mesmo com setenta e sete anos, seu Hayao vai à Farmácia todos os dias, e não consegue ficar longe dela. Cuida ainda de um sítio, onde cria gado de corte.
       Seu Kojima é um homem realizado, que passou a vida fazendo o que gosta de fazer. Só lamenta ter perdido a companheira Marina, pois no próximo ano completariam as bodas de ouro. Diz que a vida foi boa e ele foi feliz, nada tem a lamentar e só quer curtir o tempo que lhe resta em paz.
       Hayao Kojima, nissei, brasileiro, farmacêutico, que durante décadas serviu e continua servindo à população de Mirandópolis é gente de fibra!  

   
         Mirandópolis, novembro de 2013.
         kimie oku in http://cronicasdekimie.blogspot.com.br/



2 comentários:

  1. Hayao.

    Levei muitas picadas desse japão.

    Também junto com seu inseparável amigo gaigin Ouvídio Golfetto, tomamos muitos goles de sakê e saboreamos Udon, Sukiyaki e Sashimi no bar e restaurante de seu outro irmão mais velho, que na época ficava ao lado do Hotel Central, da família Leal.

    Marina, pessoa doce, foi por muito tempo cabeleireira de minha mãe.

    Ambos mereceram esta homenagem, pois tiveram muita fibra na luta com a vida.

    Abração Kimie

    E.T. Se vê-lo pela cidade diga-lhe que o Lissinho mandou um grande abraço).

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    1. Ok. Ulisses. Pena que as pessoas se esquecem de contar coisas triviais interessantes, como essa que você citou, Gosto desses detalhes que mostram o cotidiano que preenchem a vida das pessoas. E lhe darei o recado, tá?

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