Jardim de Epitáfios
Para compor a crônica “A nossa Praça”, passei
umas horas no Jardim observando as árvores, as sombras, os passantes e os
bancos. Ao ler as inscrições desses
bancos, percebi que aí estava o relato de nossa História. Armada
de curiosidade histórica e muita paciência, fui fotografando cada banco, porque
o tempo está apagando as letras.
Consegui enumerar oitenta e nove
bancos na parte interna e quarenta e nove na calçada externa, incluindo a da
frente da Igreja. Desse total, constatei que há cerca dezenove sem
identificação, porque o sol, a chuva e o vento foram apagando os letreiros. Os
bancos mais recentes foram pintados levemente, e o granito não absorveu as
tintas... Mesmo assim, todos eles ainda têm sua utilidade.
Como contei na crônica anterior “A
nossa Praça” tem mais de sessenta anos e, muita coisa mudou nesse período. Mas
o registro do começo da cidade está lá. Senão vejamos, lá está o busto do
fundador Manuel Alves de Ataíde. E nos bancos os nomes de cidadãos que, de
várias formas contribuíram para o desenvolvimento do lugar. Percebi que essas
inscrições não passam de epitáfios de gente, que já partiu.
Por que Epitáfios?
Epitáfios são inscrições feitas nas
tumbas, onde repousam as pessoas que já deixaram esse mundo. Geralmente
procura-se enaltecer a pessoa que ali repousa, ou são mensagens para confortar
os familiares. E nos bancos está gravada para a posteridade, a ocupação de cada
doador.
Lendo esses epitáfios, fiz uma viagem imaginária ao passado, e acabei organizando o que segue:
Lendo esses epitáfios, fiz uma viagem imaginária ao passado, e acabei organizando o que segue:
Mas, por que esse afã todo? É que
estava sendo aberta uma estrada de ferro mata adentro, em direção a Mato
Grosso, que posteriormente ligaria o Brasil com a Bolívia.
Estrada de ferro e trens eram sinônimos de progresso, pois
faziam a ligação quase impossível de lugares perdidos pelos sertões do Brasil.
Os trens serviam de meios de locomoção
para pessoas e, transporte de mercadorias e produções agrícolas e, ainda, ligavam cidades com cidades. E o traçado da ferrovia passaria exatamente por
aqui, onde seria construída uma Estação Ferroviária.
De repente, o local se encheu de gente
que veio de várias partes, notadamente do Norte do país. E o seu fundador, o
baiano Manuel Ataíde percebeu que, seria um bom negócio lotear os seus
cinquenta alqueires, que possuía no local. Assim fez e ganhou muito dinheiro,
ficando poderoso a ponto de autodenominar-se Coronel.
Como todos precisavam de tábuas para
construir suas casas, a primeira indústria que se instalou foi a das serrarias:
a Serraria São João de Emílio Menzel e a Serraria Jesus Sociedade Anônima de
Belmiro de Jesus. Seu Belmiro era um homem muito ousado, e construiu uma viela
de casas de madeira, logo ali beirando a ferrovia, indo para o Bairro Sampaio.
Ainda remanescem algumas casas daquela época. Alguém me disse certa vez que, as
casas eram todas bem feitas e, a vila toda lembrava aqueles vilarejos, que
apareciam nos filmes do faroeste americano. Seu Belmiro que possuía um avião,
para suas locomoções mais urgentes, fundou o Aeroclube de Mirandópolis, em
1945.
Outra Serraria foi a Tirolesa de Sailer e Zanon, que funcionou por trinta e seis anos, servindo a comunidade com tábuas e derivados de madeira, inclusive pó de serra, que foi bastante utilizado como combustível nos fogões antigos. Essas serrarias exportavam as tábuas para outras regiões, e o meio de transporte foram os trens de carga, passando a ser por caminhões quando a Estação parou de funcionar. Também prosperou a Indústria de móveis de madeira nessa época, móveis que eram necessárias para abastecer as famílias que não paravam de chegar. Marcou época também a Fábrica de Móveis Cristal de Crevelaro e Ramires, e a Miramar Móveis de Walter Puosso.
Por essa época, a cidade recebeu
eletrificação da Empresa Elétrica de Itapura.
A chegada da eletricidade acelerou o progresso.
Mas, um dia, a floresta acabou, mesmo porque foi devastada para as plantações
de cafezais e pastagens, e as Serrarias encerraram suas atividades. Como as
construções eram necessárias, surgiram as olarias que fabricavam tijolos e
telhas de barro. O senhor Otaviano de Oliveira teve uma Olaria muito
providencial, que serviu a comunidade por bom tempo. A família Aoki também teve
uma Olaria no Bairro Santa Lina. Além das olarias, havia também fábrica de
ladrilhos e mosaicos, como a do senhor Vitório Burato.
Mas, as grandes empresas foram engolindo essas pequenas fábricas, que acabaram desaparecendo. Com muitos forasteiros chegando, alguns cidadãos resolveram abrir Hotéis para dar pousada, assim surgiam o Hotel Luzitano, o Hotel Central e o Hotel São Paulo.
Mas, as grandes empresas foram engolindo essas pequenas fábricas, que acabaram desaparecendo. Com muitos forasteiros chegando, alguns cidadãos resolveram abrir Hotéis para dar pousada, assim surgiam o Hotel Luzitano, o Hotel Central e o Hotel São Paulo.
Também surgiram as padarias para alimentar o povo: Padaria São João dos Irmãos Ramires e a Padaria Central de Pedro Zuin. O local foi crescendo rapidamente e atraindo mais gente. Já havia a Farmácia São Luiz de Delfino da Silveira Pinto e aí o senhor Silvino Espírito Santo abriu a Farmácia São José. Então, começaram a vir médicos também, dos quais o Doutor Edgar Raimundo da Costa viria ajudar muito no desenvolvimento do município, como Médico e como político muito influente, pois era compadre do Governador do Estado, Adhemar de Barros. Doutor Hermes Bruzadin foi Médico designado para atuar na Companhia Ferroviária Noroeste do Brasil. Imigrantes japoneses que moravam no Bairro do Quilômetro 50 se transferiram para cá, quando os trens passaram a circular. E a Avenida Rafael Pereira era quase toda de comerciantes japoneses, que se ocuparam de bares e bazares. Na rua Floresta, atual Gentil Moreira, havia a Casa das Máquinas de Nishizawa e Furuhashi, imagino que deviam vender máquinas de costura. Mais tarde, surgiria a AgênciaVigorelli da família Galvani, que também vendia máquinas de costura.
Muitas lojas de tecidos e armarinhos surgiram como A casa Síria, as Casas Jaraguá, as Pernambucanas, a Casa dos Irmãos Omar, a Casa Santa Glória, que além dos tecidos vendia mantimentos e ferramentas agrícolas, concorrendo com a Casa Moreira, que era um Armazém de Secos e Molhados. Os armazéns, ou vendas como eram conhecidos, fiavam as contas dos fregueses, que pagavam na safra ou colheita de café. Então, o comerciante sofria junto com o lavrador, quando a estiagem durava muito, ou quando não parava de chover. É que toda a movimentação da cidade e seu comércio vinham dos trabalhadores rurais. Aos sábados, o movimento era grande e a cidade ficava muito agitada.
Nos
anos cinquenta havia muita produção de café, que foi uma alavanca para a
economia do país. Todos plantavam café, pois o produto exportado dava boa
renda. Então, surgiram as Máquinas de beneficiar café como a Comercial Perez, a
Máquina 3M da família Marcos, e outras que beneficiavam também arroz e outros
cereais, como a Máquina
Confiança de Paulo da Silva Leister, Máquina Brasil de Fulgêncio Parra Sanches,
a Máquina dos Wada, e mais tarde o Arroz Urubupungá de Hiromichi Ota e o Arroz
Minari, que foi um dos mais importantes beneficiadores e revendedores de arroz
na região.
Na era de
ouro do café, aqui se instalaram muitas agências financeiras como o Banco
América do Sul, o Banco Noroeste do Estado de São Paulo, o Banco do Brasil e o Banco
Financial de Mato Grosso. Mas a crise do café também afetou Mirandópolis. Os
lavradores deixaram suas lavouras e começou o êxodo rural, inchando a cidade
com mão de obra barata e disponível, mas
sem emprego. As Financeiras que resistiram às crises econômicas do país foram o
Banco do Brasil, a Caixa Federal, o
Bradesco e o Banco do Estado de São Paulo que foi encampado pelo Santander.
E de repente, a cidade começou a se encher de veículos motorizados, deixando de lado as charretes e as carroças. Também existiu uma Empresa de ônibus da Família Caleme, que fazia a ligação entre os diferentes bairros rurais do município, transportando a população. Acompanhando a mudança, surgiram agências de venda de carros como a Chevrolet, a Volkswagen, e revendedoras de auto peças e oficinas para reparos nos automóveis e caminhões, como a Oficina Amikura, a Grassi, a Volkswagen, e Ferrarias como a do senhor Shimada e dos Tanikawa. Com a chegada dos automotores, Auto-escolas também entraram no mercado e Empresas Transportadoras de mercadorias e de produtos hortifrutigranjeiros, como a Transportadora Nomizo e a Noroeste Transportadora.
É preciso registrar a presença de duas Óticas, a Kawasaki e a Tietê de Takaomi Ijichi, que atuam há décadas no local.
Para encerrar esse breve resumo de nossa História, ficam os registros das passagens de vários cidadãos benfeitores como: Antônio José Orsi Falleiros, Antônio Duenhas Monreal, Geraldo Delay, João Chalita Nars, Domingos Terensi, Eleotério Sanches, Francisco Idalgo Filho, Gerônimo Micoto, João Américo de Godoy, João lopes Bibanco, Osamu Sato, João Rabello, Kluk Magri, Mohamed Zogbi, Massaru Sueta, Antenor Nepomuceno, Otaviano Oliveira, Vasco de Lucchi e Família Zanata.
Resta
citar ainda os Prefeitos juntamente com esses honrados cidadãos, que se
empenharam em transformar um vilarejo perdido no meio de uma imensa floresta bruta,
em uma cidade progressista que é a nossa cidade de hoje. Os honoráveis
prefeitos que legram seus feitos e nomes para a posteridade foram Dr. Osvaldo
Brandi Faria, Alcino Nogueira de Sylos e Geraldo da Silva Braga. E assim, usando só as inscrições dos bancos do
Jardim e, consultando o livro “Mirandópolis, sua evolução no século XX” de Dr. Alcides Falleiros, consegui fazer um
breve resumo da nossa História.
E foi muito bom conhecer os feitos desses cidadãos, que deixaram seus nomes e feitos para a posteridade. O conforto que usufruimos hoje, como energia elétrica, ruas asfaltadas, estradas abertas para outros locais, pontes sobre rios, água encanada, esgoto, tudo isso foi fruto do trabalho desses cidadãos que não desistiram, e pouco aproveitaram devido à brevidade da vida.
E foi muito bom conhecer os feitos desses cidadãos, que deixaram seus nomes e feitos para a posteridade. O conforto que usufruimos hoje, como energia elétrica, ruas asfaltadas, estradas abertas para outros locais, pontes sobre rios, água encanada, esgoto, tudo isso foi fruto do trabalho desses cidadãos que não desistiram, e pouco aproveitaram devido à brevidade da vida.
Cabe a nós,
pois, continuar a obra deles, melhorando mais e mais as condições dessa nossa
querida Mirandópolis, para as gerações que virão.
Legenda
de Fotos
1.
A fonte abandonada
2.
Sailer e Zanon
3.
Mosaicos de Vitório Burato
4.
Casa Estrela – Terensi e Franco
5.
Cia. Elétrica Itapura
6.
Dr. Edgar Raimundo da Costa
7.
Casas Jaraguá
8.
Empresa de ônibus Caleme
9.
Banco América do Sul
10. GLERCA
11. Dr. Osvaldo Brandi Faria
Mirandópolis,
outubro de 2013.
Muito bom historiadora Kimie Oku!
ResponderExcluirRevi em "flhash back" os 14 anos que vivi nesta cidade! Parabéns!!!
Lupércio Ailton Nery Palhares
Isso me deu trabalho pra duas semanas. Não sabia bem o que era prioritário. Briguei muito com as ideias e com as palavras como dizia Drummond. Consegui concluir, mas ainda não fiquei contente com o resultado. Achei que poderia fazer melhor. É que havia informação demais, bancos demais, fotos demais, histórias demais, enfim é a História do início de nosso Município. Havia gente demais pelejando.
ExcluirFlertei muito nessa praça, principalmente dos bancos que ficavam em volta da fonte luminosa, mas eles não tinham encostos e foram feitos bem depois dos demais.
ResponderExcluirA história está excelente, mas se não satisfez a escritora, porque não Jardim de Epitáfios - II ?
Bom divertimento.
Yellow-Bird
Yellow bird ou Canary, se os bancos falassem, you was very, very enrolado né? Agora sobre EpitáfiosII nem pensar! Não gosto de seriado, parece remendo tardio. Sofri porque havia muitas outras empresas para citar como Esteves, Nestlé, mas eu me desgastei muito e queria concluir logo. É isso.
ResponderExcluirPor isso, não! Fale da Praça, da Fonte Luminosa e do seu Footing, do Coreto com a Banda do Maestro Pavesi, mas não se esqueça ...inclua os bancos (rs).
ResponderExcluirAbraço!
Já falei sobre tudo isso na crônica anterior " A nossa Praça". Olha, é um assunto inesgotável e me dá uma canseira, porque pesquisar é preciso. E não tenho o fôlego de um jovem como você. Tenho um projeto para escrever sobre o Hospital, mas vou protelando porque há muito que escrever, assim como sobre a APAE.. Um dia, chego lá.
ResponderExcluirKimie, que linda crônica!!!!
ResponderExcluirTudo que estava adormecido na memória.... foi insight..Lembrei-me tanto de mnha vida.: criança, adolescente....mas um foi especial: o gosto do bife na chapa do fogão de pó de serra da minha casa.....Nada substituiu.
...Tem razão a Kimie, Lissinho....deixar os bancos só na lembraça.
bjs linda amiga
Amei
Lembrou do gosto do bife assado na chapa do fogão de pó de serra... Isso me fez lembrar de Marcel Proust que comentou em sua obra No caminho de Swann, sobre a repentina lembrança que lhe ocorreu das madeleines e do chá que havia tomado quando criança... Lembranças que, de repente nos assaltam por conta de um cheiro, de um perfume, de um carinho, de uma voz, de uma canção.... Gostei do seu comentário, bateu com a do Proust. Lindo!
ResponderExcluirObrigada, Dinéia!