domingo, 26 de maio de 2019


                Gente de valor
       Nas minhas andanças pelas  Escolas rurais, conheci muitas pessoas valentes labutando no anonimato. E outras que tornaram minha missão de professora menos espinhosa. Nunca vou me esquecer do casal José João e Valdete, a eles devo muito. Outras pessoas ficaram na minha memória.
       Uma senhora que lhe esqueci o nome,  sempre me servia um café ao passar por sua porta a caminho da escola, quando descia do ônibus. Eram três quilômetros de caminhada e eu me cansava e dava uma paradinha em sua casa. Além do café, me servia pipoca feita na hora, porque era a única coisa que tinha para servir... Nunca esqueci esse carinho.
       Uma pessoa estranha foi a dona Romana, que fazia umas rezas em voz alta toda vez que se formava um temporal, e as nuvens escuras se tornavam ameaçadoras. Ela ia lá fora e rezando em voz alta jogava sal grosso para o alto para espalhar as nuvens. E de fato, as nuvens  se desfaziam e o temporal não vinha. Até hoje não entendo o poder que ela tinha...
       Mas de todas as pessoas quem  mais marcou foi o Tomo san.
Era um arrendatário de origem japonesa, que morava com a família nas terras onde queria plantar algodão. Para isso ele ajeitou 13 famílias de  trabalhadores que iam ajudá-lo na empreitada.  A escola era para as crianças desses peões.  Durante sete meses, a partir de fevereiro, eles prepararam a terra para semear algodão. A partir de  agosto, eles começaram a olhar o céu à espera da chuva para molhar a terra para a semeadura. Mas, todos os dias, o sol vermelho e quente não dava tréguas. A chuva não vinha.
E aos sábados, Tomo san levava os chefes de família à cidade para as compras... Arroz, feijão, farinha, uma linguiça, banha, café e açúcar... Tudo patrocinado por ele, porque os homens não tinham um centavo. E ainda, ele trazia duas ou três melancias, que mandava  cortar e servir a toda comunidade. Era uma imagem bonita de se ver: Todos felizes  comendo a melancia vermelha e sorrindo de prazer...  E no final servia uns goles de cachaça aos homens para animá-los... Durante sete meses e alguns dias foi assim.
   Todo mundo desesperado pela chuva que não vinha. Não havia nem mais jeito de arar aquela terra seca e vermelha, que formava redemoinhos ao menor vento.  Araram na horizontal, na vertical... Só faltava fazê-lo em diagonal. E a chuva não vinha. O calor era intenso e a bola de fogo no céu, indiferente ao sofrimento do japonês, cuja conta no Banco estava só comendo juros... E ele sempre alegre dizia: "Amanhã ela vem!"
      Numa noite em outubro de repente, desceu um temporal como nunca havíamos visto. Eram trovões ribombando e estremecendo a terra, relâmpagos que iluminavam a casa inteira por segundos... E eu assustada acordei com o choro do Tomo san gritando: "Mulher, crianças, acordem! Está chovendo! Deus se lembrou de nós!  Vamos agradecer!" 
      Eu me levantei e fui até a sala. E o que vi lá no cantinho  do chão batido me estremeceu o coração. A família toda ajoelhada no chão batido chorando e agradecendo a Deus... Em altos brados: "Obrigado, Deus! O Senhor se lembrou de nós! Muito obrigado!"
      Chorei ao ver a cena, que os relâmpagos iluminavam como se alguém estivesse fotografando uma coisa do céu...
        No outro dia não teve aula.
        Toda a molecada estava na roça tampando com os pés as covas, onde os pais depositavam as sementes de algodão com as máquinas manuais de lata...
       O fim do ano chegou e eu vim embora. mas soube depois, que a colheita tinha sido excelente.
      (Já contei esta história várias vezes, mas nunca me canso de  recontá-la)

       Mirandópolis, maio de 2019.
      kimie oku in
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