terça-feira, 21 de maio de 2019


               Meu Pai
 Mesmo que passem mil anos, um filho não esquece seu pai, sua mãe.Além do cordão umbilical que um dia fez a ligação estreita com a mãe, há o sangue, que passou o DNA, que só Deus sabe como determinou.
Meus pais eram japoneses do Japão. Papai de Hiroshima, a mesma Hiroshima que foi incendiada na Segunda Guerra. Mamãe de Gunma ken. Se não tivessem se emigrado para o Brasil, jamais seus caminhos teriam se cruzado, porque lá no Japão da época, quem nascia num lugar, vivia lá até morrer. E entre Hiroshima e Gunma há uma considerável distância, que não seria vencida por nenhum dos dois.
Papai Jitsutaro Osaki veio ao Brasil  em 1913, tendo apenas 13 anos. Veio agregado a uma família de parentes chamada Kadoo, de quem se apartou ao completar os dezoito anos. Trabalhou como motorista de táxi em São Paulo, como intérprete entre os fazendeiros que contratavam mão de obra japonesa e os imigrantes que chegavam para trabalhar nas lavouras de café. Volta e meia era contratado para ir a Santos receber os japoneses. Mais tarde trabalhou com um médico de Araçatuba, doutor Kihachi Dayan, que viera ao Brasil como imigrante ilegal através do Peru. Dr. Dayan era Clínico Geral e curou muita gente de feridas bravas que grassavam na época, de graves ferimentos ocasionados por derrubada de matas, de picadas de cobras, de febres como a gripe espanhola, além de partos... Era de origem japonesa e bem requisitado pelos imigrantes, além de muitos brasileiros que não podiam pagar os tratamentos. Ele não cobrava dos pobres. Então a sua clientela crescia mais e mais, e isso despertou o rancor de outros médicos da região de Araçatuba. Contrataram um capanga, que acabou matando Dr. Dayan.  Uns meses após usa morte, veio do Japão a autorização para exercer Medicina, porque era Médico de fato, de que duvidavam os médicos daqui.Eu me lembro que papai possuía um grosso livro, todo ilustrado sobre o corpo humano em cores (Naquela época! Anos 50!) que ele consultava volta e meia, e acredito que deva pertencido ao Dr. Dayan, comprovando que ele estudara Medicina.
Papai aprendeu muito com Dr. Dayan. Eu me lembro que de manhãzinha, formava-se uma fila de pobres lavradores da redondeza para que papai os curasse de tracoma. Tracoma era uma infecção brava que atacava os olhos, cegando-os com grossas camadas de pus. Diziam que foram os imigrantes espanhóis que trouxeram essa doença... Havia muitos espanhóis que vinham em nossa casa com tracoma. Papai não lhes cobrava nada, mas os pobrezinhos curados traziam sempre ovos e frangos para demonstrar sua gratidão. Papai sempre foi muito generoso, e muitas vezes mamãe se aborrecia com ele. Quando alguém ficava encantado com alguma coisa como fotos, ou outros apetrechos ele lhe dava gratuitamente, mesmo sendo a única peça em casa... Assim perdemos muitas coisas preciosas pela sua generosidade.
Naqueles tempos remotos, mesmo sendo muito, muito pobres, papai nunca deixou de comprar o jornal São Paulo Shimbum, escrito em japonês. Depois da leitura, ele nos contava as novidades que corriam pelo mundo.
Quando a Guerra terminou, papai ficou do lado dos Shindo Renmei, que pregavam que o Japão havia ganho a 2ª Guerra, mas como ele lia muito, percebeu que não era assim.
Após um período sofrido pós guerra, um dia ele declarou que como morávamos no Brasil, tínhamos que ser brasileiros, mandou nos batizar na Religião Católica e passou a falar em Português com todos nós.
Papai era um homem sábio.
Mirandópolis, maio de 2019.

kimie oku in

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