domingo, 23 de junho de 2019


  
            Inverno chegando!

      Já contei várias vezes sobre uma moça japonesa que no pós guerra, quando tudo era racionado foi premiada com um casaco de lã, doado por alguém da Europa. Era Inverno e no Japão as temperaturas caem até 40 graus abaixo de zero em algumas regiões... Naquela época faltava comida, faltava carvão para aquecer as pobres moradias e mais ainda roupas que  foram incineradas pelas bombas...  A moça estava no Colegial e do pacote de doações que veio da Europa, foram sorteadas apenas duas peças para cada classe de 30/40 alunos. Muito feliz por ter sido agraciada, mais que depressa ajustou o casaco para usá-lo imediatamente e não mais passou frio. Depois de alguns anos, sua irmã também usou o casaco em outros Invernos. E ela nunca mais se esqueceu da generosidade que a salvou.
Inverno rigoroso e Guerra é uma combinação letal...
Parece heresia afirmar, mas eu amo as manhãs frias que exigem um agasalho macio e quentinho. E as noites que nos envolvem em cobertas e mantas no Inverno... É fato que muita gente sofre com o frio. Crianças e idosos são as maiores vítimas...  E os sem teto que ficam encolhidos pelos becos da cidade, tentando se aquecer com o calor de alguns cães...
       Mas, o Inverno é uma época necessária para a natureza se renovar. As árvores se desfolham e apresentam suas figuras esqueléticas de galhos secos, como se estivessem mortas.  É a renovação que está ocorrendo. Debaixo da terra, as raízes estão sugando os nutrientes necessários para se fortalecerem e recuperarem o verdor da ramagem. Porque elas são incapazes de manter indefinidamente as flores, os frutos, as sementes e a copa verde.
       “As flores se transformam em frutos, os frutos viram sementes e as sementes voltam a ser plantas”, como disse o poeta indiano Rabindranath  Tagore comparando a árvore à nossa breve existência. Nós somos apenas umas plantinhas anônimas que florescem esplendorosamente ou não, oferecem frutos mais ou menos doces ou amargos, que terminam em sementes boas ou bichadas... Depois, outros seres vêm ocupar nosso lugar no mundo. É assim o ciclo da vida. Eternamente. E a árvore é o nosso mais verdadeiro espelho.
       Se há o Inverno, há também a Primavera quando a natureza se veste de todas as cores inimagináveis para encantar nossos olhos.  E o Verão que transforma as flores em deliciosos frutos, que no Outono sempre nos regalam. Tudo tem o seu tempo, a sua lógica. Deus é muito sábio!
       E agora estamos indo para o tempo mais duro e frio do ano. Inverno chegando e trazendo as gripes, os resfriados, as dores de cabeça, os reumatismos que judiam dos idosos...
      Felizmente, há uma forma simples de driblar esses males da época. E está ao alcance de todos. São os agasalhos, que algumas pessoas têm em demasia, e outras em carência...
       Inspirada pela história da moça japonesa, passei a fazer pulovers para crianças de Creches locais. Todos os anos faço uma remessa de vinte a trinta peças. E vou até essas Escolas nos dias mais frios e visto as crianças que estão passando frio. Para isso, passo dias e dias de Outono tricotando. Combino as cores para tornar as peças mais vistosas e alegrar as crianças. Faço isso com imenso prazer e a lã vai aquecendo as minhas mãos de mulher idosa e friorenta.
     Voltando à história da moça japonesa,  ela deu uma entrevista a uma Revista  afirmando que, na época em que o casaco  a aqueceu  prometeu a si mesma que, um dia retribuiria a graça recebida. Na impossibilidade de agradecer à pessoa doadora, faria mil cachecóis para os idosos de asilos. Cachecol é uma faixa longa que pode ser de tecido, ou de lã tricotada ou crochetada, para envolver o pescoço de pessoas que sentem muito frio.  E ao se aposentar, ela começou a tricotar e já havia doado quinhentas peças... E com o firme propósito de confeccionar mais quinhentas.
     Foi então que comecei a tricotar os pulovers...
    Estou terminando a décima segunda peça, e estou atrasada.
    Vocês não fazem ideia do que é sentir calor ao fazer isso! Cura tristezas e depressões.
Porque acima de tudo os pontos que vou tricotando aquecem o meu coração. Se mais gente fizesse isso, não precisaria haver Campanha do Agasalho.
Vamos tricotar?

Mirandópolis, junho de 2019.
kimie ku in

      


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