terça-feira, 4 de junho de 2019


                Joana Pazzinatto
(Reprodução de uma publicação de junho de 2017)
Na minha vida de professora tive contatos com diversas pessoas, notadamente com famílias pobres e sofridas.
Foi no final dos anos 80, quando estava deixando a Escola Ebe Aurora, tive uma experiência que me marcou para sempre.
Uma adolescente chamada Joana estudava na sexta série. Era uma garota loirinha e muito quieta. O que chamava a atenção nela eram os seus lábios roxos e as unhas também roxas. E ela já estava traumatizada de tanto responder que não havia comido amoras... Era problema de saúde, de má circulação...
Um dia, ela se sentiu mal na Escola, e tive de levá-la para casa. Aproveitei a oportunidade para recomendar aos pais que procurassem ajuda médica. Mas, a mãe disse que estavam cansados de pedir ajuda, de ficar em filas por horas e horas e nada de bom fora feito pela menina... Passei a observar a garota. Percebi que além de quieta e retraída, não participava de brincadeiras, não corria, não falava alto... Estava sempre meio esgotada. Mas, era boa aluna e dava conta dos estudos. As coleguinhas sempre tinham um certo cuidado com ela.
Um dia, ela passou muito mal, com falta de ar e não conseguia respirar. Eu a levei ao médico. E o Dr. Afonso após examiná-la disse: “Ela está com 80% da circulação comprometida. É urgente fazer um cateterismo, porque ela não vai aguentar a próxima crise!”
Voltando à casa dos pais, passei o recado do médico. Muito preocupado, o pai resolveu levá-la a Rio Preto, onde ao fazer o cateterismo, ela quase perdeu a vida. Mas,  foi bem cuidada, cheguei a falar com a Enfermeira Chefe, que me disse do estado crítico em que a menina chegara.
Passado um tempo, a garota voltou e mudou completamente. Passou a andar mais firmemente (antes precisava parar de quatro a cinco vezes para chegar à Escola que distava apenas duas quadras da casa), passou a cantar e a correr pelo pátio. Com as veias desobstruídas a circulação deveria estar normal. A menina mudou totalmente, os lábios já não estavam mais roxos, nem as unhas... Achei que eu tinha acertado em cheio alertando a família...
Nesse ínterim, saí da Escola para assumir um outro serviço numa cidade próxima. Pela nova função, visitava escolas, e a Ebe Aurora era uma delas. Mantive contato com os professores, mas sem o convívio diário, perdi o contato com os alunos.
Certo dia, a Ester Pandin da Escola me comunicou que a Joana havia falecido. Tive um imenso choque!  Não pude ir ao funeral, mas fui ver os pais. Estavam desolados, é claro. E eu nem sabia o que lhes dizer. Choramos juntos e pedi perdão a eles por ter interferido na vida da menina... Mas, a mãe me disse que eu não havia errado. Que a Joana tivera a chance de viver normalmente durante dois anos.  Que nesses dois anos, ela brincara de roda como nunca havia brincado, que andara de bicicleta até os mercados distantes umas dez quadras, para fazer pequenas compras, que brincara com as amigas, que correra e saltara feliz...
É bem verdade que tudo isso me tirou um peso do coração. Mesmo assim, gostaria de ter conversado com ela nesses tempos felizes... Porque mesmo feliz, ela se sentira meio abandonada por mim... Eu não percebera que estava tão apegada a mim...
As pessoas entram em nossas vidas e interagem até um certo tempo. Tive contatos com outros adolescentes, e apartar-se é natural, são as exigências da vida. Mas, a Joana era diferente, era carente ao extremo, pela vida difícil e dolorosa que tivera até então. E eu saí de sua vida, sem lhe dizer uma palavra, pois outras eram minhas preocupações... Carrego esse remorso até hoje...
Há pouco tempo descobri no face uma pessoa que tem o mesmo sobrenome dela. Entrei em contato, soube que era sua irmã. Perguntei dos pais, mas ela não me retornou. Procurei a casa dos pais e não achei...
E de vez em quando me vem à memória a imagem doce daquela menina valente, que queria tanto viver e foi podada pelo destino... E não nego, sinto uma dor no peito...
Joana...

Mirandópolis, junho de 2017.
kimie oku in

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