segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020


          植民地 - Shokuminchi
   Após abordar sobre assuntos terríveis como a Guerra e a Shindo Renmei, quero me redimir escrevendo sobre a coragem, e o empenho em vencer dos primeiros imigrantes japoneses no Brasil.
      A Imigração Japonesa começou com a chegada do navio Kasato Maru em 1908. A razão primeira para os japoneses se aventurarem pelo mundo foi a fome.  O Japão tinha poucas terras cultiváveis, por ser formado de ilhas montanhosas, que não possibilitavam o cultivo do arroz, alimento básico do povo. A população crescia muito pois não havia planejamento familiar, e não havia comida para todos. Então o Governo começou a acenar com programas no Exterior, oferecendo vantagens como colônias essencialmente japonesas, para manter os costumes e tradições aos que aceitassem partir. Além disso, propagaram que no Brasil havia uma árvore que produzia dinheiro em pencas. Era o cafeeiro, que estava em alta na época. O Brasil seria o maior produtor de café do mundo.
Muitas famílias vieram iludidas, com o propósito de trabalhar dez anos e retornarem à Pátria distante. Mas...Muito poucas famílias conseguiram voltar...
Quando aqui chegaram, tiveram que enfrentar situações inomináveis. Minha avó materna me contou que chegando aqui, foram encaminhados para uma fazenda na região de Araraquara.  A Fazenda estava sofrendo por falta de mão de obra, pois os escravos africanos tinham sido alforriados, e não havia quem fizesse o trabalho duro da roça. Os recém chegados japoneses foram colocados para morar na Senzala, que era um barracão imenso sem conforto nenhum, sem divisórias, sem nada... Dezenas de famílias foram alojadas ali. E alimentadas com abóbora cozida na água e posta em cochos, como esses cochos de madeira que eram usados para tratar porcos... Os japoneses comem arroz, mesmo que seja só arroz com sal, mas arroz de verdade. E eles não aguentavam de fome e desejo de comer arroz. Então de madrugada, quando na Casa Grande se apagavam as luzes, todos os homens saíam com embornais e iam para a roça colher cachos de arroz, que estava madurando no brejo. Eles colhiam cachos aqui e ali para não dar na vista. Esse arroz era socado no pilão e depois cozido. E de manhãzinha eles comiam bolinhos de arroz com sal... Foi assim que sobreviveram. Tempos heroicos... Se eles vieram livres para trabalhar e foram assim tratados, imaginem o que sofreram os africanos...
Muitas famílias pelejaram bastante e conseguiram comprar um pedaço de terra. Mas, tudo era floresta e então tiveram que derrubar imensas árvores, para começarem a plantação de café. E tudo era feito em conjunto. Porque era impossível vencer a mata sozinho. Então se formaram Colônias de Imigrantes, que conversavam em japonês e mantiveram os costumes da terra natal.  Eram os Shokuminchis ou Colônias de Japoneses. A vida se tornou mais animada.
Apesar de ter sido terrível para se assentarem, as famílias foram se agrupando, trabalhando incansavelmente e se ajudando, facilitando a vida de todos. Eu me lembro que no Bairro União em Lavínia (eu tinha apenas 4 anos!) havia jogos de beisebol e todos se reuniam aos domingos para as disputas; havia ainda meninos que praticavam lutas marciais não tenho certeza se era taikondô; havia uma escolinha de língua japonesa, que meus irmãos frequentavam, e mais uma Escola brasileira cheia de alunos japoneses e a professora era brasileira...
Os japoneses provaram ser gregários desde o começo, e tudo era feito consultando uns e outros. Assim foi que nasceram os shokuminchis/colônias e mais tarde os kumiais/cooperativas. Em todas as regiões onde havia colônias de japoneses, havia cooperativas para recolher a produção agrícola, que negociavam melhores preços e ajudavam os produtores. E os imigrantes plantaram muitas verduras e legumes. Até hoje grande parte dos produtores de frutas e verduras no Brasil é de origem japonesa. Lembro que em tempos difíceis para todos, nunca faltou um legume, uma verdura, uma fruta em casa. E nem ovos, nem frangos e nem carne de porco. E éramos mais pobres que pobres... Tínhamos poucas roupas e poucos calçados, nenhum conforto. Mas, tínhamos saúde para dar e vender.
Por se manter unida, a colônia conseguiu preservar muitos costumes japoneses. Todas as casas exibiam as fotos do Imperador Hiroíto e da Imperatriz Nagako em quadros na sala de visita. Uma foto do navio Yamato, couraçado de guerra que afundou com 3055 tripulantes e jovens marinheiros. Também tínhamos um quadro com a estampa dos Deuses da Fortuna, da Pesca e da Agricultura. Tudo isso era tratado com o maior respeito. A religião era Xintoísta que reverenciava o Deus Kamisamá e  Budista, para seguir os preceitos do filósofo Buda, e tínhamos o Butsudam e o altar de Kamisamá.
No dia do aniversário do Imperador Hiroíto, havia uma grande festa na cidade. Era o Undokai, muito concorrido. Todas as famílias compareciam, carregando vasilhas cheias de comida preparada na madrugada... Na abertura hasteava-se a Bandeira do Japão e cantava-se o Hino Nacional Japonês, "Kimigayo wa, Chiyoni yachiyoni, Sazare-ishino Iwao to narite Koke no musu made" significando: Que o  Imperador dure até que os pedregulhos se transformem em rochas cobertas de musgos. Ou seja eternamente.... Havia competições variadas de corrida, de saltos e outras brincadeiras. Havia a participação por categorias e todos eram premiados. Ganhar um caderno era o supra sumo naqueles tempos difíceis! Música japonesa enchia os ares e, os manda chuvas faziam discursos e mais discursos.  A melhor hora era a da comida. Todo mundo estendia os lenços de seda no chão e abriam as marmitas, que eram compartilhadas com os amigos, parentes e vizinhos... Os imigrantes eram pobres em sua maioria mas procuraram sempre preservar a língua, a música e a cultura japonesa.  Saudades.
Desde o início da chegada de japoneses já se passaram mais de cem anos, e certos costumes ainda se mantêm. Os japoneses trouxeram para o Brasil o exemplo de dedicação ao trabalho, o trabalho em grupo, o Clube Nipo ou Kaikan, os Templos Budistas, a Seichonoiê, as Cooperativas, o Beisebol, as lutas marciais como Judô, Kendô, Taikondô, as Escolinhas de Língua Japonesa, o Bom Odori, a deliciosa Culinária e a Língua, que hoje todo mundo quer aprender.
Diante de tudo isso, a Shindo Renmei foi um grande e lamentável engano que nunca deveria ter ocorrido.
Houve muitas vantagens que os japoneses trouxeram para o Brasil, e acredito que contribuíram bastante para o progresso e bem estar de todos.
E Banzai Japão!
E Banzai Brasil!

Mirandópolis, fevereiro de 2020.
 kimie oku (nipo/brasileira) in


2 comentários:

  1. Nossa, seu texto parece as histórias que minha sogra contava !! Obrigado por compartilhar sua experiência conosco!! Enche meu coração de alegria!!

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    1. Obrigada, Adriana Horita. Coisas que vivenciei, que ouvi ou li. Para não esquecer.

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